Últimas histórias

  • A Poesia!

    “Quando vai nascer a poesia, a gente acha que é das flores, das borboletas e do sorriso singelo de uma criança bem nutrida. A gente acha, mas não é. Quando vai nascer a poesia, é do suor sufocante do gozo silenciado. Ou do grito enfastiado da última vontade de abandonar o trabalho que lhe garante casa e comida.

    É do gemido obsceno que faz verter o sangue de todas as suas virgindades. É de quando você rasga o pudor aos poucos, ferindo a própria carne. É também do pudor tão sufocante que dói sem poder rasgar. A poesia é como a tristeza raivosa da mãe ressentida: “dei tudo a eles e nada tenho em troca”.

    A poesia ressente no calor dos versos e repete palavras à exaustão. É também alegria que vem sem qualquer razão de ser. É desalinho. É um pecado sem lugar – nem o próprio deus de amor perdoa. A poesia pede e insiste. Mendiga o seu carinho no auge de sua desesperança. É quando você escuta a história mais triste do mundo. E vê nos olhos de seus filhos todas as crianças assassinadas pelos donos da noite.

    A poesia é quando você não divide mais o mundo entre eles e nós: e tudo o que chora está em você e você está em todas as lágrimas que sangram sob as pontes abandonadas. A poesia é aquela pontada de esperança de que universo tenha jeito. E um desejo devastador de que tudo se despedace em estrelas cadentes. Recheadas do sangue de quem não sabe amar.

    A poesia é quando você ama o suficiente para se saber um quase-nada. Diante de tudo o que arde. Diante de tudo o que voa. Diante de todo desejo. A poesia é quando você sai de si. E tem todos os corpos de deus”. E quando sinto a poesia me invadindo…Vou caminhando por aí, feito louca varrida, vagarando nas noites de lua cheia, vagabundeando entre árvores e neblinas…Cortando o vento que me sopra forte, vou dançando entre os ramos das noites densas.

    E mesmo com as mãos presas nas correntes do tempo, este tempo maluco que escorre em mim, ou por mim por aí… É ela…A poesia que me envolve, e com ela vou correndo no labirinto da vida, desatando os nós e os medos, rompendo os segredos talhados. E realmente saio de mim quando estou com ela, numa constância infinitamente bela, e sinto que posso de tudo um pouco e um pouco mais viver… E “Parece que eu vou mergulhar… Na felicidade sem fim “… Feito a velha lagarta colorida do parque, feito cheiro de café da vovó, feito o delicioso amor, com seus versos rimados, que invade  a porta entreaberta da minha vida…

  • Lacrimejo

    Meus olhos lacrimejam no singelo desamor que sinto. Ardor, pavor… Meu sagrado momento de dor, meu manto rasgado de desordem mental, meramente preto e branco. Me permito apenas dançar no escuro do velho salão de sonhos, e bailar no verso constante da música sobre amor amarelo. Ou seria amor azul? E feito uma gota de sentimentos, me derramo no mar de coisas eternas.

    Mas estou agora no meu momento de tristeza, de me acalentar nos braços desta tempestade, que encosta devagar…, mas o cais vazio do pensamento ainda me pertence. Tenho tentado me agarrar no fio que a vida me empresta, me sentando na varanda dos meus sonhos toda manhã, e saboreando o vento doce que se encosta em meu rosto. E almejo um pouco de outras poucas coisas em mim, de mais palavras doces no café da manhã, ou desejar lenha na lareira para que a noite se prolongue quando estou com ela, sim…Ela…A saudade.

    A saudade que sinto de sermos um. Sou uma dama profana  no desenhar do artista que me habita, uma dama que já não se acanha em ajeitar a saia curta que veste nas noites de insônia aguda ou que solta as tranças para esconder o rosto nas madrugadas em que se perde no beco e se agarra as tantas desilusões dementes. “Fico assim sem você” …Perdida no vai e vem de lembranças bobas. A dor que minha’alma sente, não tem remédio ou cura, é uma dor finda que tem me levado a falência, e todas as divagações, todas minhas causas sublimes e junto o amor.

    O amor tem sumido de mim, feito um véu que desliza pela nuca, desvirginando o corpo da mulher madura que adormecia em mim, na minha estupidez maldita. Jaz! Poetisa louca e infeliz. Tanto desprezou o badalar do sino feliz, agora a morte enxuga suas lágrimas doídas, seu lacrimejar minúsculo e tolo. Um cimento macio que te cobria inteira não foi suficiente? Um mero desdém bastou…Simples e arrogante que deu… Agora somente uma desvaria frenética, caindo no calabouço de delícias. E agora o que sou? Um soluço de ideias mornas? Palavras não rimadas ou versos mortos? Lacrimejo…E lampejos…Sem beijos, sem sabor, apenas uma palidez que me traça o rosto, uma linha tênue que me lambe da noite e me parte da vida… Da minha morte lenta…

  • Despedida

    Hoje me despeço de ti, de mim. Sem acenos medíocres, nem beijo nas bochechas rosadas, as suas ou as minhas. Adeus também não levará na sua memória, nem seu adeus a mim, nem o meu a mim mesma. Prefiro esta metamorfose de delícias que sinto, que tenho, que fantasio e que poderei nunca esquecer.

    E hoje minha máscara me caiu bem, esta máscara que não é um mero adereço, ela disfarça minhas cicatrizes, minhas lágrimas escuras. Não esquecerei de ti, nem você de mim. Esta transformação de um ser em outro, de mim em você, de você que carrego em meu balaio térmico, todos seus deleites estarão nele, e de alguma forma estarei em você, talvez presa numa caixa fosca de papelão, estarei nela mesmo assim, cintilada, etérea.

    Estarei num purpurinado colorido, com letras soltas, recitando poesias pra você, sim, de algum lugar ainda não definido. Estarei em ti, tenho esta certeza, de alguma forma miúda, estarei envolvida em teus braços, no meu desassossego, na minha inquietude perversa, nas minhas manias de só querer. E esse amanhã que nunca chega, sim o dia da minha partida, da despedida nua e crua, sinto um monte de coisas, sinto uma foice me cortar a garganta, sinto o sangue quente descendo pelo pescoço. Hoje me despeço de ti, agora já é o amanhã que nunca almejei, sem fingimentos, sem delícias, deixo-te.

    Deixo-te, nossos elos se partem, deixo uma parte minha, uma parte invisível e você, fica um pouco em minhas poesias afiadas, as perversas que saem da minha boca. Minha boca que tanto mordestes. Hoje me despeço de ti, na verdade não querendo ir, mas a parte de mim, a que me domina, esta outra parte, errante e indiscreta, que se apoderou do meu lado fraco, esta parte quer sair, fugir, ir. Estou indo querendo ficar.

    Aproveito este dia, que já é noite, celebrarei meu ritual, esta volúpia ardente e irei, irei por aí feito um avoante de asa partida, faltando-me penas. O baile de máscaras continua, eu num ápice esfumaçado, parto. Parto “sem eiras e beiras”, estros, restos e fadigas. Sigo por um caminho que não se vê, não se pode ver e trilhas estreitas, um chão impregnado de cinzas, de ossos pontiagudos, de mortos.

    Sem beijo doce e quente na face ou nas mãos. Hoje me despeço de ti, na verdade de mim, porque minha máscara de hoje não teve serventia, Ela me aguarda no final da festa, sua fantasia a mais bela da noite, Ela me ronda, me espera, me envolve no seu perfume barato, a morte.

  • Saudade

    Sinto como um sopro forte na nuca. É uma saudade infinita, e sinto tão aflita e cortante aqui dentro de mim. Feito um sopro tão forte e atordoante. Sinto! E este sentir eterno dói, dói-me na alma. Sinto esta dor sinistra por dentro. Talha-me e retalha-me. 

    É a saudade tão danada em mim.

    Do amor em que me encontro não gozo a poesia, isto me aflita! Fico a supor muito mais que este amor, e seria ele tão verdadeiro assim? E o que será da donzela tão bela que habita em mim?

    Viver sem rascunhos, sem eiras e versos… Sinto esta sensação absurda no meu peito, que me aperta e que retém meus sorrisos tolos do mês. Pobre estou sem letras tortas e palavreado miúdo. Agonia constante de mim, em mim… E o que sinto assim me faz bem? Pior seria nada sentir?  Estou fardada desta agonia mimada em querer não sentir tantas coisas assim. Mais a saudade fala mais alto, feito grito agudo ao pé do ouvido. 

    Ó outrora não desejei tanto assim.

    Ó Deusa das minhas aflições… Tira-me deste calabouço de ideias perdidas, tira-me um pouco destas tentações nas entranhas. Ai de mim sem orações! Ai de mim sem amém. Ai que estou em fadigas muitas. A saudade que mais aperta aqui, em algum lugar aqui dentro eu ainda não detalhei.

    Será dos palcos mundanos, ou apenas de cidade de onde vim? Seria esta saudade louca da roupa que perdi, ou do calçado que furou? 

    A saudade que incomoda seria da estrela que nunca mais vi, ou do relógio que se quebrou… O café também tem minha saudade na boca, daquele beijo que me foi roubado na juventude, do sonho recheado de chocolate, sinto saudade também.

    E lembrar do samba no pé e do sol fraco em dia de domingo me deixa em saudade tranquila, feito um balançar lento dos girassóis na varanda. E como já dizia Vinícius ¨Chega de saudade. A realidade é que sem ela, não há paz não há beleza, é só tristeza e a melancolia. Que não sai de mim. Não sai de mim. Não sai¨. 

    E no meio das minhas tantas lembranças e belezas, esta saudade me faz assim tão bem. Esta melancolia tão boba, mesmo assim me conquista dias e noites. Sou dela e ela está desde sempre em mim.

    Serei feliz com ela até meu fim?

    Ó saudade que me acorrenta em tuas delícias, e me afaga em teus flashes malditos.  Não sai de mim. É apenas uma imensa saudade que sinto, de um amor partindo…

  • Reinventando Lindalva

    Estou reinventando as muitas de mim. Resgatando todos os pedaços da minha infância, as lembranças frias que me apertam ainda o peito. Começando pelos olhos cansados e mal dormidos e uma pitada de humor, de amor. Estou colhendo amostras de mim e isto me faz muito bem, me faz rir novamente. Meu lado espírito, terra, mãe, neném.

    Estou de várias maneiras me criando, pintando o sete ao meu redor. Estou me reinventando, este anjo caído, infinitamente perdido de mim. Este meu merecimento, esta existência louca e farta, feito borboletas que enfeitam as matas, estou assim me colorindo, moldando o universo inteiro, meu jardim. Cansei desta terra pálida que piso, que tropeço dias e dias, cansei destes meus olhos sem cor. Evoluir por dentro é o primeiro plano, sem me agredir com palavras ou me farpar com as insônias desnecessárias.

    Outro passo seria estar bem armada, sem apegos as ignorâncias mundanas, sim, poderei mudar atitudes. Seguir estes flashes de luz seria uma transformação imediata ou insana? Não. Apenas uma reforma íntima. Eu, a Lindalva em mim, somente um espírito pairando sobre a guerra.

    Tomo meu banho de sangue diário e saio à procura de paz! Vou rastejando, lutando com as sombras em todos os tipos de reinos, brigando com monstros que saem pelas portas que deixam abertas por aí. Não hoje, por alguns medíocres instantes não penso em matar ou morrer, hoje embainhei minha espada. Esta noite minha missão é outra, minha arma secreta está suja de covardia, uma linda lâmina que uso contra mim mesmo e me delicio nesta cruz que me faz cantar ao dormir.

    E todas as minhas ideias, estas recordações tortas e tolas, rolam neste momento no abismo cintilado do meu quarto.

    Mais um dia passo bem e pela manhã apenas cacos do meu próprio corpo que cato ao acordar, miúdos e avessos. E me sento na cadeira velha da varanda e penso no amor, só ele é capaz de me mover daqui. Porque o que sinto já não basta, é um entrelaçar de passado e presente, de palavras embaraçadas que me roçam na garganta, que fazem meu corpo demente virar cadáver novamente.

    As horas passas assim e eu meramente tentando me reinventar. A lua lambe a noite novamente. Eu adormeço e perco a guerra lá fora mais um dia. Mas Lindalva está salva dentro de mim.

  • Soul

    Soulé um filme americano, produzido pela Walt Disney Pictures e Pixar Animation Studios. É dirigido por Pete Docter e co-dirigido por Kemp Powers. O filme é estrelado pelas vozes de Jamie Foxx, Tina Fey, Questlove, Phylicia Rashad, Daveed Diggs e Angela Bassett.

    Em Soul, duas perguntas se destacam: Você já se perguntou de onde vêm sua paixão, seus sonhos e seus interesses? O que é que faz de você… Você? A Pixar Animation Studios nos leva a uma jornada pelas ruas da cidade de Nova York e aos reinos cósmicos para descobrir respostas às perguntas mais importantes da vida.

    Em Soul, acompanhamos a vida de Joe Gardner, um professor de música do ensino médio que sempre sonhou em ser um músico de jazz. Quando ele finalmente tem uma chance de participar de uma apresentação grandiosa como pianista, um acidente faz com que sua alma seja separada de seu corpo e transportada para um “novo espaço”. 

    Até onde a ambição pode te levar para alcançar um sonho? Sonhar é o único ato que deve te guiar na vida? E qual o sentido da vida? É possível assistir o longa a partir dessa visão e se questionar sobre dúvidas que, com certeza, já passaram na cabeça de muitos adultos. 

    Além dos efeitos especiais que tentam se aproximar do caráter mais humano, o filme também traz uma animação abstrata para integrar certos personagens.

    O filme é dos criadores de Divertida Mente e Up e é a primeira produção da Pixar que traz como protagonista um homem negro. A história se passa entre o mundo real e o espiritual e levanta grandes temas existenciais como o que acontece depois que morremos e de que forma adquirimos a personalidade que temos. Com metáforas sobre a formação da nossa personalidade, um destaque ao poder da música na vida de uma pessoa.

    Qual é o nosso propósito de vida? Por que motivo estamos aqui? O que acontece antes de nascermos? E depois de morrermos? Em que momento a nossa personalidade é formada? Esses temas densos e filosóficos – que tocam especialmente os adultos – são explorados com delicadeza por Soul.

    Soul (que literalmente significa “alma”) também não se apega a alguma das versões religiosas sobre o além-mundo e nos oferece uma obra livre de certos pré-conceitos que tomamos como verdades no nosso cotidiano.

    “Jazzar”, portanto, é um ato de resistência diante de um mundo que tenta nos enquadrar em certos moldes. A origem da palavra “jazz” é incerta, mas a versão mais aceita é de que possa ser uma derivação de uma gíria que significava “espírito”, “energia” ou “vigor”. Não é incomum dizermos que algo tem alma: uma obra, um discurso, um esporte. Torna-se clara a falta de alma quando notamos algo feito unicamente pelo dinheiro ou mecanicamente, sem sentimentos, vivências, experiências que possam transbordar a matéria. Em Soul, “Jazzar” é esse ato de viver, uma necessidade essencial a todos os humanos e que encontra no jazz de Joe uma exemplificação.

    Joe morre justamente por perseguir um sonho, uma meta que ele considera sua missão e que foi capaz de o cegar para a vida ao seu redor. Soul não diminui a importância dessas coisas, tanto que reconhece os grandes ícones da história como tutores. O maior problema, no entanto, é entender isso como objetivo único e máximo da vida, que é justamente o que leva as almas à perdição. Soul me entregou uma mensagem importante, observar as pequenas coisas ao nosso redor, que podemos apreciar outros caminhos e continuar com esta imensa vontade que temos… que se chama …Viver!

    Nota 10.

  • A Tempestade

    Hoje a tempestade avança por dentro de mim. Rodopia por entre as minhas dúvidas, me assombra. Me sinto um caos! Um pedido soa longe: “socorro”! E gritos me atordoam… O pequeno barco já partiu do cais, agora minha viagem não tem volta. Minha jornada na solidão começa assim, apenas um cais vazio, sem acenos ou despedidas. Apenas vou, com meus farrapos na pele e minhas verdades não esclarecidas.

    Meu barco passará pelas insônias e pelos rios vermelhos, e acordarei na neblina dos meus próprios sonhos. Estúpida e mansa, como na infância… Tola e covarde, como na juventude. Apenas sigo, navegando no mar de ideias, tentando não naufragar nas agonias presas na garganta, apenas sussurrar tem sido meu escape, breves e pavorosos. Louca! Uma voz suave ao meu ouvido, toda noite.

    Louca? Acho que já não é tanta loucura assim que me mantém. Deixei meu monstro interior preso no baú das minhas delícias, não sou dele mais, sou apenas uma moça que navega na imensidão das águas claras, procurando uma parte da infância, procurando outra metade. A tempestade é verdadeira agora e faz meu barco balançar de um lado para o outro, não tenho mais controle dele, nem de mim.

    O vento é forte, a tempestade me alcançou e agora faço parte dela… E ela consegue me atirar no mar gélido e sinistro, e agora faço parte dele, sou agora mais uma de suas ideias. E lentamente meu corpo se vai, feito um bailado em câmera lenta. E meu corpo cintila, vultos claros me envolvem, como se saíssem de dentro mim, saíam os medos e os pesadelos, saíam as sobras, os desamores… Acordei na praia.

    Um praia  colorida, sua areia brilhante feito cristal. Paralisei-me, olhando minhas mãos transparentes… Uma música soava, igual aquelas caixinhas com bailarinas… E eu corria ao encontro da música, as folhas no chão corriam comigo, e eu brincava com elas e sorríamos, éramos crianças… E cada folha era um sorriso, e eu já não sabia se era uma criança correndo ou uma daquelas estranhas folhas.

    O mar já não existia dentro de mim, já não sentia saudade do monstro que tranquei, e já não lembrava da tempestade… Sou agora apenas uma rocha ou flor? Uma folhagem que corre ou abismo sem cor? Fumaça do vulcão ou música secreta? Sou a caixinha ou a criança tentando dar corda? Estou perdida na praia, não estou?!

    O sol queima em minha pele… Já é manhã dentro de mim. A tempestade me abraçara forte, sou agora uma moça perdida, tentando achar o caminho de volta pra casa.

  • Carta para Deus

    Querido Deus, Superamos toda expectativa do fim do mundo e chegamos ao novo ano.
    Estamos aqui ainda, no pensar sobre tudo, na tentativa de reorganizar a gaveta do armário, a casa, a vida…

    Deus, sei que neste exato momento está tentando ajeitar a bagunça que fizemos no ano velho, talvez não tenha um tempinho ainda para ler minha humilde carta. Mais não conseguiria começar sem ao menos desabafar com o Senhor, sem pedir-lhe desculpa pelas coisas passadas, pelo que não conseguimos modificar. E começo meu ano pensando na vida e morte, nos erros tantos e certamente não tenho nenhum manual de orientação, instruções em como remediar as coisas.

    Temos a porta certa… E não aproveitamos, a gente continua a roubar o caminho alheio, de algum inocente em busca de respostas. Ainda temos a sensação de estarmos perdidos, e mesmo não tendo todo o tempo do mundo, uma eternidade, as coisas não param em nossa volta, repetidas vezes. E nesta luta intensa entre o bem e o mal, do obscuro que força nossa mente desejar algo a mais, algo maior.

    Aquela sensação gostosa de começo e fim, de sentir que algo está completo mesmo não estando. Acho que não achamos a cura para nos consertar. Me sinto como um velho, de mãos enrugadas e trêmulas. Meus ritmos não são os mesmos, minha velhice esqueceu as meras ideias que um dia criei . Não sei por quanto tempo mais poderei lhe escrever estas cartas, estas linhas de meras tolices da vida humana, nada irá mudar tão depressa assim não é mesmo? Não tenho mais truques nas mangas, e confesso que estou triste com o fracasso alheio, e tento todos os dias mudar um pouquinho e ajudar outras pessoas também. Nem todos são maus. Acha mesmo que temos alguma chance?
    Mentimos, enganamos, matamos e roubamos… A humanidade é realmente podre. O mundo ainda não acabou! Temos de novo a chance de melhorar as coisas por aqui. Temos de esperar uns dias, todos ainda estão de ressaca das festas de fim de ano. E para variar um pouco, de novo gostaria de lhe pedir algo, algo pequeno que possa me ajudar neste trilhar aqui na Terra.

    O Senhor poderia me conceder um pouco mais de “coragem”?

    Isto mesmo, coragem para enfrentar o que ainda está por vir. Um tantinho só de coragem para eu conseguir derrubar o muro erguido no meio do meu caminho e com um simples aperto de mão ou abraço levar a outros seres humanos e eles levarem a outros e outros aos outros.

    Com coragem poderemos falar e escrever mais coisas, mandar o medo embora de novo, alterar regras… Com bastante coragem poderemos enferrujar as ideias tolas, poderemos protestar mais e comer menos carnes e beber menos refrigerantes.
    Poderemos fazer alguma diferença mundo afora. Podemos encorajar o medroso bobo, o guerreiro adormecido dentro de todos nós. Precisamos embainhar a espada e plantar mais árvores. Sinto que o gigante adormecido quer acordar e lutar esta guerra…Ó Deus, não podemos mais ser marionetes desajeitados, viajantes num tempo inútil.

    Precisamos de coragem! Sem ela não conseguiremos atravessar o escuro… E então acenderemos sem querer o pavio.

  • Viva?!

    Acho que hoje estou morta. Morta antes de morrer. Uma morte não morrida e não ainda matada. Morte esculpida num frasco surrado, com uma bebida colorida, cujo gosto é de amora e alecrim. 

    Talvez este lado morto de mim esteja muito vivo e, o lado ainda é fosco e mendigo, um habitante estúpido, bêbado de insônias e surtos. Será mesmo a morte uma dama de preto, de foice afiada na mão? Não seria ela uma loira, de olhos claros e voz delicada? 

    Quem realmente está enganado, ela ou eu? Morte asfíctica, tóxica, apoplética, traumática… Será ela tão viva assim para tema de recorrentes discussões, tratada por diversos povos com misticismo? Será ela tão ordinária e má? 

    Ó dama que nos segue, siga por um lado que iremos aqui por outro, se for cedo iremos nos render e se for tarde lutaremos, talvez juntas! 

    Morte – Do latim mors, obitu… Na literatura, na história e na ciência…Ó senhora, dona de mim, eis que teus olhos brilhantes que se afagam nos meus, nas minhas doces lágrimas de sofreguidão, de abusos, absurdos nas minhas lacunas invisíveis. 

    Houve um inventor no começo do século XX que desenhou um sistema de alarme que poderia ser ativado dentro do caixão, se o cadáver acordasse poderia avisar. Isto por causa das dificuldades na definição de morte. Na maioria dos protocolos de emergência, mais de uma confirmação de morte é necessária.

    O ser humano não está pronto para morrer ou para encontrar o outro lado. Acho que também não estamos prontos para viver. É muito mais fácil definir a morte do que esta agonia em que estamos. 

    A questão é: o que acontece, especialmente com os humanos, durante e após a morte? Se pensarmos na morte como um estado permanente, é uma interrogação frequente, latente na psique humana. Consequências negativas, não seria isto o que torna a morte incômoda? 

    Ou o medo do inferno, por isto mais temida? Várias religiões creem que após a morte o ser vivo fica junto do seu criador, Deus. Por que tanto medo em encontrar com nosso Pai? A morte é representada por uma figura mitológica em várias culturas. 

    Na iconografia ocidental ela é usualmente representada como uma figura esquelética vestida de manta negra com capuz e portando uma foice. É representada nas cartas do Tarot e frequentemente ilustrada na literatura e nas artes. 

    A associação da imagem com o ceifador está relacionada ao trigo, que na Bíblia simboliza a vida. Na mitologia grega, Tânato seria a divindade que personificava a morte, e Hades, o deus do mundo da morte. Ela é relatada em vários trabalhos televisivos e cinematográficos. 

    Há histórias de que ela pode ser subornada, enganada, ou iludida, a fim de manter uma vida. A série Supernatural apresentou uma visão nova da morte onde um dos cavaleiros do apocalipse e a morte na condição humana, discutem com o personagem principal sobre sua origem, ao qual ele afirma ser mais velho do que Deus, além de ter existido também em outros planetas, tendo levado a vida lá também para o abismo. 

    A morte é considerada através de várias perspectivas na literatura de todo o mundo. Encaramos a morte, lidamos com o falecimento de entes queridos e desconhecidos, discutimos o seu significado religioso, filosófico, social, etc. A morte, no ramo das ciências, é estudada pela tanatologia. 

    Neste sentido são estudados causas, circunstâncias, fenômenos e repercussões jurídico-sociais. Um dos ramos da ciência relatados através de vários casos de quase morte estuda os sentimentos declarados de pacientes que recuperaram suas funções vitais depois de uma intervenção médica. São comuns relatos de pessoas que dizem ter visto uma luz, um túnel iluminado e às vezes vendo-se a si mesmo, fora do próprio corpo, durante uma cirurgia. Morremos um pouquinho a cada dia, após um dia aflito, de insônia, de brigas. Após uma festa ou carnaval, pandemia. 

    Após votar em um governante, uma cola na prova de português e até mesmo depois de arrotar palavrões na cara das pessoas. Talvez morte tenha uma gadanha colorida, pode ter pele pálida e voz suave… Será que não estaríamos mortos tentando a vida? 

    Por hoje me basta apenas saber que ainda não morri e aprender um pouco mais em ser um simples frasco com veneno doce, um tanto cheio ou um tanto vazio.