Últimas histórias

  • VIDA LONGA AO SÍTIO CASA FORTE

    O Sítio Casa Forte é a residência de meu tio Arimatéia há muitos anos. Nem sei dizer quantos, mas lembro bem como aquele lugar começou a ser o refúgio dele.

    Do ponto de vista estrutural, reconheço, a propriedade está muito diferente da que eu guardo na memória. Agora, visivelmente melhor e mais confortável, possui outros cômodos, mais espaço, uma piscina grande de alvenaria. Confesso, entretanto, que o ambiente antigo me provoca certa nostalgia. Tem calor, tem gente e tem até cheiro intactos na memória.

    Quando fecho os olhos, vejo o pequeno espaço coberto, ensaiando uma casa, com aquele alpendre singelo, sem dizer dos pés de manga que serviam de abrigo para a cantoria. Ouço a voz de Silvana cantando Antônio Marcos, embora não enxergue quem toca o violão. Antônio Marcos era o cantor preferido de tia Conceição. Ela sempre fumava, daí o cheiro de cigarro atravessar a lembrança.

    As crianças – eu entre elas – geralmente brincavam na cascata feita de um cano azul longo, todo furado, e, na base, a estrutura redonda de cimento retendo a água que caía. Uma piscina, em nosso imaginário.

    A churrasqueira a todo vapor. O gosto da linguiça assada na brasa e da farofa, que, no auge da minha seletividade alimentar, além do leite com Nescau na mamadeira, era a única coisa que eu comia.

    À tarde havia desfile de moda. A produtora, minha prima Aryane, organizava a música a ser reproduzida no toca-fitas vermelho que parecia de brinquedo e, se não me falha a memória, pertencia a outra prima, essa a minha irmã de alma e coração, Isis Gabriela.

    Eu e Bebela, como a chamávamos carinhosamente, erámos as mais novas. Então, sempre tínhamos os direitos reprimidos em relação às mais velhas, com argumento de que erámos menores. Sei que essa regra é comum até hoje em ambientes com crianças de idades variadas, e não adiantava revolta, porque eram as diretrizes da organizadora do evento e tínhamos de seguir.

    Sempre havia muitas meninas, mas Aryane capitaneava a equipe, considerando ser a única com prerrogativa de pegar as toalhas de mesa da mãe dela para que nós usássemos como vestido, a fim de que o evento de moda fluísse na mais perfeita ordem e padrão do Sítio Casa Forte.

    Geralmente no meio do desfile surgia a voz de Ana Maria, mãe de Aryane, esposa do meu tio e dona das toalhas, que soltava logo a indagação:

    – Quem é que está chafurdando com as minhas toalhas?

    Nessa hora, todo mundo corria para um lado diferente, com medo da fúria de Ana Maria.

    As mesas das quais ela tanto queria preservar as tolhas eram de ferro, pintadas de azul, com propaganda de cerveja no tampo, a exemplo das costas das cadeiras, que, se não for traição de minha memória, era a logomarca da Antártica, com dois pinguins, cerveja mais famosa do Brasil naquele período.

    Na hora que se iniciava o tumulto, enquanto as meninas corriam com medo da briga que se anunciava e do possível castigo, Aryane recorria à última instância e suplicava o socorro do pai, que sempre salvava a parada e liberava, a contragosto da esposa, a continuação do Casa Forte Fashion Week.

    Pipoca, sempre à tarde. Era o lanche. Depois, a gente voltava à piscina imaginária, onde ninguém percebia o anoitecer.

    Hoje vou poucas vezes por lá, em geral para buscar meu filho, Guilherme, que igualmente a mim, na infância, ama estar ali, aproveitando a companhia do primo Júlio, filho de Ary e sobrinho da nossa eterna produtora de moda.

    Fico feliz quando Guilherme está por lá, desejando que ele também construa memórias e possa sentir, sempre quando voltar, que ali é um lugar especial.

    Vida longa ao Sítio Casa Forte.

  • “Mea Culpa”

    Há quase oito anos, por empréstimo tomado da biblioteca de Cid Augusto, li o livro “Mea Culpa”, de Doca Street, assassino de Ângela Diniz, que conta a própria história de vida, incluindo o trágico momento do crime ocorrido aos 30 de dezembro de 1976. Trágico para Ângela, que perdeu a vida aos 32 anos, com um tiro na nuca e três no rosto, porque Doca morreu de causas naturais em 2020, aos 86.

    O caso gerou reviravoltas no movimento feminista no Brasil, que, nos anos 1970, estava engatinhando por aqui. De lá até hoje, houve avanços significativos no que diz respeito aos direitos das mulheres, à ocupação de espaços de poder, mas ainda há muito a se expandir e a se conseguir para que alcancemos a paridade, para que quebremos os elos do machismo arraigado estruturalmente na sociedade.

    Por isso, abraço a causa e faço dela uma bandeira em todos os meios a que pertenço, e, no profissional, não poderia ser diferente. Tenho insistido, por exemplo, para que mais advogadas trabalhem na advocacia eleitoral, meu grande nicho de atuação, considerando que, no Rio Grande do Norte, as mulheres geralmente não atuam nesse ramo.

    E isso não é coincidência ou falta de vontade delas, é machismo mesmo. O ambiente da advocacia, que já é hostil para nós, acentua-se nesse ramo, porque os homens, para agravar a situação, circundam os grupos políticos como forma de impor suas contratações, sem desconhecer que eles, por outro lado, também são hegemônicos na direção dos partidos.

    Em março de 2023, a Folha de S.Paulo divulgou matéria mostrando que, dos 53 partidos políticos registrados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas cinco são dirigidos por mulheres. Com essa tendência, a supremacia masculina na atuação jurídica dos partidos políticos é só mais um motivo para que nesse ambiente o machismo reverbere, refletindo na advocacia eleitoralista.

    Para comprovar essa afirmativa, há alguns dias critiquei, nas redes sociais, um evento em que os seis advogados palestrantes eram homens, mesmo existindo muitas de nós, mulheres advogadas, em atuação constante, firme e de muito profissionalismo.

    Exposta a crítica, observando a irrefutável exclusão feminina do evento, fui imediatamente repreendida por um colega, que, além de não ter lugar de fala nem conhecimento sobre as nossas lutas cotidianas em um País misógino, afirmou que eu precisava pedir desculpas por haver sido injusta no comentário.

    Segundo ele, que, a propósito, estava entre os palestrantes, não havia profissionais femininas ali porque não existe nenhuma mulher com atuação relevante no direito eleitoral norte-rio-grandense. E acrescentou: os homens convidados a participar do evento tinham conseguido espaços por seus méritos, coisa que eu deveria me esforçar para conseguir.

    Na hora da troca de mensagens, encontrava-me de saída para uma festa, sem tempo, disposição ou vontade para discutir com alguém que não sabia o que estava dizendo e que, para completar, não conhecia o mínimo de mim para supor, na crítica impessoal, a pretensão de ser convidada para um evento no qual as mulheres eram tidas como irrelevantes.

    Fui à festa, curti, aproveitei. Vê-se, entretanto, até pelo teor do texto, que o incômodo permanece. Não por eu dar importância ao que pensam desta advogada que trabalha de sol a sol para conquistar e ampliar espaços profissionais, com perseverança, dignidade e respeito ao outro; mas sim pelo que representa a constatação errônea do colega sobre as eleitoralistas potiguares, no contexto da luta por igualdade de gênero na política.

    O episódio, em compensação, serve-me de estímulo na busca por mecanismos capazes de lançar luzes sobre a advocacia eleitoral feminina do Rio Grande do Norte, que existe, sim! É atuante, sim! E tem muita relevância, tanto na capital quanto no interior.

    Voltando ao assassinato de Ângela Diniz por Doca Street, anoto que a história desse feminicídio ocorrido há 47 anos veio parar na crônica de hoje apenas como exemplo de que a força de mulheres unidas, em torno de um propósito, pode causar impactos inimagináveis na sociedade.

    Do mesmo modo que a pressão das feministas dos anos 1970 modificou o resultado de um julgamento com forte conotação sexista; da maneira que as deputadas do chamado “Lobby do Batom” implementaram direitos na Constituição de 1988; e por tantas outras vezes nas quais, unidas, vencemos lutas e conquistamos espaços, tenho plena certeza de que, muito em breve, a presença da mulher na advocacia eleitoral será respeitada.

    Até lá, quem quiser que faça o seu mea-culpa.

  • Hoje vi uma face de Deus

    Depois de muitos afazeres da manhã, resolvi parar para tomar café em um restaurante, porque já estava muito atrasada e ainda tinha muitos problemas para dar conta. Cheguei apressada, fiz meu prato e, quando sentei para comer, apareceu-me uma moça, bem jovem e grávida, olhando-me e pedindo dinheiro. Eu não tinha dinheiro, mas ofereci comida – o pessoal do restaurante também já estava providenciando – e resolvi conversar com ela.

    – Oi, como é seu nome?
    – Maria.
    – Quantos ano você tem, Maria?
    – 18.
    Ela me respondia sempre objetiva e rapidamente, sem me observar muito. Acho que estava com medo, mas prosseguiu no diálogo.
    – E tem outros filhos? Ou este é o primeiro?
    – Tenho mais dois.
    – E moram com você?
    – Não. Um mora com a minha mãe e o outro com a outra avó, mas esta vai ficar comigo. Eu sempre quis ter uma menina.
    – Ah, sim. Você está esperando uma menina. Que bom!

    Foi quando avisaram que a comida estava pronta e ela se apressou para sair.
    Nesse meio tempo, uma outra mulher, que também tomava café, veio ao seu encontro e lhe entregou uma quantia em dinheiro.
    Ela se despediu de mim já com outro aspecto, diferente do que percebi em seu rosto quando a cumprimentei. E saiu sorrindo.

    Embora sentisse uma certa alegria por perceber que a moça saiu dali melhor do que ao chegar, também fiquei triste, angustiada, o que me gerou ainda mais pressa para ir embora.
    Entrei no carro desesperada e desabei no choro.
    Senti culpa, senti vergonha, senti que fiz pouco.
    Tive vergonha porque, mesmo de maneira involuntária, sou privilegiada diante dela.
    Senti culpa por não ter feito algo a mais por aquela menina assustada.
    Senti pena. Senti dó. Como pode uma menina tão jovem já ter enfrentado três gestações?
    Pergunto-me até agora o quanto não deve sofrer, o quanto as pessoas, principalmente as mulheres, não a julgam dizendo coisas do tipo: “A culpa é dela!”, “Podia ter se prevenido!”, “Só arruma bucho hoje em dia quem quer!”.

    Contudo, trata-se apenas de uma menina que fez sexo ainda menina. Sim! Pelo que me contou, sim, mas que não deixou de ser apenas uma menina, que já foi ou pode até ainda ser inocente a ponto de engravidar três vezes.

    Eu só pensava que no lugar dela podia ser eu, com fome, com medo e principalmente sem saber como reagir. Foi quando me lembrei que antes de descer do carro e sentar naquela mesa eu rezava e pedia pra ver a face de Deus.

    Ela apareceu. E por um momento, eu nem havia me dado conta.

  • O dia em que eu conheci Maria Luiza

    Semana passada, por questões de trabalho, estive na Escola Municipal Hermenegildo Bezerra de Oliveira, na comunidade de Palheiros, zona rural de Assú/RN. Naquele dia, saí de casa apressada e, por essa razão, levei dentro de minha bolsa uma tangerina para fazer um lanche, porque sabia que essa visita, provavelmente, demoraria bastante.

    Como esperado, enfrentamos uma manhã de muito trabalho. Em determinado momento, contudo, as reuniões não exigiam mais a minha presença, motivo pelo qual resolvi sentar no pátio da escola para comer a dita tangerina.

    Provavelmente já havia se encerrado o intervalo e apenas uma turma brincava no pátio da Escola. Sentei numa mesa daquelas típicas de refeitório, que tem um banco largo e comprido atrelado a ela. Coloquei a tangerina sobre a mesa e comecei a observar o ambiente, mas sem ainda sentir necessidade de começar a comer.

    Foi quando, ofegante, apareceu uma menina serelepe, e começou a conversar:

    – Oi, como é seu nome?
    – Oi, meu nome é Clarisse. E o seu?
    – Maria Luiza.
    – Você tá fazendo o que aqui?
    – Vim com uma equipe de trabalho resolver umas coisas.
    – Ah, sim! E você faz o que?
    – Eu sou advogada.

    A partir daí, confesso que o diálogo começou a me ser surpreendente, porque jamais imaginei que Maria Luiza fosse tão astuta:

    – E é? E você já resolveu quantos casos?
    – Vixe! Nem sei, mulher. Já foram tantos que não dá pra contar. Mas são muitos.
    – Sim… tá certo. E você é advogada de quê?
    – Tenho duas áreas de atuação, criminal e eleitoral.
    – E você tem sua própria empresa de advogados ou trabalha pra uma empresa?
    – Eu faço as duas coisas. Tenho meu próprio escritório, mas também sou contratada pela prefeitura de Assú. Aliás, é por isso que estou aqui.
    – E você conhece Lula?

    Refleti um pouco sobre a resposta para saber sobre quem ela realmente estava falando e continuei.

    – Lula? Que Lula?
    – O presidente, ora! Responde ela em tom de espanto por não crer que eu não sabia quem era Lula.

    – Pessoalmente, não. Só pela televisão mesmo. Mas você sabia que em Assú também tem um Lula?
    -E é? Mas ele é presidente?
    – Não. Ele é dentista.
    – Então, não quero conhecer ele não. Mas e o outro Lula, hein? O presidente. Ele não mora aqui no Brasil não, né? Por isso que você não conhece ele.
    – Não, mulher, ele mora aqui no Brasil, sim. Mora em Brasília, que é a capital do Brasil.
    – E é? Sabia não.
    – Pois é.

    Depois, ficamos em silêncio, até que a tangerina, ainda intacta, foi trazida ao cento da conversa pela pequena interlocutora.

     – Mulher, você sabia que tangerina é minha fruta preferida?
    – Sabia não, mas, já que você disse, vamos comer essa aqui juntas.

    E comecei a descascar a fruta para dividir com ela. Depois que lhe entreguei a metade, Maria Luiza saiu em busca de seus amigos, sem nem se despedir, mas feliz da vida com sua fruta preferida.

    Sem intenção e sem saber, Maria Luiza me ensinou muito naquele dia.

    Me ensinou sobre partilha, sobre inocência, sobre inteligência e principalmente sobre como podemos ser felizes com pequenos gestos e coisas.

    Maria Luiza, que você cresça e nunca perca sua essência de ir em busca do que quer. Espero lhe encontrar no futuro e que eu ainda consiga enxergar em você o mesmo brilho no olhar daquela menina curiosa e inteligente, como a da última sexta-feira.

  • Rivalidade

    Em pleno mês de conscientização e combate a violência doméstica, o conhecido Agosto Lilás, eu comecei a ouvir o meu mais novo xodó entre as plataformas de áudio digital, o podcast Collor vs Collor, produzido pela Rádio Novelo e apresentado pela jornalista Évellin Argenta, que narra a história da briga familiar que derrubou o governo do primeiro presidente eleito democraticamente pelo povo brasileiro, após a derrubada do Regime Militar. E agora, você que está lendo essa introdução deve estar se perguntando o que uma coisa tem a ver com a outra? Mas calma, que você já vai entender.

    A trama narrada no podcast conta como fonte principal das informações as fitas k7 gravadas, pela jornalista Dora Kramer, durante o processo de escrita do livro que ela ajudou Pedro Collor a escrever em 1993.

    Toda essa introdução, a mistura com o mês de agosto e a temática da violência contra mulher, nada mais é do que a minha perspectiva sobre todas as versões que cada uma das pessoas ouvidas na produção dão sobre Tereza e Rosane Collor. Tidas por todos como rivais, por supostamente amarem Fernando, que é bom lembrar era esposo de Rosane e cunhado de Tereza.

    O que me chama atenção durante toda narrativa é essa rivalidade que todas as pessoas descrevem entre as duas, mesmo não existindo nada que comprove que houve realmente um romance entre os cunhados, e principalmente o ar de sedução, beleza, charme e elegância que dão a Tereza e ao mesmo tempo a mediocridade, falta de carisma, deselegância que dão a Rosane.

    Parece que as duas mulheres ali envolvidas, era apenas um símbolo de beleza e carisma, ou o oposto disso, um jogo com requisitos, o que uma tem a outra não tem. E é como se para todo mundo que dá seu depoimento, lá nos anos 90, essas fossem as únicas coisas relevantes que podia ser dito sobre elas.

    O que explica de onde vem essa nossa cultura de rivalidade entre mulheres e a predominância do homem como sendo a figura que detém as capacidades técnicas e intelectuais. As mulheres sempre caberão apenas as tarefas de distribuição de beleza e administração dos sentimentos e simpatias.

    É claro que depois desses 30 anos tivemos muitas evoluções, que essa coisa de reduzir a mulher, principalmente quando ela é parceira de um homem que detém bastante poder, ou visibilidade, a apenas uma figura de trófeu, mudou muito, as mulheres ganharam mais autonomia, buscaram evoluir, se emancipar, mas a verdade é que no imaginário popular ainda há muita gente que alimenta essa cultura.

    Se você digitar no google os nomes de Tereza e Rosane vai encontrar diversas matérias, atuais inclusive, que ainda as trazem como uma espécie de rivais e que também descreve a viúva de Pedro Collor como a musa do impeachment. Ou seja, avançamos sim, lutamos por mais equidade, garantias, espaço? Com certeza, mas ainda predomina para muitos que nós mulheres, estamos aqui nesse mundo, apenas para sermos coadjuvantes.

    Eu busco por meio do exercício da advocacia reduzir esses discursos, ampliar nossos espaços, mas também entendo que o caminho será longo, contudo, plenamente alcançável.

  • ESCOLA

    Às vezes me pego pensando como seria a minha vida se não tivesse tomado algumas decisões. Como seria se tivesse agido de outra forma diante de determinados problemas. Essas reflexões geralmente acontecem perto de datas comemorativas.

    Venho refletindo sobre essas coisas porque há pouco mais de 20 dias fiz trinta e um anos e já se aproxima o décimo primeiro aniversário de Guilherme, meu filho, que provavelmente será único.

    O que teria acontecido se os caminhos e oportunidades que me apareceram não tivessem me trazido até aqui?

    Poderia não ter casado duas vezes, poderia não ter sido mãe, poderia ter me formado mais cedo, poderia ter viajado o mundo inteiro, poderia não nunca ter saído de onde estou.

    Muita coisa poderia ter acontecido de uma maneira diferente. Entretanto, sem as experiências que vivi, alegres ou triste, fortes ou fracas, boas ou ruins, eu não seria quem sou.

    Olhando para o passado, percebo que o caminho que percorri pode não ter sido o mais fácil, mas, com certeza, foi o que formou a minha personalidade, o meu caráter, o meu jeito de ver a vida e as pessoas, e que também influencia na minha reação diante de cada obstáculo.

    Em determinadas ocasiões, sinto-me forte, resistente; em outras, penso que sou um balão cheio de ar prestes a encontrar uma agulha bem-afiada.

    Em certos momentos, os problemas encontraram em mim uma rocha; em outros, estava eu vestida de balão quando a agulha esbarrou na pele.

    Não tenho como prever o futuro. Do passado, contudo, tento trazer ensinamentos valiosos para o que ainda virá, para tentar não errar naquilo que eu sei que já não posso, para não me punir pelo que passou. O passado me ensinou muito, principalmente com os erros.

  • Pão doce de afeto

    Dizem que, ao longo da vida, construímos memórias falsas a partir de histórias que nos contam sobre algo que vivemos. Há, portanto, coisas que realmente lembramos e outras que, de tanto ouvirmos, reproduzimos.

    Embora muitas vezes meus pais me falem sobre isso, tenho certeza de que é uma lembrança real, não só por conseguir fechar os olhos e lembrar a situação, mas também pelo que ela me faz sentir.

    Quando nasci, meus pais moravam em uma casa no Dom Elizeu, Em Assú/RN, e a rua era super movimentada, cheia de vizinhos, de crianças, pessoas com quem convivo até hoje e que deixaram marcas felizes em minha vida. Mas a lembrança mais terna que tenho daquela rua é a do meu Vovô do Pão.

    Vovô do Pão era um senhor que vendia pães em uma bicicleta e, todos os dias, no fim da tarde, estava na rua em que eu morava. Quando me avistava de longe, já abria o sorriso.

    E que sorriso!

    Escrevo e vejo nitidamente aquele sorriso na minha frente. Lembro a forma como parava a bicicleta e se virava sem descer da sela, para tirar o meu pão doce do cesto. Depois, abaixava-se com o rosto em minha direção para ganhar um beijo, que ele retribuía com outro beijo em minha cabeça, ou na minha mão, ao me entregar o prêmio, um pão doce que brilhava de açúcar e também de afeto. 

    Cresci, construí outras memórias afetivas, mas essa me marca profundamente.

    Quando como pão doce, sinto o adoçar na boca e no coração, porque aquele pão, todos os dias, não era só um pão, era a demonstração de amor puro e de afeto gratuito de alguém no mundo por mim. Alguém que não precisava, mas que me demonstrava uma fraternidade que até hoje me fortalece.

    Eu não sei o nome do meu Vovô do Pão, embora tenha encontrado com ele várias outras vezes depois de adulta. Também não sei dizer se ele continua vivo, porque já não o vejo há bastante tempo. Onde quer que ele esteja, entretanto, nunca vou me esquecer da marca de amor que ele deixou em mim.

    Torço para que todo mundo possa um dia encontrar um Vovô do Pão, não para ganhar um pão doce e encher a barriga no lanche da tarde. Mas para que possa sentir o que é receber gratuitamente o afeto e a cordialidade sincera de alguém.

    Vovô do Pão, muito obrigada.

  • Privilégios

    Privilégios

    O sono é um dos meus maiores prazeres. Amo dormir até o fim da manhã, principalmente aos finais de semana. Cid, coitado, sofre horrores ao acordar muito bem, às 6h da manhã, me olhar e oferecer gentilmente um bom-dia radiante, porque eu apenas levanto as sobrancelhas e, quando muito, retruco: “Para quem?”.

    Mas não é para falar sobre sono que retorno a esta coluna. Volto para contar-lhes do privilégio que tive e tenho algumas vezes quando estou na casa de minha sogra e sou despertada pelo toque do piano de Dr. Laíre. Embora não goste dos despertares involuntários, compreendo a sorte que tenho ao acordar com aquele som.

    A convivência com ele, aliás, é outra felicidade. Quando percebo que vai conversar, paro tudo para ouvi-lo, atentamente. Sempre há uma história de política, de humanidade, de geografia, de história. Às vezes, a narrativa se repete, mas é tão bom escutá-lo, que isso se torna imperceptível.

    Gentil, atencioso, educado, inteligente… Passaria o dia inteiro escrevendo as qualidades que percebo nele e que até desejo ter. O que mais me encanta, entretanto, é sua capacidade de resiliência, palavra que está na “moda” e que exprime o exercício de uma virtude difícil de ser alcançada.

    Escrever sobre ele é inclusive um atrevimento meu, porque, além de tudo, ele ainda escreve brilhantemente, mas estou aqui com toda humildade para agradecer ao Universo por essa convivência que tanto me orgulha.

    Que no mundo possam existir muitos outro Laíres e que eu possa encontrá-los.

  • Leitura

    Na minha casa, a leitura sempre foi algo estimulado por meu pai, e uma prática sem nenhuma censura. A gente podia ler o que quisesse, sem interferência ou proibição, mesmo que o conteúdo não fosse lá tão adequado à faixa etária. Hoje, creio ser prudente respeitar a idade do leitor, mas sem perder de vista a ideia de que, se a magia do ato de ler está nas revoluções do pensamento, a cabeça adapta a concepção que se consegue ter a cada momento, diante do texto.

    Aos 12 ou 13 anos, por exemplo, li Onze Minutos, de Paulo Coelho, que trata de relações carnais. À época, entretanto, imaginei qualquer coisa, menos sexo. Aliás, nem lembro se àquela altura da vida, sabia direito o que significava isso. O que sobressaía em minha mente era a busca incessante da protagonista para superar infortúnios e ser feliz.

    Naquele período, não lembro por que, Paulo Coelho e sua obra se faziam muito presentes em meu cotidiano. Pensava, especialmente depois da leitura de O Alquimista, que o escritor era um hippie com cabelos longos e estilo hi-lo. Tempos depois, descobri que ele é careca e se veste de forma sóbria. Usa até smoking. Bateu certa frustração no confronto entre a expectativa e a realidade. Mesmo assim, segui.

    Veio Machado de Assis. Acho que, pela decepção com o que idealizei sobre o Mago, nem quis pensar como seria seu rosto ou cabelo, indo direto aos escritos do Bruxo do Cosme Velho. Confesso, todavia, que depositei tais expectativas em Capitu. Nos meus devaneios, o rosto dela parecia com o de Esmeralda, personagem de O Corcunda de Notre Dame, creio que pela famosa descrição dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Só não me pergunte como cheguei à conclusão de que a inocente Esmeralda teria tais características. Talvez, à época, a amada de Quasímodo fosse a única figura de cigana que eu tinha por referência.

    Já adulta, no início dos meus estudos sobre direito e feminismo, deparei-me com Mea Culpa, autobiografia de Doca Stret, assassino de Angela Diniz, e, influenciada pelas descrições de que o sujeito era apaixonante, atribui-lhe rosto comprido e sorriso cheio de dentes, o que, diga-se de passagem, não atenua a covardia do crime praticado por ele.

    Quando conheci Cid, em 2016, mesmo sabendo como era sua face, me propus a fazer o caminho inverso a fim de criar, para ele, com base no que ele escrevia, um rosto só meu. Passei, então, a ler absolutamente tudo o que havia no blog Canto de Página (www.cidaugusto.com.br). O empenho até virou soneto, mas essa parte conto depois. O importante é saber que dele também tenho um rosto exclusivo.

    Pouco depois da “expedição Cid”, o dito cujo me emprestou o livro intitulado Eu Perdoo, do potiguar João Faustino Ferreira Neto, para quem desenhei um semblante de muita compaixão e fácil empatia. A obra é tocante, a começar pela narrativa da criança perplexa diante da morte do pai, até a prisão injusta na Operação Sinal Fechado.

    Adiante, voltando aos estudos sobre direito e feminismo, apareceram-me escritos de Adriana Magalhães, alguém que não tinha expressão física para mim até recentemente, quando me deram a grata satisfação de conhecê-la. Sua face tão bonita quanto o que escreve ostenta, na minha ótica, uma fisionomia firme e ao mesmo tempo delicada. Adriana, por coincidência, é nora de João Faustino.

    As imagens produzidas pela leitura se equiparam àquelas que o rádio traz ao ouvinte. Imaginar como é a pessoa que você ouve, apenas pela voz, é como arquitetar quem escreveu o que você lê, apenas pela escrita. Enxergar alguém pela essência é apaixonante. Por isso, muitas vezes, mesmo conhecendo frente a frente, prefiro lembrar do rosto que só eu conheço, porque o construí no pensamento, tão-somente com base em linhas e entrelinhas. A leitura proporciona exclusividade e satisfação que só lendo para entender.

  • Mãe

    Um comercial com temática voltada para o Dia das Mães tem circulado nas redes sociais, com conteúdo muito interesse. A propaganda, em resumo, simula espécie de tribunal para julgamento de mães, as que trabalham fora, as que ficam em casa para cuidar da prole, as que dão chupeta, as que proíbem telas. Enfim, tudo aquilo que vivenciamos no dia a dia.

    Parece que, nos últimos tempos, além do martírio inerente à figura materna, as críticas a qualquer comportamento da genitora em relação a seus filhos têm triplicado.

    Sou mãe de apenas uma cria e, vez por outra, policio-me para não chamar de doidas as amigas que têm três ou mais. A escolha é pessoal, mas, por influência da sociedade, pego-me replicando discursos sobre natalidade com os quais, diga-se de passagem, nem concordo.

    A verdade é que aos olhos de quem está de fora é sempre insuficiente, dois ainda é incompleto, três é muito, quatro, impensável. Não ter filhos é um pecado mortal, uma afronta à sociedade.

    A liberdade sobre corpo e comportamento feminino continua sendo falsa, pois, todos os dias, são exigidas de nós, posturas muitas vezes contrárias às nossas escolhas. No final, nos tornamos reféns de padrões e pressupostos ditados não se sabe por quem.

    Que dificuldade ser mulher! Feminista, então… Por isso, há dias em que me cansa a armadura, mas é o único traje que me resta.