Últimas histórias

  • Esperança

    “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.” —  Mateus 5:3-8.

    “Sebastião, O Grande. Será reconhecido como vitorioso na Vila Aurora. Podem apostar nisso!” A frase seria somente devaneios de um garoto? Percebe-se muita inocência, principalmente nos dias atuais, quando tudo está tão incerto. Mas até hoje seu autor continua pertinaz, o Sebastião Alencar, tipo de pessoa que acredita que o ‘Mundo conspirar a seu favor se você crê’.

    — Tomara que isso esteja próximo, Bastinho? A gente vive numa pindaíba tão grande — é a resposta de Aparecida, sua irmã, enquanto engoma a roupa dele do trabalho. O dia dela começa ainda de madrugada. Hoje não foi diferente, principalmente com a tarefa de passar uma grande pilha de roupas, encomenda da dona Geruza, vizinha, esposa do patrão de Sebastião, o Sr. Nilson.

    Sebastião também acorda cedo. Às cinco da matina, de segunda a sábado, faz o périplo padrão de quem mora distante, com início no ponto de ônibus da Vila, passando pelo terminal integrado — depois cortar a cidade — e  tomar uma última condução até a chegada ao canteiro de obras.

    — Está pensando que é fácil ser importante, minha filha? — brinca ele todas as vezes que o assunto com sua irmã desbanca em planos futuros. Quando estão no churrasco oferecido por Nilson, seu patrão, não é diferente. Sebastião não se faz de rogado e tenta demarcar seu território. Seu chefe gosta de fazer reuniões nos finais de semana e se diverte bastante com as histórias do rapaz, que já vencera uma primeira etapa, ser pedreiro, após alguns anos como auxiliar.

    Não é fácil, e todos vão concordar com isso, trabalhar feito um condenado no cabo de uma enxada, ‘traçando’ areia e brita o dia inteiro e à noite estudar. Sebastião nunca perdera a fé, a esperança, e o ânimo triplicou quando foi promovido a pedreiro. Com o aumento no salário, inclusive, pôde investir um pouco mais em cursinhos. Pagava seus estudos e a duras penas ainda conseguia economizar. Aparecida segurou muito as pontas nas despesas da casa com o salário de doméstica. Como ficaram órfãos ainda jovens, na longínqua São Leopoldo, cidadezinha no interior do Ceará, ela foi o alicerce do que construíram até agora, principalmente quando foram residir em São Paulo. Ela, infelizmente, entregara os pontos, não há mais planos, se contenta apenas com o emprego que deu sustento aos dois filhos de dona Josefina e seu Adélio, seres anônimos, em um município nordestino que vive da miserabilidade e da dependência do serviço público. A mesma situação de centenas de cidades pelo Brasil afora.

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    Sebastião entra em cada esbaforido e acende a luz da sala, que se encontrava iluminada apenas pelo brilho da TV, de maneira que mal enxergava Aparecida deitada no sofá. Estende a mão e mostra uma bolada de cédulas.

    — Esse dinheiro é seu. Fique lindona amanhã, Aparecida. Compre roupas e dê um trato no cabelo.

    — Vixe! De onde você tirou esse dinheiro?

    — Pedi minhas contas.

    — É muito dinheiro. Fico mais bonita e comemoramos seu desemprego, é?  —  pergunta ela em tom de reprovação.

    — Não, menina. O momento é especial. Quero você bem bonita amanhã.

    — Esse dinheiro não fará falta em uma emergência? Não acha melhor guardar?

    O irmão da preocupada Aparecida abre um grande sorriso como reposta. Ele pula, pisoteia, ensaia uma dança na frente dela. Eis uma situação que dá real sentido ao adágio “mais animado que pinto em beira de cerca”. Mesmo com o olhar incrédulo da irmã, ele abre uma garrafa de vinho que lembrara de comprar na venda do senhor Ferreira e faz dois copos transbordarem.

    —Desembucha! Qual o motivo de tanta alegria? O desemprego é que não é.

    — Vamos brindar! Não quis dizer antes, meu amor, mas é que na sexta-feira Sebastião Alencar se forma. Será minha festa de formatura, e o mais novo arquiteto do bairro nasce.

    As lágrimas invadem o humilde lar. Abraçados no meio da sala, os irmãos se ajoelham com as mãos levantadas ao céu. E comemoram tão preciosa conquista.

    Passada a euforia das comemorações, Aparecida fita as telhas do seu quarto, ainda sem acreditar em tamanha vitória.

    — Nossa! já passou da hora de ir dormir.

    Realmente. Quem acorda muito cedo, meia-noite é um exagero. Uma vela repousa acesa em cima da mesinha ao lado da cama.

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    Pela manhã os bombeiros seguem em busca de sobreviventes do incêndio da Rua da Esperança, na Vila Aurora. Segundo informações de vizinhos, o fogo se espalhou rapidamente em três casas. Até agora somente os corpos de dois irmãos foram resgatados.

  • Tempo de ser gente

    Nada como sentar na calçada no finalzinho da tarde e sentir a poeira levantada pelos pivetes jogando bola na rua. A gorduchinha, diria o narrador Osmar Santos, sofre com os pernas de pau do time da Rua do Pi. Os irmãos Antônio e Luiz, que moram na Alameda Alexandre Silva, esses, sim, sabem o que fazer com a bola. Infernizam o time dos “sem camisas”, a zaga adversária sofre.

    Nem na folga esses moleques descansam. Ri, seu Carlos, balançando a cabeça negativamente, mas com enorme orgulho no olhar.

    Carlos Santos é dono do time Botafogo do Salto da Onça, do bairro da Consolação, na capital. Salto da Onça é um nome carinhoso que deram à rua onde Carlos mora desde moleque. Dizem que seria porque onças apareciam durante a madrugada em tempos pretéritos.

    Na semana passada conseguiu trazer um olheiro pra ver esses meninos jogando. Mas, ainda não deram resposta se vão aproveitá-los em algum time da série D daqui. Com a escolinha de futebol do Botafogo, o técnico amador e autodidata Carlos apoia as crianças necessitadas do bairro. Mesmo precariamente, reconhece, consegue roupas e alimentos para esses jovens, que sonham um dia em ser gente. E ainda é um grande “fiscal” dos estudos da criançada que treina três vezes por semana no campinho de Nazaré, antiga estação ferroviária.

    — Um dia eu vou ser gente, pai! — dizia Josué, filho de Carlos.

    — Eu sei que vai, meu filho. Eu sei! — falava pelo coração de pai e certeza de técnico.

    Josué sempre foi bom de bola, e jogando com os irmãos Antônio e Luiz formava um trio que mais dia, menos dia, faria o velho Osmar gritar sem parar o velho bordão: “Tiro-lirolá Tiro-lirolí”, “e que GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL…” — vibra, enquanto a bola levantada na área encobre o goleiro.

    — Foi sem querer! Foi sem querer! — grita de longe um jogador.

    Ele ri.
    — Hora de ir pra casa, meninos! — diz.

    A noite chegou. Como sempre, aguarda o programa sobre futebol, “A turma de Ouro do Esporte”. Sempre às oito, em uma cadeira de balanço, com uma perna dobrada apoiando na extremidade do assento, e um radinho próximo ao ouvido.

    — Não tenho dúvidas, Semíramis, nosso filho vai ser craque — enchia-se de orgulho.

    Semíramis, esposa de Carlos, faz diariamente o lanche dos meninos que treinam com o esposo. São quinze pestinhas que lhe enchem de alegria. Prepara a carne moída e coloca nos pães, uma doação do seu Canindé da padaria. E ela faz com muito gosto, e ainda lava o uniforme do time principal quando o treino termina.

    — Não deixemos esses meninos perderem a fé, Carlos. Não aceito isso — dizia ela quando encontrava o marido cabisbaixo, em dias de incredulidade e tristeza, como hoje.

    Ele a segura pelo braço, dá um sorriso agradecendo a força da esposa, mas não consegue segurar aquela lágrima, de uma história cheia de esperança tão presente. Josué faleceu há quase um anos, fora acometido por leucemia, não resistindo a um transplante de medula, mas ele continua trabalhando para que esses meninos sejam gente.