Últimas histórias

  • Os “Catecismos” de Carlos Zéfiro

    Carlos Zéfiro ou Alcides de Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, RJ – 1921 – 1992), produziu seus quadrinhos pornográficos, durante as décadas de 1950 e 1960. Em seus “Catecismos”, como ficaram popularmente conhecidas suas histórias desenhadas a pincel, bico de pena e impressas em branco e preto, Zéfiro narrava situações que sempre culminavam em práticas sexuais explícitas.

    Com títulos curtos, geralmente nomes de mulheres e histórias bem conduzidas com começo, meio e fim e produzidas em um período de pouca liberdade sexual, essas revistinhas influenciaram toda uma geração de jovens brasileiros. Com no máximo 32 páginas e formato de bolso (1/4 de ofício), as revistinhas de Carlos Zéfiro chegavam a alcançar uma tiragem de 5.000 exemplares. Distribuídas pessoalmente e de forma sigilosa pelo próprio editor, elas eram vendidas de maneira dissimulada pelos jornaleiros, geralmente ocultadas em outra publicação. O autor contabilizou sua produção em 862 histórias.

    Em novembro de 1991, um artigo de autoria do jornalista Juca Kfouri, a partir de uma entrevista com o autor dos “Catecismos” e publicado na revista Playboy, revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro. Em sua entrevista Caminha conta que resolveu se revelar ao público, porque um sujeito em busca de fama, surgiu na imprensa querendo assumir a identidade de Carlos Zéfiro. No ano seguinte a essa revelação, aos 70 anos, morreu Alcides Caminha/Carlos Zéfiro.

    Não existe uma explicação definitiva para o fato dessas publicações terem recebido o apelido de “Catecismos de Sacanagem”. Nem o próprio autor tinha essa resposta. Alguns sugerem que vem do fato de serem produzidas no tamanho certo para serem colocadas dentro dos “catecismos”, já que a maioria dos garotos as compravam quando saíam da missa.

    Alcides Caminha, foi funcionário público da Divisão de Imigração do Ministério do Trabalho e ficou também conhecido como o autor dos sambas A Flor e o Espinho, Capital do Samba e Notícia, que compôs em parceria com Nelson Cavaquinho, nos anos 1950.

    Desenhista amador, Zéfiro copiava os seus personagens a partir de revistas eróticas estrangeiras ou fotonovelas. As situações e posições sexuais eram limitadas, mas não impediam o sucesso de suas publicações. Os personagens masculinos não variavam muito na forma ou na personalidade e seguiam sempre o mesmo padrão de comportamento: solteiros ou sozinhos, bonitos, bem-dotados, vaidosos, irresistíveis e sempre vitoriosos em suas investidas sexuais. Já o universo feminino, era mais variado: há virgens, viúvas, desquitadas, solteiras, casadas, ninfomaníacas, etc. Porém, um traço em comum as unia: a disposição imediata para o sexo.

    No início dos anos 1970, com a chegada ao mercado brasileiro das revistas eróticas coloridas suecas e dinamarquesas, as revistinhas de sacanagem vão perdendo prestígio, até desaparecer. O próprio Zéfiro parou de produzi-las.

    É inegável que não há mais espaço no mercado literário atual, para alocar os folhetins eróticos de Carlos Zéfiro. Mas existe todo um contexto histórico em torno de sua arte, que a faz ser estudada até hoje pelos profissionais da área.

    Após sua morte, ele teve um trabalho publicado como homenagem póstuma na capa e encarte do CD Barulhinho Bom (1996), de Marisa Monte. E em janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto do mundo, no Museu do Sexo em Nova York.

  • COZINHA SEM FRESCURA – Uma revolucionária concepção gastronômica

    Entre os meus inúmeros e inconclusos projetos literários consta um livro de receitas. Cozinha sem Frescura aborda um novo conceito gastronômico baseado em uma cozinha… sem frescura. Sem frescura na hora de fazer, sem frescura na hora de escolher os ingredientes e principalmente sem frescura na hora de escrever a receita, que deve vir sempre acompanhada de uma boa história. Sem frescura, nesse caso e de acordo com o “mossoroês” clássico, significa sem chiqueza, sem sofisticação, sem refinamento, enfim, sem “riquifife”. Então vamos a história e a receita.

    Picado de Carne Arretado

    Picado de carne é um prato um pouco desdenhado quando se trata de tira-gosto ou até mesmo refeição. O sujeito come vaca atolada (costela com macaxeira), mão de vaca, guisado de carneiro, rabada, numa boa. Porém, quando lhe oferecem um picado de carne de terceira – que por sinal nem existe mais, já que qualquer carne hoje em dia é de primeira – faz cara feia. Pois bem. Vamos acabar com esse preconceito.

    Nas minhas peregrinações por botecos com meu amigo Toinho de Sônia, quando ainda morava em Mossoró lá pelos idos dos 90, certa vez nos deparamos com um bem simplesinho lá pelas entranhas do Abolição IV e resolvemos encarar. “Se a cerveja estiver bem geladinha, a gente pede um tira-gosto, se não a gente paga e vai embora”. Essa era a regra.

    Quando chegamos fomos atendidos por uma senhora não muito simpática, que devia fazer de tudo por lá. Dona, cozinheira, garçonete, faxineira, caixa. A cerveja (Brahma ou Antarctica, e só. Bons tempos…), estava tipo véu de noiva. Pedimos Antarctica, é lógico. Até hoje sou “antartiqueiro”. Qualquer dia conto a história da rixa entre os revendedores da Antarctica e da Brahma, que perdurou em Mossoró até uma engolir a outra e a outra engolir a uma, com o surgimento da Ambev. Teve até revólver no meio.

    Perguntamos o que tinha de tira-gosto. A “simpática” senhora, respondeu: “Carne”. De besta, eu ainda insisti: “E como é essa carne? ”. Ela impaciente: “Ora, como é?! Carne é carne”. Aí Toinho, já meio invocado, disparou seu vozeirão: “Pois traga logo essa carne e vamos ver no que vai dar!”. Em menos de 10 minutos chegou um prato com um picado suculento, cheio de legumes, uma farofinha do lado, rodelas de tomate e cebola e batata doce. Sensacional! Vou nem falar do preço! Ficamos por lá a tarde toda, comendo, bebendo, conversando miolo de pote e ouvindo uns bregas dos bons. Acabamos presenteados com um sorriso da proprietária e viramos fregueses.

    Então, em homenagem a meu amigo Toinho de Sônia, que não vejo há vários anos e àquela gentil senhora, vai minha receita de “Picado Arretado” para o deleite dos meus milhões de esfomeados leitores. Simples assim:

    Pegue uma peça de um quilo e pouco de posta gorda, ou acém, ou músculo. Tem umas que já vem sem osso. Corte em cubos como se fosse fazer espetinho. Não precisa tirar o excesso de gordura e as pelancas. Vai tudo. Tempere com sal, alho amassado, cebola picada, um pouco de manteiga do sertão, 2 colheres de sopa de extrato de tomate e 1 tablete de caldo de carne. Misture tudo com as mãos e reserve.

    Prepare os legumes: 1 cenoura média cortada em rodelas, 1 batata inglesa em cubos, 1 chuchu em cubos, as partes mais espessas do repolho, uns 8 pedaços de jerimum caboclo com casca (só raspada).

    Espalhe rodelas de cebola branca e roxa, de tomate e tiras de pimentão no fundo de uma panela de pressão, com 2 colheres de margarina. Leve ao fogo. Quando a margarina derreter completamente, coloque a carne, deixe dar uma refogada até começar a criar um “graxinha”, acrescente umas 2 colheres de molho ou extrato de tomate e mexa bem sempre raspando o fundo da panela. Acrescente os legumes, água até cobrir tudo, mais uma boa mexida e feche na pressão.

    Quinze a vinte minutos após começar a chiar, desligue. Abra a panela, espere o cozido parar de borbulhar, acrescente duas colheres de sopa de maionese e mexa pra misturar tudo. Ligue novamente o fogo (panela sem pressão, só tampada) e deixe ferver mais um pouco. Verifique o sal, o ponto de cozimento dos legumes e não pode ficar com muito caldo. Se isso acontecer, escorra o excesso. Se quiser, guarde esse caldo pra fazer a sopa da janta. Depois dou a receita.

    Na hora de servir, jogue por cima cebolinha e coentro picados. Os acompanhamentos, os mesmos do picado do boteco: farofa, tomate e cebola em rodelas e batata doce. Se faltar alguns dos ingredientes ou não gostar de outros, não tem problema. Vá fazendo com o que tiver e gostar. No final dá tudo certo. Afinal, isso aqui é “Cozinha sem Frescura”, oxente!

    E haja cerveja boa – já testei e não funciona com cerveja ruim – estupidamente gelada e na radiola todo o repertório do gênio Elino Julião.

  • “QUARTOTA”, O PONTA DIREITA

    Lá pelos idos dos 80, eu trabalhava no Banorte e o meu primo presepeiro Gildo, trabalhava no Bradesco.

    Uma vez por ano, o sindicato dos bancários promovia o campeonato da categoria. Era uma disputa acirradíssima, que durava cerca de dois meses com jogos sempre aos sábados pela manhã.

    Àquela época, Mossoró possuía dez agências bancárias: Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Caixa Econômica, Bandern, Banorte, Bradesco, Banco de Mossoró, Banco Itaú, Banco Econômico e ainda tinha uma agência da Apern, a poupança do estado, que também participava do campeonato. Acho que não esqueci nenhuma.

    O nosso sindicato era uma potência com quase 500 associados contribuintes e o campeonato dos bancários era uma das competições mais importantes do futebol amador mossoroense.

    Mas, vamos ao que interessa.

    Eu não fazia muita falta ao time do Banorte, já que era reserva daqueles que só entravam em última instância, ou seja, quando alguém se machucava e eu era o único no banco de reservas. Mas, modéstia à parte, nunca fiz feio nas vezes em que fui convocado a entrar em campo. Na minha opinião, é claro.

    Já o status de Gildo era outro. Ele era o principal atacante do time do Bradesco. Ponta direita veloz e driblador, chegou a participar de “peneiras” no Potiguar e no Baraúnas. O problema eram os jogos no sábado pela manhã.

    Como é do conhecimento até do “mundo mineral”, como diria o grande jornalista Mino Carta, a rotina etílica de bancário é começar a beber na sexta-feira depois do expediente e “assistir ao sol nascer” (Cartola) ainda na gandaia. Algumas horas pela manhã para tentar diminuir a ressaca – já que é impossível curá-la – e retomar os trabalhos no sábado à tarde e “arrochar”, como a gente diz lá em nós, até o domingo. Aí é rede até recomeçar toda a chatice do serviço bancário na segunda-feira.

    Mas, vamos ao que interessa, outra vez.     

    Houve um ano em que o campeonato estava sendo disputado no campo do SESC. Quase em frente ao local dos jogos existia um boteco, o Bar de Seu Raimundo, que servia uma panelada de primeira categoria e que a turma de bancários adorava frequentar, sendo Gildo um dos mais assíduos.

    Sábado, dia de jogo e o Bradesco abriria a rodada logo às 9 horas enfrentando o “favoritaço” Banco do Brasil. O time já se preparando para entrar em campo e nada de Gildo aparecer.

    Seus colegas resolveram então ir procurá-lo lá em Seu Raimundo. Não deu outra. Lá estava ele com a tradicional “quartota” (um quarto de uma garrafa de cana) na mesa e devorando um prato de panelada.

    Com muita dificuldade conseguiram leva-lo para o local do jogo e o convenceram a tirar a farda do banco. Jogaram o bebum debaixo de um chuveiro e com ele ainda todo molhado vestiram o uniforme do time. Quando o treinador, que via de regra era um dos gerentes da agência, viu aquela presepada resolveu iniciar a partida com o seu craque no banco de reservas, pra ver se ele se recuperava um pouco da bebedeira.

     Começou o jogo e em menos de 15 minutos o Bradesco já perdia por 2 a 0. O treinador desesperado se virou prá Gildo e perguntou: “E aí, dá prá entrar?”. E Gildo: “Na hora!!!”.

    No primeiro lance, ele recebeu um lançamento em profundidade e saiu correndo em direção a bola. Quando já estava bem pertinho de alcançá-la, próximo da linha de fundo, parou, ajoelhou e começou a vomitar.

    A panelada de Seu Raimundo ficou toda espalhada no gramado.

    Um dos amigos que tinham ido pegá-lo no boteco, gritou: “Aí, Gildo! Quer outra “quartota”? Tem que aproveitar a panelada”.

    Desse dia em diante, ele ficou conhecido nos meios esportivos bancários como “Quartota”, o ponta direita.

  • VIVENDO PERIGOSAMENTE

    Dia desses, durante o asseio matinal, me dei conta de algo gravíssimo: o tubo de pasta de dentes estava quase vazio. Na “peinha” de nada. No armário do banheiro, nenhum de sobressalente. Com preguiça de me dirigir até o departamento doméstico de produtos para higiene pessoal, me pego a esfregar o cabo da escova no tubo de pasta, em busca dos últimos resquícios do precioso produto. Quem nunca? Enquanto realizava essa operação há muito em desuso, veio-me à mente aqueles antigos tubos de pasta feitos de uma liga metálica (alumínio + estanho), que de tanto a gente raspar em busca da última porção do dentifrício, largava a pintura. E aquele invólucro medieval e de alta periculosidade, enferrujava! O incauto usuário corria sério risco de ingerir ferrugem e arranjar uma grave inflamação no esôfago ou cortar um dedo e ser vitimado pelo tétano. Que vida insalubre! Que grande invenção da humanidade foi o tubo de pasta feito de plástico!

    Escarafunchando cuidadosamente o tubo na busca do último “tantinho” de creme dental, viajei no tempo e comecei a me lembrar de algumas coisas que transformavam a nossa meninez na antiguidade, em uma verdadeira batalha pela sobrevivência.

    Quando criança, piolhos e lêndeas eram tratados com a aplicação direta no couro cabeludo de um veneno chamado Neocid. Quem nunca ouviu aquele barulhinho “plac, plac, plac” enquanto o pozinho maligno se espalhava por entre os cabelos não imagina a aventura de se viver, que era ser criança no final da década de 60 e durante a de 70. Aquele “talquinho” fedorento causava problemas respiratórios e podia provocar o amolecimento do couro cabeludo e o enfraquecimento dos miolos.

    Se 90% da população adulta brasileira – quiçá mundial – na faixa dos 60, sofre com refluxo gastroesofágico e tem instalada em seu intestino a tal bactéria Helicobacter pylori é porque quando pirralho(a) tinha como lanche tradicional Ki-Suco, Q-Refresco, suco de “tamarina” e “quetais” acompanhado de broa, tapioca, orelha de pau, tareco, cuscuz, etc. Os primeiros sintomas de azia surgem na infância e já está cientificamente comprovado (pesquisa minha) que quem fez uso dessa bomba gástrica durante a puerilidade da vida está seriamente ameaçado(a) de adquirir uma úlcera antes dos 14 anos. E o que dizer do almoço de “fussura” de porco acompanhada de pirão de gordura que os fedelhos comiam de se lambuzar? Os colesteróis e os triglicerídeos fazem a festa até hoje. Sobremesa? Açúcar com farinha. Bem vindos glicoses e carboidratos. “Mãe! Essa comida tá ‘pia’. Não tem quem coma”. “Besteira menino. Hoje eu errei a mão. Um pouquinho de sal não faz mal a ninguém”. Muito prazer senhoritas sistólica e diastólica.

    As brincadeiras de rua também não eram lá muito salutares. Quando morei na Av. Alberto Maranhão em frente à praça do Mercado Novo em Mossoró, acontecia em dia marcado com antecedência (e não precisava de zap ou instagram) uma guerra de pedras entre os bairros do Alto da Conceição e Pereiros. Dessa “brincadeira”, os mais novos com idade entre 10 e 11 anos – tipo eu – não participavam e eram substituídos por irmãos mais velhos. Como eu não tinha irmão mais velho, nessas noites bélicas não colocava os pés na rua nem pra ganhar dinheiro. Mamãe perguntava logo se eu estava doente e papai quando percebia meu estado “borocoxólico” já me empurrava goela abaixo duas “lapingochadas” de Emulsão Scott, um instrumento de tortura muito usado pelos pais naqueles tempos. Óleo de fígado de bacalhau! Ô troço ruim da mulesta! Quanto a batalha campal, ainda bem que a distância entre os dois “exércitos” era de uns 300 metros e os “guerreiros” não eram muito bons de pontaria. Aqui e acolá aparecia um “ferido” com um galo na testa, que era exibido como um troféu de guerra entre toda a “estupefacta” e orgulhosa tropa.

    Jogar bola no meio da rua não era para os fracos. Arrancar um “chamboque” do dedão do pé no calçamento era comum entre os destemidos atletas infantis. E nada de abandonar o jogo. Tinha que permanecer até o fim jogando com o pé apoiado no calcanhar. Pense numa pereba horrorosa que se formava quando aquilo inflamava! E ainda tinha que ir para a escola com um pé no conga e outro no chinelo. Joelho esfolado? Bobagem. Todo herói carrega pelo resto da vida suas cicatrizes nas articulações sinoviais.

    Dentre as brincadeiras de jogo de bola no meio da rua, havia uma de altíssima periculosidade: resta um. Nada a ver com aquele joguinho inocente de tentar deixar apenas uma peça sobrando num tabuleiro plástico cheio de furos em formato de cruz. Era o seguinte: o mais velho ia para o gol (as traves eram uma das portas do Mercado Novo) e os demais – nunca menos de 20 – tinham que ficar correndo atrás da bola tentando fazer um gol. Quem alcançava a façanha se retirava do jogo e assim continuava até restar apenas um. Prêmio do infeliz: atravessar um corredor polonês levando cocorote no “cucuruto” de todos os outros jogadores.

    Jogar bola no meio da rua também era um caso de polícia. Em alguns dias durante a peleja noturna, aparecia do nada um opala preto fazendo ronda em nossa região e avançava na direção dos distraídos “peleiadores”, quase atropelando todo mundo. Depois de muitos sustos ficou estabelecido que antes do início de cada jogo de bola, um garoto da turma seria sorteado para exercer a função de “pastorador” do carro preto. E não adiantava estrebuchar. Regras de turma são regras de turma e existem para serem acatadas. Ao grito de: “lá vem o carro preto”, a correria era grande e não sobrava um no meio da rua pra contar a história. Rezou a lenda àquela época, que em outra rua próxima a nossa, uma turma desprevenida – não adotou o “pastorador” – foi atropelada e alguns dos seus integrantes foram parar no hospital.

    Bons tempos aqueles! E apesar de sequelas de várias espécies, ainda estou por aqui.

  • A CARNE MAIS BARATA DO MERCADO É A CARNE NEGRA

    No dia 06 de maio de 2021, uma quinta-feira, a população carioca acordou com a notícia de uma operação policial com várias mortes na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro. No decorrer do dia e no desenrolar das notícias, descortinou-se o tamanho da tragédia: mais uma chacina em mais uma operação mal sucedida e mal explicada envolvendo as polícias civil e militar do Rio de Janeiro. Vinte e oito vítimas. Bem ao seu energúmeno jeito de ser, o despresidente do Brasil comemorou a ação e parabenizou em um tweet a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro pela “eficiência”.

    Enquanto acompanhava o terrível noticiário, lembrei-me de um documentário que assisti no final de 2020: “Auto de Resistência” (2018 – Roteiro: Juliana Farias e Natasha Neri e Direção: Lula Carvalho e Natasha Neri).

    Ao deparar-me pela primeira vez com o título do filme, um documentário sobre os homicídios praticados pela polícia contra civis no Rio de Janeiro, atribuí equivocadamente à palavra Auto, o sentido de saga, luta, até porque é uma palavra que também nos remete à dramaticidade do teatro. De imediato, lembrei-me de Ariano Suassuna e seu “Auto da Compadecida”. Auto: TEAT – Composição dramática medieval, dos séculos XV e XVI, vinculada aos mistérios e moralidades e talvez deles proveniente, em geral alegórica, de tema religioso ou profano, muitas vezes de argumento bíblico ou satírico, etc. Definições do dicionário Michaelis.

    O Auto do título do impactante documentário, no entanto, está relacionado aos Autos de Resistência, execrável subterfúgio jurídico para justificar e absolver os crimes praticados por policiais contra civis.

    Esclarecendo:

    Auto: JUR – Ato público destinado a cumprimento de imperativo legal ou ordens de autoridades constituídas. JUR – Narração escrita, circunstanciada e autenticada por tabelião, de ato ou diligência judicial ou administrativa, que se constitui em prova, registro ou evidência de uma ocorrência (também do Michaelis). É, portanto, uma palavra que faz parte do linguajar “juridiquês”.

    O Auto de Resistência não existe no nosso Código Penal. Porém, a sua execução tem respaldo no seu artigo 292, que diz: “Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas”. Sendo assim, quando um policial mata sem qualquer justificativa um “suposto suspeito” alega legítima defesa, que houve resistência à prisão e muitas vezes “monta” a cena do crime de acordo com a versão que lhe é conveniente. Esse tipo de ocorrência é registrada como “Auto de Resistência” e as testemunhas são os próprios policiais que participaram da ação. Dificilmente esses assassinos vão a julgamento. A impunidade fica oficializada logo nas primeiras audiências.

    Em seu estudo “Autos de Resistência: uma análise dos homicídios cometidos por policiais no Rio de Janeiro (2001-2011)”, o sociólogo Michel Misse, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro propôs o arquivamento de 99,2% dos casos de Auto de Resistência neste período, apesar de todas as evidências dos crimes apresentadas nas audiências preliminares.

    O que resta aos familiares dessas centenas de vítimas é a busca por justiça em todas as instâncias legais, até a exaustão física e mental. Organizam-se em torno de associações de vítimas e protestam nas ruas, onde passam a ser estigmatizados como “parentes de bandidos”. É uma saga pessoal em busca de justiça e porque não um “ato de resistência” contra a estigmatização social, essa marca cruel atribuída por um grupo social que se acha superior e que designa outro ser humano ou grupo social como desqualificado ou menos valorizado.

    Através dos personagens reais do filme “Auto de Resistência”, percebemos o quanto é difícil conviver com o estigma social de ser preto, pobre e favelado – além de “parente de bandido” – e clamar por justiça em um ambiente inteiramente hostil e pré-determinado a não interceder a favor dessa justiça. Essa hostilidade se expressa através de ironia, piadas preconceituosas, insultos verbais ou gestuais, humilhação pública, reações hostis ou violentas que caracterizam a perpetuação de estereótipos que orientam a primeira impressão de um indivíduo em relação ao outro.

    Os conceitos de racismo, preconceito racial e discriminação racial, estão claramente identificados na maneira como as audiências públicas iniciais sobre os crimes praticados por policiais contra civis são conduzidas. Em todos os casos apresentados, as vítimas são pessoas negras. Preto, pobre e favelado. O mais contraditório, é que em muitos desses casos, vítimas e algozes pertencem ao mesmo grupo racial e social. No entanto, as relações de poder os colocam em situações distintas, embora ambos sejam vítimas do racismo.

    Vários relatos no documentário, descrevem em detalhes a abordagem dos policiais “contra” as vítimas. Em linguagem policial, o ato de abordar é o primeiro contato do policial com o público. Tanto os atos de orientar ou esclarecer, quanto os de corrigir, prender ou investigar são formas de abordagem. A abordagem é entendida como a maneira pela qual um policial identifica, corrige, prende ou investiga um suspeito de vir a cometer ou ter cometido um crime ou infração.

    Porém, o que ocorre na maioria das abordagens policiais no Brasil é a “filtragem racial”, ou seja: a tática de mandar alguém parar por causa da cor da pele e uma vaga suspeita de que a pessoa esteja tendo um comportamento delitivo. E quando os órgãos do poder – nesse caso as instituições policiais – adotam a “filtragem racial” como forma de abordagem, se escancara o cruel e esdrúxulo racismo institucional, que ocorre basicamente quando uma organização ou estrutura social cria um fato social racial hierárquico a partir da adoção de tratamento diferenciado entre raças, de forma a privilegiar um indivíduo em detrimento do outro, sem qualquer respaldo legal.

    Essa é a origem nefasta de todas as incontáveis tragédias sociais tipificadas pela relação “poder estabelecido x população civil” que se multiplicam pelo Brasil inteiro, onde as milhares de vítimas são sempre “pobres, pretos e favelados”.

    Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, apontam que em 2019 ocorreram 6.357 mortes por intervenções policiais e no primeiro semestre de 2020 foram 3.203. Do total de vítimas, 99,2% eram homens, sendo 79,1% de negros e 74,3% de jovens até 29 anos.

    Chegamos ao final do primeiro semestre de 2021… e contando.

     Recomendo “Auto de Resistência – O Filme” e me perdoem qualquer spoiler.

    (https://drive.google.com/file/d/1eYsyahexwJJVek7Uh0Gm-peNNkZ4kaaB/view?usp=sharing)

    * Autores: Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette – Intérprete: Elza Soares

  • TODO TREINADOR BRASILEIRO É UMA BESTA QUADRADA

    Assistir futebol na TV durante essa reclusão que já dura um ano e alguns dias, não tem sido fácil. Sozinho com minha cerveja, fico a lembrar das discussões intermináveis entre a turma que se reunia aqui em casa para assistir jogos do Flamengo, independente da importância. O arranca-rabo começava no pré-jogo, avançava pelo jogo e continuava no pós-jogo. A discussão pós-jogo, via de regra invadia a madrugada e só acabava quando as esposas ou namoradas ameaçavam abandonar os bebuns ao relento. Como isso me faz falta! Um dia a gente volta.

    Em várias de nossas saudosas “Mesas Quadradas” ou algo que o valha, em que ninguém se entendia, aqui e acolá – muito raramente é bom que se diga – alguma discussão chegava a um consenso.

    Apresento os participantes mais efetivos daquelas efusivas “Mesas Quadradas”:

    Eu – Simplesmente o “Maior Entendedor de Futebol do Mundo”, segundo eu mesmo.

    Túlio Filho (filho) – O mais bem informado. Só quer ser o PVC (Paulo Vinícius Coelho, um comentarista chato da Sportv, ex-ESPN) da turma.

    Neto Falcão (primo) – O mais “zuadento”. Não diz coisa com coisa e acha que tem sempre razão.

    Deppe (irmão) – O mais teórico e “Maria Vai Com as Outras”. Tem o dom de concordar e discordar de todos ao mesmo tempo.

    Marcelo Cerqueira (amigo) – O mais desinformado. Ainda acha que Val Baiano joga no Flamengo.

    Caio Valério (irmão) – Detesta discussão de futebol, mas tem que aguentar pra não perder a farra.

    Convidados eventuais:

    Luiz Costa (primo) – Não deixa ninguém falar e não consegue completar um raciocínio. É vascaíno e mora em Mossoró.

    Luiz Antonio (primo) – Àquela época, morava em Rio Branco-AC. Hoje mora no circuito Mossoró-Ponta do Mel. A paz é o seu lema e tem plena convicção de que a Série B faz bem a algum time. É vascaíno. Tá explicado.

    Pois bem. Vamos ao tema que gerou um raro consenso: “Pelos jogadores talentosos que possui, o Brasil deveria chegar a todas as finais de Copa do Mundo”. E porque não chega? Respondo eu: porque todos os treinadores brasileiros são umas bestas quadradas. São teimosos ao extremo, adoram topar de frente com as unanimidades e estão sempre comprando briga com a imprensa especializada.

    A seguir, um resumo rápido das principais “bestices” dos treinadores brasileiros a partir de 1974 e que custaram a conquista de títulos:

    Copa do Mundo de 1974 (Zagallo): Foi Campeão em 70 aproveitando a convocação de João Saldanha. Quando teve que fazer a sua própria convocação, se perdeu completamente. Conseguiu desperdiçar uma geração espetacular que contava com: Rivelino, Jairzinho, Carpegianni, Luis Pereira, Leão, Nelinho, Marinho Chagas, Leivinha, Paulo César Caju e tantos outros. Convocou mais de “300” jogadores e não formou um time.

    Copa do Mundo de 1978 (Cláudio Coutinho): O pai do overlapping. Tinha uma grande seleção em mãos, mas cismou em colocar Edinho (zagueiro) de lateral esquerdo e Toninho (lateral direito) de ponta direita.

    Copa do Mundo de 1982 (Telê Santana): A melhor seleção brasileira depois da de 70, mas Telê resolveu bancar o “frangueiro” do Valdir Perez (goleiro) e o maluco destrambelhado do Serginho (centroavante) como titulares.

    Copa do Mundo de 1986 (Telê Santana): Essa Copa foi muito estranha. Telê assumiu em uma emergência, apelou para a experiência da turma de 82 para classificar o Brasil nas eliminatórias e para tumultuar ainda mais o ambiente, aconteceu a deserção de Leandro e o corte de Renato Gaúcho na hora do embarque para o México. Zico à meia boca também atrapalhou muito. E aquela derrota nos pênaltis para a França foi de lascar! Dá pra livrar – mais ou menos – a cara do mestre nessa.

    Copa do Mundo de 1990 (Lazaroni): Jumento foi quem chamou um jumento para treinar a Seleção Brasileira. Surgimento da “Era Dunga”. Precisa dizer mais?

    Copa do Mundo de 1998 (Zagallo): “Ói ele aí travez” fazendo lambança. Corte de Romário. “Piripaque” de “Ronalducho” antes da final (boto ou não boto?) e… Júnior Baiano!

    Copa do Mundo de 2006 (Parreira): Bancou a “Farra do Hexa” com o “Quadrado Mágico”, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e Adriano (os dois últimos visivelmente acima do peso) e não tinha opções no banco de reservas. E ainda teve o “meião” do Roberto Carlos na derrota para a França. Dizem que ele estava seguindo instruções de Parreira: “Henry não era o meu homem”. Pois diga!

    Copa do Mundo de 2010 (Dunga): Felipe Melo. Precisa dizer mais alguma coisa?

    Copa do Mundo de 2014 (Felipão): A única jogada ensaiada da “Selecinha de Felipão” era: “bola no Neymar e seja o que Deus quiser”. O goleiro titular era reserva no Toronto do Canadá. Confiava demais no maluco do David Luiz e os reservas Dante e Henrique não jogavam nem no Íbis. E convocou Jô! Não tinha Neymar para a semifinal contra a Alemanha e escalou Bernard “alegria nas pernas” para conter o avanço dos laterais alemães. 7 a 1 foi pouco.

    Copa do Mundo de 2018 (Tite): Mais uma vez o Brasil dependia quase que exclusivamente do talento de Neymar. Acabou caindo para a Bélgica nas quartas de final. Mas de acordo com o “Empatite”, naquele dia o Brasil fez a melhor apresentação sob o seu comando. E Neymar acabou virando motivo de chacota mundial por causa do gasturento “cai cai”.

    Até 22. Se houver.

  • FUTEBOL, NOMES, PRONÚNCIAS, VARIAÇÕES E CONSTRUÇÕES – Eita povo criativo!

    Uma das maiores contratações do Flamengo em 2020, Michael — leiam como quiser — foi eleito revelação do Campeonato Brasileiro de 2019 jogando pelo Goiás. O baixinho invocado infernizou a vida dos zagueiros adversários naquele longínquo 2019. Inclusive os do super campeão Flamengo. Mas até agora o endiabrado ponta não justificou sua contratação milionária. Só conseguiu mesmo foi provocar muita raiva no torcedor rubro-negro. Os experts argumentam que ele não rende no Flamengo o que rendia no Goiás por causa do estilo de jogo. O Flamengo é um time ativo e o Goiás é reativo. O Flamengo marca em cima e o Goiás marca em baixo. O Flamengo joga na pressão alta e o Goiás na pressão baixa. O Flamengo varia muito nas posições e o Goiás é mais conservador. Muita lascívia presente nessas alegorias estilo-ludopédicas.

    Essa dificuldade de adaptação a um novo esquema de jogo ou posição, só mostra o quanto o jogador brasileiro vem se tornando cada vez mais limitado a um determinado posicionamento em campo. O craque “fulano de tal” só é craque se jogar no quadrante milimétricamente traçado dentro dos 90m x 120m de um campo de futebol. Mexeu para um lado ou para o outro vira um perna de pau. “No tempo que Don Don jogava no Andaraí” (Dudu Nobre), ser um jogador polivalente (jogar em todas) era uma qualidade. Agora, em tempos de futebol posicional (mais uma dos experts) prevalece a máxima: “quem joga em várias posições não joga bem em nenhuma”.

    Voltando ao posicional e limitado territorialmente Michael. Além do futebol empolgante apresentado no Goiás, o que mais me chamou atenção no jogador à época foi o seu nome, sua grafia e pronúncia. É “Maiquel” ou “Michael” com o “ch” com som de “ch” mesmo? A pronúncia que temos ouvido para o seu nome é a segunda. Mas, quem garante que a pronúncia correta do nome do jogador é “Michael” com o “ch” com o som de “ch”? Se quem registrou o menino não queria que o chamassem de “Maiquel” porque resolveu registrá-lo com o nome de Michael como Michael Jackson? Daria certo “Mixael”? Não. Iriam acabar chamando-o de “Micsael”. Eu seria um. “Mijael”? Ficaria esquisito, né não? E por que não, simplesmente Michel? Ora! Mas se podemos complicar, pra que simplificar? E além do mais, desperdiçar a sonoridade do “aaaaaa”? Michaaaaaael!!! E Miguel? Vôts! Nem pensar! Simples demais.

    Anos atrás, outro jogador que fez muito sucesso foi o Maicosuel. Ainda deve tá jogando por aí em algum time de menor expressão. Nome legal e original. Seus pais não quiseram complicar a vida do funcionário do cartório na hora do registro, então resolveram aportuguesar o inglês ou escocês (há controvérsias) Maxwell. Lá em Mossoró, tenho um amigo que se chama Max Suel. Acabou virando Suel.

    Sempre que me deparo com essas construções vocabulares, principalmente em nomes próprios, me lembro do meu amigo Nicéias, que fez a viagem antes da hora e já está com os bons há alguns anos.

    Nicéias era um comerciante muito bem-sucedido lá de Mossoró. Apaixonado por futebol, torcedor do Baraúnas e do Botafogo, sua loja de roupas (que depois se transformou em loja de tudo), a Casa Rinaceas, sempre foi um sucesso de vendas no comércio mossoroense. Mas “peraí”! Rinaceas?! O que significa Rinaceas? De onde Nicéias tirou esse nome? Depois de alguns anos de amizade, descobri que o nome é originado da junção das últimas silabas do nome de sua esposa Severina (rina) e de uma adaptação das duas últimas sílabas do seu (ceas). E se pronuncia “Rinacéas”, com o “e” agudo. Mas bem que poderia ser “Rináceas”, com o “a” agudo. Sempre criativo com nomes, Nicéias tem duas filhas: Rosimary e Rosimary. Isso mesmo. Os nomes são iguais na certidão de nascimento. Só que uma se chama “Rosimare” e a outra “Rosimére”. Ou “Máre” e “Mére”. Arretado demais, né não?

    Aí meu amigo Aguiar, José Aguiar do Nascimento, tem um irmão que se chama… José Aguiar do Nascimento. Como a gente diz lá em Mossoró: “Eu se abro com um negócio desses”.
    Anos atrás, prestei serviços em uma faculdade em Natal e na manutenção do cadastro de alunos me deparei com algumas pérolas: Leididai, Shirley Maquilaine, Rodistuarte, Mica Raquinen.

    E ainda tem a mistura de dois ou mais nomes para formar outro: Franciscleide (Francisco + Cleide), Marcicleo (Márcio + Cleonice), Marivaldo (Maria + Osvaldo), Darlete (Darlan + Arlete), e por aí vai.

    Quem me conhece e conhece a história da família de Chicoliveira e Maria do Socorro (papai e mamãe), há de pensar enquanto lê esse texto: “olha só quem tá falando de nomes próprios esquisitos”. Pois é. Tenho cinco irmãs e todas se chamam Mirian. Mirian Gratia Plena, Mirian Stela Maris, Mirian Regina Coeli, Mirian Veraclides e Mirian Magdali, todas com sobrenome Oliveira Costa. Veraclides e Magdali eu acho que são únicas no mundo.

    Eu sou Marco Túlio Cícero (filósofo da Roma Antiga). Meus irmãos, Caio Valério Catulo (poeta da Roma Antiga) e Ângelo Giuseppe Roncalli (Papa João XXIII), os três com sobrenome Costa Oliveira. A inversão dos sobrenomes, segundo Chicoliveira autor do artifício, seria perpetuar o seu sobrenome.

    Quando uma das mulheres casasse, não correria o risco de perder o Oliveira na hora de adotar o nome de casada.

    Chicoliveira é uma criação de Francisco das Chagas Oliveira. Como não gostava da sonoridade de Chico Oliveira separados, resolveu oficializar a pronúncia Chicoliveira como alcunha.

    Marco Túlio Cícero é jornalista

  • A MINHA SÉRIE É MELHOR QUE A SUA

    Devo admitir que nunca fui bom em indicar séries. Minhas indicações são sempre ignoradas e/ou ironizadas nas conversas e debates familiares, entre amigos e grupos de whatsapp.

    Em tempos idos, com o surgimento da TV por assinatura, assistíamos séries dos canais HBO, Sony, Warner, AXN, etc. O primeiro grande “hit” de que me lembro foi a série Lost, que só tive a curiosidade de assistir a um episódio, porque disseram que havia uma participação relâmpago e hilária de Rodrigo Santoro. Achei uma tremenda maldade com o ator brasileiro de carreira internacional. Sua participação não foi tão relâmpago e nem tão hilária assim. Acho até que ele se saiu bem. Lost passava no canal AXN. Nesse mesmo canal eu assistia e gostava de Alias, série de espionagem e aventura com a belíssima Jennifer Garner. No entanto, quando tentava falar alguma coisa sobre a série era imediatamente cortado: “uma chatice”. Na Warner, eu curtia as bobagens de The Big Bang Theory (bobagem + ciência) e Two and a Half Men, onde Charlie Sheen fazia o papel dele mesmo. Essas aí eu nem me arriscava a comentar, para não ser chamado de “abestado”. “Abestado”, de acordo com os “entendidos em série” é a pessoa que assiste séries de comédia. Nunca entendi o preconceito.

    Então veio o mega sucesso e mega premiado Game of Thrones, da HBO. Meu filho conseguiu me convencer a assistir. Uma história estapafúrdia, com milhares de personagens, onde ninguém se entende ou consegue distinguir entre amigos e inimigos, parentes ou não parentes, cheia de mortes violentas, torturas inomináveis e… dragões. Desisti quando no último episódio de uma temporada, durante um casamento para selar a paz entre inimigos, todos os presentes na festa mataram-se uns aos outros. Morreu mais gente do que em todos os Rambos juntos e ainda 300 — A Ascensão do Império de lambuja. Nessa época eu assistia Mad Men, série sobre o mercado publicitário americano entre os anos 50 e início dos 70. “Como é que você assiste uma chatice dessas?!”, se espantavam os “entendidos”, para quem as únicas séries não chatas são as que eles assistem e indicam.

    Cabe aqui esclarecer que: uma série (ex. Game of Thrones) tem como principal característica a continuidade, ou seja, existe um “gancho” entre um episódio finalizado e o próximo a ser exibido e essa narrativa sequenciada se estende por uma temporada ou até a temporada final. Já o seriado (ex. franquia CSI) é classificado como uma narrativa que pode ser concluída em apenas um episódio. As histórias são eventos que se resolvem rápido.

    Dito isso, vamos encerrando por aqui esse interlóquio, porque são centenas de séries e seriados a serem comentados (clássicos como: Friends, as franquias CSI, Law & Order, Criminal Minds, séries sobre hospitais como Grey’s Anatomy, The Good Doctor, Chigago Med e outras tantas) e o tempo urge. Avancemos pois, até a chegada dos serviços de streaming no Brasil e a overdose de séries provocada pela Netflix a partir de 2011. À guisa de informação, streaming (transmissão) é a tecnologia de transmissão de dados pela internet, principalmente áudio e vídeo, sem a necessidade de baixar o conteúdo.

    Aí o bicho pegou! Ficou impossível para uma pessoa normal — do tipo que mantém uma rotina diária de trabalho, estudos, lazer e que dorme e acorda nos horários recomendados pela ciência — acompanhar tantas séries e seriados disponíveis. Daí surgiu — assim acho eu — o termo “maratonar uma série”. Ou seja, passar horas, dias e noites, semanas e meses grudado em frente à TV até “os’ói ficar quadrado”, para assistir de uma cacetada só todas as temporadas de uma série famosa e super indicada.

    Com o advento do estreaming, as indicações de “melhor série de todos os tempos” se multiplicaram de forma absurda. Até porque no rastro da Netflix, outros serviços passaram a operar por aqui: HBO Go, Globoplay, Amazon Prime, Apple TV. Ultimamente tenho recebido indicações de algumas séries dessas outras operadoras. Como acatar essas indicações, se não consigo dar conta nem de 1% do conteúdo da Netflix? Não é à toa, que de tanta coisa ruim que comecei a assistir e não terminei, o “pau que mais tem” — como a gente diz lá em Mossoró —, no meu histórico da Netflix é: “Continuar assistindo como Marco Túlio”.

    E cada pessoa que indica, o dito “entendido em série”, defende a sua ou suas séries com unhas e dentes. E de nada adianta você contra-atacar com outra. Recebe logo o clássico: “uma chatice”.

    Vamos em frente, porque em 2017, quando o serviço de streaming já estava plenamente consolidado no Brasil, o mundo conheceu e se apaixonou pela espanhola La Casa de Papel. Não parei para pesquisar, mas acho que foi a série da Netflix de maior repercussão, pelo menos até aquele momento. Série premiadíssima no mundo inteiro, sucesso de crítica e audiência incontestáveis. Por insistência dos “entendidos” resolvi encará-la, ainda que com um pé atrás. Trata-se de uma história completamente inverossímil e com um roteiro tão sem eira e nem beira, que ao invés de drama policial a série poderia ser classificada como realismo fantástico. Nada contra — que fique claro — esse gênero artístico/literário maravilhoso e que nos remete ao querido Ariano Suassuna. A verdade é que a muito custo consegui chegar ao fim da primeira temporada de La Casa de Papel, porém com interesse zero nas temporadas seguintes.

    O que de pior essa série conseguiu deixar como legado foi transformar e popularizar “Bella Ciao” — uma clássica canção popular italiana, cuja melodia foi usada para a música de protesto que se tornou símbolo da Resistência Italiana contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial — na “música de La Casa de Papel”. E pra completar a desgraça, “Bella Ciao” ainda ganhou uma versão brasileira através do funk de um tal MC MM, cujo significativo e poético título é “Só Quer Vrau”, e traz essas maravilhas de versos: Essas malandra/Assanhadinha/Que só quer vrau, só quer vrau/Só quer vrau, vrau, vrau/Vem pra favela/Ficar doidinha/Então vem sentando aqui (Senta aqui, senta aqui, vai)”. Desgraça pouca é bobagem.

    No entanto, sobrou algo de bom em ter visto La Casa de Papel: várias indicações para séries em línguas espanholas. Tá lá no histórico: “Porque você assistiu a La Casa de Papel”. Aí fui apresentado a: La Casa de Las Flores — comédia e drama (mexicana), Las Chicas del Cable drama de época/anos 20 (espanhola), O Tempo Entre Costuras drama de guerra (espanhola), Alto Mar suspense de época/anos 40 (espanhola), Velvet drama e comédia de época (espanhola). Excelentes séries, mas que não me arrisco a indicar a algum “entendido” pra não correr o risco de ouvir pela enésima vez, mais um: “uma chatice! Boa mesmo é…”.

    Mas, se o caríssimo leitor e a caríssima leitora quiserem arriscar, fica a dica.

    PS: Não quis citar os seriados que assistia quando criança logo que surgiu televisão em Mossoró (pelo menos na minha rua) no início dos anos 70 (Bonanza, Daniel Boone, Speed Racer, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar e outros), porque esse artigo corre o risco de ter que ser publicado em série de tão longo.

  • ARENA NOGUEIRÃO PADRÃO FIFA

    Como já é de praxe no futebol mossoroense em todo início de Campeonato Estadual, o nosso depauperado Nogueirão será submetido à rigorosa vistoria por parte das autoridades bombeirísticas, ludopédicas, ecumênicas e eclesiásticas às vésperas da estreia dos nossos clubes, isto é, clube, na competição. Em 2021, mais uma vez, apenas o Potiguar. O Baraúnas rebaixado em 2018, parece que fechou as portas em definitivo e não existe perspectiva de voltar a disputar a Série A do nosso “estadualzinho” de José VENALdo, digo, Vanildo, via disputa da Série B. Lamentável. Esse ano, mais uma vez não acontecerá o maior clássico do futebol mundial: o POTIBA. É a mesma coisa que o Campeonato Espanhol sem Real Madrid X Barcelona.

    Mas voltemos ao nosso histórico e maltratado Nogueirão. O presidente do Potiguar, Benjamin “Button” Machado, depois de acompanhar o alvirrubro em seu périplo ludopédico por todo o estado do RN, a fim de cumprir os seus jogos com mando de campo durante o Estadual 20 e Série D, bateu o pé: “Sem o Nogueirão, o Potiguar não joga o Estadual 2021”. O jovem e recém empossado prefeito mossoroense foi categórico: “O torcedor pode ficar tranquilo: o Nogueirão vai voltar a ser o Nogueirão que tanto orgulha o povo mossoroense”, repetindo a célebre promessa pregressa de Dra. Rosalba no longínquo ano de 2012, quando era governadora. Não custa lembrar, que o Estadualzinho já começa no dia 24/02.

    Num hercúleo esforço jornalístico, tive acesso ao documento que contém todas as exigências necessárias à liberação do nosso querido estádio para as disputas da nossa principal competição pebolística. São pendências bobas, coisinhas simples, que com um pouquinho de boa vontade política e disposição do próprio Potiguar, já deveriam ter sido solucionadas há tempos. Se começar hoje dá pra ficar pronto antes do carnaval. Vamos a elas:

    1. Elevadores e escadas rolantes para acesso às arquibancadas, camarotes e tribunas de honra;
    2. Arquibancadas cobertas com teto retrátil;
    3. Um extintor de incêndio para cada dois torcedores;
    4. 36 saídas de incêndio anti-tumulto devidamente sinalizadas em neon fosforescente (existe isso?);
    5. Ar condicionado central nas arquibancadas, camarotes e tribunas de honra, para que os torcedores e autoridades não morram de calor;
    6. Catracas eletrônicas com identificação biométrica e visual;
    7. Revista eletrônica e automática para detecção de armas de fogo e outros apetrechos letais;
    8. A iluminação deve seguir os seguintes padrões: a quantidade de lux precisa ser igual em todas as partes do gramado. A luminância no plano vertical acima de 2 mil lux e no horizontal, superior a 3,5 mil lux;
    9. A grama deve ser do tipo Bermudas (cynodon dactylon) ou Esmeralda (zoysia japônica) e deve conservar uma altura entre 25 a 30 milímetros;
    10. Banheiros climatizados com pias e descargas automáticas;
    11. Chuveirinho com água morna para não irritar o fiofó dos torcedores com papel higiênico Neve;
    12. Quatro telões de alta definição para que os jogadores possam se ver e arrumar os cabelos desalinhados (CR7, lembram dele?).
    13. Estacionamento subterrâneo para 46.350 veículos;
    14. E finalmente, o plantio de 150 palmeiras imperiais importadas de Portugal ao redor do estádio, pra ele ficar mais bonitinho.

    São só essas besteirinhas. Ou isso ou daqui a duas semanas, o Potiguar vai ter que mandar seus jogos no majestoso estádio Edgar Borges Montenegro, em Assu.

  • CARTA ABERTA AOS “PETRALHAS”

    Caríssimas e caríssimos “petralhas”! Calma! Muita calma nessa hora. Não se irritem com o epíteto. Estamos juntos nessa. Também sou um “petralha”. E a intenção desta carta é exatamente essa: tranquilizá-los em relação à maneira simpática pela qual somos tratados por indivíduos do “outro lado”. É verdade. Acho esse apelido muito simpático, pouco agressivo e em nada me incomoda.

    “Petralha” é um neologismo criado pelo jornalista político ultraconservador Reinaldo Azevedo (ex-blogueiro da ridícula Veja e atualmente colunista do UOL do Grupo Folha) a partir da contração das palavras petista e metralha. Uma alusão aos cativantes personagens “Os Irmãos Metralhas” idealizados por Carl Barks em 1950 e incorporados ao universo lúdico das histórias em quadrinhos de Walt Disney em 1951.

    Desde os primórdios, o único propósito dos atrapalhados irmãos em suas aventuras é tentar espoliar qualquer fração – por mínima que seja – da incalculável fortuna do muquirana capitalista selvagem, Tio Patinhas. E apesar de permanentemente caracterizados com roupas de presidiários e numerados com variações e combinações dos números 1, 6 e 7, “Os Irmãos Metralhas” não possuem histórico de grandes maldades em suas peripécias “robinhoodianas” em busca de justiça social.

    Então, meus caros. Não estraguem o seu humor ou fiquem injuriados, quando algum do “outro lado” imaginar que está praticando a maior das ofensas, ao chamá-los de “petralhas”. Relaxem. Eu próprio há muito que já me considero um “petralha” de ótima cepa.

    E não tenham dúvidas: em matéria de criatividade na hora de produzir neologismos ou apelidos, estamos anos-luz à frente dos nossos adversários. Tem coisa mais linda do que “tucanalha”? Tucano + canalha. Isto sim! É forte, direto, inapelável. Diz a que veio. “Tucanalha” não tem um autor específico. É uma criação coletiva dos militantes petistas.

    E o que dizer de “coxinha”? “Coxinha” é uma delícia. Literal e figurativamente. O “tucano-coxinha” é uma variante marombada dos “mauricinhos” da época de Collor, que adoravam se exibir em público com suas camisas polo Lacoste, bermudas Hugo Boss e mocassins de couro de crocodilo Salvatore Ferragamo e sempre carregando um copo de uísque Logan nas mãos. Quando o nosso principal inimigo ainda eram os tucanos, ser chamado de “coxinha” provocava um efeito devastador sobre os do “outro lado”. Eles alcançavam os píncaros da irritação e nos questionavam enfurecidos: “por que coxinha?!”. É óbvio que nunca tivemos nenhuma obrigação de esclarecê-los. Se quiser que vão no google.

    Todavia, confesso que chego a sentir saudade dos “coxinhas”, diante da virulência dos seguidores do acéfalo que assumiu a presidência do Brasil em 2019, Para esses —  exemplarmente alcunhados de “bolsominions” — qualquer sujeito contrário aos seus ideais de extrema direita é considerado um “esquerdopata” e deve ser exterminado da face da terra. Qualquer conceito relacionado à esquerda é associado a uma doença, uma psicopatia. Portanto, na atual conjuntura política do Brasil, até um “tucano-coxinha” pode ser taxado de “esquerdopata”. Não à toa, FHC, um ícone do neo-liberalismo tupininquim é tratado por eles como um comunista “feladaputa”.

    Em tempo: “Bolsominion” é uma junção de bolso (de Bolsonaro) com minion (do inglês: servo, lacaio). No filme “Meu Malvado Favorito” os minions são os ajudantes do super vilão Gru em seu plano maquiavélico de roubar a lua. Nada mais perfeito.

    Portanto, relaxemos e sobrevivamos, caríssimas e caríssimos. E asseguro-lhes: além de petistas, “Lulistas”, “Dilmistas”, “petralhas“, “comunistas comedores de criancinhas”, “bolivarianos desgraçados”, “vermelhos malditos”, “esquerdopatas” ou algo que o valha, nós também somos um bando de “fodásticos”. Muito “fodásticos”! Foda + fantásticos. Maravilha de neologismo, né não? Só não sei de quem é a autoria.

    Saúde e paz!

    Marco Túlio Cícero é jornalista