Últimas histórias

  • MÁSCARAS

    No Antigo Egito, o povo acreditava que a colocação de uma máscara na face dos mortos ajudava na passagem para a vida eterna. Na China, as máscaras eram usadas para afastar os maus espíritos, enquanto que os Gregos usavam as máscaras nas suas cerimônias religiosas. 

    O mais antigo documento sobre o uso das máscaras em Veneza data de 02 de Maio de 1268. Um outro, datado de 22 de Fevereiro de 1339, proibia os mascarados de vaguearem pela noite nas ruas da cidade. As máscaras foram utilizadas na Grécia Antiga, durante as festividades de Dionísio, o deus do vinho. Dizem que essas festividades dos povos antigos deram origem ao carnaval. Nas cerimônias para o deus Dionísio, por exemplo, usava-se a máscara e acreditava-se que ele estaria presente entre as pessoas durante a festa. No Japão, por exemplo, utilizam-se máscaras no palco até hoje para marcar bem as características dos personagens. 

    Em Veneza, as máscaras também se tornaram peças decorativas, transformando-se na principal atividade econômica da Região, no séc. XVIII, o uso da máscara tornou-se um hábito diário em homens, mulheres e crianças, ocultando o rosto com uma meia máscara que apenas cobria os olhos e o nariz. Foi precisa uma lei, a lei de Doge, para acabar com este hábito, porque a polícia tinha uma certa dificuldade em reconhecer os assassinos que constantemente matavam nas vielas da cidade. 

    Os Venezianos passaram a usá-la durante o Carnaval que durava um mês e nas festas e jantares. Em relação à palavra Carnaval, esta tem origem na Idade Média, sendo que para uns, deriva de “carrum navalis”, que eram os carros navais que faziam a abertura das Dionisías Gregas nos séculos VII e VI a.C. e para outros, a palavra surgiu quando Gregório I, o Grande, em 590 d.C. transferiu o início da Quaresma para quarta-feira, antes do sexto domingo que precede a Páscoa. Em muitas culturas ditas primitivas da África, da América e do Oceano Pacífico, as máscaras são usadas em cerimônias religiosas. 

    Em algumas tribos indígenas, por exemplo, cabe aos índios mais idosos usá-las durante rituais para curar doentes, espantar maus espíritos ou celebrar casamentos e ritos de passagens.  

    Hoje em dia, ainda utilizamos máscaras em festas.  Uma das datas em que elas aparecem é o Dia das Bruxas. Outra festa de máscaras bastante marcante acontece em fevereiro, no Brasil. É o Carnaval, onde os foliões se fantasiam e usam máscaras para brincar e dançar. As máscaras mais célebres foram as máscaras funerárias egípcias de TOUTANKAMON, a de AGAMÉMNON trazida de Micena, mas as máscaras podem ser feitas de diversos materiais naturais como madeira, fibras, palhas, barro, chifres, conchas, plumas, peles de animais, pedras, tecido ou espiga de milho, entre outros. Os Eskimós no Alaska acreditavam que cada criatura tinha uma dupla existência e podia mudar para a forma de um ser humano ou animal, bastando querer. Os nativos americanos na parte noroeste dos Estados Unidos usavam máscaras numa cerimónia anual em que choravam os mortos. 

    Os homens representavam os fantasmas dos mortos com máscaras pintadas e decoradas com penas e ervas. No Brasil, as tribos primitivas faziam e usavam máscaras representando animais, aves e insetos. Na Ásia, as máscaras eram também usadas para cerimônias religiosas e, mais tarde, para funções sociais tais como casamentos e diversos divertimentos. 

    Com as máscaras, nos transformamos em outra pessoa, adquirimos uma nova personalidade, apta a enfrentar qualquer realidade. Não raro usamos máscaras invisíveis, quase imperceptíveis, que nos ajudam a enfrentar as mais diversas situações. Pitty tem toda razão: “Tira a máscara que cobre o seu rosto.

    Se mostre e eu descubro se eu gosto. Do seu verdadeiro, jeito de ser. Mesmo que seja bizarro, Mesmo que seja estranho, o importante é ser você”. Mas há aqueles que usam máscaras o tempo todo; não conseguem mais se livrar delas. Se sentem tão confortáveis atrás das mesmas que não conseguem mais encarar a realidade. As máscaras podem transformar a pessoa no que ela quiser. E porque alguém se esconderia atrás de algo que não é verdade? Não podemos ser 100% sinceros o tempo todo, porque a verdade dói, é cruel, coloca o dedo na ferida.  

    Criamos dentro de nós as nossas próprias máscaras, ornamentadas do nosso jeito e só retiramos ao dormir, porque dormindo não podemos ser outra pessoa.

  • Balança, balanço

    Balança balanço, leve-me daqui porque a morte está na minha vista, eu a quero e sei que ela também me quer, quero fugir deste parque de diversão que é a vida, quero ir longe, pra longe daqui, pisar fora deste chão quente e pelo menos dar um passo fora deste círculo de terror e sair deste sobe e desce da roda-gigante, destas circunferências oscilantes sobre meu pesar.

    Meu coração bobo está cansado de se arriscar ao pé do destino cruel que é o amor e nada simpático ao meu parecer.

    Enxugo lágrimas diárias em meu rosto e cubro um homem de preto com meu olhar diabólico todas as noites antes de dormir. Cubro meu ventre depois de ter feito sexo e agora peço desculpas por não ter sido seguro?

    Quero ir para não forrar a cama que me deitei ontem à noite ou lavar a taça que deixei suja caída no chão do quarto, naquele carpete persa, retirar aquele vestido de seda que deixei em cima do abajur.

    Quero poder não poder querer nada.

    Clama meu coração e chora ao mesmo tempo, insano e tolo, se soubesse que amar era assim não teria amado, não teria saído de casa tão cedo, pensei que fossem inabaláveis as façanhas do amor e agora o balanço quebrou, já estou próxima ao chão, numa altura que eu mesma escolhi, eu mesma calculei e que em toda a minha vida desejei.

    Estou com o braço aberto, feito ave para levantar o primeiro voo ou me jogar.

    Amarrei o balanço na mangueira, o galho forte que dá para a entrada principal do quintal, a corda é nova e azul, minha cor preferida, o nó que fora dado é bem apertado, um marinheiro ensinou-me um dia.

    Nenhuma razão poderá trazer-me de volta, outra vez ficar.

    A vida estava em minhas mãos e coloco-a no bolso. Não deixo um adeus, nem um sorriso, marcas de sangue deixarei. Crianças que sofrem caladas vivem assim, querendo não viver.

    Debruço no vai e vem do balanço do meu corpo, no vem e vai desta infância, as lembranças estão vindo, todas ao mesmo tempo, eu vou e elas também. Um lento suicídio, jeito feliz de morrer, minhas pernas entrelaçadas por prazer.

    O cabelo está bem preso com o laço vermelho da vovó, o vestido rendado, a melissa cor de rosa, estou pronta.

    A inocência passou rápido diante de mim.

    Balança balanço a caminho do fim.

  • Abismo do amor

    Sinto uma dor insustentável.  Feito um abismo que me corta o corpo ao cair lentamente. Partes por partes, feito pétalas se soltando. E vou caindo, feito onda limpando-me os pés ou garoa que respinga na janela do quarto. Ou isto ou nada. Vou descendo feito medo na cortina da sala de estar… Despedaçando-me.

    E giro, como gira o mundo do lado de fora, sem falhas e sem pausas. Estou plena deste jeito.  Verdadeira  como uma fotografia bem tirada. Tenho asas e posso ser colorida, preto e branco, só não posso voar. Apenas o tom que desejar e eu desejo cinza. Sou o amor. Amor? Pensando estar caindo nos braços afáveis do rei, da minha alma gêmea.

    Destino! Este sim faz parte do meu trecho por aqui, cabível diria. E dói feito esta saudade dentro do peito, apertando-me por inteira, sem pausas para enxugar a lágrima que escorre na bochecha vagarosamente. Apenas sentir faz parte de mim, este sentir que me corta e que já nem sei se gosto de sentir tantas lembranças assim. O poço das minhas delícias me engoliu. Não pulei, eu não queria conhecer segredo nenhum na escuridão que habita no poço no fundo do quintal. Parto com todos os medos que me cabem, ardendo-me a  pele… E o rasgo é largo na minh’alma. E ela chora.

    E seus gritos ecoam nas paredes deste calabouço infinito e amargo. Meu sopro é feroz na tentativa de expulsar o veneno de mim, sair feito teia forte e conseguir segurar na beirada dos tijolos gastos deste labirinto, talvez sem um fim… Talvez sem beira. O silêncio já é dono agora. Teias seguram não existem. O corpo ainda lentamente se vai, feito vento que sopra forte e tempestade repentina. Seria mesmo a morte agora? Ela que tanto eu temia e agora estou envolvida em teu seio. Isto por que blasfemei o diabo? Sufoco meu. Agora apenas o pó de mim sujando o espelho quebrado que segurava em minhas mãos ensanguentadas. A dor é insustentável ainda na alma.

    E me lambuzando com tintas coloridas para enganar a foice afiada não foi o bastante. O profundo mereço. Que me come e me cospe inteira.  Duzentos anos não bastam para a dor transmutar. E pela pequena brecha que vejo um pedaço azul do céu, mando um beijo para Deus enquanto vou fechando os olhos meigos de menina.

    Estou presa neste cofre de fantasias que se chama amor.

  • Quem matou Zefa Fauna?

    Ambientado entre a Europa e a América Latina e tendo Natal, o romance “Quem Matou Zefa Fauna?”, do escritor Guto de Castro, retrata os efeitos da 2ª Guerra Mundial na América Latina. O livro, no mercado brasileiro desde 2007, dá ênfase a vida dos americanos em Natal no Rio Grande do Norte, bem como a vivência dos judeus em campos de concentração nazistas. Conheci o autor Guto de Castro em Mossoró, na feira do livro, comprei um exemplar para matar minha curiosidade na pergunta de capa.

    Guto nasceu em Mossoró e reside em Natal desde 1978. Zefa Fauna, a personagem principal, é um exemplo de quem busca sonhos, nesta vida tão ordinária, embora por caminhos tortuosos.

    Guto retrata no livro a indústria da morte na Alemanha, execuções em massa, as torturas aos judeus, de como o bairro Ribeira era fascinante, a relação ao nazismo no mundo, a guerra, Hitler, o samba, os criminosos de guerra, a queda do III Reich, bordel, o holocausto…Zefa, uma menina pobre de Mulungu, município de Macau no Rio Grande do Norte, uma jovem que queria vencer na vida, conhecer os americanos, as roupas, tomar sorvete, beber Coca-Cola e via a possibilidade de se casar com um Yanque e ter com ele um grande futuro. Guto escreve o cortejo de Zefa com lindas palavras, “sob o céu, a Aeronáutica sobrevoava o Potengi, voos rasantes…O cadetes jogavam flores sobre o telhado”.

    Concordo com o autor, em suas palavras, mais de meio século depois, lembrar essa história para as novas gerações é um dever não apenas dos judeus, mas de toda a humanidade.

    Principalmente, em tempos de Internet, quando os revisionistas neonazistas negam a existência do ‘Holocausto’.

    O livro vale muito a pena, narra o maior momento da cidade na história mundial no período da segunda Guerra Mundial, onde os norte-americanos procuravam uma aproximação com o Brasil, com o objetivo de construir bases aéreas no Nordeste Brasileiro. E Zefa, uma mulher corajosa e sedutora, era a mais desejada da cidade e de todas as tropas.

    “Enquanto o mundo se matava, Zefa ensinava o homem a amar”. O livro é uma verdadeira fonte de realidade intensa.

  • VISLUMBRE DE NÓS

    Tenho uma história para te contar… Como umacalentar que aumenta aqui em meu coração, um breve momento um tanto inspirador, um ninar para o bebê no colo, como um afago sincero da caneta de um poeta.

    Você já deve ter assistido muitas Lives por aí, mas deste casal sinceramente, eu aposto que não! Dá vontade de guardá-los em um potinho.

    Estava tentando decorar um poema com palavras simples e não conseguia, mas neste mesmo dia me veio um clarão, quando me “esbarrei” sem querer com estes cantores na Internet. Sim, e para minha surpresa, tinha certeza que tinha encontrado as palavras coloridas que eu precisava para meu poema. Eles são novos nas plataformas e Lives, fui conferir mais de perto o extraordinário trabalho que eles estão fazendo e inflamando noite após noite.

    Não, não  são apenas um casal fofo que cantam lindamente On Line, são criadores de momentos incríveis em sua noite, de um momento em que você realmente precisa se desconectar do caos que acontece no mundo lá fora e mergulhar um pouco em canções que te deixam mais leve, que te levam as lembranças boas da vida, te fazem sorrir sem querer e continuar um pouco mais…Como se estivéssemos sendo inseridos numa caixinha boa da vida,  com a chave em formato de flor. Flor singela, pequenina… E sou capaz de apostar minhas moedinhas que eles são colecionadores de raras flores, e estão completando cuidadosamente o  jardim, com uma plaquinha na entrada escrito Amor.

    Nestes meus momentos na Internet, tenho procurado um mundo colorido para minh`alma também, um breve momento que me fizesse sorrir, me apaixonar por palavras bobas, me prender na tela, me conectar mais com as pessoas…

    Posso dizer, que provavelmente, eles me encontraram! E desde então, tenho feito parte do mundo deles e eles do meu, que estava um tanto triste, um tanto acinzentado, e este mundo eles chamam de Família, então sou um bebê crescendo neste novo berço.

    ….O próprio nome diz, como uma forma de sinal, para as pessoas que procuram, não só uma nota musical, um agudo top, um jingle suave, mas posso dizer que eles salvam noites carentes ,noites longas demais.

    O nome dele é Gus e o dela Fe, e formam um lindo Duo. São jovens e carismáticos, atenciosos com o público e se importam como estão se sentindo, sim, eles se importam como você está de saúde, se está bem no trabalho e se descansou.

    Como assim? Isso mesmo! Vale muito conferir. Eles estão em algumas Plataformas Digitais e fazem Lives todos os dias e aos domingos Live especial para adoração a Deus com Louvores belíssimos. Não fique de fora.

    O meu amor infinito os recebeu de braços abertos e se eles almejam abraços apertados, encontraram um comigo, para a vida inteira. Eles têm vozes belas, como uma flexão de rimas, nada planejado, sem dúvidas.

    Neste turbilhão de ideias mornas, neste vendaval de acontecimentos, o que tem sido afável ao seu coração?

    Ao meu, tem sido receber tanto carinho, como as flores amarelas que caem no outono e nas noites frias que parecem me beijar a nuca.

    Enquanto tic tac do tempo dispara lá fora, e eles surgem assim, do nada, para nos emocionar, noite após noite, nossos instantes mais miúdos e apertados. Quando eles cantam, sinto que sou abraçada, soa em mim um palavreado feito poesia falada, e eu amo poesia!

    Eles vieram de Manaus tem pouquíssimo tempo, para ganhar o mundo, começando por São Paulo, como um sonho, um ressurgir e já já mundo afora. Acho que eles vieram mesmo é voar, feito pássaro…….! E se eu tivesse de dar uma nota até 10, certeza que daria 1000. Fazia tempo que eu não traçava meu caminho tão feliz.

    Como dizia Gilka Machado ¨…Uma velha Melodia se estendia, se enredava e preenchia o curto espaço que nos separava ¨

    E quem eles são? Me perguntaram uma vez… Vislumbre de Nós.

  • Noite Estrelada

    A noite hoje está estrelada e sinto que algo me toca, que algo me preenche, este momento rápido de mim e somente de vez em quando isto acontece, um frenesi. 

    E esta é uma noite de excessos, de instantes sem graça alguma, de vazios queridos, mentiras serenas demais, tudo sufoca, minha face está pálida. Tento entender estes pequenos abusos insanos de mim mesma, meus contos mal contados, meus gestos de sofreguidão e loucura, de um Eu fora de mim.

    Ecos suaves invadem meu quarto, estou acordada e posso ouvi-los, posso me ouvir também, meus gemidos tolos. Ecos desconhecidos, frios e ocos, apenas ecos. Talvez, estas estrelas de hoje queiram intimidar meu sonho diário, um sonho absurdo que me aparece toda noite, que me corta a garganta, um pedacinho de mim, de minhas histórias verdadeiras, cortam de mim o nó feito e bem atado dentro de mim, me atordoa e pela manhã, é como se nada tivesse acontecido, feito fio partido de minha insônia.

    Mesmo assim, ainda tento pelas manhãs cantar, dançar, escrever poesias, soar uma vida normal, respirar. As estrelas já são minhas amantes, nesta insônia que nunca vai embora e embora eu tente não sofrer, minhas vontades frias se apoderam de mim, não consigo dormir. Temo ser apedrejada no fim de cada dia. 

    Tomo-me em meu pleno silêncio e desespero, sinto-me dentro daquele espelho quebrado do banheiro, refletindo muitas de mim, cacos poucos. Não me aflito com a visita da morte, esta morte lenta e imbecil. Hoje estou rouca, farta dos meus próprios palavrões, até dos sussurros vastos e esquisitos, das porcarias pensadas por mim, as estranhezas pintadas na parede, meus rabiscos infantis.

    Meus olhos estão bem abertos na escuridão do meu próprio dia, torno-me livre um pouco antes de amanhecer, antes de ter sonhos preguiçosos, antes de ser mansa. Sinto apenas agora um colírio que arde os olhos mal dormidos, queima por dentro e por fora.

    Desencadeia minha corrente de imaginação, não mais me crio, não consigo esconder que estou me desfazendo, cortando o elo que me mantém aqui, por aqui inteira. Minha praia imaginária está deserta, muitas conchas, ondas, brisa mansa e gélida. Já não poderei fazer minhas entranhas transparentes e consertáveis. Sou apenas uma Maria. Apalpando minhas palavras miúdas, minha despedida.

    A ampulheta está no seu tempo corriqueiro. Estou morrendo devagar numa linda noite estrelada. Queria mais tempo, tempo de um relógio moderno, tempo para um tic tac de segundos.

  • Ritual de Espera – As Amigas

    Há uma ventania vindo de fora, ruídos nas portas e as janelas batendo para dentro e para fora, há um cheiro estranho no ar…

    Os quartos estão revirados, a caneta fora do tinteiro e nenhum bilhete preso no ímã da geladeira.

    O bule apitando na cozinha, avisando que o café está pronto, três xícaras postas na mesa e grandes rabiscos de sangue nas paredes…

    Adeus… Adeus… Adeus…

    A ventania agora está muito forte, um assovio estranho no quarto de hóspedes e a torneira do banheiro está aberta, a água neste momento desce as escadas.

    Os lustres quase caídos, as lâmpadas piscando, piscando.

    A casa parece assombrada…

    O cachorro se soltou da corrente, agora o canil está vazio, a grama lá fora está alta e começa neste instante chover, uma chuva fina, constante, agora todas as testemunhas entraram, o quarteirão está vazio, ninguém nas calçadas, só a chuva fina caindo no telhado.

    Ao som de Ravel, vindo do hall, caminho até o sótão, o corredor escuro, dava para sentir as teias das aranhas, o cheiro de algo estranho está no ar… De sangue das paredes, cheio de tédio, de vazio.

    Passo pelas escadas, cada degrau um tormento, outro degrau um suspense, mais um o susto, outro degrau o medo, cheguei até o sótão e meu corpo está pendurado numa corda.

    Não! Não! Não!

    Um corpo jovem e sadio, um corpo que caminhava pelo jardim todas as manhãs, as curvas bem traçadas, um cabelo bem cuidado, as marcas do tempo de criança…

    As mãos ofereceram o ódio e seu pescoço errante aceitou a ideia de brincar de morte…

    Como aconteceu não lembro, eu aguardava minhas amigas melancolia e solidão…

    A chuva cessou, a vizinha bate na porta, veio trazer o totó que tinha fugido do jardim…

  • O Infinito que me habita

    O infinito me recebeu de braços abertos. Este infinito que tanto sonhei, de alguma forma almejei, na minha vida inteira. Uma flexão que mesmo sem rimas, não planejei como seria, determinei que fosse apenas me atirar, sem remorso. E tanto tempo se passou. Tive muitas dúvidas. Eu ainda  não estava  pronta para cair, apenas me derrubei, sem querer. Meu corpo era fraco, delicado demais para se jogar, creio que simplesmente desisti de ser tão frágil e catar cacos seria mais reconfortante. E caindo, desajeitada e um tanto medrosa, fui recitando poesias mentalmente. E quando meu corpo virava, sentia mais forte um vento quente nas costas, aí abria meus olhos e contava as estrelas no céu.

    O céu estava lindo naquele momento. Seria o inferno ali? Daquele modo tão brilhante e bonito? Eu lembrava das palavras bíblicas. Todas. Não poderia ser meu castigo! Estou somente apreciando este infinito que me ronda. E seu abraço é um acalanto. Feito um Santo que me conforta, e me sinto vestida assim.

    E embora sinta que o fogo me queima, um fogo sinistro e forte, em tons alaranjados e azuis. Um fogo que arde em mim enquanto caio. E caindo vou me desfazendo… Feito cócegas na barriga, fogos de artifícios em noites de São João. Talvez o veneno que tomei esteja fazendo efeito, embora misturado com doses de amor. Este infinito que me habita. Ó doce momento das minhas madrugadas.

    Ó Senhor dos meus pesadelos mais secreto e estranhos. Estou realmente caindo, ou simplesmente sonhando outra vez? Este infinito que me beija, que se delicia de mim, e sinto-o feito pêssego em minha pele quente. O seu laço é apertado em minha garganta e dói e mesmo assim, me torno sua Deusa. Com poderes e forças embora finitas, me torno de alguma maneira forte e abstrata. Já não sou mais daqui, mesmo lentamente caindo em um infinito… Feito um enroscar em lençóis macios. E mesmo com minha armadura contra a sofreguidão, sinto meu lado mais escuro melhor, e que ganhara minhas lágrimas de prazer.

    Do meu sofrer. E por que sofro tanto com este cafajeste que me tomas as noites mais tranquilas? Este cavaleiro sem elmo e sem uma capa vermelha, muito menos um cavalo branco! Ó guerreiro sem escudo e honra, por que fazes isto comigo? Já tem o meu coração partido, o que mais queres de mim? Se tú es meu infinito, este doce tormento que habita em mim! Não deveria ter tirado a tampa deste poço maldito.

    A maldição da alucinação se apossa de mim. Sim, o infinito em mim sorri, enquanto vou morrendo de amor.

  • Ainda Sou Uma Menina

    Ainda sou uma menina. Mesmo depois dos vinte. Ainda tenho os sonhos da infância e os desejos juvenis, todos eles trancado dentro de mim. Mesmo ainda tão mansa e não podendo ir lá fora brincar. Então, brinco aqui dentro, nos meus delírios elaborados e desajeitados… E danço, com passos desajustados… Danço simetricamente no meu chão. 

    E a noite, ainda no meu sono de menina, penso nas possibilidades incertas, penso no amor e penso nele… No destino que pulsa freneticamente em mim. Penso na esquina de vento brando, que embaralha meus cabelos no rosto e no cigarro de menta aceso na boca. Ainda sou uma menina. Uma menina travessa, que agarra o travesseiro ao dormir, que cantarola Beatles no banho e que tem alergia a formigas. Que ainda aguarda, com cotovelos vermelhos de tanto ficar na janela, a visita do namorado… Que nunca veio. 

    Quero brincar, de amarelinha, de pique-bandeira e salada mista, quero correr da bola para não ser queimada, quero caminhar desiquilibrada em cima das ladas de leite, e segurando fortemente o barbante em minhas mãos. Quero sonhar com a praia, quero este sentir do som das ondas batendo nas rochas… Ainda quero contar estrelas e beber vinho escondido num copo descartável. Quero me desvirginar… De ideias, de pensamentos toscos, de beijos suaves. 

    Ainda sou menina, mais gosto do balanço do parque e de ouvir o som do violão, de dobrar a bermuda e saltitar para jogar vôlei, de tentar colar na prova de história. Sou apenas uma menina com tantas histórias, mal contadas e outras desfeitas. Ainda quero andar na corda bamba e ir ao samba e sambar! Mesmo ainda tão menina ainda quero conhecer a Dama de Ferro e me deliciar em Paris… Quero fazer tatoo sinistra e ainda poder gingar ao comando de um berimbau, que ainda me arrepia e me leva a pensar na Bahia. E que um dia volto lá. 

    Quero recitar novamente Gilka e tentar fazer rimas… Rimas com palavras bobas, mais sem palavrões. Ainda sou uma simples menina e sei que já não morro por amor e que nunca planejei uma guerra. Sou. 

    O que afinal sou? Quem? Algo me abafa, me acalma e não me deixa lançar meu perfume doce, não me deixa sorrir livremente e não limpo mais o sangue que ainda escorre pelo meu pescoço…E ainda assim, me envolvo no lençol branco e corro pela floresta achando ser um fantasma solitário… Sou o que sou e ainda não me basta, por enquanto, ainda uma menina tentando crescer e não ser tão meiga, tão sem ponteiro ou tic tac. 

    Sou bomba ou apenas o pavio curto? Doce ou amarga? O que estes cabelos brancos querem dizer? E estas rugas que escondem minhas mãos… Porque nem assim eu  consigo te encontrar. Porque sei que já não posso ser sua flor.  Sou agora metade remendada e metade cacos colados. Sou menina crescendo e tentando encontrar o caminho para casa, para o meu berço quebrado e esquecer estes sinônimos de sofreguidão em mim. 

    Ou posso ainda ser amor? “ Eu sei que vou sofrer. A eterna desventura de viver. À espera de viver ao lado teu. Por toda a minha vida…”

  • Querido Deus

    Ainda bem que tens um tempinho para mim, sei que sempre me surpreende me cedendo grandiosos minutos, para ler estas letras tortas e mal colocadas neste pequeno papel. Realmente magicar não é meu dom, mexer com fórmulas secretas, letras e números para serem compostos na medida correta, não consigo manusear tais poções. 

    O mundo está do avesso, por aqui nada muda ou se renova, está tudo na mesma mesmice. Estamos em ano de eleição e todos os nossos candidatos estão com a mesma ladainha. Prometo isto e aquilo, farei isto e aquilo… 

    Tem uma observação importante nisto tudo, eles estão mal educados… Os carros de som estão mais altos, os panfletos são muitos rolando por aí sujando a cidade, espalhados no chão, amassados nas caixas de correios das residências… 

    Pior não é isto, é ver tal candidato negando um prato de comida ao menino carente na rua e ao dobrar a esquina, adentra no melhor restaurante da cidade, almoça um prato de valor mínimo de cinquenta e sete reais, fora a sobremesa e o cafezinho que são pagos a parte. Deus… Isto está correto? 

    Sei meu amado Pai, que quando pensou no ser humano, não foi este que o moldou mentalmente primeiro, e depois de lançados aqui, sei que não era para serem assim, deste jeito medíocre. Eles são bons, de alma boa e transparente. 

    Sou assim também? Faço parte disto sem querer? Sinto que nem sou humana direito, que não sou daqui, mais esta será outra conversa. Mas eles precisam de um castigo, creio eu. Estão fazendo tudo errado, esquecendo da compaixão, esquecendo que pulsa um coração por dentro desta caixa espetaculosa e mágica, que o Senhor deu o nome de  corpo. 

    Acho que o Senhor deu “poder” demais. Eles confundem “poder” com poder, e o dom que nos cedeu foi na medida errada, por ser bom demais, nos deu a mais. Tudo que somos e tudo que temos. Será por isto as coisas agora estão tomando rumos diferentes? Estamos em guerra sem tempo certo para terminar. Estamos com menos verdes, menos águas, menos capacidade de entender, menos dinheiro… Não entendemos o que está tentando nos dizer, nos ensinar. 

    Sei que o povo é infiel ao Senhor, que o povo se vende por uma camisa, uma cesta básica, uma armação de óculos ou um concreto novo na parede da frente da casa, afinal está chegando o Natal e o povo gosta da casa bonita nesta data, meramente para receberem seus familiares e obterem toda aquela comilança, é por isto sim, eles se esquecem do verdadeiro significado. 

    Mas hoje querido Deus, além de agradecer por me ceder um tempinho na sua agenda do tempo, venho humildemente lhe pedir outra coisa também, de novo. 

    Eu agradeço por sempre me conceder mais um dia, e sei que a cada dia me dar, eu posso me renovar. Mas hoje eu gostaria de pedir em nome do povo, por toda esta gente aí fora, apenas “chance”, nos dê mais chance? 

    Acredito que com esta palavra, não precisarei me esconder no laboratório dos meus sonhos para misturar fórmulas na pipeta ou mexer com balões volumétricos… 

    A chance, esta palavrinha tão mágica, pode ser o passaporte dos seres que andam por aqui, feitos zumbis retirantes ou míseros cadáveres que açoitam e que bebem sangue… 

    Virarem realmente “humanos”.