Últimas histórias

  • Fátima Bezerra sanciona lei que institui o Dia Estadual do Forró

    Data será comemorada em 13 de novembro, dia de nascimento do cantor e compositor potiguar Elino Julião

    Na abertura do mês em que o nordestino celebra os festejos juninos, a governadora Fátima Bezerra sancionou hoje, 1º de junho, a Lei 10.908/21, “Lei Elino Julião”, que institui o 13 de novembro como o “Dia Estadual do Forró”. A iniciativa é uma homenagem ao cantor e compositor de forró, nascido em Timbaúba dos Batistas em 13 de novembro de 1936, e que ao longo do tempo se tornou referência em relação à música e cultura popular nordestina.

    Autor do projeto que tramitou na Assembleia Legislativa e agora é lei, o deputado Francisco do PT lembrou que Elino entrou para a história do forró como um de seus mais importantes representantes. “Como seridoense, fiquei muito feliz de participar deste momento. A proposta por nós apresentada na Assembleia foi aprovada por unanimidade, num reconhecimento à trajetória e à contribuição que ele deu para a cultura do RN e do nosso país. Não poderíamos ter uma data mais apropriada do que aquela em que se comemora o aniversário de nascimento de Elino Julião.”

    A governadora Fátima Bezerra disse que, além da amizade e o carinho que tinha pelo cantor, é fã e apaixonada pela obra de Elino. E cantarolou dois de seus grandes sucessos: “Na Sombra do Juazeiro” e “Na Minha Rede Não”. “Elino é da mesma escola dos grandes mestres do forró – Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês. O que a obra dele tem de mais bonito é a irreverência, o humor. Ao mesmo tempo, traz o lado generoso e toca muito forte o coração de todos nós.”Fátima Bezerra destacou a importância da iniciativa para a cultura popular: “temos uma luta em curso para inserir o forró pé de serra, o forró raiz, como patrimônio nacional. Nossa luta é para colocá-lo no patamar que merece. Por que o forró não pode ter o mesmo tratamento que o frevo pernambucano? É isso que queremos para o forró raiz, tão bem representado por Elino Julião.”

    A viúva Maria Veneranda e o filho Araken Julião acompanharam a solenidade de forma virtual. “Gostaria de elogiar a iniciativa do deputado Francisco, o apoio da Assembleia e também agradecer a generosidade, o reconhecimento, o carinho que a governadora Fátima Bezerra tem pela cultura do estado. O esforço de vocês em colocar esse dia na nossa memória, no calendário oficial, é um marco inesquecível”, agradeceu Araken.

    Presente à solenidade na Governadoria, o prefeito Ivanildo Albuquerque lembrou que Timbaúba dos Batistas prestou homenagem a Elino no dia 10 de maio, data de emancipação política do município, e convidou a governadora para participar das comemorações na terra natal do cantor, no dia 13 de novembro, caso as condições sanitárias do estado permitam a realização de eventos.

    O presidente da Fundação José Augusto, jornalista e poeta Crispiniano Neto, listou Elino como um dos cinco pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jacson do Pandeiro, Sivuca e João do Vale. “Quero lembrar que este ano o Brasil comemora o centenário de nascimento de Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho; 100 anos do escritor Homero Homem e 100 anos do grande folclorista Veríssimo de Melo. Com a homenagem a Elino, o Rio Grande do Norte tem muito o que comemorar.”

  • HUMOR: Khaby Lame

    Um bate-papo verdadeiramente falacioso

    Khaby Lame, você é senegalês e virou um fenômeno no TikTok. Qual sua mensagem para o povo que segue você nas redes?

  • Genocida impresso

    “Pela volta do voto impresso! Urna eletrônica é coisa de ladrão!”

    Bem, a frase acima tem sido difundida pela legião de devotos do governo federal em defesa do voto impresso, que seria editável (eles acham que a urna eletrônica não tem controle). Ou é inocência ou pilantragem pura.

    O que vocês dizem sobre isso? Ou vocês acham que o brasileiro deixaria uma peste, Abigobal. Zé Mané. Zé Ruela. Abestalhado. Otário da bocona. Mané de bota. Chupa-cabra. Cri-cri. Mal-assombro. Mequetrefe. Frouxo. Rascunho do mapa do inferno. Fi dum que ronca e fuça. Fi da peste. Orelha seca. Pangaré. Catingoso. Fedorento. Peidão. Mistura de jabaculê com cobra-d’água. Cara de tabaco. Tabacudo. Zarolho. Ratoeira. Requengelo. Mal-acabado. Xexeiro. Infeliz das costa oca. Cão dos infernos. Cachorro da moléstia. Sapo-cururu. Chibata. Carai de asa. Asilado. Sebito baleado. Bocoió. Cara de fuinha. Mamulengo. Piranqueiro. Amarrado. Bicho véi leso. Catarrento. Arengueiro. Zambeta. Zureta. Chocho. Peste bubônica. Bexiga lixa. Bexiga taboca. Goguento. Cara de butico. Bexiguento. Troncho. Sobejo. Afolosado. Batoré. Bisonho. Brebote. Espinhela caída. Fuleiro. Folote. Fubento. Mal-amanhado. Miolo de pote. Fi duma égua. Mundiça. Roscói. Truscui. Despombado. Inhaca. Cambão. Encangado com Satanás. Gabiru. Mazela. Gasguito. Gastura no pé do bucho. Bucho de soro. Não tem no cu o que o priquito roa. Catrevagem. Do tempo do ronca. Doido bala. Catraia. Cão chupando manga. Febre do rato. Febre tife. Não vale um Cibazol. Besta amojada. Desmilinguido. Peitica. Ingembrado. Não dá um prego numa barra de sabão. Peguento. Presepeiro. Frangueiro. Topada no dedo mindinho. Cancro. Bicho véi paia. Donzelo. Cruzeta. Apombaiado. Peba. Fuleiragem. Aluado. Cu de novelo. Cu de boi. Miguezeiro. Cabrunco. Farrapeiro. Rafamé. Alma sebosa. Bocó. Mancoso. Morgado. Cabra bom de peia. Bom pra rebolar no mato. Ariado. Bate fofo. Entojo. Abilolado. Xeleléu. Visagem do capeta. Velhaco. Tamborete de cabaré. Sem futuro. Saliente. Seborreia. Pomba-lesa. Empata-foda. Perebento. Ferida lambida. Papangu. Monga. Laurça. Buchada azeda. Mal-ouvido. Grudento. Langanho. Juda. Garapeiro. Fi do cranco. Fi da gota-serena. Fiofó de macaco. Resto de sulanca. Encruado. Cheio de verme. Engelhado. Encardido. Enjeitado. Alcaguete. Jaburu. Caxumbeiro. Virado no satanás. Aperreio no juízo. Filhote de lombriga. Marmota. Não vale o peido duma jumenta. Babão de milico. Papa-figo. Véi do saco. Cafuçu. Garapeiro. Inferno da pedra. Mói de chifre. Quentura do pingo da mei dia. Remelento. Rola-bosta. Genocida, ter sido eleito em 2018?

    Faz-nos rir!

    Adjetivos da paródia nordestina criada pelo advogado de Campina Grande (PB), Olímpio Rocha, da versão de Mariliz Pereira publicada na Folha de S. Paulo, onde a jornalista usa adjetivos sudestinos para compor a imagem de Bolsonaro.

  • CONSTANÇA – A NORDESTINIDADE PLURAL DA CIA. PÃO DOCE

    Provocados pelo Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural (SP), artistas nordestinos criaram cenas de até quinze minutos baseadas em questões contemporâneas, estimulados pela temática “Encruzilhada Nordeste(s): (contra)narrativas poéticas”, que questiona as construções estereotipadas ou colonizadas das identidades nordestinas.

    Mas afinal, o que é o teatro nordestino? Quem instantaneamente pensa na figura do cangaceiro, nas peripécias de João Grilo, nas fitinhas coloridas, no figurino de chita com algodãozinho, na sanfona acompanhada da zabumba e triângulo, no cenário de cactos, no chão rachado, na seca e na fome, está tendo uma visão limitada sobre o nordeste e/ou a cena teatral nordestina, no entanto, é esta a imagem que permeia o senso comum da grande maioria dos brasileiros.

    Para que o Nordeste se constituísse numa unidade imagética e discursiva, foi necessário que antes inúmeras práticas e discursos “nordestinizantes” surgissem de maneira dispersa, para serem reunidos num momento subsequente: obras literárias, filmes, peças, artes visuais, etc.

    Diante disso, a arte tem mostrado que a pluralidade e a polifonia do Teatro no Nordeste transcende conceitos engessados, o que faz com que artistas se sintam livres para trabalharem fora de um contexto de homogeneidade. Foi pensando nisso que a Cia. Pão Doce de Teatro criou “Constança”, que mistura o popular e o contemporâneo, bebendo na fonte da poesia de cordel e da poesia marginal, no rap e no repente, em uma nordestinidade que povoa e que foge do imaginário popular.

    A cena de quinze minutos representa a própria constância do grupo em suas pesquisas, em sua afirmação enquanto grupo que vive do ofício do artista no interior do RN,  a constância na repreensão de discursos preconceituosos e xenofóbicos em frases do tipo “seu teatro não parece nordestino”, “seu sotaque é engraçado”, e tantos outros momentos vivenciados pela Cia. Pão Doce. Toda a cena foi gravada em plano sequência, técnica do audiovisual em que as cenas são gravadas sem corte de câmera, trazendo a metáfora do “constante” também para o formato do vídeo. Após a exibição o grupo participará de um bate papo com o público.

    A Cia. Pão Doce, que vive exclusivamente do teatro de grupo em Mossoró (RN), foi a primeira Cia. da região oeste do Rio Grande do Norte a experienciar esta nova linguagem híbrida entre o teatro e o audiovisual. Ainda sem uma nomenclatura específica, o grupo chamou as suas montagens de experimentos cênico-virtuais, com espetáculos executados ao vivo através de plataformas como a Zoom ou trabalhos gravados disponibilizados no YouTube do grupo ou de empresas e festivais.

    Serviço

    CONSTANÇA | 29 de maio – 20h | Itaú Cultural (SP) – ingressos gratuitos, disponíveis no link na Bio do Instagram @ciapaodoce.

    CONHECENDO A CIA. PÃO DOCE

    A Cia. Pão Doce de Teatro desenvolve desde 2002 projetos na área de artes cênicas, música, audiovisual e dramaturgia, em Mossoró/RN. A partir de 2012, com a primeira edição do projeto Pão Doce da Rural, o grupo passou a dedicar a sua pesquisa e produções no âmbito da cultura popular nordestina, visando preservar e difundir, a partir do teatro, manifestações populares como o cordel, o repente, o coco, a ciranda, o maracatu, o pastoril, caboclinhos, entre outras expressões. Desde então a Companhia, realizou a montagem de 11 (onze) espetáculos, circulou por 19 (dezenove) estados, entre mais de 120 (cento e vinte) cidades do País. Foi através do espetáculo “A Casatória c’a Defunta”, que a Cia. Pão Doce ganhou visibilidade e reconhecimento nacional, quando participou do projeto Palco Giratório 2016, e circulou pelos principais Festivais de Teatro do país.

  • A DONA DO RETRATO E O RETRATISTA

    Por Maria Maria Gomes — Escritora

    Fotos: Alex Gurgel

    Somente em casa, depois de retirar a sacola das costas, com um pouco de ervas e temperos, ela se deu conta daquele momento tão especial para si mesma. Foi um encontro casual e uma fala despretensiosa, sem rodeios, espontânea até o final de sua última vogal pronunciada nos confins da garganta antiga. É certo que a voz, já provecta, saía ligeira, assim como ela mesma fazia quando as pernas corriam para o carro da feira, não queria perder o direito de ir na boleia da caminhonete de Bilô de Zefa. Era assim que todos conheciam o motorista magro e sisudo do automóvel.

    Àquela altura dos fatos, as pernas dela conheciam as léguas, que mesmo sobre um transporte de quatro rodas poderiam medir as distâncias do espaço ao seu redor. Antes, havia andado mesmo em dois, percorrendo o mundão de tantas aventuras. Um mundão que não precisava de infinitas extensões, nem mesmo longos e indecifráveis territórios. Vivia na sua imaginação fértil de menina ribeirinha.

    Arrastou a cadeira de balanço com alguns fios lilases quebrados e sentou-se nela com aquela imagem nas mãos. O presente, para ela, foi uma grande felicidade vinda por mãos humanas na hora em que vendia suas ervas santas. Ansiosa e atenta, acariciou a imagem como se fosse um objeto em três dimensões. Cada traço que seus dedos percorriam, era uma memória saída do baú inconsciente onde o tempo (i) memorial se fixava feito rocha de xelita nos túneis das terras do Seridó ou uma rocha aceirada pelo rio de sua aldeia. Os dedos desfilavam pela tez do papel vendo-se também na figura. 

    Olhou-a como se refletisse acerca do tempo e dizia a si mesma em total estado de contemplação: “eu sou outra pessoa, aqui na testa não tinha esse sinal tão roliço, minha boca não se dobrava para o queixo como agora, esses olhos baixos já foram alegres e arredondados. Jesus, o tempo passou depressa demais! ” As memórias preencheram o espaço de sua casa e ela começou a caminhar pelos cômodos, lembrando os momentos felizes que vivera antes de chegar a essa idade.

    A dona do retrato gravava, com sua memória fotográfica, cada centímetro construído por ali onde nascera e plantara suas ervas que, após colhidas, eram amarradas em feixes para serem vendidas na feira cativa de mangais, atividade econômica recorrente no bairro do Alecrim. Sentia-se uma formiga em trabalho braçal. Todos os dias a mesma peleja: acender o fogão à lenha, fazer o seu café de munheca e tomá-lo. Era uma rotina sem criatividade.

    Quando Bilô de Zefa apitava, ela já estava pronta. Sacudia a saia do vestido e batia a poeira ficada no saiote em sua imaginação – não havia resquício de nada, mas ela fazia o mesmo gesto de maneira automática –  e subia no carro. Conhecia a estrada como ninguém, sabia de cor o número de cruzes por onde passava e a quem elas pertenciam. Toim de Damiana – pensava ela – morreu de doença de menino; João de Nilo, atropelado… Marianinha, de coqueluche, enterrada perto de Toim, seu primo, e muitos que pontuavam a estradona até à cidade onde ela parava para realizar seu trabalho de feirante.

    No dia em que uma caravana de fotógrafos passou por lá, como se fosse o cartógrafo árabe Al Edrise e seus acompanhantes nas dunas do Oriente Médio, foi fotografada do jeito que ela era de verdade: sem roupas arrumadas, com seus cabelos grisalhos, os olhos se afinando em rugas e veredas faciais, mãos grossudas e fortes. Ela soltava as sementes que desciam em enxurrada por entre seus dedos. Em um clique, a imagem saiu ligeira.

    O retratista nem viu direito o retrato, estava um sol de lascar naquela manhã de sábado, na feira do Alecrim, com muita gente feirando seus produtos.

    Bilô de Zefa ficava pela feira até chegar a hora de pegar os feirantes para voltar ao interior, às margens do rio Potengi. E, enquanto a feira não chegava ao final, algumas vezes no pingo da mei dia, ele ficava por ali soltando pilhéria para as moças que passavam. Um dia recebeu os cinco dedos na fuça para deixar de ser atrevido, mas essa foi outra história.

    Nesse dia, Bilô de Zefa demorou um pouco mais na feira, porque dona Bia estava encantada diante de um cidadão que lhe chegou de surpresa, entregando-lhe um envelope com um retrato dela impresso. Ela abriu-o aos poucos e, quando olhou, foi logo dizendo: “ Essa sou eu! Meu Deus, fazia vinte anos que eu tinha tirado um retrato”! Tão surpresa quanto o retratista, dona Bia olhou para ele e perguntou se era dela o retrato que ela olhava. De pronto ele falou que sim, e mais, que ele faria naquele instante uma foto dela segurando o retrato. Dois em um, ele falou sorrindo.

    Sem dúvida aquele foi um instante mágico para dona Bia e o retratista, pois as memórias dela refletiam não apenas a lembrança de um passado que fora feliz, vivido às margens do Rio Potengi, mas as memórias futuras e simbólicas do retratista. “Muito agradecida”, disse ela. “Não há de quê, dona Bia”.

    O retratista seguiu sua aventura lembrando do bem que fez naquele dia e pensando em quantas outras histórias registradas em retratos ele desconhecia. Enquanto ela, a modelo da Feira do Alecrim, sentada na cadeira de balanço, se deliciava consigo mesma, assim, como a imagem de seu rosto refletida nas águas do rio que fertilizavam a sua redondeza. 

  • ELINO JULIÃO — O Cantador

    Assim como Dona Militana está para o Romanceio Popular, Chico Daniel para o Mamulengo, Manoel Marinheiro para o Boi-de-Reis, Mestre Cornélio para o Araruna e Câmara Cascudo para as letras potiguares, Elino Julião é uma lenda do legítimo forró pé-de-serra, representante autêntico da música norte-rio-grandense.

    Elino Julião sempre foi um menino danado. Logo cedo, se destacou entre os treze irmãos pela sua esperteza, fazendo versos e batendo em latas, enquanto carregava os galões d’água do açude para casa. Filho de tocador de cavaquinho, Elino tinha o dom musical, apresentando seu talento nos bailes da Festa de Sant’Ana, em Caicó, onde fazia muito sucesso entre a juventude dourada daquela época. 

    Nasceu no ano da graça de 1936, aprendendo as primeiras letras com a senhora Lutgard Guerra (irmã do escritor Otto de Brito Guerra), proprietária da fazenda Tôco, município de Timbaúba dos Batistas, sertão do Seridó, de onde saiu na boleia do caminhão de seu Artur Dias, ainda adolescente, para tentar melhorar de vida em Natal.

    Já rapazote, pelos idos dos anos 50, morando no bairro das Quintas, na casa de uma tia, Elino começou a participar de programas de auditórios, fazendo shows ao vivo, sendo transmitido pela Rádio Poti para todo o Rio Grande do Norte, sob o comando do radialista e animador Genar Wanderlei. “Jackson do Pandeiro me viu cantar para o pessoal do auditório e me convidou para eu ir ao Rio de Janeiro cantar com ele. Depois que servi o Exército, fui morar com ele na Glória, na Rua Cândido Mendes e fazer parte do conjunto dele”, contava.

    No início da década de setenta, Luiz Gonzaga estreou um programa na TV Cultura chamado “Chapéu de Couro” e convidou Elino para trabalhar como ritmista, permanecendo ao lado do Rei do Baião por mais de três anos. Durante esse período, Elino morou na casa de Luiz Gonzaga e de seu irmão, Zé Gonzaga, conhecidos como os “Príncipes do Forró”. Essa turma formava o Trio Nordestino e foi na Polygram que Elino gravou suas primeiras canções, “Rela Bucho”, “Puxando Fogo” e “Xodó do Motorista”, que logo se transformaram em verdadeiros sucessos.

    Em reconhecimento ao seu talento, durante a comemoração dos 250 anos da Festa de Santana, em Caicó, alguns fãs de Elino fizeram uma homenagem inusitada. Um grupo lançou o fã-clube “Rabo do Jumento”, numa alusão ao grande sucesso que sempre embalou as farras no mercado, alegrando os bares e também fazendo parte da programação de rádio da cidade. “O rabo do Jumento” foi lançado no meio da “Feirinha de Caicó” com grande repercussão na cidade, dando direito à carteirinha para sócio.

    Em reconhecimento ao seu grande talento e importância para nossa cultura, em 2004, o povo de Natal concedeu ao forrozeiro o título de “Cidadão Natalense”, num grande evento na Câmara Municipal. Outra homenagem justa foi a gravação do CD “O Canto do Seridó”, dentro do projeto Nação Potiguar, com o patrocínio da Fiern/Sesi e realizado pela Fundação Hélio Galvão. 

    “O CD ‘O Canto do Seridó’ chega a ser um disco didático para quem acha que forró é uma coisa só, com xote, baião, galope, rojão, e algo fundamental que os atuais compositores do gênero vêm perdendo: a capacidade de abordar temas simples, dentro do formato que foi sucesso popular tanto de Elino Julião, quanto de Jackson do Pandeiro ou Genival Lacerda”, escreveu o jornalista José Teles para o Jornal do Comércio, de Recife.

    Nesse CD, Elino Julião consegue reunir importantes artistas brasileiros como Dominguinhos, Fagner, Elba Ramalho, Lenine, Xangai, Marines e Tetê Espíndola, além da participação dos músicos potiguares Galvão Filho e Isaque Galvão. 

    Elino produziu mais de 700 músicas em 40 discos de vinil e seis CD’s. Depois que veio morar na Cidade Satélite, em Natal, Elino Julião gravou três CD’s, “O Canto do Seridó 1 e 2” e outro chamado “A Mulher é quem Manda”, em parceria com a compositora Veneranda Araújo, sua companheira há 30 anos e fã declarada. 

    Compositor de forró afinado, cantador competente, Elino Julião carregou nas entranhas d’alma um grande apego à sua terra e às tradições do seu povo. Sua poesia expressa até hoje todos os aspectos da vida sofrida do sertanejo, seus costumes simples e suas festas populares. Sua música conta histórias de um Seridó encantado, das lembranças encravas no peito, onde a sua vivência de menino traquino é relatada com irreverência, usando o palavreio do mais puro e sutil humor nordestino.

    Elino Julião morreu em 20 de maio de 2006, vítima de um aneurisma cerebral.

    Em julho de 2004, Alex Gurgel teve a oportunidade de conversar com Elino Julião sobre o Seridó e o seu grande sucesso “Rabo do Jumento”. Confira:

    Quais as lembranças do seu tempo de menino no sertão do Seridó?

    Lembro de Timbaúba dos Batistas, onde vivi minha infância, foi onde eu nasci. Minha vida de menino, botando água em jumento lá no Açude Velho, correndo atrás de gado… Aquilo nunca saiu da minha lembrança e do meu coração. Eu vou sempre a Timbaúba e quando chego, a gente faz festa, reúne o pessoal pra fazer cantoria e relembrar os velhos tempos. 

    Você ficou nacionalmente conhecido com a música “Rabo do Jumento”, qual foi a fórmula do sucesso? Como nasceu a música?

    Eu trabalhava com Jackson do Pandeiro quando gravei o forró “Rela Bucho” que repercutiu bastante no Brasil inteiro e as portas começaram a se abrir. Pra fazer esse forró, eu me lembrei de um fato ocorrido quando eu era garoto no sítio onde nasci, chamado Tôco, em Timbaúba dos Batistas. E me lembrei que por lá, apareceu um cabra bem alto, vindo do Piauí, dos olhos azuis, com uma peixeira de um lado e uma foice nas costas, chapéu de couro e sem camisa. Chegou montado num jumento, disse: “Quem é o dono daqui?” e eu respondi: “É seu Ermogênes”.  Era um tal de Nascimento que vivia pelo mundo e pediu morada para seu Ermogênes. E Nascimento ficou, ficou e foi ficando… E um dia, eu estou botando água no meu jumentinho – era tempo de inverno, todo muito contente e muito alegre – e eu botei o jumento na manga do açude e fui tomar banho, deixando o bicho por lá. Nascimento tinha plantado uma rocinha na vazante do açude e já estava tudo bonito. Muito jerimum, muita batata, muito milho, feijão ramando… Aquela coisa linda. Eu descuidei e o jumento pulou a cerca e foi comer a lavoura de Nascimento (risos)… Rapaz, Nascimento virou uma fera. “Como é que se faz uma coisa dessas? Vou fazer a mesma coisa com você”, disse Nascimento. Ele deu uma peixeirada e cortou o rabo do jumento. Eu fiquei só espiando pra ele calado, com um medo danado. Foi nesse momento que ele disse: “Olhe, se você falar pra alguém que fui eu que cortei o rabo do jumento, eu faço a mesma coisa com você”. Então, eu fiquei pensando: “Eu não tenho rabo para Nascimento cortar”. Quando eu me lembro disso me dá um dó danado do jumento. Depois, ficou o burburinho na fazenda… Uns diziam: “Ah, se eu pego esse cabra que fez isso com o coitado do jumento eu degolo”, outros diziam: “Eu enfio a faca todinha no bucho dele”. E ele ficava escutando aquilo tudo bem quetinho, já cismado. Eu ficava bem caladinho e os cabras vinham me perguntar: “Você não viu nada?” e eu dizia: “Não vi nada não senhor”. E nada de dizer que tinha sido Nascimento. Eu ia dizer? Nascimento tinha jurado cortar o meu rabo também… (risos). Depois, Nascimento se arrependeu e quis pagar o rabo do jumento. Então eu fiz os versos: “Eu não quero pagamento Nascimento, eu só quero é outro rabo no jumento”.

    Canções mais conhecidas

    • A festa do Senhor São João
    • Cajueiro de Pirangi
    • Filho de goiamum
    • Meu cofrinho de amor
    • Maria home
    • Na sombra do juazeiro
    • Na unha do guaxinin
    • O burro
    • O mela mela
    • O rabo do jumento
    • O Relabucho
    • Pedaço de Morena
    • Puxando fogo
    • Vamos fazer run-run
    • Ela me deixou e foi morar com o guarda
    • Tabúa da Maria

    Discografia

    • 1968 – Tô na Praça
    • 1970 – Fogo na Geringonça (Coletânea)
    • 1971 – Aquilo
    • 1972 – Desafio (com Jacinto Silva)
    • 1973 – Xodó de Lado (com Jacinto Silva)
    • 1974 – Dois Sujeitos Incrementados (com Messias Holanda)
    • 1975 – Cara de Durão (com Messias Holanda)
    • 1975 – Seleção de Carimbó
    • 1976 – Forró e Mulher
    • 1977 – O Enganador
    • 1978 – Coração Louco
    • 1979 – Meu Coração é das Mulheres
    • 1980 – Preço do Amor
    • 1981 – Meu Bauzinho de Felicidade
    • 1981 – As Mulheres Merecem Flores
    • 1983 – Coração Doce
    • 1983 – Na Sombra do Juazeiro (com Lucymar)
    • 1984 – Arrastando a Vida
    • 1984 – Eu de Cá, Você de Lá (com Edson Duarte)
    • 1985 – Puxando Fogo (Coletânea)
    • 1986 – Só Gosto de Você
    • 1992 – Simplesmente Elino Julião
    • 1998 – Vamos Fazer Run-Run!
    • 2000 – Canto do Seridó
    • 2002 – Canto do Seridó II
    • 2006 – Dentro do Movimento
  • AMANHÃ (25): LIVE ‘A ARTE BRUTA DE ROSENO DE LIMA: DE ALEXANDRIA PARA O MUNDO’

    Transmissão acontece às 20h no Youtube do Museu Câmara Cascudo e Facebook da Sociedade Amigos da Pinacoteca, dentro do projeto lançado pela associação

    Admirada por muitos, a arte do pintor e fotógrafo potiguar de Alexandria (RN) Antônio Roseno de Lima (1926-1998) está no acervo de importantes museus, como a famosa “Collection de l’Art Brut”, de Lausanne, Suíça, além de figurar em publicações especializadas e ser comercializada em galerias de arte no Brasil e no exterior. Mas no RN, no entanto, o artista e sua arte permanecem praticamente desconhecidos.

    Para tentar reverter essa situação, o professor Geraldo Porto (UNICAMP) apresentará a vida e a obra de Roseno, tema de sua dissertação de Mestrado, em conversa com os pesquisadores Antônio Marques (UFRN/Sociedade Amigos da Pinacoteca) e Everardo Ramos (MCC/UFRN) esta terça-feira (25), a partir das 20h, com transmissão pelo Youtube e Facebook.

    A live ‘A arte bruta de Roseno de Lima: De Alexandria para o Mundo’ faz parte do Festival Cores do Interior, promovido pela Sociedade Amigos da Pinacoteca, e da programação do MCC Virtual, a plataforma digital do Museu Câmara Cascudo da UFRN, e será transmitido pelos canais das duas instituições. O acesso à conferência é gratuito, e para receber certificado de participação, inscreva-se AQUI.

    O projeto “Festival Cores do Interior” é realizado pela Sociedade Amigos da Pinacoteca e foi aprovado pela Lei Aldir Blanc do Rio Grande do Norte, via Fundação José Augusto, Ministério do Turismo e Governo Federal. A ação possibilitou a aquisição de cinco obras do artista e a oportunidade de estudá-lo mais a fundo.

    ROSENO DE LIMA

    Antônio Roseno de Lima, nascido na cidade de Alexandria (RN) em 1926, mudou-se para Campinas (SP) onde trabalhou como fotógrafo e artista plástico, falecendo nessa cidade em 1998. Sua produção remete à “arte bruta”, caracterizando-se por uma liberdade extrema, tanto em termos poéticos, quanto estéticos, com formas e cores instigantes, impactantes, muitas vezes misturando imagem e texto. Assim como sua pintura, o ofício da fotografia popular social em São Paulo é reconhecida pela riqueza da arte do lambe-lambe e integra acervo da Universidade de Campinas-SP, além de estar inserido em exposições como “A Era do Lambe”.

    Roseno viveu os últimos vinte anos na Favela “Três Marias” em Campinas. O encontro com o professor Geraldo Porto aconteceu em 1988, em uma feira de artistas primitivistas levada ao Centro Cultural da Universidade de Campinas. “Fiquei tão fortemente impressionado com a singularidade de sua pintura que imediatamente desejei adquiri-las e conhecer o seu criador. Tive a nítida impressão de estar diante de um artista raro. Um dos quadros em exposição representava um carro de boi pintado sobre Duratex com esmalte sintético. As figuras desproporcionais e rígidas eram pintadas sobre um fundo vermelho com as frases pintadas ao redor: O carro de boi, condução de cem anos atrás”, contou o professor, responsável por levar o acervo do artista para galerias do Brasil e museus do exterior.

    Serviço:

    Conferência virtual

    ‘A arte bruta de Roseno de Lima: De Alexandria para o Mundo’

    Terça-feira (25 de maio), às 20h, nos canais

    Para participar da live, acesse:

    youtube.com/c/MCCUFRN

    facebook.com/amigosdapinacoteca

    facebook.com/mccufrn

  • PINGO D’ÁGUA EM TERRA SECA

    O espetáculo teatral conta a história das moradoras e moradores do povoado Acary, localizado no miolo do sertão, que enfrenta a dura realidade da seca na região. Enquanto a estiagem não passa e o que sobra é a agonia, a ação de tornar tudo seco vai deixando a cidade vazia. No tempo de Acary a história se inicia…

    A estreia acontecerá nos dias 28 e 29 de Maio às 20hrs no Canal do YouTube da Nobir Produtora.

    Direção e Dramaturgia:
    Roberta Barbosa (@homoseridoense) e Zé Lucas (@zelucasssss)

    Elenco:
    Helena Saltoris (@helena.saltoris)
    Roberta Barbosa (@homoseridoense)
    Salésia Paulino (@salesiapaulino)
    Zé Lucas @zelucasssss)

    Figurinos: Roberta Barbosa (@homoseridoense) Zé Lucas (@zelucasssss) Zilu (@_zilu_) e Judson Andrade (@senhorcobra)

    Designer de Moda: Zilu (@_zilu_)

    Costureiro: Judson Andrade – Ateliê Araká (@ateliearaka)

    Maquiagem: Salésia Paulino (@salesiamakeup)

    Apoio: Espaço Estação (@rogerioferrazoficial)

    Registro Fotográfico: Carol Macedo (@caroldasfotos)

    Designer Gráfico: Mateus de Araújo (mateusdearaujo_)

    Uma realização do Coletivo Artístico Eskambau com produção da @nobirprodutora.

    Patrocínio: @culturarn

    o Projeto foi contemplado pela Lei Aldir Blanc de emergência cultural – Edital de Fomento à Cultura Potiguar – e tem patrocínio da Fundação José Augusto, Governo do Rio Grande do Norte, Secretaria Especial de Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal.