Últimas histórias

  • O HOMEM QUE VIROU PAUTA

    Nesse fevereiro, concluí oficialmente o curso de jornalismo na UFRN. Foi uma aventura e tanto. Acabei me atrasando em um semestre ou dois – nem sei direito – por causa da pandemia e o início do ensino remoto. Aquela confusão toda me deixou completamente desarvorado e acabei esquecendo de me matricular na época devida, no estágio obrigatório e no trabalho de conclusão de curso (TCC).

    O período de ensino presencial foi realmente fantástico. Voltar a uma sala de aula depois de mais de trinta anos e conviver com aquele bando de jovens que me acolheu como um dos “seus”, sem me dispensar qualquer tratamento diferenciado por causa da minha idade (55 anos quando entrei na faculdade em 2016), foi uma experiência que transformou a minha vida. Para sempre e para muito melhor.

    Confesso que no início foi um pouco assustador. Porém, o medo de ser “escanteado” por ser o mais velho da turma foi sendo superado aos poucos. Para isso recorri ao meu costumeiro bom humor e aos relatos de burlescas histórias e experiências de vida durante as conversas entre colegas de turma nos intervalos das aulas.

    Nunca vou esquecer dos servidores e terceirizados locados no Departamento de Comunicação que habitualmente me tratavam muito bem e insistiam em me chamar de “professor”, ainda que eu retrucasse sempre, que era aluno. Acho que eles nunca acreditaram no que eu dizia.

    A tradicional apresentação dos alunos a cada primeira aula de uma disciplina, demorava mais quando chegava a minha vez. Além do professor, sempre havia um ou outro aluno curioso em conhecer um pouco mais sobre aquele senhor grisalho, que parecia fora do contexto. A minha apresentação sempre começava assim: sou Marco Túlio, esquerdista desde o nascimento já que sou canhoto e petista antes mesmo do PT existir.

    A cultura geral acumulada em anos de leitura na busca por informações e conhecimentos, ajudaram muito durante as aulas. Em geral, quando um professor citava algum fato acontecido entre os anos 1970 e 2000, já vinha acompanhado do rotineiro: “Marco Túlio, você deve se lembrar. É do seu tempo”.

    Por volta do segundo período, já completamente entrosado com colegas e professores e também por causa dos meus bem vividos 56 anos, porém, com rostinho e corpinho de… 56, acabei virando pauta de reportagem no curso.

    Como sou uma pessoa muito fácil ou acessível (soa melhor) e diariamente estava transitando nos corredores do Departamento de Comunicação, era sempre procurado por alunos de outros períodos que estavam escrevendo matérias do tipo: “Pessoas com mais de 40 anos que voltaram a estudar”. Muitos nem me conheciam, mas os próprios professores me indicavam para ser entrevistado. E eles chegavam: “O senhor é o Sr. Marco Túlio?”. E eu respondia: – Ele mesmo. Mas se me chamar de senhor outra vez, não dou a entrevista.

    Não recusava nenhuma matéria. Fui fotografado e entrevistado umas dez vezes em quase cinco anos de convivência no departamento. Quem chegasse primeiro, levava. A matéria.

    Um pouco antes da suspensão das aulas por causa da pandemia, Cecília, uma colega de “corredor do Decom”, me procurou para gravar um vídeo contando minha experiência universitária. O dia marcado para a gravação foi o primeiro dia da suspensão das aulas presenciais na UFRN. Nunca mais nos vimos. Ela me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia enviar um depoimento por escrito para o seu trabalho. É claro que respondi que sim e escrevi um pequeno texto em resposta à pergunta “O que o motivou a voltar a estudar?”. Eis a resposta:

    Não foi uma coisa muito pensada. Pra falar a verdade, foi quase como um desafio, uma brincadeira.  

    Eu tenho uma sobrinha, Andréia, que reclamava muito da dificuldade em passar no Enem. Sempre que nos encontrávamos ouvia essa reclamação. Certa vez eu disse: “Pois eu vou fazer o Enem e vou passar”. E ela: “Ah! Eu quero ver, tio”. E eu fiz minha inscrição no último dia do prazo. 

    O tempo passou e de repente chegou o fim de semana das provas. Na sexta-feira, eu estava em casa, tomando a tradicional cervejinha com minha esposa Maria e alguns amigos e fazendo um churrasquinho de leve, quando chegou minha irmã Stela, que é professora da UFRN, já me dando a maior bronca: “É bom maneirar na cerveja e ir dormir cedo, que amanhã tem prova”. E eu: “Puta merda! Tava nem me tocando”. Mas, para acalmá-la, falei que iria dormir cedo. Que nada! Fui dormir ou tentar dormir, quase às 3 da manhã. Acordei no sábado com uma ressaca desgraçada.  

    Logo cedo Stela me ligou dizendo que iria deixar Andréia no local da prova e que me levaria também. Fez realmente marcação cerrada. Fui fazer a prova, só Deus sabe como. Depois de mais de 30 anos, voltei a entrar em uma sala de aula e a me sentar numa cadeira escolar. Apesar da ressaca, consegui fazer a prova sem muitas dificuldades.  

    Quando entrei no ônibus pra voltar pra casa, encontrei duas amigas de minha filha Débora e perguntei: “Vão pra onde suas ‘tontas’?”. E elas responderam: “Lá pra sua casa. Debinha tá fazendo um churrasco pra turma”. Não deu outra. No domingo repetiu-se o “duo” ressaca-prova, só que com uma ressaca redobrada. Mas consegui chegar ao fim. 

    Para não encompridar muito a história, quando foi na época de sair o resultado do Enem, eu estava de férias com minha família em Tibau, uma cidade/praia próxima a Mossoró.

    Estava na varanda da casa, deitado numa rede e brincando com minha neta Beatriz, quando Andréia me ligou aos berros: “Tio Túlio! Você passou!”. Eu dei um pinote da rede que quase derrubo o bebê: “Caralho! Acredito não. E você passou?”. E ela: “Passei não tio. Mas esquece.  feliz demais por você”. Mas aí, tinha uma história de ficar acompanhando um “troço” lá pelo site e eu não podia interromper minhas férias. Então passei meu login e senha e disse que ela cuidasse de tudo e fui pra uma barraca na praia tomar umas pra comemorar. 

    Localizar o histórico no Colégio Estadual de Mossoró, onde concluí o segundo grau em 1978, para fazer a matrícula na UFRN foi outra saga. Essa depois eu conto. 

    É isso. Quando cheguei para a primeira aula – no longínquo 2016.2 -, mais nervoso que gato em dia de faxina, pensei: “Vou passar um mês ou dois por aqui, e depois desisto dessa aventura”. Mas, fui contagiado e termino o curso de Jornalismo em 2021. E devo isso a vocês, meus queridos colegas de curso, que sempre me trataram com tanto carinho. 

    PS. Iniciei e não concluí duas graduações: Agronomia e História. Em Mossoró.

  • SAUDADE OLFATIVA

    Se existe memória olfativa, existe também saudade olfativa.

    A minha memória é impregnada de saudades olfativas. E nesses tempos melancólicos, de pandemia, medo e isolamento, elas se tornam ainda mais indeléveis.

    Saudade de pessoas, as tenho. Meu primo, minha prima, alguns tios e tias, amigos. Pessoas queridas que agora são apenas boas lembranças. Sinto saudade dos meus amigos de infância, tão difíceis de reencontrar.

    Sinto saudades de localidades, lugares. De Martins onde passei parte de minha infância e adolescência e da casa, quase sítio, na esquina próxima à igreja. Saudade do CLEM – Centro Lítero Esportivo de Martins o clube social da cidade e do “Mengão” ou Bar do Dimas, onde costumava jogar sinuca – as vezes apostando – com pessoas bem mais velhas do que eu, para desespero de minha mãe Maria do Socorro.

    Saudade, mas muita saudade mesmo, da cidade onde nasci, Mossoró e das várias casas em que morei, cada uma com suas peculiaridades e insalubridades, mas que eram sempre o meu lar aconchegante. Onde eu queria sempre estar.

    No entanto, essas saudades parecem retratos antigos arquivados em um disco rígido na minha memória e que vez por outra o acesso.

    A saudade que realmente me faz viajar no tempo e me despertar uma sensação de presença física inexplicável é a saudade olfativa. Sinto saudade de cheiros. Do cheiro da minha mãe e o seu sabonete “Alma de Flores” que até hoje uso. Do cheiro do meu pai em seu barbear matinal. Do cheiro das goiabas e mangas do pomar da nossa casa em Martins e que nunca encontrei igual em todos esses anos de vida. Sinto saudade do cheiro da sopa que minha irmã Miriam fazia no tempo em que morei em sua casa e que sempre que a visito (nem tantas vezes quanto gostaria, principalmente agora) percebo permanecer exatamente o mesmo. Sinto saudade do cheiro do maxixe ao leite de minha mãe que até hoje tento reproduzir sem sucesso.

    Sinto muita saudade do cheiro do prato feito que Tio Antonio e Tia Vilani serviam no restaurante/lanchonete que mantinham no Mercado Central de Mossoró. Aquela montanha de comida cheirosa e gostosa que eu tinha que comer até “raspar o prato” sob pena de levar uma bronca maior do que a quantidade de comida que me era servida.

    Aliás, cheiro de comida é um cheiro bastante presente em minhas saudades cheirosas. Sinto saudade até do cheiro do milho verde (assado ou cozido) que eu comia quando tinha uns 10 anos, que não tem a nada a ver ou sentir, com essas espigas embandejadas e sem sabor vendidas em supermercado.

    E tenho muita, mas muita saudade mesmo, do cheiro de bebê dos meus três “bebezões” Isadora, Túlio Filho e Débora e é por isso que mesmo com eles já adultos, passados dos 27, não abro mão de sapecar-lhes uns “chêros” quando nos encontramos. Saudade do cheiro e dos “chêros” do meu neto Otávio que completou 10 meses esses dias, e que veio passar Natal e réveillon aqui em casa para a minha imensa e indescritível alegria. Saudade do cheiro e dos “chêros” de minha neta Beatriz de 9 anos, que faz a eternidade de três dias que não vejo.

    E até hoje, eu e Masé, minha esposa, procuramos – e nunca encontramos -, os perfumes que usávamos quando começamos a namorar, alguns séculos atrás: Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano. No entanto, esses cheiros continuam presentes em nossas vidas até hoje. Se alguém encontrar por aí, Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano, favor entrar em contato.

    “Chêro procês”!

  • CADÊ A BOLA?

    Quando eu morava em Martins, lá pelo ano de 1976, aconteceu um campeonato de bairros que prendeu a atenção de toda a cidade. A competição foi organizada pela secretaria de esportes do município, com o apoio das associações de bairros e eclesiásticas. Os principais bairros da cidade estavam lá representados: Centro, Prédios, Jacu, Canto, Levada e a temível Rua das Pedras.

                A Rua das Pedras era uma ruazinha um pouco afastada do centro e cujo solo era totalmente formado por pedras de vários formatos e tamanhos, ideais para lascar o quengo de algum sujeito desavisado e metido a besta. Os seus jogadores eram famosos por sua truculência dentro e fora de campo.

                O campeonato transcorria tranquilamente com rodadas no final de semana, até que se aproximou o dia do clássico Centro X Rua das Pedras, que decidiria o primeiro tuno do campeonato.

                Os jovens do Centro, filhos das famílias mais abastadas da cidade, nunca se deram muito bem com a turma da Rua das Pedras, de classe mais humilde. Sempre que se encontravam – em qualquer ocasião – pintava confusão.

                A semana do jogo foi muito tensa. O padre fez sermões durante as missas pedindo paz aos jogadores e torcedores e nos colégios os professores faziam o mesmo durante as aulas. O efetivo policial ficaria atento durante toda a partida para evitar qualquer confusão.

                Finalmente chegou o dia grande da decisão. Um domingo à tarde.

                Havia duas bolas para serem usadas durante a partida, que foi iniciada com a bola nova comprada especialmente para a ocasião. A reserva estava lá apenas por exigência do árbitro, mas não passava pela cabeça de ninguém que fosse necessária a sua utilização, até porque já se encontrava em estado bastante depauperado.

                Logo nos primeiros minutos de jogo, um zagueiro da Rua das Pedras acertou uma bomba em direção a um matagal que havia ao lado do campo e a bola sumiu. Todo mundo se embrenhou no meio do mato em busca da dita cuja, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Depois de mais de 10 minutos de paralisação e procura inútil, o jogo recomeçou com a bola reserva, bem surrada e já com algumas costuras se desfazendo.

                A partida seguiu com muita intensidade e pancadaria dos dois lados e a coitada da bola cada vez mais maltratada, até que aos cinco minutos do segundo tempo, o Centro conseguiu fazer um gol. A essa altura, a pelota já se encontrava em péssimo estado, com a sua borracha interna começando a surgir por entre os gomos descosturados.

                Aos 25 minutos o juiz apitou uma falta para a Rua das Pedras, no meio do campo. O jogador encarregado da cobrança colocou a bola no chão com a parte descosturada em sua direção, tomou distância e acertou um bico na borracha exposta. Só se ouviu o estouro e as gargalhadas do espertinho com o pé enfiado na bola furada.

                Correu todo mundo de novo para o meio do mato, mas nada de achar a primeira bola que havia se perdido por lá. O juiz encerrou a partida por falta de bola e iluminação e deu a vitória ao Centro. Inconformados os jogadores da Rua das Pedras iniciaram uma pancadaria generalizada que só terminou com a intervenção da polícia.

                Diante do inusitado, os organizadores da competição resolveram marcar um novo jogo. Depois de muitas reuniões e apelos do padre, pastor, prefeito, diretores de escolas, juiz e delegado, pela sequência da competição, os representantes do Centro e Rua das Pedras não aceitaram a sugestão de uma nova partida, a coisa esfriou e o Campeonato de Bairros de Martins, primeiro e último, se encerrou ali mesmo, sem nenhum campeão declarado e com o prejuízo do desaparecimento de uma bola nova.

                Reza a lenda, que dias depois apareceu um moleque com uma bola bem novinha fazendo embaixadinhas lá pela Rua das Pedras.

  • O VENDEDOR DE CLUBES DE FUTEBOL

    Aquela expressão, “quando a gente pensa que já viu tudo…” não faz mais qualquer sentido no desgoverno do genocida. Melhor usar, “a gente ainda não viu nada”.

    Em meio a vexames internacionais incontáveis e insuperáveis (aliás, só eles conseguem se auto superar), o ministro Guedes “Posto Ipiranga” viajou aos Emirados Árabes em busca de petrodólares. Depois de muito turismo e nenhum acordo firmado, já de volta ao Brasil em um evento em Brasília, ele deu detalhes das conversas que teve com os investidores árabes. E não faltaram pérolas do tipo: “É uma imensa riqueza em cima de areia. Eles criaram cidades, investiram bastante, mas está sobrando dinheiro. Ainda tem muito petrodólares”. É mesmo seu ministro?! Que descoberta fantástica!

    Perguntado sobre os investimentos no Brasil, respondeu todo serelepe: “Vão investir em estradas, vão investir em poços de petróleo, até em clubes de futebol. Eles compraram o Manchester United, compraram o Cristiano Ronaldo, etc”.

    E para comprovar que jumentice pouca é bobagem, o “Tchutchuca” errou duas vezes na mesma frase. Os donos do clube inglês são os irmãos americanos Jovel e Avram Glazer. Cristiano Ronaldo, que voltou ao Manchester United, também não foi comprado por árabes. Sua contratação saiu da conta dos mesmos empresários, que têm fortuna de US$ 4,7 bilhões, segundo a Forbes.

    Jumentices à parte, ele completou: “Eles anunciaram: calma, nós vamos comprar dois times; estamos examinando e vamos comprar dois times”. Isso é que é ministro! Conseguiu vender dois clubes brasileiros aos árabes! Só não perguntem quais. E esse miraculoso anúncio, foi o suficiente para que a parte falida dos clubes brasileiros (99,9%) entrasse em polvorosa. Já começaram as especulações.

    A imprensa esportiva carioca garante que um dos escolhidos será o Vasco. Pelo tamanho da torcida, por ter um estádio próprio, e… é só isso mesmo. Mas, o Botafogo, que acaba de retornar à Série A, sonha com os petrodólares para não correr mais riscos de cair de novo. Até o América (o Mequinha, que é o segundo time de todo mundo), quer voltar a ser grande e entrou na fila.

    Em Minas, a torcida do Cruzeiro já está fazendo festa. Fontes ultra secretas de dentro da própria Máfia Azul, dão como certa a informação de que o clube será um dos destinatários dos investimentos árabes.  A do Atlético (enquanto eu escrevia o Galo ainda não era Campeão Brasileiro), anda escabreada com essa grana toda que vem jorrando no CT do Galo e acha que qualquer dinheiro que aparecer e que não seja do dono da MRV será bem-vindo. Temem se transformar no rival Cruzeiro, que depois de um período glorioso e de investimentos mal explicados, quebrou em três pedaços e perdeu o do meio. Não tem conserto.

    Em São Paulo, não tem santo que ajude a São Paulo e Santos, que andam de pires na mão, correm risco de rebaixamento e viraram adeptos do bordão de seu Samuel Blaustein da Escolinha do Professor Raimundo: “fazemos qualquer negócio”. Já no Corinthians, com dívidas de mais de 1 bilhão de reais, qualquer petrodólar furado, será uma dádiva de Alá.

    Em Pernambuco, o Íbis, time com o melhor marketing do futebol brasileiro e ex pior time do mundo, conseguiu o acesso à primeira divisão do campeonato pernambucano depois de 21 anos e agora sente-se no direito de pleitear a “mufunfa” árabe. E os diretores do simpático clube argumentam: “Se quando a gente não tinha um pau pra dar num gato, já éramos um fenômeno mundial, imaginem nadando em petrodólares”.

    Enfim, bastou o “Tchutchuca” voltar dos Emirados Árabes com essa notícia bombástica, para que mais de 600 clubes espalhados por esse Brasil afora, voltassem a sonhar com dias melhores, que jamais virão.

    Aqui, no falido e mal pago futebol do RN, os árabes devem partir logo pra comprar a Federação Norteriograndense de Futebol. O eterno presidente José Venaldo, ops, Vanildo topa na hora. Desde que…

  • HISTÓRIAS PRÉ-PANDÊMICAS

    As histórias a seguir, são do período pré-pandêmico. Até porque nesses quase dois anos de reclusão, não me aconteceu nada digno de registro.

    As moedas e os pães

    Minha neta Maria Beatriz, bebê mais lindo do mundo, à época com 7 anos, juntou durante um bom tempo, moedas para comprar o seu presente do Dias das Crianças.

    Com ela não tem essa história de guardar apenas moedas de 1 real e de 50 centavos. Qualquer moeda, de qualquer tamanho ou valor que ela encontrasse dando sopa pela casa, ia pra dentro de sua “casinha” (o minhaeiro tem o formato de uma casa).

    A “casinha” já estava bem pesadinha e com a proximidade do Dia das Crianças, resolvemos abrir. Havia moedas de 5 centavos a 1 real. Contamos 190 reais e aí cata uma moeda daqui outra dali, uma doação daqui outra dali, fechamos os 200.

    Eu, com minha mania de organização fiz os pacotinhos com durex, todos separados por valor e fui em uma das lojas do Nordestão trocar por cédulas. Cheguei todo contando vantagem: “Tem 200 reais. Os pacotinhos todos feitos”. A moça que me atendeu falou muito simpática: “Ah! Vamos ter que desmanchar tudo. A tesouraria não aceita assim não”.

    E lá ficamos nós dois desmanchado mais de 30 pacotinhos de moedas. Depois de um bom tempo contando moedas, a conta bateu e ela falou: “Beleza. 200 reais. Vou ali pegar o dinheiro. O senhor vai querer os pães?”.

    Eu achei que tinha entendido errado: “Os pães?!”. E ela respondeu rindo: “Éééé! O senhor tem direito a 20 pães. A cada 10 reais de moedas, ganha um pão”. E eu ainda estupefato: “Claro que quero”!

    Aí estão os 20 pães que não me deixam mentir.

    É muita falta de absurdo!

    Tem coisa que só acontece com esses esquerdopatas, comunistas comedores de criancinhas, vermelhos degenerados, petralhas despudorados, assim que nem que eu.

                Eu ganhei na Lotofácil! Pois é, meus caros. Quase virei um milionário.

    Então fui receber o meu prêmio no valor exorbitante de R$ 4,00 tendo em mãos um código fornecido pelo site da Caixa. Eu sempre faço minhas apostas pela internet. A instrução era de comparecer em qualquer lotérica portando o tal código e retirar o prêmio.

    Peguei a fila e quando cheguei no guichê falei pra moça: “Vim pegar o meu prêmio”, e entreguei um post-it com o código escrito. A jovem olhou pra mim com cara de espanto e perguntou: “O que é isso!?”. Respondi: “É o código que a Caixa me forneceu para receber o meu prêmio da Lotofácil em qualquer lotérica”. Ela disse: “Nããããooooo! A gente só paga com o comprovante da aposta”. E eu disse: “Eu fiz a aposta pela internet”. E ela meio que aliviada: “Ah! Tá! É que essa lotérica ainda não está preparada para pagar jogo pela internet”.

    Donde já se viu um negócio desses? E eu “certim” que ia sair de lá e gastar aqueles R$ 4,00 “todim” com cerveja! Pense numa fuleragem!

    Como não encontrei nas proximidades do trabalho ou residência, qualquer lotérica “preparada” para pagar prêmio de aposta feita pela internet, acabei não recebendo a minha fortuna e deixei de virar um milionário.

  • Os “Catecismos” de Carlos Zéfiro

    Carlos Zéfiro ou Alcides de Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, RJ – 1921 – 1992), produziu seus quadrinhos pornográficos, durante as décadas de 1950 e 1960. Em seus “Catecismos”, como ficaram popularmente conhecidas suas histórias desenhadas a pincel, bico de pena e impressas em branco e preto, Zéfiro narrava situações que sempre culminavam em práticas sexuais explícitas.

    Com títulos curtos, geralmente nomes de mulheres e histórias bem conduzidas com começo, meio e fim e produzidas em um período de pouca liberdade sexual, essas revistinhas influenciaram toda uma geração de jovens brasileiros. Com no máximo 32 páginas e formato de bolso (1/4 de ofício), as revistinhas de Carlos Zéfiro chegavam a alcançar uma tiragem de 5.000 exemplares. Distribuídas pessoalmente e de forma sigilosa pelo próprio editor, elas eram vendidas de maneira dissimulada pelos jornaleiros, geralmente ocultadas em outra publicação. O autor contabilizou sua produção em 862 histórias.

    Em novembro de 1991, um artigo de autoria do jornalista Juca Kfouri, a partir de uma entrevista com o autor dos “Catecismos” e publicado na revista Playboy, revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro. Em sua entrevista Caminha conta que resolveu se revelar ao público, porque um sujeito em busca de fama, surgiu na imprensa querendo assumir a identidade de Carlos Zéfiro. No ano seguinte a essa revelação, aos 70 anos, morreu Alcides Caminha/Carlos Zéfiro.

    Não existe uma explicação definitiva para o fato dessas publicações terem recebido o apelido de “Catecismos de Sacanagem”. Nem o próprio autor tinha essa resposta. Alguns sugerem que vem do fato de serem produzidas no tamanho certo para serem colocadas dentro dos “catecismos”, já que a maioria dos garotos as compravam quando saíam da missa.

    Alcides Caminha, foi funcionário público da Divisão de Imigração do Ministério do Trabalho e ficou também conhecido como o autor dos sambas A Flor e o Espinho, Capital do Samba e Notícia, que compôs em parceria com Nelson Cavaquinho, nos anos 1950.

    Desenhista amador, Zéfiro copiava os seus personagens a partir de revistas eróticas estrangeiras ou fotonovelas. As situações e posições sexuais eram limitadas, mas não impediam o sucesso de suas publicações. Os personagens masculinos não variavam muito na forma ou na personalidade e seguiam sempre o mesmo padrão de comportamento: solteiros ou sozinhos, bonitos, bem-dotados, vaidosos, irresistíveis e sempre vitoriosos em suas investidas sexuais. Já o universo feminino, era mais variado: há virgens, viúvas, desquitadas, solteiras, casadas, ninfomaníacas, etc. Porém, um traço em comum as unia: a disposição imediata para o sexo.

    No início dos anos 1970, com a chegada ao mercado brasileiro das revistas eróticas coloridas suecas e dinamarquesas, as revistinhas de sacanagem vão perdendo prestígio, até desaparecer. O próprio Zéfiro parou de produzi-las.

    É inegável que não há mais espaço no mercado literário atual, para alocar os folhetins eróticos de Carlos Zéfiro. Mas existe todo um contexto histórico em torno de sua arte, que a faz ser estudada até hoje pelos profissionais da área.

    Após sua morte, ele teve um trabalho publicado como homenagem póstuma na capa e encarte do CD Barulhinho Bom (1996), de Marisa Monte. E em janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto do mundo, no Museu do Sexo em Nova York.

  • COZINHA SEM FRESCURA – Uma revolucionária concepção gastronômica

    Entre os meus inúmeros e inconclusos projetos literários consta um livro de receitas. Cozinha sem Frescura aborda um novo conceito gastronômico baseado em uma cozinha… sem frescura. Sem frescura na hora de fazer, sem frescura na hora de escolher os ingredientes e principalmente sem frescura na hora de escrever a receita, que deve vir sempre acompanhada de uma boa história. Sem frescura, nesse caso e de acordo com o “mossoroês” clássico, significa sem chiqueza, sem sofisticação, sem refinamento, enfim, sem “riquifife”. Então vamos a história e a receita.

    Picado de Carne Arretado

    Picado de carne é um prato um pouco desdenhado quando se trata de tira-gosto ou até mesmo refeição. O sujeito come vaca atolada (costela com macaxeira), mão de vaca, guisado de carneiro, rabada, numa boa. Porém, quando lhe oferecem um picado de carne de terceira – que por sinal nem existe mais, já que qualquer carne hoje em dia é de primeira – faz cara feia. Pois bem. Vamos acabar com esse preconceito.

    Nas minhas peregrinações por botecos com meu amigo Toinho de Sônia, quando ainda morava em Mossoró lá pelos idos dos 90, certa vez nos deparamos com um bem simplesinho lá pelas entranhas do Abolição IV e resolvemos encarar. “Se a cerveja estiver bem geladinha, a gente pede um tira-gosto, se não a gente paga e vai embora”. Essa era a regra.

    Quando chegamos fomos atendidos por uma senhora não muito simpática, que devia fazer de tudo por lá. Dona, cozinheira, garçonete, faxineira, caixa. A cerveja (Brahma ou Antarctica, e só. Bons tempos…), estava tipo véu de noiva. Pedimos Antarctica, é lógico. Até hoje sou “antartiqueiro”. Qualquer dia conto a história da rixa entre os revendedores da Antarctica e da Brahma, que perdurou em Mossoró até uma engolir a outra e a outra engolir a uma, com o surgimento da Ambev. Teve até revólver no meio.

    Perguntamos o que tinha de tira-gosto. A “simpática” senhora, respondeu: “Carne”. De besta, eu ainda insisti: “E como é essa carne? ”. Ela impaciente: “Ora, como é?! Carne é carne”. Aí Toinho, já meio invocado, disparou seu vozeirão: “Pois traga logo essa carne e vamos ver no que vai dar!”. Em menos de 10 minutos chegou um prato com um picado suculento, cheio de legumes, uma farofinha do lado, rodelas de tomate e cebola e batata doce. Sensacional! Vou nem falar do preço! Ficamos por lá a tarde toda, comendo, bebendo, conversando miolo de pote e ouvindo uns bregas dos bons. Acabamos presenteados com um sorriso da proprietária e viramos fregueses.

    Então, em homenagem a meu amigo Toinho de Sônia, que não vejo há vários anos e àquela gentil senhora, vai minha receita de “Picado Arretado” para o deleite dos meus milhões de esfomeados leitores. Simples assim:

    Pegue uma peça de um quilo e pouco de posta gorda, ou acém, ou músculo. Tem umas que já vem sem osso. Corte em cubos como se fosse fazer espetinho. Não precisa tirar o excesso de gordura e as pelancas. Vai tudo. Tempere com sal, alho amassado, cebola picada, um pouco de manteiga do sertão, 2 colheres de sopa de extrato de tomate e 1 tablete de caldo de carne. Misture tudo com as mãos e reserve.

    Prepare os legumes: 1 cenoura média cortada em rodelas, 1 batata inglesa em cubos, 1 chuchu em cubos, as partes mais espessas do repolho, uns 8 pedaços de jerimum caboclo com casca (só raspada).

    Espalhe rodelas de cebola branca e roxa, de tomate e tiras de pimentão no fundo de uma panela de pressão, com 2 colheres de margarina. Leve ao fogo. Quando a margarina derreter completamente, coloque a carne, deixe dar uma refogada até começar a criar um “graxinha”, acrescente umas 2 colheres de molho ou extrato de tomate e mexa bem sempre raspando o fundo da panela. Acrescente os legumes, água até cobrir tudo, mais uma boa mexida e feche na pressão.

    Quinze a vinte minutos após começar a chiar, desligue. Abra a panela, espere o cozido parar de borbulhar, acrescente duas colheres de sopa de maionese e mexa pra misturar tudo. Ligue novamente o fogo (panela sem pressão, só tampada) e deixe ferver mais um pouco. Verifique o sal, o ponto de cozimento dos legumes e não pode ficar com muito caldo. Se isso acontecer, escorra o excesso. Se quiser, guarde esse caldo pra fazer a sopa da janta. Depois dou a receita.

    Na hora de servir, jogue por cima cebolinha e coentro picados. Os acompanhamentos, os mesmos do picado do boteco: farofa, tomate e cebola em rodelas e batata doce. Se faltar alguns dos ingredientes ou não gostar de outros, não tem problema. Vá fazendo com o que tiver e gostar. No final dá tudo certo. Afinal, isso aqui é “Cozinha sem Frescura”, oxente!

    E haja cerveja boa – já testei e não funciona com cerveja ruim – estupidamente gelada e na radiola todo o repertório do gênio Elino Julião.

  • “QUARTOTA”, O PONTA DIREITA

    Lá pelos idos dos 80, eu trabalhava no Banorte e o meu primo presepeiro Gildo, trabalhava no Bradesco.

    Uma vez por ano, o sindicato dos bancários promovia o campeonato da categoria. Era uma disputa acirradíssima, que durava cerca de dois meses com jogos sempre aos sábados pela manhã.

    Àquela época, Mossoró possuía dez agências bancárias: Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Caixa Econômica, Bandern, Banorte, Bradesco, Banco de Mossoró, Banco Itaú, Banco Econômico e ainda tinha uma agência da Apern, a poupança do estado, que também participava do campeonato. Acho que não esqueci nenhuma.

    O nosso sindicato era uma potência com quase 500 associados contribuintes e o campeonato dos bancários era uma das competições mais importantes do futebol amador mossoroense.

    Mas, vamos ao que interessa.

    Eu não fazia muita falta ao time do Banorte, já que era reserva daqueles que só entravam em última instância, ou seja, quando alguém se machucava e eu era o único no banco de reservas. Mas, modéstia à parte, nunca fiz feio nas vezes em que fui convocado a entrar em campo. Na minha opinião, é claro.

    Já o status de Gildo era outro. Ele era o principal atacante do time do Bradesco. Ponta direita veloz e driblador, chegou a participar de “peneiras” no Potiguar e no Baraúnas. O problema eram os jogos no sábado pela manhã.

    Como é do conhecimento até do “mundo mineral”, como diria o grande jornalista Mino Carta, a rotina etílica de bancário é começar a beber na sexta-feira depois do expediente e “assistir ao sol nascer” (Cartola) ainda na gandaia. Algumas horas pela manhã para tentar diminuir a ressaca – já que é impossível curá-la – e retomar os trabalhos no sábado à tarde e “arrochar”, como a gente diz lá em nós, até o domingo. Aí é rede até recomeçar toda a chatice do serviço bancário na segunda-feira.

    Mas, vamos ao que interessa, outra vez.     

    Houve um ano em que o campeonato estava sendo disputado no campo do SESC. Quase em frente ao local dos jogos existia um boteco, o Bar de Seu Raimundo, que servia uma panelada de primeira categoria e que a turma de bancários adorava frequentar, sendo Gildo um dos mais assíduos.

    Sábado, dia de jogo e o Bradesco abriria a rodada logo às 9 horas enfrentando o “favoritaço” Banco do Brasil. O time já se preparando para entrar em campo e nada de Gildo aparecer.

    Seus colegas resolveram então ir procurá-lo lá em Seu Raimundo. Não deu outra. Lá estava ele com a tradicional “quartota” (um quarto de uma garrafa de cana) na mesa e devorando um prato de panelada.

    Com muita dificuldade conseguiram leva-lo para o local do jogo e o convenceram a tirar a farda do banco. Jogaram o bebum debaixo de um chuveiro e com ele ainda todo molhado vestiram o uniforme do time. Quando o treinador, que via de regra era um dos gerentes da agência, viu aquela presepada resolveu iniciar a partida com o seu craque no banco de reservas, pra ver se ele se recuperava um pouco da bebedeira.

     Começou o jogo e em menos de 15 minutos o Bradesco já perdia por 2 a 0. O treinador desesperado se virou prá Gildo e perguntou: “E aí, dá prá entrar?”. E Gildo: “Na hora!!!”.

    No primeiro lance, ele recebeu um lançamento em profundidade e saiu correndo em direção a bola. Quando já estava bem pertinho de alcançá-la, próximo da linha de fundo, parou, ajoelhou e começou a vomitar.

    A panelada de Seu Raimundo ficou toda espalhada no gramado.

    Um dos amigos que tinham ido pegá-lo no boteco, gritou: “Aí, Gildo! Quer outra “quartota”? Tem que aproveitar a panelada”.

    Desse dia em diante, ele ficou conhecido nos meios esportivos bancários como “Quartota”, o ponta direita.

  • VIVENDO PERIGOSAMENTE

    Dia desses, durante o asseio matinal, me dei conta de algo gravíssimo: o tubo de pasta de dentes estava quase vazio. Na “peinha” de nada. No armário do banheiro, nenhum de sobressalente. Com preguiça de me dirigir até o departamento doméstico de produtos para higiene pessoal, me pego a esfregar o cabo da escova no tubo de pasta, em busca dos últimos resquícios do precioso produto. Quem nunca? Enquanto realizava essa operação há muito em desuso, veio-me à mente aqueles antigos tubos de pasta feitos de uma liga metálica (alumínio + estanho), que de tanto a gente raspar em busca da última porção do dentifrício, largava a pintura. E aquele invólucro medieval e de alta periculosidade, enferrujava! O incauto usuário corria sério risco de ingerir ferrugem e arranjar uma grave inflamação no esôfago ou cortar um dedo e ser vitimado pelo tétano. Que vida insalubre! Que grande invenção da humanidade foi o tubo de pasta feito de plástico!

    Escarafunchando cuidadosamente o tubo na busca do último “tantinho” de creme dental, viajei no tempo e comecei a me lembrar de algumas coisas que transformavam a nossa meninez na antiguidade, em uma verdadeira batalha pela sobrevivência.

    Quando criança, piolhos e lêndeas eram tratados com a aplicação direta no couro cabeludo de um veneno chamado Neocid. Quem nunca ouviu aquele barulhinho “plac, plac, plac” enquanto o pozinho maligno se espalhava por entre os cabelos não imagina a aventura de se viver, que era ser criança no final da década de 60 e durante a de 70. Aquele “talquinho” fedorento causava problemas respiratórios e podia provocar o amolecimento do couro cabeludo e o enfraquecimento dos miolos.

    Se 90% da população adulta brasileira – quiçá mundial – na faixa dos 60, sofre com refluxo gastroesofágico e tem instalada em seu intestino a tal bactéria Helicobacter pylori é porque quando pirralho(a) tinha como lanche tradicional Ki-Suco, Q-Refresco, suco de “tamarina” e “quetais” acompanhado de broa, tapioca, orelha de pau, tareco, cuscuz, etc. Os primeiros sintomas de azia surgem na infância e já está cientificamente comprovado (pesquisa minha) que quem fez uso dessa bomba gástrica durante a puerilidade da vida está seriamente ameaçado(a) de adquirir uma úlcera antes dos 14 anos. E o que dizer do almoço de “fussura” de porco acompanhada de pirão de gordura que os fedelhos comiam de se lambuzar? Os colesteróis e os triglicerídeos fazem a festa até hoje. Sobremesa? Açúcar com farinha. Bem vindos glicoses e carboidratos. “Mãe! Essa comida tá ‘pia’. Não tem quem coma”. “Besteira menino. Hoje eu errei a mão. Um pouquinho de sal não faz mal a ninguém”. Muito prazer senhoritas sistólica e diastólica.

    As brincadeiras de rua também não eram lá muito salutares. Quando morei na Av. Alberto Maranhão em frente à praça do Mercado Novo em Mossoró, acontecia em dia marcado com antecedência (e não precisava de zap ou instagram) uma guerra de pedras entre os bairros do Alto da Conceição e Pereiros. Dessa “brincadeira”, os mais novos com idade entre 10 e 11 anos – tipo eu – não participavam e eram substituídos por irmãos mais velhos. Como eu não tinha irmão mais velho, nessas noites bélicas não colocava os pés na rua nem pra ganhar dinheiro. Mamãe perguntava logo se eu estava doente e papai quando percebia meu estado “borocoxólico” já me empurrava goela abaixo duas “lapingochadas” de Emulsão Scott, um instrumento de tortura muito usado pelos pais naqueles tempos. Óleo de fígado de bacalhau! Ô troço ruim da mulesta! Quanto a batalha campal, ainda bem que a distância entre os dois “exércitos” era de uns 300 metros e os “guerreiros” não eram muito bons de pontaria. Aqui e acolá aparecia um “ferido” com um galo na testa, que era exibido como um troféu de guerra entre toda a “estupefacta” e orgulhosa tropa.

    Jogar bola no meio da rua não era para os fracos. Arrancar um “chamboque” do dedão do pé no calçamento era comum entre os destemidos atletas infantis. E nada de abandonar o jogo. Tinha que permanecer até o fim jogando com o pé apoiado no calcanhar. Pense numa pereba horrorosa que se formava quando aquilo inflamava! E ainda tinha que ir para a escola com um pé no conga e outro no chinelo. Joelho esfolado? Bobagem. Todo herói carrega pelo resto da vida suas cicatrizes nas articulações sinoviais.

    Dentre as brincadeiras de jogo de bola no meio da rua, havia uma de altíssima periculosidade: resta um. Nada a ver com aquele joguinho inocente de tentar deixar apenas uma peça sobrando num tabuleiro plástico cheio de furos em formato de cruz. Era o seguinte: o mais velho ia para o gol (as traves eram uma das portas do Mercado Novo) e os demais – nunca menos de 20 – tinham que ficar correndo atrás da bola tentando fazer um gol. Quem alcançava a façanha se retirava do jogo e assim continuava até restar apenas um. Prêmio do infeliz: atravessar um corredor polonês levando cocorote no “cucuruto” de todos os outros jogadores.

    Jogar bola no meio da rua também era um caso de polícia. Em alguns dias durante a peleja noturna, aparecia do nada um opala preto fazendo ronda em nossa região e avançava na direção dos distraídos “peleiadores”, quase atropelando todo mundo. Depois de muitos sustos ficou estabelecido que antes do início de cada jogo de bola, um garoto da turma seria sorteado para exercer a função de “pastorador” do carro preto. E não adiantava estrebuchar. Regras de turma são regras de turma e existem para serem acatadas. Ao grito de: “lá vem o carro preto”, a correria era grande e não sobrava um no meio da rua pra contar a história. Rezou a lenda àquela época, que em outra rua próxima a nossa, uma turma desprevenida – não adotou o “pastorador” – foi atropelada e alguns dos seus integrantes foram parar no hospital.

    Bons tempos aqueles! E apesar de sequelas de várias espécies, ainda estou por aqui.

  • A CARNE MAIS BARATA DO MERCADO É A CARNE NEGRA

    No dia 06 de maio de 2021, uma quinta-feira, a população carioca acordou com a notícia de uma operação policial com várias mortes na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro. No decorrer do dia e no desenrolar das notícias, descortinou-se o tamanho da tragédia: mais uma chacina em mais uma operação mal sucedida e mal explicada envolvendo as polícias civil e militar do Rio de Janeiro. Vinte e oito vítimas. Bem ao seu energúmeno jeito de ser, o despresidente do Brasil comemorou a ação e parabenizou em um tweet a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro pela “eficiência”.

    Enquanto acompanhava o terrível noticiário, lembrei-me de um documentário que assisti no final de 2020: “Auto de Resistência” (2018 – Roteiro: Juliana Farias e Natasha Neri e Direção: Lula Carvalho e Natasha Neri).

    Ao deparar-me pela primeira vez com o título do filme, um documentário sobre os homicídios praticados pela polícia contra civis no Rio de Janeiro, atribuí equivocadamente à palavra Auto, o sentido de saga, luta, até porque é uma palavra que também nos remete à dramaticidade do teatro. De imediato, lembrei-me de Ariano Suassuna e seu “Auto da Compadecida”. Auto: TEAT – Composição dramática medieval, dos séculos XV e XVI, vinculada aos mistérios e moralidades e talvez deles proveniente, em geral alegórica, de tema religioso ou profano, muitas vezes de argumento bíblico ou satírico, etc. Definições do dicionário Michaelis.

    O Auto do título do impactante documentário, no entanto, está relacionado aos Autos de Resistência, execrável subterfúgio jurídico para justificar e absolver os crimes praticados por policiais contra civis.

    Esclarecendo:

    Auto: JUR – Ato público destinado a cumprimento de imperativo legal ou ordens de autoridades constituídas. JUR – Narração escrita, circunstanciada e autenticada por tabelião, de ato ou diligência judicial ou administrativa, que se constitui em prova, registro ou evidência de uma ocorrência (também do Michaelis). É, portanto, uma palavra que faz parte do linguajar “juridiquês”.

    O Auto de Resistência não existe no nosso Código Penal. Porém, a sua execução tem respaldo no seu artigo 292, que diz: “Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas”. Sendo assim, quando um policial mata sem qualquer justificativa um “suposto suspeito” alega legítima defesa, que houve resistência à prisão e muitas vezes “monta” a cena do crime de acordo com a versão que lhe é conveniente. Esse tipo de ocorrência é registrada como “Auto de Resistência” e as testemunhas são os próprios policiais que participaram da ação. Dificilmente esses assassinos vão a julgamento. A impunidade fica oficializada logo nas primeiras audiências.

    Em seu estudo “Autos de Resistência: uma análise dos homicídios cometidos por policiais no Rio de Janeiro (2001-2011)”, o sociólogo Michel Misse, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro propôs o arquivamento de 99,2% dos casos de Auto de Resistência neste período, apesar de todas as evidências dos crimes apresentadas nas audiências preliminares.

    O que resta aos familiares dessas centenas de vítimas é a busca por justiça em todas as instâncias legais, até a exaustão física e mental. Organizam-se em torno de associações de vítimas e protestam nas ruas, onde passam a ser estigmatizados como “parentes de bandidos”. É uma saga pessoal em busca de justiça e porque não um “ato de resistência” contra a estigmatização social, essa marca cruel atribuída por um grupo social que se acha superior e que designa outro ser humano ou grupo social como desqualificado ou menos valorizado.

    Através dos personagens reais do filme “Auto de Resistência”, percebemos o quanto é difícil conviver com o estigma social de ser preto, pobre e favelado – além de “parente de bandido” – e clamar por justiça em um ambiente inteiramente hostil e pré-determinado a não interceder a favor dessa justiça. Essa hostilidade se expressa através de ironia, piadas preconceituosas, insultos verbais ou gestuais, humilhação pública, reações hostis ou violentas que caracterizam a perpetuação de estereótipos que orientam a primeira impressão de um indivíduo em relação ao outro.

    Os conceitos de racismo, preconceito racial e discriminação racial, estão claramente identificados na maneira como as audiências públicas iniciais sobre os crimes praticados por policiais contra civis são conduzidas. Em todos os casos apresentados, as vítimas são pessoas negras. Preto, pobre e favelado. O mais contraditório, é que em muitos desses casos, vítimas e algozes pertencem ao mesmo grupo racial e social. No entanto, as relações de poder os colocam em situações distintas, embora ambos sejam vítimas do racismo.

    Vários relatos no documentário, descrevem em detalhes a abordagem dos policiais “contra” as vítimas. Em linguagem policial, o ato de abordar é o primeiro contato do policial com o público. Tanto os atos de orientar ou esclarecer, quanto os de corrigir, prender ou investigar são formas de abordagem. A abordagem é entendida como a maneira pela qual um policial identifica, corrige, prende ou investiga um suspeito de vir a cometer ou ter cometido um crime ou infração.

    Porém, o que ocorre na maioria das abordagens policiais no Brasil é a “filtragem racial”, ou seja: a tática de mandar alguém parar por causa da cor da pele e uma vaga suspeita de que a pessoa esteja tendo um comportamento delitivo. E quando os órgãos do poder – nesse caso as instituições policiais – adotam a “filtragem racial” como forma de abordagem, se escancara o cruel e esdrúxulo racismo institucional, que ocorre basicamente quando uma organização ou estrutura social cria um fato social racial hierárquico a partir da adoção de tratamento diferenciado entre raças, de forma a privilegiar um indivíduo em detrimento do outro, sem qualquer respaldo legal.

    Essa é a origem nefasta de todas as incontáveis tragédias sociais tipificadas pela relação “poder estabelecido x população civil” que se multiplicam pelo Brasil inteiro, onde as milhares de vítimas são sempre “pobres, pretos e favelados”.

    Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, apontam que em 2019 ocorreram 6.357 mortes por intervenções policiais e no primeiro semestre de 2020 foram 3.203. Do total de vítimas, 99,2% eram homens, sendo 79,1% de negros e 74,3% de jovens até 29 anos.

    Chegamos ao final do primeiro semestre de 2021… e contando.

     Recomendo “Auto de Resistência – O Filme” e me perdoem qualquer spoiler.

    (https://drive.google.com/file/d/1eYsyahexwJJVek7Uh0Gm-peNNkZ4kaaB/view?usp=sharing)

    * Autores: Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette – Intérprete: Elza Soares