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Jararaca, o santo de Mossoró

Por Ana Cadengue

Foi “ali pelas onze e meia da noite, de uma noite de luar muito clara, e sempre fria do mês de junho”. É assim, sem muita certeza da data, sem investigação policial, sem autópsia, ou autores dos fatos, que a história conta a morte de um cabra “negro, alto, de aspecto repelente” nos idos de 1927 no sertão nordestino.

Noventa e quatro anos depois, a morte do cangaceiro dito demoníaco e assassino de crianças é objeto de estudo em “Poder, mídia e discurso na ‘canonização’” do cangaceiro Jararaca”, tese apresentada — e aprovada com louvor — no último dia 25 pelo jornalista e advogado Cid Augusto da Escóssia Rosado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPGEL) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para obtenção do título de Doutor.

Matérias publicadas em jornais de Mossoró nos anos de 1927, 1977 e 2017 foram utilizadas por Cid Augusto para investigar condições históricas, sociais, econômicas e políticas do aparecimento, da formação e das transformações dos discursos sobre Jararaca, na cultura de Mossoró, além de problematizar e discutir as relações discursivas de poder e resistência que redundaram na elaboração de subjetividades e transformaram Jararaca em milagreiro.

Outro aspecto abordado são as ocorrências discursivas que se sucedem ao longo de 94 anos, os pontos e os contextos de ruptura que transformaram Jararaca de bandido em santo e os heróis em uma espécie de entidade abstrata, sem nome e sem rosto, quando muito simbolizadas pelo prefeito Rodolpho Fernandes, que comandou as trincheiras rumo à vitória de Mossoró sobre os saqueadores.

Cantada em verso e prosa, a saga do cangaço – movimento social que alcançou maior repercussão entre 1890 e 1940 — conta a história de homens e mulheres, heróis para uns, bandidos para outros, que reuniam-se em grupos armados que aterrorizavam comunidades interioranas, saqueando, roubando, sequestrando, matando, extorquindo, estuprando, mutilando.

O mais famoso deles, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, em 1927, decidiu invadir Mossoró, município à época com cerca de 20 mil habitantes, encravado no sertão do Rio Grande do Norte, depois que o prefeito do lugar, Coronel Rodolpho Fernandes, negou-se a pagar um resgate no valor de 400 contos de réis.

De acordo com as pesquisas de Cid Augusto, para o ataque realizado aos 13 de junho, por volta das 16h00min, Lampião pediu reforço a outros grupos, incluindo o de José Leite de Santana, Jararaca, que teria sido soldado do Exército, participado da Revolta Paulista de 1924 , e a quem atribuíam hábitos de extrema crueldade, como o de lançar crianças para o alto e apará-las na ponta do punhal.

“Virgulino perdeu e fugiu após intensa fuzilaria na qual morreram pelo menos três de seus cangaceiros. Colchete foi atingido à bala na cabeça. Dois de Ouro saiu ferido e, durante a fuga, recebeu de um comparsa o tiro de misericórdia. Jararaca, baleado no peito e na perna, escapou, mas acabou preso na manhã de 14 e executado entre 18 e 21 de junho”, conta.
O feito dos bravos responsáveis pela derrota do Rei do Cangaço está na boca de todo mossoroense que se orgulha de ser da “cidade que expulsou Lampião”. A terra da Resistência é celebrada a cada 13 de junho e a história de como o então prefeito Rodolpho Fernandes comandou a defesa é passada de geração em geração. Cid Augusto lembra que as instituições de Mossoró sempre evocam a bravura dos que venceram Lampião, a começar pelos nomes dados aos prédios dos poderes Executivo e Legislativo: Palácio da Resistência e Palácio Rodolpho Fernandes, respectivamente.

“Há o Chuva de Bala no País de Mossoró, financiado pela prefeitura desde 2002, que narra o feito heroico. Encenado em junho, com cerca de 150 atores, atrizes e técnicos, o espetáculo assistido por milhares de pessoas do Brasil e do exterior teve a direção, naquele ano, do ator e diretor Antônio Abujamra. Em 2021, para evitar aglomerações em decorrência da pandemia de covid-19, o espetáculo foi anunciado em formato de filme”.

O trabalho do jornalista mostra que o tema Resistência ganha forma igualmente em denominações de logradouros e de empresas, no discurso político, na propaganda, na literatura, nas escolas, nas universidades, na memória, na cultura, na religiosidade e nas manchetes dos jornais que, vez em quando, reavivam o assunto. Mas, apresenta um paradoxo, “pois, embora todos os segmentos sacralizem os heróis do lugar e satanizem os cangaceiros, há 94 anos, o mossoroense relegou seus defensores ao anonimato ao mesmo tempo em que transformou o cangaço em símbolo e Jararaca em santo”.

“Os heróis parecem haver sido esquecidos enquanto indivíduos. Geralmente, as pessoas lembram apenas de Rodolpho Fernandes. Até o município, em suas obras, dá sinais de inversão da lógica do discurso da ‘Cidade da Resistência’”, rendendo-se ao cangaço como elemento cultural representativo do Nordeste brasileiro”, destaca Cid, apontando que o pórtico do centro de artesanato Arte da Terra é ladeado por duas estátuas gigantes de Lampião e Maria Bonita e o Memorial da Resistência apresenta fotografias enormes de expoentes do cangaço, enquanto os resistentes figuram em pequenos retratos em uma parede.

Para o pesquisador, certamente influenciaram na formação do mito o imaginário popular sobre o cangaço, os relatos acerca da valentia de Jararaca, o silêncio das autoridades e da imprensa quanto às circunstâncias reais de sua morte e, mais ainda, a lenda de que fora enterrado vivo após ser obrigado a cavar a própria cova e de se arrepender dos pecados. “Em qualquer período do ano, é possível encontrar velas acesas e adornos no túmulo do bandido, que, no Dia de Finados, atrai centenas de pessoas, incluindo jornalistas e pesquisadores. Já o túmulo de Rodolpho Fernandes, o prefeito herói, poucos sabem onde se localiza, embora construído em área de destaque, no mesmo cemitério”.

Cid Augusto diz que, com seu trabalho, não pretende provar a devoção a Jararaca, que é fato público e notório, com largo registro acadêmico; nem a efetividade inalcançável dos seus pretensos milagres. “Ocupei-me em revelar como a mídia produz efeitos de sentidos em enunciados sobre o cangaceiro que virou santo em três contextos históricos, as inferências políticas e econômicas, as relações de poder e resistência, o confronto entre discurso oficial, centrado nos aparelhos de Estado, e discurso do cotidiano, que se desenvolve nas práticas sociais da linguagem”.

“Jararaca não virou santo apenas pelos enunciados sobre sua vida, sua carreira criminosa e sua morte cruel, e sim na complexa interação entre discursividades de fontes (combatentes, cangaceiros, políticos, pesquisadores) ressignificadas nos discursos jornalístico, religioso, cultural, do cangaço e sobre o cangaço, da lei e sobre a lei, da ciência e sobre a ciência, da seca e sobre a seca, da fome e sobre a fome”, afirma o agora Doutor em Linguística.
A tese “Poder, Mídia e Discurso na ‘Canonização’ do cangaceiro Jararaca” foi orientada pela professora Dra. Marluce Pereira Da Silva, da UFRN, e teve a recomendação da banca examinadora formada pelos professores doutores Marcílio Lima Falcão, da UERN, Laurênia Souto Sales, da UFPB, Maria Bernadete Fernandes de Oliveira e Maria da Penha Casado Alves, ambas aa UFRN, para ser transformada em livro.

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