Últimas histórias

  • Sirenes

    Dias e noites, da janela que divido com Maria, ouço e “vejo carros apressados a passar por mim” com suas sirenes fustigantes soando e ressoando aquele som de dor. Luzes vermelhas ofuscantes freneticamente piscam como quem nos alertam do perigo eminente, sorrateiro e invisível que insiste em nos rodear assombrando com sua saga de morte, espalhando sofrimento a todos os recantos do planeta, parecendo e até alicerçando a tese de alguns, que se arvoram a dizer que isto é castigo divino por nossos pecados. Confesso que às vezes tendo a balançar a cabeça sinalizando concordância, mas logo me atenho a dureza da realidade, de certo, pode não ser castigo divino, mas consequência de nossa ganância em destruir a natureza, disto não há dúvidas.

    Carros vermelhos, verdes, azuis todos passam a soleira de minha janela, não há silêncio, ondas trazem somente o som estridente das sirenes e buzinas pedindo passagem a outros automóveis em igual afobação em fila dupla, mas que terminam abrindo caminho à urgência, à tentativa de salvação.

    Fico imaginando que ali dentro daquela ambulância verde e branca vai uma pessoa pedindo, rezando e suplicando aos deuses para viver. Quem sabe seja apenas um jovem rico que quebrou o dedo mindinho e exigiu do seu plano de saúde uma urgência? Pode ser.  Mas também pode ser alguém com filhos, noras, genros, netos, que luta para voltar a vê-los. Talvez, muitos destes ficaram em casa ainda choram a angustia da incerteza de um abraço ou de um possível adeus compulsório imposto pela falta de compaixão, consciência de pessoas que teimam em pelejar contra a ciência e acreditam em um Messias de araque tão falso e mentiroso quanto tábua de fojo.  

    Na verdade, aquele paciente do carro verde e branco tem uma família, uma história de vida e certamente, não deseja pôr um ponto final. A cada soar das sirenes torço para um final feliz.

    Os sons das sirenes continuam ensurdecendo nossos dias e noites. Olho e vejo ambulâncias do SAMU e seus anjos de azul, em urgência, transportando esperança. Aqui, quem anda nos salvando são alguns mortos: John Lennon, Belchior, Elis, Gonzaguinha, Sérgio Sampaio, Freddie Mercury, Bob Marley…E a esperança e vontade de poder abraçar nossos filhos e netos. 

    Brito e Silva – Cartunista

  • Veni, vidi, vici

    Duas pessoas confessavam entre si suas angustias do ano que pereceu, bem aqui, abaixo da soleira de minha janela. Entre rosários de lamúrias e desventuras, uma delas citou a decepção com o Bolsonaro. Quase gritei “cada um tem o Presidente que merece”, percebi não merecer.

    Eu, por outro lado se fosse imprimir uma retrospectiva de 2020, fazia um command C, command V da “Veni, vidi, vici” – Vim, vi e venci — frase em latim, tatuada ao cônsul romano Júlio César em 47 a.C.. A qual estava em mensagem enviada ao senado romano anunciando sua vitória sobre Fárnaces II do Ponto na Batalha de Zela. Vencemos todos, somos vitoriosos sobreviventes. Certamente, menos aquelas famílias vítimas do feroz vírus e da incompetência da besta-fera bufônica.

    Mas, devo confidenciar: se não fosse a saudade dos meus netos e filhos que corrói o coração causada pelo isolamento social decorrente deste virulento e maldosos vírus e tudo que o envolve, apesar de Bolsonaro, do ponto de vista profissional, o ano que abriu a década não foi tão ruim assim.

    É verdade que havia agendamento do lançamento do livro 200 Caricaturas de Astros da Música Nacional e Internacional para julho, por força da pandemia fomos obrigados a transformar em um e-book, e ancorá-lo no www.blogdobrito.com.br/loja/, também tivemos que suspender a exposição virtual de caricaturas, para promover o livro e oportunizar amantes deste tipo de desenho e músicas terem esse contato, esta seria realizada no Cebo Balalaika — Natal/RN —, por motivos diferentes também não realizamos uma exposição virtual programada pela Secretária de Cultura da Prefeitura de Mossoró.

    Foram alguns percalços que certamente, muitas outras pessoas também sofreram pela mesma motivação. Entretanto, participei de cinco festivais de cartuns, três no Brasil e dois na França: I Festival Internacional de Caricaturas e Cartuns — do Maciço de Baturité/CE, em homenagem ao grande cartunista cearense Mário Mendez; XII Salão de Humor — Humana Saúde/Medplan, entre os quase três mil participantes, com a caricatura do cantor Milton Nascimento fiquei entre os duzentos selecionados; 42º Prêmio Jornalístico Vlademir Herzorg, ganhei o prêmio coletivo na categoria Prêmio Destaque Vlademir Herzorg com Charge Continuada – Somos Todos Aroeira e na Exposição do “Pandemonium” Festival Internacional de Caricaturas e Cartuns de Saint Juste Le Martel(FR) e Marseille(FR), em palestra do ex-Presidente francês, François Hollande, sentou-se na frente de minha caricatura retratando presidente Bolsonaro, exposta logo acima de sua cabeça. Segundo o cartunista potiguar e o criador do Festival, Joe Bonfim, o registro fotográfico ilustrou os principais jornais franceses e europeus que estavam dando cobertura ao evento, então, não posso me queixar.

    Ilustrei livros e caricaturei muita gente. Me desculpem os demais amigos, mas, desenhei um livro que certamente, pelo valor de sua importância histórica, fiquei bastante feliz em fazê-lo, foi o livro do poeta Caio César Muniz, no qual faz homenagem aos cem anos de Vingt-un Rosado.

    Claro, que flores têm espinhos. Também tivemos alguns embates políticos desagradáveis e estéreis, perdemos amigos para Covid-19, arranjamos algumas malquerenças vãs, muitas destas, como dizia vovô – in memoriam – lá do jornal O Mossoroense, “sai na urina”. Porém, com muita esperança na vacina para poder abraçar meus netos e filhos, o impeachment do Boca de Esgoto, logo 2021 não poderá ser menos que 2020.

    Direito
    As convenções, regramentos, leis, protocolos são instrumentos civilizatórios, são linhas limites, freios aos nossos instintos primitivos. Quando estas linhas são ultrapassadas perdemos o respeito a estes instrumentos, nos tornamos bárbaros, selvagens e torturadores aonde impera a lei do mais forte. O grande sonho do Bufão Boca de Esgoto.

    Culpa
    Dizer que o povo, por motivos mil, anda ressabiado com a política e sua tríade que forma o poder democrático, isto seria chover no molhado. Entretanto, afirmar que este mesmo povo tem neste arcabouço uma boa parcela de culpa também seria verdadeiramente verdade, então logo, precisamos todos rejuvenescer. Uma “mea culpa” sincera, talvez, nos fizéssemos enxergar melhor o futuro.

    Twitter
    “Vacina sim, cloroquina não. Vacina sim, porte de arma não. Vacina sim, sem furar a fila, sem aglomerar, com máscara”, estava lá no Twitter do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, no 17 de fevereiro de 2021. Ora Carlitos, quem patrocina o contrário disto, é o seu apadrinhado, prefeito Álvaro Dias, entupindo UPAs com o kit do Bufão: Cloroquina e Ivermectina. Nem vem que não tem.

    Armas
    É notório a todos o sentimento de antipatia do Capitão Bufão, Boca de Esgoto, dedica a democracia e a vida humana. Haja vista seu comportamento diário ignorando todos os protocolos sanitários e suas falas. Se não bastasse, desnudado de qualquer sentimento cristão, publica decretos flexibilizando a compra de armas de fogo por pessoas comuns.
    Enquanto o mundo implementa uma corrida contra o tempo, buscando maneiras para apressar o fim da pandemia e consequentemente salvar vidas, aqui a morte é louvada e o vírus desdenhado.

    Armas II
    Para muitos estes decretos, que a princípio têm o inocente objetivo de armar o “cidadão de bem” para que possa se defender da violência que permeia o país, na verdade, camufla a real intensão do Capitão, que seria de armar seus asseclas, que numa possível derrota em 2022 irão às ruas armados, talvez até invadir o Congresso Nacional e o STF. Para nortear e alicerçar a tese, existem inúmeras falas do Capitão, a um clique de qualquer cristão.

    Batalhas
    Há batalhas que não precisam acontecer, mas se travadas, não merecem ser vencidas e se ainda assim, vencidas forem, laureadas não serão, pois, nelas poucas ou quase nenhuma honra existem.

    Caricatura
    Caricatura da poetisa acariense, Jeanne Araújo, que ao lado de outros 99 escritores potiguares, também estará ilustrando as páginas de nosso próximo livro, programado para o final de 2021.

    Brito – Cartunista

  • Por quê vocês me odeiam?

    Nestes dias pré-carnavalescos, Maria foi acometida de uma crise braba de Labirintite. Impedidos de recebermos ajuda, obrigado fui a pôr “armadura” para enfrentar os seres “nativos” do ambiente mais horripilante e hostil da casa: a cozinha. Do universo chinês vem essa máxima: “Por quê você me odeia se eu nunca lhe ajudei?”. Entretanto, falo no plural quando vejo garfos, colheres, facas e panelas sujas fixando os olhos em mim cheios de má-intenções, com caras de Freddy Krueger. Que me lembre nunca entrei numa cozinha para lavar, enxugar, fazer, café, almoço, lanche, jantar e no dia seguinte seguir o roteiro pré-agendado. Por isso, não entendo essa malquerença e notória antipatia dos utensílios da cozinha comigo, se nunca lhes fiz bem ou mal algum a nenhum deles. 

    Não relato isto com orgulho, a bem da verdade, digo com muita frustração. De joelho sobre milhos devo confessar duas obesas invejas que se fizeram amigas desde há muito: cozinhar e tocar violão. Estas magnificas grandes artes que independem de seus ingredientes. O violão de Kurt Cobain, que foi vendido pela bagatela de US$ 6 milhões (aproximadamente R$ 32 milhões), nas minhas mãos não teria o valor de um comprado por Gilberto De Souza, na “Peda” do Buraco do Tatu, lá em Mossoró, com sua maestria, certamente, faria soar acordes divinais ou um Tucunaré, se nas minhas ignorantes e rudes mãos seria apenas uma ginga sem tapioca e nunca uma deliciosa peixada do Porão das Artes, lá em Pium, saida das panelas de Nelson Rebouças.

    Fui sempre o “bendito fruto entre as mulheres”. Quando minha mãe morreu, fomos morar com nossa tia Geralda, irmã de minha mãe. Ela não tinha filhos dedicando-se totalmente a nos proteger e nos preservava de tudo, não nos alienando, mas não nos deixando fazer o que ela – e para época – achava desnecessário, pois, lá sempre havia muitas amigas para fazer de tudo. É verdade que às vezes quando faltava “visitante” e Maria decidia esticar seu final de semana e as namoradas “batiam fofo”, eu e Neguinho, meu irmão do meio, fechávamos todas as portas e janelas e varríamos, espanávamos os móveis, lustrava-os com Óleo de Peroba – ainda lembro do rótulo de um índio com penachos -, depois passávamos o pano com Pinho Sol na sala e quartos. Porém na cozinha era Dona Geralda que comandava, lá era ambiente sagrado. Portanto, hoje, se frito um ovo mexido, é uma vitória entanto. 

    É verdade que nisto tudo poderia haver e há um certo machismo, afinal somos uma sociedade predominantemente patriarcal e machista, se assim ainda podemos chama-la apesar do século XXI. Mas na metade do século passado, homens no fogão somente em algumas entidades como nas Forças Armadas os famosos “taifeiros”, nos grupos de tropeiros no Nordeste, nas comitivas no Centro-Oeste. Mas na cozinha de casa, ali, sujando o avental, quem dava as ordens era a mulher. Quando uma vez ou outra tentava de fininho “beliscar” a panela, Helena dizia: “Saía daí, na minha panela ninguém mexe”.

    Já decidi. Firmei promessa a São Benedito, protetor dos cozinheiros, com papel lavrado lá no cartório do tabelião Airene Paiva, como testemunha intimei o também amigo Moacir Barros, da HidroNordeste: assim que Maria parar de “rodopiar” e eu ter mandado a Bursite prascucuias, vou assistir ao Mais Você, com Ana Maria Braga, pelo menos três vezes por semana. Ainda pedi um adendo: pra evitar que ela ria muito. 

    Brito e Silva – Cartunista