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  • A CARNE MAIS BARATA DO MERCADO É A CARNE NEGRA

    No dia 06 de maio de 2021, uma quinta-feira, a população carioca acordou com a notícia de uma operação policial com várias mortes na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro. No decorrer do dia e no desenrolar das notícias, descortinou-se o tamanho da tragédia: mais uma chacina em mais uma operação mal sucedida e mal explicada envolvendo as polícias civil e militar do Rio de Janeiro. Vinte e oito vítimas. Bem ao seu energúmeno jeito de ser, o despresidente do Brasil comemorou a ação e parabenizou em um tweet a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro pela “eficiência”.

    Enquanto acompanhava o terrível noticiário, lembrei-me de um documentário que assisti no final de 2020: “Auto de Resistência” (2018 – Roteiro: Juliana Farias e Natasha Neri e Direção: Lula Carvalho e Natasha Neri).

    Ao deparar-me pela primeira vez com o título do filme, um documentário sobre os homicídios praticados pela polícia contra civis no Rio de Janeiro, atribuí equivocadamente à palavra Auto, o sentido de saga, luta, até porque é uma palavra que também nos remete à dramaticidade do teatro. De imediato, lembrei-me de Ariano Suassuna e seu “Auto da Compadecida”. Auto: TEAT – Composição dramática medieval, dos séculos XV e XVI, vinculada aos mistérios e moralidades e talvez deles proveniente, em geral alegórica, de tema religioso ou profano, muitas vezes de argumento bíblico ou satírico, etc. Definições do dicionário Michaelis.

    O Auto do título do impactante documentário, no entanto, está relacionado aos Autos de Resistência, execrável subterfúgio jurídico para justificar e absolver os crimes praticados por policiais contra civis.

    Esclarecendo:

    Auto: JUR – Ato público destinado a cumprimento de imperativo legal ou ordens de autoridades constituídas. JUR – Narração escrita, circunstanciada e autenticada por tabelião, de ato ou diligência judicial ou administrativa, que se constitui em prova, registro ou evidência de uma ocorrência (também do Michaelis). É, portanto, uma palavra que faz parte do linguajar “juridiquês”.

    O Auto de Resistência não existe no nosso Código Penal. Porém, a sua execução tem respaldo no seu artigo 292, que diz: “Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas”. Sendo assim, quando um policial mata sem qualquer justificativa um “suposto suspeito” alega legítima defesa, que houve resistência à prisão e muitas vezes “monta” a cena do crime de acordo com a versão que lhe é conveniente. Esse tipo de ocorrência é registrada como “Auto de Resistência” e as testemunhas são os próprios policiais que participaram da ação. Dificilmente esses assassinos vão a julgamento. A impunidade fica oficializada logo nas primeiras audiências.

    Em seu estudo “Autos de Resistência: uma análise dos homicídios cometidos por policiais no Rio de Janeiro (2001-2011)”, o sociólogo Michel Misse, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro propôs o arquivamento de 99,2% dos casos de Auto de Resistência neste período, apesar de todas as evidências dos crimes apresentadas nas audiências preliminares.

    O que resta aos familiares dessas centenas de vítimas é a busca por justiça em todas as instâncias legais, até a exaustão física e mental. Organizam-se em torno de associações de vítimas e protestam nas ruas, onde passam a ser estigmatizados como “parentes de bandidos”. É uma saga pessoal em busca de justiça e porque não um “ato de resistência” contra a estigmatização social, essa marca cruel atribuída por um grupo social que se acha superior e que designa outro ser humano ou grupo social como desqualificado ou menos valorizado.

    Através dos personagens reais do filme “Auto de Resistência”, percebemos o quanto é difícil conviver com o estigma social de ser preto, pobre e favelado – além de “parente de bandido” – e clamar por justiça em um ambiente inteiramente hostil e pré-determinado a não interceder a favor dessa justiça. Essa hostilidade se expressa através de ironia, piadas preconceituosas, insultos verbais ou gestuais, humilhação pública, reações hostis ou violentas que caracterizam a perpetuação de estereótipos que orientam a primeira impressão de um indivíduo em relação ao outro.

    Os conceitos de racismo, preconceito racial e discriminação racial, estão claramente identificados na maneira como as audiências públicas iniciais sobre os crimes praticados por policiais contra civis são conduzidas. Em todos os casos apresentados, as vítimas são pessoas negras. Preto, pobre e favelado. O mais contraditório, é que em muitos desses casos, vítimas e algozes pertencem ao mesmo grupo racial e social. No entanto, as relações de poder os colocam em situações distintas, embora ambos sejam vítimas do racismo.

    Vários relatos no documentário, descrevem em detalhes a abordagem dos policiais “contra” as vítimas. Em linguagem policial, o ato de abordar é o primeiro contato do policial com o público. Tanto os atos de orientar ou esclarecer, quanto os de corrigir, prender ou investigar são formas de abordagem. A abordagem é entendida como a maneira pela qual um policial identifica, corrige, prende ou investiga um suspeito de vir a cometer ou ter cometido um crime ou infração.

    Porém, o que ocorre na maioria das abordagens policiais no Brasil é a “filtragem racial”, ou seja: a tática de mandar alguém parar por causa da cor da pele e uma vaga suspeita de que a pessoa esteja tendo um comportamento delitivo. E quando os órgãos do poder – nesse caso as instituições policiais – adotam a “filtragem racial” como forma de abordagem, se escancara o cruel e esdrúxulo racismo institucional, que ocorre basicamente quando uma organização ou estrutura social cria um fato social racial hierárquico a partir da adoção de tratamento diferenciado entre raças, de forma a privilegiar um indivíduo em detrimento do outro, sem qualquer respaldo legal.

    Essa é a origem nefasta de todas as incontáveis tragédias sociais tipificadas pela relação “poder estabelecido x população civil” que se multiplicam pelo Brasil inteiro, onde as milhares de vítimas são sempre “pobres, pretos e favelados”.

    Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, apontam que em 2019 ocorreram 6.357 mortes por intervenções policiais e no primeiro semestre de 2020 foram 3.203. Do total de vítimas, 99,2% eram homens, sendo 79,1% de negros e 74,3% de jovens até 29 anos.

    Chegamos ao final do primeiro semestre de 2021… e contando.

     Recomendo “Auto de Resistência – O Filme” e me perdoem qualquer spoiler.

    (https://drive.google.com/file/d/1eYsyahexwJJVek7Uh0Gm-peNNkZ4kaaB/view?usp=sharing)

    * Autores: Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette – Intérprete: Elza Soares

  • TODO TREINADOR BRASILEIRO É UMA BESTA QUADRADA

    Assistir futebol na TV durante essa reclusão que já dura um ano e alguns dias, não tem sido fácil. Sozinho com minha cerveja, fico a lembrar das discussões intermináveis entre a turma que se reunia aqui em casa para assistir jogos do Flamengo, independente da importância. O arranca-rabo começava no pré-jogo, avançava pelo jogo e continuava no pós-jogo. A discussão pós-jogo, via de regra invadia a madrugada e só acabava quando as esposas ou namoradas ameaçavam abandonar os bebuns ao relento. Como isso me faz falta! Um dia a gente volta.

    Em várias de nossas saudosas “Mesas Quadradas” ou algo que o valha, em que ninguém se entendia, aqui e acolá – muito raramente é bom que se diga – alguma discussão chegava a um consenso.

    Apresento os participantes mais efetivos daquelas efusivas “Mesas Quadradas”:

    Eu – Simplesmente o “Maior Entendedor de Futebol do Mundo”, segundo eu mesmo.

    Túlio Filho (filho) – O mais bem informado. Só quer ser o PVC (Paulo Vinícius Coelho, um comentarista chato da Sportv, ex-ESPN) da turma.

    Neto Falcão (primo) – O mais “zuadento”. Não diz coisa com coisa e acha que tem sempre razão.

    Deppe (irmão) – O mais teórico e “Maria Vai Com as Outras”. Tem o dom de concordar e discordar de todos ao mesmo tempo.

    Marcelo Cerqueira (amigo) – O mais desinformado. Ainda acha que Val Baiano joga no Flamengo.

    Caio Valério (irmão) – Detesta discussão de futebol, mas tem que aguentar pra não perder a farra.

    Convidados eventuais:

    Luiz Costa (primo) – Não deixa ninguém falar e não consegue completar um raciocínio. É vascaíno e mora em Mossoró.

    Luiz Antonio (primo) – Àquela época, morava em Rio Branco-AC. Hoje mora no circuito Mossoró-Ponta do Mel. A paz é o seu lema e tem plena convicção de que a Série B faz bem a algum time. É vascaíno. Tá explicado.

    Pois bem. Vamos ao tema que gerou um raro consenso: “Pelos jogadores talentosos que possui, o Brasil deveria chegar a todas as finais de Copa do Mundo”. E porque não chega? Respondo eu: porque todos os treinadores brasileiros são umas bestas quadradas. São teimosos ao extremo, adoram topar de frente com as unanimidades e estão sempre comprando briga com a imprensa especializada.

    A seguir, um resumo rápido das principais “bestices” dos treinadores brasileiros a partir de 1974 e que custaram a conquista de títulos:

    Copa do Mundo de 1974 (Zagallo): Foi Campeão em 70 aproveitando a convocação de João Saldanha. Quando teve que fazer a sua própria convocação, se perdeu completamente. Conseguiu desperdiçar uma geração espetacular que contava com: Rivelino, Jairzinho, Carpegianni, Luis Pereira, Leão, Nelinho, Marinho Chagas, Leivinha, Paulo César Caju e tantos outros. Convocou mais de “300” jogadores e não formou um time.

    Copa do Mundo de 1978 (Cláudio Coutinho): O pai do overlapping. Tinha uma grande seleção em mãos, mas cismou em colocar Edinho (zagueiro) de lateral esquerdo e Toninho (lateral direito) de ponta direita.

    Copa do Mundo de 1982 (Telê Santana): A melhor seleção brasileira depois da de 70, mas Telê resolveu bancar o “frangueiro” do Valdir Perez (goleiro) e o maluco destrambelhado do Serginho (centroavante) como titulares.

    Copa do Mundo de 1986 (Telê Santana): Essa Copa foi muito estranha. Telê assumiu em uma emergência, apelou para a experiência da turma de 82 para classificar o Brasil nas eliminatórias e para tumultuar ainda mais o ambiente, aconteceu a deserção de Leandro e o corte de Renato Gaúcho na hora do embarque para o México. Zico à meia boca também atrapalhou muito. E aquela derrota nos pênaltis para a França foi de lascar! Dá pra livrar – mais ou menos – a cara do mestre nessa.

    Copa do Mundo de 1990 (Lazaroni): Jumento foi quem chamou um jumento para treinar a Seleção Brasileira. Surgimento da “Era Dunga”. Precisa dizer mais?

    Copa do Mundo de 1998 (Zagallo): “Ói ele aí travez” fazendo lambança. Corte de Romário. “Piripaque” de “Ronalducho” antes da final (boto ou não boto?) e… Júnior Baiano!

    Copa do Mundo de 2006 (Parreira): Bancou a “Farra do Hexa” com o “Quadrado Mágico”, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e Adriano (os dois últimos visivelmente acima do peso) e não tinha opções no banco de reservas. E ainda teve o “meião” do Roberto Carlos na derrota para a França. Dizem que ele estava seguindo instruções de Parreira: “Henry não era o meu homem”. Pois diga!

    Copa do Mundo de 2010 (Dunga): Felipe Melo. Precisa dizer mais alguma coisa?

    Copa do Mundo de 2014 (Felipão): A única jogada ensaiada da “Selecinha de Felipão” era: “bola no Neymar e seja o que Deus quiser”. O goleiro titular era reserva no Toronto do Canadá. Confiava demais no maluco do David Luiz e os reservas Dante e Henrique não jogavam nem no Íbis. E convocou Jô! Não tinha Neymar para a semifinal contra a Alemanha e escalou Bernard “alegria nas pernas” para conter o avanço dos laterais alemães. 7 a 1 foi pouco.

    Copa do Mundo de 2018 (Tite): Mais uma vez o Brasil dependia quase que exclusivamente do talento de Neymar. Acabou caindo para a Bélgica nas quartas de final. Mas de acordo com o “Empatite”, naquele dia o Brasil fez a melhor apresentação sob o seu comando. E Neymar acabou virando motivo de chacota mundial por causa do gasturento “cai cai”.

    Até 22. Se houver.

  • FUTEBOL, NOMES, PRONÚNCIAS, VARIAÇÕES E CONSTRUÇÕES – Eita povo criativo!

    Uma das maiores contratações do Flamengo em 2020, Michael — leiam como quiser — foi eleito revelação do Campeonato Brasileiro de 2019 jogando pelo Goiás. O baixinho invocado infernizou a vida dos zagueiros adversários naquele longínquo 2019. Inclusive os do super campeão Flamengo. Mas até agora o endiabrado ponta não justificou sua contratação milionária. Só conseguiu mesmo foi provocar muita raiva no torcedor rubro-negro. Os experts argumentam que ele não rende no Flamengo o que rendia no Goiás por causa do estilo de jogo. O Flamengo é um time ativo e o Goiás é reativo. O Flamengo marca em cima e o Goiás marca em baixo. O Flamengo joga na pressão alta e o Goiás na pressão baixa. O Flamengo varia muito nas posições e o Goiás é mais conservador. Muita lascívia presente nessas alegorias estilo-ludopédicas.

    Essa dificuldade de adaptação a um novo esquema de jogo ou posição, só mostra o quanto o jogador brasileiro vem se tornando cada vez mais limitado a um determinado posicionamento em campo. O craque “fulano de tal” só é craque se jogar no quadrante milimétricamente traçado dentro dos 90m x 120m de um campo de futebol. Mexeu para um lado ou para o outro vira um perna de pau. “No tempo que Don Don jogava no Andaraí” (Dudu Nobre), ser um jogador polivalente (jogar em todas) era uma qualidade. Agora, em tempos de futebol posicional (mais uma dos experts) prevalece a máxima: “quem joga em várias posições não joga bem em nenhuma”.

    Voltando ao posicional e limitado territorialmente Michael. Além do futebol empolgante apresentado no Goiás, o que mais me chamou atenção no jogador à época foi o seu nome, sua grafia e pronúncia. É “Maiquel” ou “Michael” com o “ch” com som de “ch” mesmo? A pronúncia que temos ouvido para o seu nome é a segunda. Mas, quem garante que a pronúncia correta do nome do jogador é “Michael” com o “ch” com o som de “ch”? Se quem registrou o menino não queria que o chamassem de “Maiquel” porque resolveu registrá-lo com o nome de Michael como Michael Jackson? Daria certo “Mixael”? Não. Iriam acabar chamando-o de “Micsael”. Eu seria um. “Mijael”? Ficaria esquisito, né não? E por que não, simplesmente Michel? Ora! Mas se podemos complicar, pra que simplificar? E além do mais, desperdiçar a sonoridade do “aaaaaa”? Michaaaaaael!!! E Miguel? Vôts! Nem pensar! Simples demais.

    Anos atrás, outro jogador que fez muito sucesso foi o Maicosuel. Ainda deve tá jogando por aí em algum time de menor expressão. Nome legal e original. Seus pais não quiseram complicar a vida do funcionário do cartório na hora do registro, então resolveram aportuguesar o inglês ou escocês (há controvérsias) Maxwell. Lá em Mossoró, tenho um amigo que se chama Max Suel. Acabou virando Suel.

    Sempre que me deparo com essas construções vocabulares, principalmente em nomes próprios, me lembro do meu amigo Nicéias, que fez a viagem antes da hora e já está com os bons há alguns anos.

    Nicéias era um comerciante muito bem-sucedido lá de Mossoró. Apaixonado por futebol, torcedor do Baraúnas e do Botafogo, sua loja de roupas (que depois se transformou em loja de tudo), a Casa Rinaceas, sempre foi um sucesso de vendas no comércio mossoroense. Mas “peraí”! Rinaceas?! O que significa Rinaceas? De onde Nicéias tirou esse nome? Depois de alguns anos de amizade, descobri que o nome é originado da junção das últimas silabas do nome de sua esposa Severina (rina) e de uma adaptação das duas últimas sílabas do seu (ceas). E se pronuncia “Rinacéas”, com o “e” agudo. Mas bem que poderia ser “Rináceas”, com o “a” agudo. Sempre criativo com nomes, Nicéias tem duas filhas: Rosimary e Rosimary. Isso mesmo. Os nomes são iguais na certidão de nascimento. Só que uma se chama “Rosimare” e a outra “Rosimére”. Ou “Máre” e “Mére”. Arretado demais, né não?

    Aí meu amigo Aguiar, José Aguiar do Nascimento, tem um irmão que se chama… José Aguiar do Nascimento. Como a gente diz lá em Mossoró: “Eu se abro com um negócio desses”.
    Anos atrás, prestei serviços em uma faculdade em Natal e na manutenção do cadastro de alunos me deparei com algumas pérolas: Leididai, Shirley Maquilaine, Rodistuarte, Mica Raquinen.

    E ainda tem a mistura de dois ou mais nomes para formar outro: Franciscleide (Francisco + Cleide), Marcicleo (Márcio + Cleonice), Marivaldo (Maria + Osvaldo), Darlete (Darlan + Arlete), e por aí vai.

    Quem me conhece e conhece a história da família de Chicoliveira e Maria do Socorro (papai e mamãe), há de pensar enquanto lê esse texto: “olha só quem tá falando de nomes próprios esquisitos”. Pois é. Tenho cinco irmãs e todas se chamam Mirian. Mirian Gratia Plena, Mirian Stela Maris, Mirian Regina Coeli, Mirian Veraclides e Mirian Magdali, todas com sobrenome Oliveira Costa. Veraclides e Magdali eu acho que são únicas no mundo.

    Eu sou Marco Túlio Cícero (filósofo da Roma Antiga). Meus irmãos, Caio Valério Catulo (poeta da Roma Antiga) e Ângelo Giuseppe Roncalli (Papa João XXIII), os três com sobrenome Costa Oliveira. A inversão dos sobrenomes, segundo Chicoliveira autor do artifício, seria perpetuar o seu sobrenome.

    Quando uma das mulheres casasse, não correria o risco de perder o Oliveira na hora de adotar o nome de casada.

    Chicoliveira é uma criação de Francisco das Chagas Oliveira. Como não gostava da sonoridade de Chico Oliveira separados, resolveu oficializar a pronúncia Chicoliveira como alcunha.

    Marco Túlio Cícero é jornalista

  • A MINHA SÉRIE É MELHOR QUE A SUA

    Devo admitir que nunca fui bom em indicar séries. Minhas indicações são sempre ignoradas e/ou ironizadas nas conversas e debates familiares, entre amigos e grupos de whatsapp.

    Em tempos idos, com o surgimento da TV por assinatura, assistíamos séries dos canais HBO, Sony, Warner, AXN, etc. O primeiro grande “hit” de que me lembro foi a série Lost, que só tive a curiosidade de assistir a um episódio, porque disseram que havia uma participação relâmpago e hilária de Rodrigo Santoro. Achei uma tremenda maldade com o ator brasileiro de carreira internacional. Sua participação não foi tão relâmpago e nem tão hilária assim. Acho até que ele se saiu bem. Lost passava no canal AXN. Nesse mesmo canal eu assistia e gostava de Alias, série de espionagem e aventura com a belíssima Jennifer Garner. No entanto, quando tentava falar alguma coisa sobre a série era imediatamente cortado: “uma chatice”. Na Warner, eu curtia as bobagens de The Big Bang Theory (bobagem + ciência) e Two and a Half Men, onde Charlie Sheen fazia o papel dele mesmo. Essas aí eu nem me arriscava a comentar, para não ser chamado de “abestado”. “Abestado”, de acordo com os “entendidos em série” é a pessoa que assiste séries de comédia. Nunca entendi o preconceito.

    Então veio o mega sucesso e mega premiado Game of Thrones, da HBO. Meu filho conseguiu me convencer a assistir. Uma história estapafúrdia, com milhares de personagens, onde ninguém se entende ou consegue distinguir entre amigos e inimigos, parentes ou não parentes, cheia de mortes violentas, torturas inomináveis e… dragões. Desisti quando no último episódio de uma temporada, durante um casamento para selar a paz entre inimigos, todos os presentes na festa mataram-se uns aos outros. Morreu mais gente do que em todos os Rambos juntos e ainda 300 — A Ascensão do Império de lambuja. Nessa época eu assistia Mad Men, série sobre o mercado publicitário americano entre os anos 50 e início dos 70. “Como é que você assiste uma chatice dessas?!”, se espantavam os “entendidos”, para quem as únicas séries não chatas são as que eles assistem e indicam.

    Cabe aqui esclarecer que: uma série (ex. Game of Thrones) tem como principal característica a continuidade, ou seja, existe um “gancho” entre um episódio finalizado e o próximo a ser exibido e essa narrativa sequenciada se estende por uma temporada ou até a temporada final. Já o seriado (ex. franquia CSI) é classificado como uma narrativa que pode ser concluída em apenas um episódio. As histórias são eventos que se resolvem rápido.

    Dito isso, vamos encerrando por aqui esse interlóquio, porque são centenas de séries e seriados a serem comentados (clássicos como: Friends, as franquias CSI, Law & Order, Criminal Minds, séries sobre hospitais como Grey’s Anatomy, The Good Doctor, Chigago Med e outras tantas) e o tempo urge. Avancemos pois, até a chegada dos serviços de streaming no Brasil e a overdose de séries provocada pela Netflix a partir de 2011. À guisa de informação, streaming (transmissão) é a tecnologia de transmissão de dados pela internet, principalmente áudio e vídeo, sem a necessidade de baixar o conteúdo.

    Aí o bicho pegou! Ficou impossível para uma pessoa normal — do tipo que mantém uma rotina diária de trabalho, estudos, lazer e que dorme e acorda nos horários recomendados pela ciência — acompanhar tantas séries e seriados disponíveis. Daí surgiu — assim acho eu — o termo “maratonar uma série”. Ou seja, passar horas, dias e noites, semanas e meses grudado em frente à TV até “os’ói ficar quadrado”, para assistir de uma cacetada só todas as temporadas de uma série famosa e super indicada.

    Com o advento do estreaming, as indicações de “melhor série de todos os tempos” se multiplicaram de forma absurda. Até porque no rastro da Netflix, outros serviços passaram a operar por aqui: HBO Go, Globoplay, Amazon Prime, Apple TV. Ultimamente tenho recebido indicações de algumas séries dessas outras operadoras. Como acatar essas indicações, se não consigo dar conta nem de 1% do conteúdo da Netflix? Não é à toa, que de tanta coisa ruim que comecei a assistir e não terminei, o “pau que mais tem” — como a gente diz lá em Mossoró —, no meu histórico da Netflix é: “Continuar assistindo como Marco Túlio”.

    E cada pessoa que indica, o dito “entendido em série”, defende a sua ou suas séries com unhas e dentes. E de nada adianta você contra-atacar com outra. Recebe logo o clássico: “uma chatice”.

    Vamos em frente, porque em 2017, quando o serviço de streaming já estava plenamente consolidado no Brasil, o mundo conheceu e se apaixonou pela espanhola La Casa de Papel. Não parei para pesquisar, mas acho que foi a série da Netflix de maior repercussão, pelo menos até aquele momento. Série premiadíssima no mundo inteiro, sucesso de crítica e audiência incontestáveis. Por insistência dos “entendidos” resolvi encará-la, ainda que com um pé atrás. Trata-se de uma história completamente inverossímil e com um roteiro tão sem eira e nem beira, que ao invés de drama policial a série poderia ser classificada como realismo fantástico. Nada contra — que fique claro — esse gênero artístico/literário maravilhoso e que nos remete ao querido Ariano Suassuna. A verdade é que a muito custo consegui chegar ao fim da primeira temporada de La Casa de Papel, porém com interesse zero nas temporadas seguintes.

    O que de pior essa série conseguiu deixar como legado foi transformar e popularizar “Bella Ciao” — uma clássica canção popular italiana, cuja melodia foi usada para a música de protesto que se tornou símbolo da Resistência Italiana contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial — na “música de La Casa de Papel”. E pra completar a desgraça, “Bella Ciao” ainda ganhou uma versão brasileira através do funk de um tal MC MM, cujo significativo e poético título é “Só Quer Vrau”, e traz essas maravilhas de versos: Essas malandra/Assanhadinha/Que só quer vrau, só quer vrau/Só quer vrau, vrau, vrau/Vem pra favela/Ficar doidinha/Então vem sentando aqui (Senta aqui, senta aqui, vai)”. Desgraça pouca é bobagem.

    No entanto, sobrou algo de bom em ter visto La Casa de Papel: várias indicações para séries em línguas espanholas. Tá lá no histórico: “Porque você assistiu a La Casa de Papel”. Aí fui apresentado a: La Casa de Las Flores — comédia e drama (mexicana), Las Chicas del Cable drama de época/anos 20 (espanhola), O Tempo Entre Costuras drama de guerra (espanhola), Alto Mar suspense de época/anos 40 (espanhola), Velvet drama e comédia de época (espanhola). Excelentes séries, mas que não me arrisco a indicar a algum “entendido” pra não correr o risco de ouvir pela enésima vez, mais um: “uma chatice! Boa mesmo é…”.

    Mas, se o caríssimo leitor e a caríssima leitora quiserem arriscar, fica a dica.

    PS: Não quis citar os seriados que assistia quando criança logo que surgiu televisão em Mossoró (pelo menos na minha rua) no início dos anos 70 (Bonanza, Daniel Boone, Speed Racer, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar e outros), porque esse artigo corre o risco de ter que ser publicado em série de tão longo.

  • ARENA NOGUEIRÃO PADRÃO FIFA

    Como já é de praxe no futebol mossoroense em todo início de Campeonato Estadual, o nosso depauperado Nogueirão será submetido à rigorosa vistoria por parte das autoridades bombeirísticas, ludopédicas, ecumênicas e eclesiásticas às vésperas da estreia dos nossos clubes, isto é, clube, na competição. Em 2021, mais uma vez, apenas o Potiguar. O Baraúnas rebaixado em 2018, parece que fechou as portas em definitivo e não existe perspectiva de voltar a disputar a Série A do nosso “estadualzinho” de José VENALdo, digo, Vanildo, via disputa da Série B. Lamentável. Esse ano, mais uma vez não acontecerá o maior clássico do futebol mundial: o POTIBA. É a mesma coisa que o Campeonato Espanhol sem Real Madrid X Barcelona.

    Mas voltemos ao nosso histórico e maltratado Nogueirão. O presidente do Potiguar, Benjamin “Button” Machado, depois de acompanhar o alvirrubro em seu périplo ludopédico por todo o estado do RN, a fim de cumprir os seus jogos com mando de campo durante o Estadual 20 e Série D, bateu o pé: “Sem o Nogueirão, o Potiguar não joga o Estadual 2021”. O jovem e recém empossado prefeito mossoroense foi categórico: “O torcedor pode ficar tranquilo: o Nogueirão vai voltar a ser o Nogueirão que tanto orgulha o povo mossoroense”, repetindo a célebre promessa pregressa de Dra. Rosalba no longínquo ano de 2012, quando era governadora. Não custa lembrar, que o Estadualzinho já começa no dia 24/02.

    Num hercúleo esforço jornalístico, tive acesso ao documento que contém todas as exigências necessárias à liberação do nosso querido estádio para as disputas da nossa principal competição pebolística. São pendências bobas, coisinhas simples, que com um pouquinho de boa vontade política e disposição do próprio Potiguar, já deveriam ter sido solucionadas há tempos. Se começar hoje dá pra ficar pronto antes do carnaval. Vamos a elas:

    1. Elevadores e escadas rolantes para acesso às arquibancadas, camarotes e tribunas de honra;
    2. Arquibancadas cobertas com teto retrátil;
    3. Um extintor de incêndio para cada dois torcedores;
    4. 36 saídas de incêndio anti-tumulto devidamente sinalizadas em neon fosforescente (existe isso?);
    5. Ar condicionado central nas arquibancadas, camarotes e tribunas de honra, para que os torcedores e autoridades não morram de calor;
    6. Catracas eletrônicas com identificação biométrica e visual;
    7. Revista eletrônica e automática para detecção de armas de fogo e outros apetrechos letais;
    8. A iluminação deve seguir os seguintes padrões: a quantidade de lux precisa ser igual em todas as partes do gramado. A luminância no plano vertical acima de 2 mil lux e no horizontal, superior a 3,5 mil lux;
    9. A grama deve ser do tipo Bermudas (cynodon dactylon) ou Esmeralda (zoysia japônica) e deve conservar uma altura entre 25 a 30 milímetros;
    10. Banheiros climatizados com pias e descargas automáticas;
    11. Chuveirinho com água morna para não irritar o fiofó dos torcedores com papel higiênico Neve;
    12. Quatro telões de alta definição para que os jogadores possam se ver e arrumar os cabelos desalinhados (CR7, lembram dele?).
    13. Estacionamento subterrâneo para 46.350 veículos;
    14. E finalmente, o plantio de 150 palmeiras imperiais importadas de Portugal ao redor do estádio, pra ele ficar mais bonitinho.

    São só essas besteirinhas. Ou isso ou daqui a duas semanas, o Potiguar vai ter que mandar seus jogos no majestoso estádio Edgar Borges Montenegro, em Assu.

  • CARTA ABERTA AOS “PETRALHAS”

    Caríssimas e caríssimos “petralhas”! Calma! Muita calma nessa hora. Não se irritem com o epíteto. Estamos juntos nessa. Também sou um “petralha”. E a intenção desta carta é exatamente essa: tranquilizá-los em relação à maneira simpática pela qual somos tratados por indivíduos do “outro lado”. É verdade. Acho esse apelido muito simpático, pouco agressivo e em nada me incomoda.

    “Petralha” é um neologismo criado pelo jornalista político ultraconservador Reinaldo Azevedo (ex-blogueiro da ridícula Veja e atualmente colunista do UOL do Grupo Folha) a partir da contração das palavras petista e metralha. Uma alusão aos cativantes personagens “Os Irmãos Metralhas” idealizados por Carl Barks em 1950 e incorporados ao universo lúdico das histórias em quadrinhos de Walt Disney em 1951.

    Desde os primórdios, o único propósito dos atrapalhados irmãos em suas aventuras é tentar espoliar qualquer fração – por mínima que seja – da incalculável fortuna do muquirana capitalista selvagem, Tio Patinhas. E apesar de permanentemente caracterizados com roupas de presidiários e numerados com variações e combinações dos números 1, 6 e 7, “Os Irmãos Metralhas” não possuem histórico de grandes maldades em suas peripécias “robinhoodianas” em busca de justiça social.

    Então, meus caros. Não estraguem o seu humor ou fiquem injuriados, quando algum do “outro lado” imaginar que está praticando a maior das ofensas, ao chamá-los de “petralhas”. Relaxem. Eu próprio há muito que já me considero um “petralha” de ótima cepa.

    E não tenham dúvidas: em matéria de criatividade na hora de produzir neologismos ou apelidos, estamos anos-luz à frente dos nossos adversários. Tem coisa mais linda do que “tucanalha”? Tucano + canalha. Isto sim! É forte, direto, inapelável. Diz a que veio. “Tucanalha” não tem um autor específico. É uma criação coletiva dos militantes petistas.

    E o que dizer de “coxinha”? “Coxinha” é uma delícia. Literal e figurativamente. O “tucano-coxinha” é uma variante marombada dos “mauricinhos” da época de Collor, que adoravam se exibir em público com suas camisas polo Lacoste, bermudas Hugo Boss e mocassins de couro de crocodilo Salvatore Ferragamo e sempre carregando um copo de uísque Logan nas mãos. Quando o nosso principal inimigo ainda eram os tucanos, ser chamado de “coxinha” provocava um efeito devastador sobre os do “outro lado”. Eles alcançavam os píncaros da irritação e nos questionavam enfurecidos: “por que coxinha?!”. É óbvio que nunca tivemos nenhuma obrigação de esclarecê-los. Se quiser que vão no google.

    Todavia, confesso que chego a sentir saudade dos “coxinhas”, diante da virulência dos seguidores do acéfalo que assumiu a presidência do Brasil em 2019, Para esses —  exemplarmente alcunhados de “bolsominions” — qualquer sujeito contrário aos seus ideais de extrema direita é considerado um “esquerdopata” e deve ser exterminado da face da terra. Qualquer conceito relacionado à esquerda é associado a uma doença, uma psicopatia. Portanto, na atual conjuntura política do Brasil, até um “tucano-coxinha” pode ser taxado de “esquerdopata”. Não à toa, FHC, um ícone do neo-liberalismo tupininquim é tratado por eles como um comunista “feladaputa”.

    Em tempo: “Bolsominion” é uma junção de bolso (de Bolsonaro) com minion (do inglês: servo, lacaio). No filme “Meu Malvado Favorito” os minions são os ajudantes do super vilão Gru em seu plano maquiavélico de roubar a lua. Nada mais perfeito.

    Portanto, relaxemos e sobrevivamos, caríssimas e caríssimos. E asseguro-lhes: além de petistas, “Lulistas”, “Dilmistas”, “petralhas“, “comunistas comedores de criancinhas”, “bolivarianos desgraçados”, “vermelhos malditos”, “esquerdopatas” ou algo que o valha, nós também somos um bando de “fodásticos”. Muito “fodásticos”! Foda + fantásticos. Maravilha de neologismo, né não? Só não sei de quem é a autoria.

    Saúde e paz!

    Marco Túlio Cícero é jornalista

  • TEXTÍCULOS

    1 – NÃO SONHO MAIS

    “Foi um sonho medonho / Desses que, às vezes, a gente sonha / E baba na fronha e se urina toda e quer sufocar” – Chico Buarque

    Não lembro se sonhei ou se li por aí, que o isolamento social perturba nossos sonos e sonhos. Também não lembro de ter sonhado algo digno de boas recordações durante esse longo período de reclusão. Um sonho daqueles que você acorda doido pra contar para alguém, sabe?

    Tipo assim: Sonhei que estava naquele vídeo do “Quintal do Zeca” tocando tamborim acompanhando Roberta Sá em “Água da Minha Sede”. Sonhei que jogava no Politeama de Chico Buarque, dava um passe genial para um gol seu, ganhava um abraço e depois do jogo íamos encher a cara de cerveja e cantar até o sol raiar e “desraiar”. Sonhei que era convidado de Bela Gil, comia e adorava churrasco de melancia e ouvia o tradicional conselho: “você pode substituir a cerveja Nova Schin por uma cerveja artesanal”, antes de degustar uma bela taça de cerveja de sua produção. Sonhei que escrevia poemas no corpo nu de Paolla Oliveira tal e qual aquele sortudo do filme “Budapeste” baseado na obra de Chico Buarque. Sonhei que mandava uma música minha pro Gilberto Gil e ele gravava. Sonhei que o Potiguar era campeão brasileiro da Série A.

    No entanto e por enquanto, só sonho medonho como na música do Chico. Outro dia “pesadelei” que estava no meio de um tiroteio e tentava me defender usando apenas uma folha de papel A4 cobrindo o rosto. De ontem pra hoje sonhei que estava no meio de um filme de zumbis e matava mais de 300. Logo eu que detesto filmes de zumbis. Definitivamente, o sonho acabou.

    2 – CADA QUAL COM SEU CADA QUAL 

    Mossoró. Ano de 1985. Sábado por volta das onze da manhã, numa lanchonete próxima a agência centro do Banco do Brasil, onde funcionava a “Câmara de Compensação de Cheques do Interior”. Eu e um padre amigo meu. Discussão acalorada sobre os dogmas e princípios da Igreja Católica, celibato, inquisição, a fortuna do Vaticano. Aproxima-se um amigo em comum vindo do banco. Olhos vermelhos, olheiras profundas, ar de cansaço, encosta no balcão e pede um copo de café forte, pegando fogo e sem açúcar. “Tô pregado! Quase doze horas no ar. Dei uma saidinha pra esticar as pernas. A porra da compensação de ontem não fecha nem no cacete”. Meu amigo padre e eu ficamos solidários e encerramos a discussão. O problema do nosso amigo era bem mais sério do que o nosso.  

    3 – A LUA É DOS NAMORADOS E ENAMORADOS. 

    Sábado à noite. Maridão esparramado no sofá sorvendo os últimos goles da antepenúltima latinha de cerveja do cooler, vendo qualquer coisa na TV. Esposa na varanda do aconchegante apartamento com vista para o mar, esperando algo que nem ela sabe o que é. Noite linda lá fora. Lua maravilhosa. Um convite à paixão. Quase suspirando ela chama: “Amor, vem ver que lua linda!”. Ele impassível: “Pra que ver lua? Eu não sou astronauta!”. Ela sai da varanda, atravessa a sala quase tropeçando nas pernas esticadas do marido e vai para o quarto. Essa noite ela vai sonhar com o romântico e arrebatador namoro de trinta anos atrás, quando passavam a noite em claro e para saciar a loucura faziam borbulhas e silhuetas de amor à luz da lua. 

    4 – GENTILEZA GERA GENTILEZA 

    Em um certo dia – alguns séculos atrás, ainda na era pré-pandemica – estava em um coletivo com destino à Av. Maria Lacerda, quando adentrou um casal de jovens. Não havia nenhuma parelha de assentos desocupados para que eles pudessem sentar lado a lado. Então a menina sentou-se no assento à minha frente e o garoto sentou-se ao meu lado. Imediatamente, ela virou-se e de joelhos no assento começou a conversar com o companheiro de viagem. E eles conversavam, riam, ele tocava no rosto dela, ela no dele e esse bate-papo, alegre, mas um pouco desconfortável, seguiu-se por uns 5 minutos. Foi aí que eu falei pra menina: “Sente aqui. Venha ficar ao lado do seu namorado”. Ela começou a rir e falou: “Não é meu namorado, não. É só meu amigo”. E eu: “Tudo bem. Mas vamos trocar de lugar”. Ela agradeceu com um sorriso maior ainda e trocamos de lugar. Logo que sentou-se ao lado do amigo – ou namorado – ouvi os dois cochichando meio espantados: “Você viu isso? Ele se ofereceu pra trocar a cadeira!”. “Nunca vi isso em um ônibus”. Eu ri, feliz da alegria daqueles dois. Desci primeiro, ainda com um sorriso no rosto e eles seguiram na sua divertida viagem. Quem sabe, uma viagem de uma vida inteira. Que sejam felizes, como casal de namorados ou de amigos e que encontrem muito mais gentileza pelo caminho. Afinal, gentileza gera gentileza. E faz muito bem à saúde.

  • JANGO OU DJANGO?

    Dias atrás, assisti pela… nem me lembro mais quantas vezes, o documentário Jango (Ano de Produção: 1984) de Sílvio Tendler. Mais do que recomendado para quem, nesses tempos sombrios, precisa conhecer a história política do Brasil e do golpe militar. Vez por outra é reprisado no Canal Curta!.

    Esse documentário de sucesso, que refaz a trajetória política do presidente João Goulart deposto pelo golpe militar de 64, tornou-se a sexta maior bilheteria do gênero no Brasil, levando mais de 500 mil pessoas às salas de cinema.  

    Lá atrás, em meados de 1985, já havia lido sobre o filme quando soube que o mesmo chegaria a Mossoró. Iria “passar” no Cine Cid, do grupo Rosado. Nessa época, os únicos documentários que atraíam a atenção do público eram os do Canal 100, cinejornal produzido por Carlos Niemeyer que apresentava imagens espetaculares dos grandes clássicos do futebol brasileiro.  Chegar atrasado no cinema e perder o Canal 100 (exibido antes dos trailers que antecediam a exibição dos filmes) significava jogar metade — ou mais — do dinheiro do ingresso fora. Mas vamos ao que interessa.

    Na noite da primeira sessão, quando me aproximo do Cid já percebo uma fila enorme para comprar ingresso. Na bela fachada do cinema, o nome JANGO. Pensei: será que esse povo todo tá pensando que é um bang-bang de Django? Na fila pra comprar ingresso encontro alguns amigos e pergunto curioso: porque tanta gente pra assistir um documentário político? Outra pessoa que estava na fila é quem responde eufórico: “Rapaz! Tá sabendo não? Aparece Dix-Huit nesse filme!”. A mídia mossoroense já havia alertado a população sobre essa aparição. Pois é. Aquela multidão, animada que só pinto em beira de cerca pra lotar o Cine Cid, estava ali pra ver Dix-Huit.

    Enquanto assistia o documentário na TV, me lembrei desse episódio e então tive a curiosidade de cronometrar as aparições do famoso político mossoroense no filme, que começa com imagens da visita do então vice-presidente João Goulart à China em Agosto de 1961. O então senador Dix-Huit Rosado fazia parte da comitiva.

    O documentário de Sílvio Tendler em sua versão completa está no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=SaU6pIBv9f4) e mais uma vez recomendo. Enquanto realizava a minha minuciosa pesquisa, me vieram a mente as reações do público mossoroense durante aquela histórica projeção no Cine Cid:

    Minuto 1:06: Dix-Huit caminhando entre os membros da comitiva. O cinema quase vem a baixo: “DIZUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!”. Durou 1 segundo.

    Minuto 1:33: Dix-Huit caminhando entre os membros da comitiva. “´DIZUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!”. Essa foi mais marcante: 2 segundos.

    Minuto 1:41: Dix-Huit caminhando (só dá pra perceber que é ele por causa da altura) entre os membros da comitiva em visita ao Museu Nacional da China. “DIZUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!”. Aí um sujeito do meu lado perguntou para o vizinho: “Você viu?”. E o vizinho: “Era aquele grandão”. E outro desolado: “Carái! Perdi!”. Durou 1 segundo

    Minuto 1:50: Mais uma vez: “DIZUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!”. O recorde: 3 segundos.

    Minuto 2:02: Aí foi diminuindo: “DIZUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍ!!!!”. 2 segundos.

    Minuto 2:13: “É DIZUÍÍÍ”. 1 segundo.

    Minuto 2:18: “DIZUÍ”. 1 segundo.

    Total: 11 segundos. E foi esse o tempo que durou a fulgurante participação de Dix-Huit em Jango. Mas, justiça seja feita, aos 49 anos e do alto (literalmente) dos seus 2 metros (ou mais) de altura, Dix-Huit era a cara de John Wayne.

    A partir daí começa a narrativa sobre a história de João Goulart e do golpe militar. E começa o buchicho: “É só isso?”, “Cadê Dizuí?”, “Filme bosta”, “Perdi meu dinheiro”, “Me pega mais não, carái!”, “E ainda é preto e branco!”. Com dez minutos, metade do público já tinha ido embora, com vinte só restavam eu e mais uns 15 gatos pingados.

    No dia seguinte, cinco ou seis pra comprar ingresso. Não teve terceiro dia. Jango saiu de cartaz.

    No final de semana seguinte, para diminuir o prejuízo, os donos do cinema resolveram reprisar o clássico dos anos 60 de Sergio Corbucci e já na sexta-feira a bela fachada do Cine Cid trazia: DJANGO COM FRANCO NERO.

  • O GRILO E EU

    Cricricri, faz o grilo
    quando quer, quando quer namorar
    É por isso que eu queria ser um grilo
    e cantando te acordar

    Trecho da música “Grilo Seresteiro” de autoria de Estanislau Silva, Arlindo Júnior e Roberto Roberti. Esses três sujeitos deviam estar pra lá de “lombrados” quando tiveram a brilhante ideia de homenagear com uma música, um bicho chato que só a “mulesta”. E em 1958 essa piada de mau gosto foi gravada por ninguém mais, ninguém menos do que Nelson Gonçalves, o Rei do Rádio. É mole!? Quem “diabos” em seu juízo perfeito, gostaria de ser acordado(a) ou perturbado(a) pelo cantar intermitente de um grilo? Eu que o diga.

    Essa é uma história pré-pandêmica e de antemão deixo claro que foi legítima defesa: era eu ou o grilo.

    Um belo dia, aliás, uma bela noite dei por conta de um grilo no meu quarto. A partir daquele fatídico momento, o inseto de nome científico grylloidea, da ordem dos ortópteros, não me deixou mais dormir nem às custas de Rivotril. Nem eu, nem Maria, minha esposa. A partir da origem do cricrilar percebemos que o danado estava escondido por detrás do guarda-roupa. Não queríamos apelar para o veneno, porque Maria Beatriz, minha neta e bebê mais lindo do mundo, gostava muito de brincar no nosso quarto e empestá-lo com o mau cheiro de inseticida não seria recomendável. E também não seria politicamente correto envenenar um pobre inseto indefeso e inofensivo. Ou não.

    Toda noite era um suplício. Ficávamos lá, eu e Maria, na maior tensão e expectativa esperando o grilo começar a “grilar”. Pontualmente, às 21 hs, 37 min, 43 seg, começava a serenata. Deitado na rede, eu dava uma batidinha com o pé no guarda roupa e ele parava. Dez segundos depois, recomeçava a cantoria. Era como dar um cutucada numa pessoa que tá roncando ao seu lado: ela vira de lado, para de roncar e daí a pouco começa de novo.

    Então, muito bem intencionado, comecei a pesquisar na internet como desalojar um grilo sem ser necessário apelar para medidas extremas. Encontrei uma receita assim: pegue uma vasilha ou pote pequeno, preencha até a metade com mel de engenho (melaço), complete com água e deixe em um lugar próximo ao esconderijo do grilo. A explicação: o grilo é atraído pelo cheiro do melaço, mergulha no recipiente e não consegue mais sair. Daí, você pode devolvê-lo à natureza. De preferência a uns dez quilômetros de distância de sua residência. Fiz desse jeito. Em cada uma das laterais do guarda-roupa coloquei um pote com a mistura. Surpresa! Não aconteceu nada. O grilo continuou na sua entoca, belo e cantante. Virei motivo de chacota lá em casa por causa do fiasco dessa melosa e mal sucedida experiência.

    Quatro dias depois da armadilha que não funcionou, perdi a paciência. Comprei um veneno fraquinho, desses de spray à base de camomila, eucalipto, hortelã, sei lá mais o que, quase um desodorante Rexona Antibacterial Protection Men Aerosol. Proibi a entrada de Maria Beatriz no quarto por um dia e dei umas “sprayadas” por trás do guarda roupa até quase esvaziar o recipiente. Minutos depois, o coitadinho (aí deu pena) do grilo saiu se arrastando por debaixo do guarda roupa. Não sobreviveu. Peço desculpas aos defensores da natureza, mas não tive alternativa.

    E acabei esquecendo de tirar os potes de mel de perto do guarda-roupa.

    Final de semana, Maria foi dar uma varrida no quarto e de repente, a tragédia: mete a vassoura em um dos potes e o mel se espalha pelo aposento. Por mais que tentasse, ela não conseguiu deixar o quarto livre do cheiro e do “melecado” do mel.
    Aí vieram as formigas. Mas aí já é outra história.

    *Marc Túlio Cícero — jornalista