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  • A GREVE BANCÁRIA DE 1987 EM MOSSORÓ

    Em março de 1987, não se falava em greve de bancos privados no meio bancário mossoroense. O simples fato de comparecer a uma assembleia servia como motivo de advertência ou até demissão. Após cinco anos como escriturário no Banorte (hoje Banco Itaú), eu acabara de ser promovido a Chefe de Setor. Era responsável pelo setor administrativo/contábil da agência, que inclua a compensação de cheques (o grande nó do serviço bancário à época), fechamento contábil, cobrança e parte do atendimento. Já casado, minha filha mais velha, Isadora, tinha 8 meses.

    A categoria dos bancários já vinha de algumas greves bem sucedidas nos anos 80, porém, os movimentos se restringiam às principais capitais e algumas grandes cidades do país, onde a categoria era forte e tinha maior poder de mobilização. Em uma cidade como Mossoró, estava completamente fora de cogitação se pensar em fechar alguma agência de banco privado por motivo de greve.

    Mas algo aconteceu naquele longínquo 1987. Com a aceleração da inflação, os bancários viram o seu poder aquisitivo despencar. O resultado foi a primeira grande greve nacional fora da Campanha Salarial, que acontece em setembro. Conhecida como “Bola de Neve”, devido ao crescimento diário de adesões, a paralisação atingiu 80% da categoria.

    A greve foi decidida no dia 14 de março de 1987 no Encontro Nacional dos Bancários, em Campinas/SP e a partir daí as assembleias locais se sucederam. A participação de bancários do setor privado nessas assembleias em Mossoró, começou muito tímida. Mas embora sofrendo a pressão dos gerentes das agências (gerente de banco privado nunca se acha funcionário igual aos outros, até o dia em que é demitido), aos poucos essa participação foi crescendo.

    No dia 24 a greve foi aprovada e marcada para começar no dia seguinte. A pergunta: “quem vai fechar amanhã?” marcou o encerramento da assembleia. Os representantes do Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Caixa Econômica e Bandern (banco estadual) garantiram fechar as agências espontaneamente, sem necessidade de grandes piquetes. Então chegou a vez dos bancos privados. Bradesco e Itaú, como sempre, não tinham representantes. Quando perguntaram sobre o Banorte, eu respondi: “nós fechamos”. Todos me olharam com cara de espanto. Os meus colegas de banco presentes questionaram: “mas Túlio, como é que você garante que fecha? Como é que a gente vai fazer isso?”. “Terminar aqui a gente decide”, respondi. Os representantes do Banco Econômico e do Banco de Mossoró também se manifestaram: “talvez a gente precise de piquete pra fechar”.  Ficou acertado que os funcionários de um banco fariam piquete em outro. A turma do Banco do Brasil encarregou-se de ir para o Banorte.

    Após a assembleia, nos reunimos (eu e mais uns dez “banortistas”) e decidimos que quem não quisesse participar dos piquetes deveria ficar em casa. E após muita insistência, ainda conseguimos convencer – indo na residência ou por telefone – mais alguns que não participavam das assembleias a não ir trabalhar no dia seguinte. A nossa estratégia seria não permitir o acesso de qualquer pessoa a agência. Funcionário ou cliente. Os funcionários começavam a chegar por volta das oito horas e a agência abria ao público a partir das dez. Seis horas, ainda quase sem movimento na rua, eu e mais uns três companheiros chegamos na agência e entupimos a fechadura, os ferrolhos e as dobradiças da porta principal com superbond.

    Quando os funcionários que não aderiram à greve começaram a chegar para trabalhar, não conseguiram entrar porque a porta não abria. Os “piqueteiros” conseguiram convencer alguns a voltar para casa explicando que a greve era nacional e irreversível. Quando o quadro gerencial começou a chegar, a movimentação do lado de fora da agência já era grande. Mas com o passar do tempo a maioria dos clientes e curiosos que se aglomerava à espera da abertura do banco começou a se dispersar. Só conseguiram abrir a porta depois das 11 horas e a agência ainda conseguiu funcionar precariamente nesse dia e nos seguintes. Os gerentes e alguns chefes de seção fura-greves, passaram a receber dos grandes clientes, depósitos e pagamentos em dinheiro e em cheques sem nenhum registro nos caixas e na tesouraria. O pós-greve no Banorte Mossoró foi um verdadeiro caos contábil. Mas isso já é outra história.

    Final do expediente bancário, era a hora de nos dirigirmos a AABB (Associação Atlética Banco do Brasil) para a primeira assembleia de avaliação do movimento. O saldo, apesar de alguns pequenos tumultos, foi positivo. As agências dos bancos estatais fecharam sem problema, o Banco Econômico e o Banco de Mossoró aderiram à greve sem maiores contratempos e os grevistas do Banorte mereceram aplausos por sua ousada tática grevista. Como já era de se esperar, Bradesco e Banco Itaú abriram as suas agências normalmente. Foi assim em quase todo o Brasil. A estratégia para os dias seguintes, portanto, seria concentrar todos os piquetes nessas duas agências. Nós, os grevistas do Banorte de Mossoró, já havíamos feito a nossa parte. A ordem agora era participar dos outros piquetes.

    Por morar próximo ao Itaú, fiquei no comando desse piquete. Na época, eu e alguns amigos tínhamos uma charanga (ou batucada) e os instrumentos de percussão ficavam guardados em minha casa. Surdo, tarol, tamborim, reco-reco, ganzá e outros badulaques mais, que bem tocados ou não faziam um barulho desgraçado. No dia seguinte, logo cedo, lá estávamos nós, os “piqueteiros do samba”, na calçada do Itaú “armados” com os nossos instrumentos, formando uma espécie de corredor polonês e batucando no “pé do ouvido” de quem passava pela porta. Não conseguimos impedir o acesso dos funcionários ou fechar a agência, mas fizemos uma balbúrdia da “mulesta” durante todo o período do expediente. Quando já estava indo embora, o gerente da agência (amigo de cerveja nos fins de semana) veio falar comigo: “Túlio, rapaz. Isso não é greve. É baderna. Amanhã tem de novo?”. “Tem. Até vocês fecharem”, respondi. E assim o Itaú seguiu funcionando com muito batuque na moleira dos envolvidos.

    Ao chegar em casa por volta das 21 horas, após a assembleia na AABB, recebi a desagradável visita de um gerente do Banorte. Minha esposa, Maria José, com o nosso bebê nos braços, assim que abriu a porta falou logo assustada e preocupada: “Pronto Mô! Vai ser agora que você vai perder o emprego. Que é que a gente vai fazer?”. O sujeito, também amigo de cerveja nos fins de semana, foi logo falando: “Túlio, já vou avisando. A história que você é um dos líderes da greve, já chegou na gerência regional (em Natal). Você acabou de ser promovido e se não voltar ao trabalho amanhã vai ser demitido”. Eu, doido para tomar um banho e relaxar depois de um dia agitadíssimo, fui curto e grosso: “Volto não. Façam o que quiser. Mas lembre-se que você também será beneficiado com tudo o que a gente conquistar com a greve”. E o movimento que agitou a cidade de Mossoró naqueles dias de março e abril de 1987, prosseguiu em meio a protestos dos que se sentiam prejudicados e adesões dos que viam legitimidade nas reivindicações dos bancários.

    Com nove dias de greve, os funcionários do Banco do Brasil conquistaram um reajuste de 30%, fecharam o acordo com o banco e resolveram abandonar a paralisação. Na mesma assembleia em que foi feito esse anúncio, ficou decidido o fim da greve dos bancários em Mossoró. No dia 02 de abril os bancários grevistas de Mossoró voltaram ao trabalho. A greve nacional nos bancos privados, que começou com adesão parcial da categoria e sustentou-se com o apoio dos piquetes dos funcionários dos bancos estatais e estaduais, foi suspensa definitivamente no dia 06 de abril de 1987 sem nenhuma conquista efetiva. Os bancários dos bancos estaduais e privados saíram da greve com a sensação de terem sido traídos pelos bancários do Banco do Brasil. Mas essa também é outra história.

    Relatos de uma greve

    1. Fim do expediente, os grevistas se reuniam na Praça do Pax e caminhavam para a assembleia na AABB (no início do Alto de São Manoel) atrás de um carro de som que tocava sem interrupções a música “Gritos de Guerra” sucesso do Chiclete com Banana: Vou caminhando entre flores e guerras/Vou deslizando entre o bem e o mal/Um pouco louco entre monstros e feras/Sou cavaleiro do juízo final…. Até hoje o “grito de guerra”, Ê ô ê ô aiaiaiaiai/Ê ô ê ô aiaiaiaiai/Ê ô ê ô aiaiaiaiai ôôô martela na minha cabeça.
    2. Os piquetes no Bradesco foram tensos. Nos dois primeiros dias, alguns grevistas disfarçados entravam na agência e jogavam cigarros “temperados” com os terríveis “peidos-alemães” nas caixas de areia onde as pessoas escarravam (eca!) e jogavam pontas de cigarros (acreditem, nos anos 80 essa coisa gasturenta ainda existia). Quando os cigarros começavam a queimar, a fedentina tomava conta do ambiente e alguns funcionários de narizes mais sensíveis eram forçados a sair da agência. Quando os gerentes perceberam a artimanha, passaram a proibir a entrada de qualquer pessoa que não fosse identificada como cliente ou funcionário e a polícia foi chamada para formar um cordão de isolamento na porta do banco.
    3. Durante os nove dias de greve não tirei a barba. Fiquei parecendo Che Guevara de cabelos encaracolados. Quando cheguei em casa após a assembleia que decidiu pelo fim da greve, a primeira providência foi ficar de cara lisa e no dia seguinte fui trabalhar com a cara mais lisa ainda.
    4. No final da assembleia fatídica pedi a palavra e fiz um discurso baixando a lenha nos funcionários do Banco do Brasil. Nenhum deles presentes no local teve coragem de retrucar. Acabei chorando e fiz mais um “bocado” de bancários chorar também.
    5. Após as assembleias sempre rolava uma cervejinha, que ninguém é de ferro. Certa noite, munidos dos instrumentos de percussão, fomos para um barzinho e começou a rolar um sambinha (Vai passar nessa avenida um samba popular…, Eu fico com a pureza da resposta das crianças…, Apesar de você amanhã há de ser outro dia…) cantado às alturas. O tempo foi passando e o dono do bar (nosso amigo) começou a se incomodar e pedir, sem sucesso, para a gente parar com a “zuada”. Alguém chamou a polícia. O nosso amigo dono do bar até hoje jura de pés juntos que não foi ele. Chegaram cinco policiais. Os cinco estavam no cordão de isolamento na agência do Bradesco. Quando nos viram, um deles não se conteve: “Vocês de novo?!” e começou a rir. “Vieram no cheiro, só pode!” comentei. Era a hora de encerrar os trabalhos etílicos e ir cada um para a sua casa.
    6. Certo dia no piquete do Banco Itaú, dois funcionários fura-greves do Banorte vieram falar comigo. Um deles era recém-contratado e estava em treinamento no setor de cobrança. Foi o novato quem falou: “Túlio, o gerente resolveu lhe dar mais uma chance. Se você for trabalhar agora, não será demitido”. Eu respondi: “eu não vou ser demitido e quando eu voltar você será meu subordinado. Aí é você que vai ser demitido”. Ele se assustou e foi embora. O outro, eu consegui convencer a aderir à greve. Por incrível que pareça, quase 30 anos depois eu encontrei o tal novato como caixa na agência da Prudente de Morais (em Natal) do Banco Itaú. Nos reconhecemos, nos cumprimentamos, conversamos um pouco sobre a vida, mas eu não resisti: “e você, ainda continua muito ´babão` de gerente?”. Ninguém conteve o riso na bateria de caixas.
    7. Ah! Nenhum dos grevistas do Banorte foi demitido ou punido. Esse “milagre” está relacionado ao pós-greve do Banorte e o “caos contábil” citado anteriormente. A condição para virarmos a noite trabalhando (sem receber hora extra) para colocar ordem na contabilidade da agência, foi o compromisso assumido por escrito pela gerência regional do banco de não punir ninguém. Em 1989 surgiu uma oportunidade melhor de trabalho e eu propus ao banco uma demissão por acordo para não ficar com o FGTS de quase dez anos bloqueado. Não aceitaram e acabei pedindo demissão.
    8. Não citei o nome de nenhum personagem envolvido nessa narrativa (exceto o de minha esposa e minha filha), para não ferir suscetibilidades.
    9. Se alguém entre os meus milhões de leitores vivenciou o evento aqui narrado e percebeu alguma divergência ou deseja acrescentar algum fato novo, por favor se manifeste.
    10. Setembro de 1987, data base de negociação da categoria dos bancários passou em branco em Mossoró. Pelo menos entre os bancários dos bancos privados. Mas enfim! 1987 foi um ano muito “fodástico”. Foda + fantástico.
  • HISTÓRIAS VERÍDICAS DE FUTEBOL

    Que decepção!!!

    Certa vez, aí por volta de 1974, 75, quando ainda morava em Martins, fui passar uns dias de férias em Mossoró e fiquei hospedado na casa do meu tio Flávio Costa, vascaíno roxo e chato de doer. Eu tinha uns 13 ou 14 anos.

                Um final de tarde, quando ele ia chegando do trabalho me falou: “Aí Túlio, mas tarde nós vamos pro futebol”. Eu fiquei tão animado e ansioso que nem perguntei quem iria jogar.

                Bem antes das nove horas, que habitualmente era o horário dos jogos noturnos naquela época, eu já estava pronto para a noitada. Foi chegando a hora do jogo e o meu tio nem se mexia. Eu, com vergonha de perguntar alguma coisa, imaginava que a gente perderia o começo da partida ou não iríamos mais. Afinal o estádio Nogueirão ficava um pouco distante da nossa casa, localizada no início do Alto da Conceição, próxima à linha do trem.

                Quando faltavam uns dez minutos para as nove, tio Flávio se levantou da cadeira, pegou o rádio Transglobe Philco 9 faixas (o top dos tops dos rádios) recém adquirido em 12 suaves prestações, se despediu de Tia Lenira, e falou: “V´ambora Túlio”. Eu saí e fiquei na calçada esperando que ele tirasse a lambreta, o seu meio de transporte na época e que era guardada num “bequinho” ao lado da casa.

                Que nada. Ele me pegou pelo braço e falou: “Vamos indo rapaz”.

                E saímos andando em direção a linha do trem. E eu sem entender nada.

                Atravessamos a linha do trem e seguimos rumo ao Bairro Boa Vista até chegarmos a uma casa com uma calçada bem alta e que parecia abandonada, pois estava com as portas fechadas e não percebíamos movimento algum no seu interior. Quando lá chegamos, já estavam nessa calçada uns dez caras, amigos do meu tio e que pelo modo como se saudaram, também deviam ser vascaínos. Todo mundo se cumprimentou, colocaram o rádio no meio da calçada e ficamos lá, sentados naquela calçada alta, ouvindo o jogo que estava sendo transmitido. Pasmem! Flamengo e Olaria. Aí foi que eu fiquei sem entender nada mesmo. Como é que se reúne um bando de vascaínos em cima de uma calçada, para ouvir um jogo do Flamengo?

                A essa altura, visivelmente decepcionado, eu já havia percebido para qual futebol tio Flávio havia prometido me levar.

                E pra completar a decepção, o Flamengo perdeu de 2 a 1.

                Na volta, ainda tendo que aguentar as gozações daquele vascaíno enjoado, eu perguntei: “Tio, por que é que a gente teve que ir parar naquela calçada para ouvir um jogo pelo rádio?”. E ele respondeu: “É porque é naquela calçada que se sintoniza melhor a Rádio Globo em Mossoró”. Ainda insisti: “E por que um bando de vascaíno se reúne numa quarta-feira à noite pra ouvir jogo do Flamengo?”. E ele: “Já é combinado. Toda quarta a gente se reúne naquela calçada pra ouvir qualquer jogo que a Globo transmitir. É pra aproveitar o rádio novo”.

                Durma-se com uma dessas!!!

    A cabeleireira e o futebol

    Houve uma época, final dos anos 1990 e início dos 2000, quando saí de Mossoró para vir morar em Natal, que em qualquer jogo do Flamengo com transmissão na TV (ainda não havia essa “ruma” de canais esportivos pagos), a turma se reunia lá em casa, no conjunto Mirassol, para assistir.

                Podia ser qualquer jogo (Copa do Brasil, Brasileirão, Carioca, Libertadores, Copa dos Campeões, Mercosul, etc.) e em qualquer dia ou horário, estávamos lá acompanhados de muita cerveja gelada e do tradicional churrasco para torcer pelo Mengão.

                A “zuada” era grande durante o jogo e muito maior depois, quando começavam as acaloradas discussões entre os assistentes já tradicionais: eu, Túlio Filho, meus irmãos Caio e Deppe e os primos Gildo, Caio César e Neto Falcão. Esse o mais exaltado e mais barulhento de todos. Quando o Flamengo perdia, então…

                Um certo dia, minha esposa Maria José foi com Túlio Filho a uma cabeleireira, cujo salão ficava em uma casa na rua por trás da nossa.

                Túlio Filho lá cortando o cabelo e a cabeleireira começou a puxar conversa com Maria:

                – Mulher, você mora em qual rua aqui em Mirassol?

                E Maria:

                – Na rua ao lado. Na Rua das Orquídeas.

                E a cabeleireira:

                – Mulher, pois tem um pessoal nessa sua rua que faz tanto barulho em dia de jogo do Flamengo, que às vezes eu penso até em chamar a polícia. Eles ficam até de madrugada discutindo e gritando e não tem quem consiga dormir.

                Com essa Maria ficou calada, mas Túlio Filho que estava só ouvindo a história, não se conteve:

                – É lá em casa.

                E a cabeleireira totalmente desconcertada para uma Maria ainda mais sem jeito:

                – Pois é mulher, mas até que eu gosto de futebol!!!

                Depois dessa ninguém falou mais nada até terminar o corte de cabelo.

                Quando voltou pra casa, Maria veio me contar da vergonha que havia passado e deu o ultimato: “Ou diminuiu o barulho e a duração da bebedeira ou não tem mais jogo aqui”.

    Falei com os “zuadentos” e todos concordaram em maneirar na balbúrdia etílico-ludopédica. Durante algum tempo o comportamento foi exemplar. Fim de jogo cada um para sua casa, nada de discussão ou saideira. Mas, após uns quatro jogos tudo voltou ao “normal”.

                Ah! E a vizinha perdeu uma cliente.

  • O FIM DO SONHO AMERICANO

    Noam Chomsky e os “10 princípios da concentração de riqueza e poder”

    Noam Chomsky, 93 anos, é o mais importante intelectual dos tempos modernos. Linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano. No documentário O Fim do Sonho Americano (2015 – EUA), ele detalha de forma bastante didática os seus 10 princípios da concentração de riqueza e poder nos EUA.

    Apesar de baseados na história americana, esses princípios podem ser aplicados a qualquer país que adota políticas econômicas protecionistas e neoliberais. Nada mais identificado com o que vem ocorrendo no Brasil e a sua república neo-pentecostal nacionalista cívico-militarista miliciana.

    1 – Reduzir a Democracia: Confronto entre a pressão por mais liberdade e democracia vindos de baixo e esforços por controle e dominação pela elite vindos de cima. O “excesso” de democracia poderia prejudicar os interesses dos mais ricos.

    2 – Moldar a Ideologia: Reação às lutas das minorias por igualdada social. Ofensiva empresarial para tentar reduzir os esforços de igualdade.

    3 – Redesenhar a Economia: Potencializar o papel das instituições financeiras, com o aumento nos fluxos de capital especulativo. Os trabalhadores e o trabalho não podem se mover, mas o capital pode.

    4 – Deslocar o Fardo: O trabalhador deixa de ser consumidor do que produz. A internacionalização da economia aumenta a concentração de renda. Diminui a tributação para as grandes empresas e o “fardo dos impostos” é deslocado para o resto da população, sob o pretexto de que isso aumenta os investimentos e o emprego.

    5 – Atacar a Solidariedade: A solidariedade é muito perigosa e onerosa. O indivíduo tem que pensar apenas em si. Isso não é problema para os ricos e poderosos, mas é devastador para o restante da população. Há um grande esforço para retirar essas emoções humanas da cabeça das pessoas. Vemos isso nos fortes ataques a Seguridade Social e a Escola Pública.

    6 – Controlar os Reguladores: A partir dos anos 1970, os órgãos governamentais reguladores da economia são “engolidos” pelo lobby das grandes corporações, que passam a controlar a legislação. O governo passa a ser financiador dessas corporações, para evitar colapsos financeiros. Mais uma vez, o contribuinte paga a conta.

    7 – Controlar as Eleições: A concentração de riqueza gera concentração de poder político. Partidos políticos passam a ser controlados pelas grandes empresas. É um golpe nos últimos resquícios da democracia plena.

    8 – Manter a Ralé na Linha: As organizações trabalhistas (sindicatos e movimentos trabalhistas) são uma barreira para a tirania corporativista. O “poder das massas” tinha que ser reprimido.

    9 – Consentimento na Produção: A indústria da publicidade surge com toda força, com o papel de “fabricar consumidores”. É necessário domar a população mais pobre e criar consumidores desinformados que farão escolhas irracionais, através do controle de suas crenças e atitudes. Isso também funciona nas eleições. Daí o poder das grandes empresas de publicidade nos processos eleitorais em grande parte do mundo.

    10 – Marginalizar a População: A maioria da população (70%) não tem como influenciar a política. A concentração de riqueza e poder acaba originando uma população raivosa, frustrada, que odeia as instituições, mas que não consegue agir construtivamente para reagir a isso. A tendência é uma sociedade individualista e com as relações sociais corroídas: “Tudo para mim, nada para os outros”.

                   Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo em 07/01/2018, Noam Chomsky discorre sobre vários assuntos. Merecem destaque, dois pontos em que ele fala sobre redes sociais e fake news, talvez os mais poderosos instrumentos de fabricação de consenso da atualidade e que podem perfeitamente servir como complemento aos seus “10 princípios da concentração de riqueza e poder”:

    – O uso das redes sociais por políticos (ele cita o exemplo de Donald Trump): “Os políticos as usam para o bem e para o mal. A técnica foi concebida para vários fins. Primeiro, se desviar de qualquer questionamento ou debate sério. Segundo, controlar sua base eleitoral, que o venera. E por último, manter a atenção da mídia focada nele e em suas extravagâncias diárias”.

    – A intenção por trás da produção das fake news: “A intenção é bastante clara: enganar, induzir ao erro e controlar. As fake news são populares, porque as pessoas percebem o poder estabelecido como hostil… Elas desconfiam do que vem das fontes da elite e procuram por algo que possam interpretar como favorável aos seus interesses e atitudes”.

    Chomsky costuma afirmar que escreve para o cidadão comum e que só ele pode vencer o isolamento: “Se as pessoas com um poder limitado querem fazer algo, seja vencer o sistema de propaganda ou simplesmente adquirir algum controle sobre suas vidas, têm que criar organizações que lhes proporcionem uma força para contrapor aos principais centros do poder e quem sabe expandir essa força em outras direções”.

    Nessa entrevista a’O Estado de São Paulo, o linguista e filósofo reafirma a sua convicção – ou esperança, quem sabe – no poder reativo do cidadão comum: “As técnicas que agora são usadas para influenciar as escolhas do consumidor e as preferências dos eleitores provavelmente vão se desenvolver ainda mais, a menos que o ativismo popular possa restringi-las. Uma tarefa grande e significativa”.

    Como um bom ativista, mesmo aos 93 anos, Chomsky ainda não perdeu a sua capacidade de sonhar.

  • BREGA: SER OU NÃO SER. EIS A QUESTÃO

    Em seu artigo, O ébrio louco e a música brega, para a edição de março desta Papangu, o confrade Damião Nobre questiona: “Mas, afinal, o que é música brega?”. A partir de matéria que produzi para o Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo da UFRN (A música brega como identidade musical do RN, que contou inclusive, com a gentil colaboração do próprio Damião), resolvi fazer um recorte visando aprofundar um pouco mais essa questão.

    Mas afinal, o que é “brega”?

    O Grande Dicionário Houaiss traz essa significação para “brega”: que ou quem não tem finura de maneiras; cafona, de mau gosto, sem refinamento, segundo o ponto de vista de quem julga; de qualidade reles, inferior; zona de meretrício; música de apelo popular, cujo público originalmente foram as classes economicamente menos favorecidas e que frequentemente apela para clichês, falando de trivialidades de cunho sentimental, entre outros temas. Definições nada agradáveis e suficientes para manter qualquer pessoa, artista ou não, longe do risco de ser considerada “brega”.

    Não é o caso do compositor, cantor, apresentador e produtor musical Fernando Luiz, que se orgulha de ser “brega” e tem um ponto de vista muito interessante em relação a esses conceitos negativos: “Se você vai no dicionário, brega é só sinônimo de coisa ruim. É fora de moda, cafona, pejorativo, sem qualidade. É terrível a definição. Eu acho que em termos de música, deveria ser criado um verbete para definir que a música brega é uma música simples, sem pretensões. Nunca afirmar que tudo que é brega não presta”.

    Um estilo

    A ideia do “brega” relacionado a um estilo é recorrente em nossa sociedade. O estilo “brega” está presente no modo como a pessoa se veste ou age, no modo de falar, de caminhar, no gosto musical (independente se é fã do “brega” ou não), nos lugares que frequenta e outras situações cotidianas. No final das contas, a pessoa pode ser “brega” no estilo e não ser “brega” no gosto musical.

    A origem

    Quanto à origem da palavra “brega”, encontramos, na literatura sobre o assunto, algumas definições, que no entanto, carecem de comprovação oficial.

    No seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso (1997), traz uma versão que, se não possui caráter oficial, não deixa de ser interessante para reflexão: “Nos anos 50 os brasileiros tinham como música comercial, sobretudo aquele tipo de canção sentimental barata que, depois de anos de bossa nova, rock americano, neo rock ‘n’ roll inglês, tropicalismo e rock brasileiro (BRock), voltou a dominar o mercado no final dos anos 80 e início dos 90, qualificada como ‘brega’ (palavra da gíria baiana, hoje usada como adjetivo, mas na origem um substantivo chulo que significava ‘puteiro’ dizem que, a partir do nome Padre Manuel da Nóbrega de uma rua de zona de prostituição em Salvador ou Cachoeira, sobre cuja placa quebrada restavam apenas as duas últimas sílabas do nome do sacerdote)”.

    Altair J. Aranha (2002) em seu “Dicionário Brasileiro de Insultos”, também reproduz essa versão não oficial: “Brega: de mau gosto, de baixo nível. Consta que a palavra teve origem em Salvador, mais propriamente numa área urbana de baixo meretrício onde uma placa indicando a rua Padre Manuel da Nóbrega teve gasto o letreiro, sobrando apenas as duas últimas sílabas. Aplica-se a pessoas que se mostram sem elegância, que exibem mau gosto”.

    Dentro desse contexto altamente negativo e pré-estabelecido em relação ao “brega”, muitos artistas não se sentiam à vontade em fazer parte desse universo musical, embora entre os maiores vendedores de discos do Brasil no início dos anos 1970, estivesse um representante do gênero: Evaldo Braga.

    Em “O homem da feiticeira: a história de Carlos Alexandre”, o jornalista Rafael Duarte destaca a ascensão do cantor de Campos dos Goitacazes, Rio de Janeiro: “O disco levou Evaldo ao topo em 1971, especialmente junto a uma faixa da população que se identificou com músicas que dispensavam metáforas e falavam abertamente de desilusões amorosas, traições e outros temas ligados ao relacionamento humano. ‘A cruz que carrego’ foi uma das músicas mais tocadas do LP. O rápido sucesso não deixou alternativa à gravadora senão lançar em seguida ‘O ídolo negro – Volume 2’. Se a estreia já tinha sido promissora, em 1972 Evaldo Braga confirmou as expectativas. A canção ‘Sorria, Sorria’ virou um clássico do gênero e sacramentou a condição do cantor como ídolo na periferia brasileira”.

    Ainda de acordo com Rafael Duarte, “o gênero romântico já vinha recebendo críticas da elite. Setores da classe média tacharam de brega e cafona a música abraçada e difundida pela periferia que, além de Evaldo Braga, descobriu Márcio Greyck, Fernando Mendes, Marcelo Reis, Carlos André, Bartô Galeno, Wando, Amado Batista, Sidney Magal e já tinha como referência cantores populares há um certo tempo na estrada a exemplo de Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Carlos Alberto, Lindomar Castilho e Waldick Soriano”.

    Sobre artistas que nunca aceitaram o rótulo de “brega” o jornalista cita em seu livro, Agnaldo Timóteo: “Agnaldo Timóteo nunca aceitou o rótulo de brega. O cantor romântico põe na conta do preconceito a divisão imposta pela elite na MPB”. E cita depoimento do ídolo no documentário “Vou rifar meu coração” de Ana Rieper (2011): “A mim não chamam nunca de brega. Porque quando eu pego o microfone eu viro um monstro. Quando Nelson Gonçalves gravou ‘Negue’ era cafona. A Maria Bethânia gravou virou luxo. É o preconceito que é inserido, divulgado, programado e multiplicado contra nós, cantores românticos de origem modesta”.

    Em 01/11/1998 em entrevista ao jornal Notícias Populares, Reginaldo Rossi respondeu a uma pergunta sobre como se definia musicalmente e se ser chamado de “brega” o incomodava: “Sou um cantor. Não incomoda o brega, eu progredi. Na época eu vinha de uma escola de engenharia e cantava iê-iê-iê com cuidado. Voltei para Recife porque tinha uma coisa de o cara cantar ou só no AM ou só no FM. O cantor era de classe A ou brega. Como eu cantava tudo fiquei sem saber o que fazer. Se falarem que é brega, quero que falem que sou brega ao quadrado. Assim vendo mais”.

    Desde maio de 2017, a música “brega” está incluída como uma das expressões artísticas genuinamente pernambucanas. A “lei do brega” começou a tramitar em 14 de fevereiro, data escolhida por ser o dia do nascimento dele, Reginaldo Rossi, um dos grandes expoentes da música “brega”, nascido e consagrado em Recife, falecido em 20 de dezembro de 2013.

    Em entrevista ao programa #Provoca da TV Cultura, em 11/05/2021 o cantor e compositor Odair José, revelou ao entrevistador Marcelo Tás que não gosta de ser chamado de “brega”: “Sobre o negócio do ‘brega’, eu não gosto. Eu sei que no Brasil existe uma cultura de achar que isso já é um estilo. Tudo bem, eu não me importo, quem quer chamar, chama. Mas o negócio do ‘brega’, eu acho que é diminuir a coisa. Pode inventar várias definições, mas a definição que eu conheço de ‘brega’ é ‘coisa de mau gosto’. Eu acho meio desagradável chegar para o cara e dizer: ‘O seu trabalho é brega, você está brega’. Eu, pessoalmente, não gosto”.

    É essa conotação negativa, que sempre relaciona o “brega” a mau gosto, baixo nível, algo deselegante e sem refinamento, que acaba por vezes fazendo com que o artista, ainda que inconscientemente, tente se desligar desse rótulo. O que não deixa de ser uma grande contradição. Se o cantor ou compositor consolidou a sua carreira a partir da produção de um tipo de música para o consumo do povão, sem grandes refinamentos estéticos, porque ele mesmo alimentar esse tipo de preconceito em relação ao “brega”?

    Portanto, chega de preconceito e vamos ser feliz no “BREGA”.

  • O HOMEM QUE VIROU PAUTA

    Nesse fevereiro, concluí oficialmente o curso de jornalismo na UFRN. Foi uma aventura e tanto. Acabei me atrasando em um semestre ou dois – nem sei direito – por causa da pandemia e o início do ensino remoto. Aquela confusão toda me deixou completamente desarvorado e acabei esquecendo de me matricular na época devida, no estágio obrigatório e no trabalho de conclusão de curso (TCC).

    O período de ensino presencial foi realmente fantástico. Voltar a uma sala de aula depois de mais de trinta anos e conviver com aquele bando de jovens que me acolheu como um dos “seus”, sem me dispensar qualquer tratamento diferenciado por causa da minha idade (55 anos quando entrei na faculdade em 2016), foi uma experiência que transformou a minha vida. Para sempre e para muito melhor.

    Confesso que no início foi um pouco assustador. Porém, o medo de ser “escanteado” por ser o mais velho da turma foi sendo superado aos poucos. Para isso recorri ao meu costumeiro bom humor e aos relatos de burlescas histórias e experiências de vida durante as conversas entre colegas de turma nos intervalos das aulas.

    Nunca vou esquecer dos servidores e terceirizados locados no Departamento de Comunicação que habitualmente me tratavam muito bem e insistiam em me chamar de “professor”, ainda que eu retrucasse sempre, que era aluno. Acho que eles nunca acreditaram no que eu dizia.

    A tradicional apresentação dos alunos a cada primeira aula de uma disciplina, demorava mais quando chegava a minha vez. Além do professor, sempre havia um ou outro aluno curioso em conhecer um pouco mais sobre aquele senhor grisalho, que parecia fora do contexto. A minha apresentação sempre começava assim: sou Marco Túlio, esquerdista desde o nascimento já que sou canhoto e petista antes mesmo do PT existir.

    A cultura geral acumulada em anos de leitura na busca por informações e conhecimentos, ajudaram muito durante as aulas. Em geral, quando um professor citava algum fato acontecido entre os anos 1970 e 2000, já vinha acompanhado do rotineiro: “Marco Túlio, você deve se lembrar. É do seu tempo”.

    Por volta do segundo período, já completamente entrosado com colegas e professores e também por causa dos meus bem vividos 56 anos, porém, com rostinho e corpinho de… 56, acabei virando pauta de reportagem no curso.

    Como sou uma pessoa muito fácil ou acessível (soa melhor) e diariamente estava transitando nos corredores do Departamento de Comunicação, era sempre procurado por alunos de outros períodos que estavam escrevendo matérias do tipo: “Pessoas com mais de 40 anos que voltaram a estudar”. Muitos nem me conheciam, mas os próprios professores me indicavam para ser entrevistado. E eles chegavam: “O senhor é o Sr. Marco Túlio?”. E eu respondia: – Ele mesmo. Mas se me chamar de senhor outra vez, não dou a entrevista.

    Não recusava nenhuma matéria. Fui fotografado e entrevistado umas dez vezes em quase cinco anos de convivência no departamento. Quem chegasse primeiro, levava. A matéria.

    Um pouco antes da suspensão das aulas por causa da pandemia, Cecília, uma colega de “corredor do Decom”, me procurou para gravar um vídeo contando minha experiência universitária. O dia marcado para a gravação foi o primeiro dia da suspensão das aulas presenciais na UFRN. Nunca mais nos vimos. Ela me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia enviar um depoimento por escrito para o seu trabalho. É claro que respondi que sim e escrevi um pequeno texto em resposta à pergunta “O que o motivou a voltar a estudar?”. Eis a resposta:

    Não foi uma coisa muito pensada. Pra falar a verdade, foi quase como um desafio, uma brincadeira.  

    Eu tenho uma sobrinha, Andréia, que reclamava muito da dificuldade em passar no Enem. Sempre que nos encontrávamos ouvia essa reclamação. Certa vez eu disse: “Pois eu vou fazer o Enem e vou passar”. E ela: “Ah! Eu quero ver, tio”. E eu fiz minha inscrição no último dia do prazo. 

    O tempo passou e de repente chegou o fim de semana das provas. Na sexta-feira, eu estava em casa, tomando a tradicional cervejinha com minha esposa Maria e alguns amigos e fazendo um churrasquinho de leve, quando chegou minha irmã Stela, que é professora da UFRN, já me dando a maior bronca: “É bom maneirar na cerveja e ir dormir cedo, que amanhã tem prova”. E eu: “Puta merda! Tava nem me tocando”. Mas, para acalmá-la, falei que iria dormir cedo. Que nada! Fui dormir ou tentar dormir, quase às 3 da manhã. Acordei no sábado com uma ressaca desgraçada.  

    Logo cedo Stela me ligou dizendo que iria deixar Andréia no local da prova e que me levaria também. Fez realmente marcação cerrada. Fui fazer a prova, só Deus sabe como. Depois de mais de 30 anos, voltei a entrar em uma sala de aula e a me sentar numa cadeira escolar. Apesar da ressaca, consegui fazer a prova sem muitas dificuldades.  

    Quando entrei no ônibus pra voltar pra casa, encontrei duas amigas de minha filha Débora e perguntei: “Vão pra onde suas ‘tontas’?”. E elas responderam: “Lá pra sua casa. Debinha tá fazendo um churrasco pra turma”. Não deu outra. No domingo repetiu-se o “duo” ressaca-prova, só que com uma ressaca redobrada. Mas consegui chegar ao fim. 

    Para não encompridar muito a história, quando foi na época de sair o resultado do Enem, eu estava de férias com minha família em Tibau, uma cidade/praia próxima a Mossoró.

    Estava na varanda da casa, deitado numa rede e brincando com minha neta Beatriz, quando Andréia me ligou aos berros: “Tio Túlio! Você passou!”. Eu dei um pinote da rede que quase derrubo o bebê: “Caralho! Acredito não. E você passou?”. E ela: “Passei não tio. Mas esquece.  feliz demais por você”. Mas aí, tinha uma história de ficar acompanhando um “troço” lá pelo site e eu não podia interromper minhas férias. Então passei meu login e senha e disse que ela cuidasse de tudo e fui pra uma barraca na praia tomar umas pra comemorar. 

    Localizar o histórico no Colégio Estadual de Mossoró, onde concluí o segundo grau em 1978, para fazer a matrícula na UFRN foi outra saga. Essa depois eu conto. 

    É isso. Quando cheguei para a primeira aula – no longínquo 2016.2 -, mais nervoso que gato em dia de faxina, pensei: “Vou passar um mês ou dois por aqui, e depois desisto dessa aventura”. Mas, fui contagiado e termino o curso de Jornalismo em 2021. E devo isso a vocês, meus queridos colegas de curso, que sempre me trataram com tanto carinho. 

    PS. Iniciei e não concluí duas graduações: Agronomia e História. Em Mossoró.

  • SAUDADE OLFATIVA

    Se existe memória olfativa, existe também saudade olfativa.

    A minha memória é impregnada de saudades olfativas. E nesses tempos melancólicos, de pandemia, medo e isolamento, elas se tornam ainda mais indeléveis.

    Saudade de pessoas, as tenho. Meu primo, minha prima, alguns tios e tias, amigos. Pessoas queridas que agora são apenas boas lembranças. Sinto saudade dos meus amigos de infância, tão difíceis de reencontrar.

    Sinto saudades de localidades, lugares. De Martins onde passei parte de minha infância e adolescência e da casa, quase sítio, na esquina próxima à igreja. Saudade do CLEM – Centro Lítero Esportivo de Martins o clube social da cidade e do “Mengão” ou Bar do Dimas, onde costumava jogar sinuca – as vezes apostando – com pessoas bem mais velhas do que eu, para desespero de minha mãe Maria do Socorro.

    Saudade, mas muita saudade mesmo, da cidade onde nasci, Mossoró e das várias casas em que morei, cada uma com suas peculiaridades e insalubridades, mas que eram sempre o meu lar aconchegante. Onde eu queria sempre estar.

    No entanto, essas saudades parecem retratos antigos arquivados em um disco rígido na minha memória e que vez por outra o acesso.

    A saudade que realmente me faz viajar no tempo e me despertar uma sensação de presença física inexplicável é a saudade olfativa. Sinto saudade de cheiros. Do cheiro da minha mãe e o seu sabonete “Alma de Flores” que até hoje uso. Do cheiro do meu pai em seu barbear matinal. Do cheiro das goiabas e mangas do pomar da nossa casa em Martins e que nunca encontrei igual em todos esses anos de vida. Sinto saudade do cheiro da sopa que minha irmã Miriam fazia no tempo em que morei em sua casa e que sempre que a visito (nem tantas vezes quanto gostaria, principalmente agora) percebo permanecer exatamente o mesmo. Sinto saudade do cheiro do maxixe ao leite de minha mãe que até hoje tento reproduzir sem sucesso.

    Sinto muita saudade do cheiro do prato feito que Tio Antonio e Tia Vilani serviam no restaurante/lanchonete que mantinham no Mercado Central de Mossoró. Aquela montanha de comida cheirosa e gostosa que eu tinha que comer até “raspar o prato” sob pena de levar uma bronca maior do que a quantidade de comida que me era servida.

    Aliás, cheiro de comida é um cheiro bastante presente em minhas saudades cheirosas. Sinto saudade até do cheiro do milho verde (assado ou cozido) que eu comia quando tinha uns 10 anos, que não tem a nada a ver ou sentir, com essas espigas embandejadas e sem sabor vendidas em supermercado.

    E tenho muita, mas muita saudade mesmo, do cheiro de bebê dos meus três “bebezões” Isadora, Túlio Filho e Débora e é por isso que mesmo com eles já adultos, passados dos 27, não abro mão de sapecar-lhes uns “chêros” quando nos encontramos. Saudade do cheiro e dos “chêros” do meu neto Otávio que completou 10 meses esses dias, e que veio passar Natal e réveillon aqui em casa para a minha imensa e indescritível alegria. Saudade do cheiro e dos “chêros” de minha neta Beatriz de 9 anos, que faz a eternidade de três dias que não vejo.

    E até hoje, eu e Masé, minha esposa, procuramos – e nunca encontramos -, os perfumes que usávamos quando começamos a namorar, alguns séculos atrás: Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano. No entanto, esses cheiros continuam presentes em nossas vidas até hoje. Se alguém encontrar por aí, Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano, favor entrar em contato.

    “Chêro procês”!

  • CADÊ A BOLA?

    Quando eu morava em Martins, lá pelo ano de 1976, aconteceu um campeonato de bairros que prendeu a atenção de toda a cidade. A competição foi organizada pela secretaria de esportes do município, com o apoio das associações de bairros e eclesiásticas. Os principais bairros da cidade estavam lá representados: Centro, Prédios, Jacu, Canto, Levada e a temível Rua das Pedras.

                A Rua das Pedras era uma ruazinha um pouco afastada do centro e cujo solo era totalmente formado por pedras de vários formatos e tamanhos, ideais para lascar o quengo de algum sujeito desavisado e metido a besta. Os seus jogadores eram famosos por sua truculência dentro e fora de campo.

                O campeonato transcorria tranquilamente com rodadas no final de semana, até que se aproximou o dia do clássico Centro X Rua das Pedras, que decidiria o primeiro tuno do campeonato.

                Os jovens do Centro, filhos das famílias mais abastadas da cidade, nunca se deram muito bem com a turma da Rua das Pedras, de classe mais humilde. Sempre que se encontravam – em qualquer ocasião – pintava confusão.

                A semana do jogo foi muito tensa. O padre fez sermões durante as missas pedindo paz aos jogadores e torcedores e nos colégios os professores faziam o mesmo durante as aulas. O efetivo policial ficaria atento durante toda a partida para evitar qualquer confusão.

                Finalmente chegou o dia grande da decisão. Um domingo à tarde.

                Havia duas bolas para serem usadas durante a partida, que foi iniciada com a bola nova comprada especialmente para a ocasião. A reserva estava lá apenas por exigência do árbitro, mas não passava pela cabeça de ninguém que fosse necessária a sua utilização, até porque já se encontrava em estado bastante depauperado.

                Logo nos primeiros minutos de jogo, um zagueiro da Rua das Pedras acertou uma bomba em direção a um matagal que havia ao lado do campo e a bola sumiu. Todo mundo se embrenhou no meio do mato em busca da dita cuja, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Depois de mais de 10 minutos de paralisação e procura inútil, o jogo recomeçou com a bola reserva, bem surrada e já com algumas costuras se desfazendo.

                A partida seguiu com muita intensidade e pancadaria dos dois lados e a coitada da bola cada vez mais maltratada, até que aos cinco minutos do segundo tempo, o Centro conseguiu fazer um gol. A essa altura, a pelota já se encontrava em péssimo estado, com a sua borracha interna começando a surgir por entre os gomos descosturados.

                Aos 25 minutos o juiz apitou uma falta para a Rua das Pedras, no meio do campo. O jogador encarregado da cobrança colocou a bola no chão com a parte descosturada em sua direção, tomou distância e acertou um bico na borracha exposta. Só se ouviu o estouro e as gargalhadas do espertinho com o pé enfiado na bola furada.

                Correu todo mundo de novo para o meio do mato, mas nada de achar a primeira bola que havia se perdido por lá. O juiz encerrou a partida por falta de bola e iluminação e deu a vitória ao Centro. Inconformados os jogadores da Rua das Pedras iniciaram uma pancadaria generalizada que só terminou com a intervenção da polícia.

                Diante do inusitado, os organizadores da competição resolveram marcar um novo jogo. Depois de muitas reuniões e apelos do padre, pastor, prefeito, diretores de escolas, juiz e delegado, pela sequência da competição, os representantes do Centro e Rua das Pedras não aceitaram a sugestão de uma nova partida, a coisa esfriou e o Campeonato de Bairros de Martins, primeiro e último, se encerrou ali mesmo, sem nenhum campeão declarado e com o prejuízo do desaparecimento de uma bola nova.

                Reza a lenda, que dias depois apareceu um moleque com uma bola bem novinha fazendo embaixadinhas lá pela Rua das Pedras.

  • O VENDEDOR DE CLUBES DE FUTEBOL

    Aquela expressão, “quando a gente pensa que já viu tudo…” não faz mais qualquer sentido no desgoverno do genocida. Melhor usar, “a gente ainda não viu nada”.

    Em meio a vexames internacionais incontáveis e insuperáveis (aliás, só eles conseguem se auto superar), o ministro Guedes “Posto Ipiranga” viajou aos Emirados Árabes em busca de petrodólares. Depois de muito turismo e nenhum acordo firmado, já de volta ao Brasil em um evento em Brasília, ele deu detalhes das conversas que teve com os investidores árabes. E não faltaram pérolas do tipo: “É uma imensa riqueza em cima de areia. Eles criaram cidades, investiram bastante, mas está sobrando dinheiro. Ainda tem muito petrodólares”. É mesmo seu ministro?! Que descoberta fantástica!

    Perguntado sobre os investimentos no Brasil, respondeu todo serelepe: “Vão investir em estradas, vão investir em poços de petróleo, até em clubes de futebol. Eles compraram o Manchester United, compraram o Cristiano Ronaldo, etc”.

    E para comprovar que jumentice pouca é bobagem, o “Tchutchuca” errou duas vezes na mesma frase. Os donos do clube inglês são os irmãos americanos Jovel e Avram Glazer. Cristiano Ronaldo, que voltou ao Manchester United, também não foi comprado por árabes. Sua contratação saiu da conta dos mesmos empresários, que têm fortuna de US$ 4,7 bilhões, segundo a Forbes.

    Jumentices à parte, ele completou: “Eles anunciaram: calma, nós vamos comprar dois times; estamos examinando e vamos comprar dois times”. Isso é que é ministro! Conseguiu vender dois clubes brasileiros aos árabes! Só não perguntem quais. E esse miraculoso anúncio, foi o suficiente para que a parte falida dos clubes brasileiros (99,9%) entrasse em polvorosa. Já começaram as especulações.

    A imprensa esportiva carioca garante que um dos escolhidos será o Vasco. Pelo tamanho da torcida, por ter um estádio próprio, e… é só isso mesmo. Mas, o Botafogo, que acaba de retornar à Série A, sonha com os petrodólares para não correr mais riscos de cair de novo. Até o América (o Mequinha, que é o segundo time de todo mundo), quer voltar a ser grande e entrou na fila.

    Em Minas, a torcida do Cruzeiro já está fazendo festa. Fontes ultra secretas de dentro da própria Máfia Azul, dão como certa a informação de que o clube será um dos destinatários dos investimentos árabes.  A do Atlético (enquanto eu escrevia o Galo ainda não era Campeão Brasileiro), anda escabreada com essa grana toda que vem jorrando no CT do Galo e acha que qualquer dinheiro que aparecer e que não seja do dono da MRV será bem-vindo. Temem se transformar no rival Cruzeiro, que depois de um período glorioso e de investimentos mal explicados, quebrou em três pedaços e perdeu o do meio. Não tem conserto.

    Em São Paulo, não tem santo que ajude a São Paulo e Santos, que andam de pires na mão, correm risco de rebaixamento e viraram adeptos do bordão de seu Samuel Blaustein da Escolinha do Professor Raimundo: “fazemos qualquer negócio”. Já no Corinthians, com dívidas de mais de 1 bilhão de reais, qualquer petrodólar furado, será uma dádiva de Alá.

    Em Pernambuco, o Íbis, time com o melhor marketing do futebol brasileiro e ex pior time do mundo, conseguiu o acesso à primeira divisão do campeonato pernambucano depois de 21 anos e agora sente-se no direito de pleitear a “mufunfa” árabe. E os diretores do simpático clube argumentam: “Se quando a gente não tinha um pau pra dar num gato, já éramos um fenômeno mundial, imaginem nadando em petrodólares”.

    Enfim, bastou o “Tchutchuca” voltar dos Emirados Árabes com essa notícia bombástica, para que mais de 600 clubes espalhados por esse Brasil afora, voltassem a sonhar com dias melhores, que jamais virão.

    Aqui, no falido e mal pago futebol do RN, os árabes devem partir logo pra comprar a Federação Norteriograndense de Futebol. O eterno presidente José Venaldo, ops, Vanildo topa na hora. Desde que…

  • HISTÓRIAS PRÉ-PANDÊMICAS

    As histórias a seguir, são do período pré-pandêmico. Até porque nesses quase dois anos de reclusão, não me aconteceu nada digno de registro.

    As moedas e os pães

    Minha neta Maria Beatriz, bebê mais lindo do mundo, à época com 7 anos, juntou durante um bom tempo, moedas para comprar o seu presente do Dias das Crianças.

    Com ela não tem essa história de guardar apenas moedas de 1 real e de 50 centavos. Qualquer moeda, de qualquer tamanho ou valor que ela encontrasse dando sopa pela casa, ia pra dentro de sua “casinha” (o minhaeiro tem o formato de uma casa).

    A “casinha” já estava bem pesadinha e com a proximidade do Dia das Crianças, resolvemos abrir. Havia moedas de 5 centavos a 1 real. Contamos 190 reais e aí cata uma moeda daqui outra dali, uma doação daqui outra dali, fechamos os 200.

    Eu, com minha mania de organização fiz os pacotinhos com durex, todos separados por valor e fui em uma das lojas do Nordestão trocar por cédulas. Cheguei todo contando vantagem: “Tem 200 reais. Os pacotinhos todos feitos”. A moça que me atendeu falou muito simpática: “Ah! Vamos ter que desmanchar tudo. A tesouraria não aceita assim não”.

    E lá ficamos nós dois desmanchado mais de 30 pacotinhos de moedas. Depois de um bom tempo contando moedas, a conta bateu e ela falou: “Beleza. 200 reais. Vou ali pegar o dinheiro. O senhor vai querer os pães?”.

    Eu achei que tinha entendido errado: “Os pães?!”. E ela respondeu rindo: “Éééé! O senhor tem direito a 20 pães. A cada 10 reais de moedas, ganha um pão”. E eu ainda estupefato: “Claro que quero”!

    Aí estão os 20 pães que não me deixam mentir.

    É muita falta de absurdo!

    Tem coisa que só acontece com esses esquerdopatas, comunistas comedores de criancinhas, vermelhos degenerados, petralhas despudorados, assim que nem que eu.

                Eu ganhei na Lotofácil! Pois é, meus caros. Quase virei um milionário.

    Então fui receber o meu prêmio no valor exorbitante de R$ 4,00 tendo em mãos um código fornecido pelo site da Caixa. Eu sempre faço minhas apostas pela internet. A instrução era de comparecer em qualquer lotérica portando o tal código e retirar o prêmio.

    Peguei a fila e quando cheguei no guichê falei pra moça: “Vim pegar o meu prêmio”, e entreguei um post-it com o código escrito. A jovem olhou pra mim com cara de espanto e perguntou: “O que é isso!?”. Respondi: “É o código que a Caixa me forneceu para receber o meu prêmio da Lotofácil em qualquer lotérica”. Ela disse: “Nããããooooo! A gente só paga com o comprovante da aposta”. E eu disse: “Eu fiz a aposta pela internet”. E ela meio que aliviada: “Ah! Tá! É que essa lotérica ainda não está preparada para pagar jogo pela internet”.

    Donde já se viu um negócio desses? E eu “certim” que ia sair de lá e gastar aqueles R$ 4,00 “todim” com cerveja! Pense numa fuleragem!

    Como não encontrei nas proximidades do trabalho ou residência, qualquer lotérica “preparada” para pagar prêmio de aposta feita pela internet, acabei não recebendo a minha fortuna e deixei de virar um milionário.

  • Os “Catecismos” de Carlos Zéfiro

    Carlos Zéfiro ou Alcides de Aguiar Caminha (Rio de Janeiro, RJ – 1921 – 1992), produziu seus quadrinhos pornográficos, durante as décadas de 1950 e 1960. Em seus “Catecismos”, como ficaram popularmente conhecidas suas histórias desenhadas a pincel, bico de pena e impressas em branco e preto, Zéfiro narrava situações que sempre culminavam em práticas sexuais explícitas.

    Com títulos curtos, geralmente nomes de mulheres e histórias bem conduzidas com começo, meio e fim e produzidas em um período de pouca liberdade sexual, essas revistinhas influenciaram toda uma geração de jovens brasileiros. Com no máximo 32 páginas e formato de bolso (1/4 de ofício), as revistinhas de Carlos Zéfiro chegavam a alcançar uma tiragem de 5.000 exemplares. Distribuídas pessoalmente e de forma sigilosa pelo próprio editor, elas eram vendidas de maneira dissimulada pelos jornaleiros, geralmente ocultadas em outra publicação. O autor contabilizou sua produção em 862 histórias.

    Em novembro de 1991, um artigo de autoria do jornalista Juca Kfouri, a partir de uma entrevista com o autor dos “Catecismos” e publicado na revista Playboy, revelou a verdadeira identidade de Carlos Zéfiro. Em sua entrevista Caminha conta que resolveu se revelar ao público, porque um sujeito em busca de fama, surgiu na imprensa querendo assumir a identidade de Carlos Zéfiro. No ano seguinte a essa revelação, aos 70 anos, morreu Alcides Caminha/Carlos Zéfiro.

    Não existe uma explicação definitiva para o fato dessas publicações terem recebido o apelido de “Catecismos de Sacanagem”. Nem o próprio autor tinha essa resposta. Alguns sugerem que vem do fato de serem produzidas no tamanho certo para serem colocadas dentro dos “catecismos”, já que a maioria dos garotos as compravam quando saíam da missa.

    Alcides Caminha, foi funcionário público da Divisão de Imigração do Ministério do Trabalho e ficou também conhecido como o autor dos sambas A Flor e o Espinho, Capital do Samba e Notícia, que compôs em parceria com Nelson Cavaquinho, nos anos 1950.

    Desenhista amador, Zéfiro copiava os seus personagens a partir de revistas eróticas estrangeiras ou fotonovelas. As situações e posições sexuais eram limitadas, mas não impediam o sucesso de suas publicações. Os personagens masculinos não variavam muito na forma ou na personalidade e seguiam sempre o mesmo padrão de comportamento: solteiros ou sozinhos, bonitos, bem-dotados, vaidosos, irresistíveis e sempre vitoriosos em suas investidas sexuais. Já o universo feminino, era mais variado: há virgens, viúvas, desquitadas, solteiras, casadas, ninfomaníacas, etc. Porém, um traço em comum as unia: a disposição imediata para o sexo.

    No início dos anos 1970, com a chegada ao mercado brasileiro das revistas eróticas coloridas suecas e dinamarquesas, as revistinhas de sacanagem vão perdendo prestígio, até desaparecer. O próprio Zéfiro parou de produzi-las.

    É inegável que não há mais espaço no mercado literário atual, para alocar os folhetins eróticos de Carlos Zéfiro. Mas existe todo um contexto histórico em torno de sua arte, que a faz ser estudada até hoje pelos profissionais da área.

    Após sua morte, ele teve um trabalho publicado como homenagem póstuma na capa e encarte do CD Barulhinho Bom (1996), de Marisa Monte. E em janeiro de 2011, os trabalhos de Zéfiro foram expostos ao lado de outros quadrinhos eróticos do resto do mundo, no Museu do Sexo em Nova York.