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Feliz Natal!

As luzinhas piscando em árvores, casas e varandas me enlevam assim como as tradicionais canções de Natal. O bater do sino, que nunca ouvi das igrejas, ressoa em mim e desperta uma emoção que só não é única por ser tão presente.

O período natalino ou das festas, como dizem, devia mesmo ser de festa para todos. Sei que milhões sofrem as feridas da desigualdade social, outros carregam chagas na alma. Muitos nunca se comovem, o que eu não sei se é sofrimento ou castigo.

Habita em mim uma criança que até hoje se deslumbra com as luzes de Natal e, creiam, acredita em milagres. Uma menina de laço de fita no fino cabelo que corria solta na velha Usina Santa Terezinha, em Pernambuco.

Era para lá que íamos nas festas. Família toda reunida numa grande, amorosa e bagunçada congregação. Presentinhos de todos para todos. Mimos e lembranças que faziam a alegria da criançada.

Quando as vacas não eram magras, ganhávamos pequenas quantias e disparávamos para a praça onde um parque com todas as suas maravilhosas atrações nos roubava o fôlego, arrancava risadas e levava todos os trocados.

Ao invés da roda-gigante, proibida por mamãe, e dos “perigosos” barcos, gostava mesmo era das barracas que tivessem prendas. Pescaria, jogo de argolas, tiro ao alvo. Passava a noite ganhando brindes para presentear os meus queridos.

E lá ia eu, para casa e de volta para a festa na praça, carregando sabonetes, caixas de pastas de dente Kolynos e pequenos espelhos e pentes me sentindo a própria menina Noel ao presentear a todos com o coração transbordando de alegria. 

Tem gente que se sente solitária nesta época. Eu raramente me sinto só porque carrego em mim momentos incríveis e uma quantidade imensa de gente que me fez feliz por um segundo ou uma vida inteira. Velhos amores, amizades eternas, familiares que se foram.

Eurico, avô paterno que nunca conheci, mas que dança comigo quando leio seus poemas. Minha avó Cicy que me legou tanto, da aparência à receita de rabanada.  Do meu avô Amarino, doce apesar do nome, tantas boas lembranças com gosto de manga espada e cheiro de capim-santo. 

Da minha avó materna, Paula, levo o nome e uma excitação que quase nunca cessa. Dona Mariinha, minha sogra querida, que me ensinou resiliência. Luis, ah, Luis… seu imbecil amado. 

E o meu pai que fazia da vida uma festa. Hoje ele estaria na cozinha preparando o peru ou um frango, o que o dinheiro permitisse, cheio de animação, ouvindo música e inventando temperos. Em alguns momentos, os olhos dele estariam cheios de lágrimas, assim como os meus enquanto escrevo. Quanta saudade, meu pai.

A menina que mora em mim já não usa laço de fita, mas ainda corre e olha deslumbrada para a festa. E enche as mãos de presentes e sonho e alegria. Quisera estar agora mesmo lhe entregando um sabonete barato, uma pasta de dentes ou um espelhinho que conseguisse refletir um pouco do que sinto… 

Feliz Natal!

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