Últimas histórias

  • Se/bastião

    Apagou-se a última chama do tripé que construiu minha infância sertaneja. Foi-se de imediato numa circunstância peremptória. Foi sem saber que estava indo, sem saber que ia. Sem sofrer, suponho e espero, sem necessidade de olhar para trás. Deixou muito mais do que pessoas, deixou acontecimentos e memórias, mesmo sem precisar integrar qualquer elite, qualquer grupo social complexo além da própria família. Um tanto que o acompanhou na última caminhada ocupando as ruas e avenidas, interrompendo o trânsito e fazendo as pessoas referenciarem sua passagem. Não precisavam conhecê-lo, bastava olhar o movimento e reparar nos semblantes para ter certeza de que se tratava de alguém com muita importância.

    Era meu tio, um pouco pai. Silente e sorridente, o culpado pelo pouco bom humor que construí. Essa mania tola de apelidar os outros a partir de seu legado linguístico, um idioleto construído por ele e reproduzido por nós todos. Uma construção de limites, de espaços fronteiriços que não se encaixam em outro lugar senão em nossas cabeças ou dentro de nossas casas. Perspectiva inconsciente e de riquíssima tradição emergida na solidão do Brasil profundo. Este lugar particular que são vários, a depender da região, da localidade, da residência onde se habita.

    As pessoas perguntam sobre seu nome, mas não adianta porque não é simples explicar. Ele era exatamente como construía os outros, um sujeito de várias alcunhas e denominações. Sebastião, como o rei que ainda se espera ou como o santo guerreiro. Tião, como muitos sertanejos, Bastião, como uma “obra de fortificação constituída de um avançado para artilharia com dois flancos e duas faces ligadas às cortinas da fortaleza ou praça por dois dos seus lados; baluarte”, como diz o dicionário Oxford. Para a minha avó, Cezin(ho), mas não como diminutivo de César, o título concedido aos imperadores, mas apenas uma redução da primeira parte da palavra Sebastião. Uns o chamavam de Bastião, ela, como não queria chamá-lo de Sebas, o chamou de Cezin.

    Dessas circunstâncias sem esperar, ele foi e levou consigo um pedaço de todos nós, mas o que plantou vai brotar e frutificar, porque cresce como rama de árvore frondosa. Uma estrela que se apaga, mas que deixa sua luz brilhando por eras. Uma estrela no multiverso dessas sem pretensão de ser diferente ou maior ou melhor que outros astros, mas que se diferencia por existir ou ter existido. Uma referência primordial que desconstrói todos os mitos e pré-requisitos e devolve o sentimento original de estar no mundo, não para acontecimentos extraordinários, mas como movimento cotidiano e orgânico da vida. Alguém que teve mais importância que qualquer líder ou artista, que qualquer rei ou empresário; que fez de sua invisibilidade um modo de viver e sobreviver às novas exigências do mundo, sendo apenas quem somos e vivendo somente como devemos viver, vivendo.

  • À sombra da parede às 11h

    Os becos e vielas que me atravessam parecem não ter saída, ainda assim eu sigo como numa simulação inconstante. Cachorros latindo evocam a madrugada, o sol a pino queima em cada fresta e tudo o que eu faço é passar a mão onde dói na tentativa fracassada de resfriar o que arde. A mão na pele quente me lembra que apesar de parecer um sonho, suponho estar vivo, ao que me conste. 

    Para frente ou para trás os caminhos são os mesmos, mas voltar é reviver o que não suporto. Há uma sombra que indica minha presença como se eu pudesse estar inteiro também no passado, embora em círculos incompletos. Mas a sombra não se reproduz e aí é onde tudo se desalinha. A sombra é ausência de réstia e de sol, de calor e vida, ainda que denote a presença de um corpo, uma massa que sempre se moverá na rotação da esfera.

    Aqui os passos são pesados e lentos, mas não há lama afundando meus pés, apenas o peso enorme de minha cabeça. Dói, suponho, mas a dor mesmo não é latente, é só uma suposição. Dói de um jeito distinto do que se considera dor nociceptiva, inflamatória, neuropática, mas também não parece funcional. É um espectro de dor que se alastra nos ombros e circula os olhos, mesmo quando fechados.

    Daquela canção, nem a música entrega o sentimento contido. A letra desvia-se do reto pensamento construído, a melodia para antes de confirmar a agonia da coincidência. Sensação fragilizada, embocadura desigual. Tenho impressão de que nenhuma canção é para mim, mas há sinais que parecem sair de rádios confusos atrás das paredes velhas. Uma harmonia misturando-se a outra apressando as sombras que se esgueira à retaguarda de meu destino.

    Flores e musgos nos cantos do meio fio testam a resistência do concreto, mas são tão frágeis quanto a minha segurança. Um vento a mais e tudo dissipa no ar. O esgoto cheio de química percorre o pé da calçada e seu material orgânico expele um odor conhecido. Nada que é humano me é estranho.

    Não há fim nesta caminhada, embora os becos pareçam sempre que vão acabar. No relógio sempre são onze horas e uma sirene lembra que é momento da vida fumar outro cigarro. Silêncio profundo cortado em lembranças. Moscas zumbindo momentos distintos e o sol mais quente sobre o Equador. As pernas cada vez mais pesadas e o sapato queimando. Sapatos velhos manchados de suor e caliça. Um cheiro de couro envelhecido exala um perfume peculiar. 

    Sento e me encosto na parede. O mormaço me obriga a respirar devagar. Quanto menos movimentos, menos angústia. Meus pés descansam um instante, mas ainda parecem machucados, embora siga sem entender que tipo de dor lateja. Tenho forças para caminhar e para ficar sentado, não há diferença em ir ou ficar. Eu fico e minha cabeça vai, mas como num carrossel, volta às sombras e me traz de lá a poeira de um tempo. Meus olhos doem, minha cabeça dói, minhas mãos estufam pelos dedos e eu não posso fazer nada, eu não sei fazer nada a não ser observar e pensar se sigo ou durmo.

  • Saudades

    Saudade é negócio doído, mas nunca é uma só. A saudade é um nó que nos maltrata sem pena, quebra a regra, muda a cena, quando o negócio é amor. A vontade de lembrar cada instante, cada hora como se fosse agora o vivido anteontem. Aquele querer danado de ficar perto, apertado, de adular quem nos adula. Essa é saudade mais dada, pois de tanto ser lembrada é a que mais nos anula.

    Mas existe uma saudade que é bem mais malfazeja, uma que chega e lampeja clareando as lembranças, marca o passo, traça a dança e nos remove no tempo. É reflexo de um momento que estava bem guardado, tão sumido, amufambado que assusta o pensamento. Basta uma música, um cheiro, um gostinho de tempero pra tudo voltar com força, joga a gente numa poça de recordação perene.

    Saudade mexida é de quem foi pra não voltar. Uma saudade que dá de saber que não tem jeito, chega dói aqui no peito só de tocar na conversa, essa coisa que atravessa, mas não sai do outro lado. O negócio é agradecer a lembrança que foi boa e não deixar a pessoa jamais ser esquecida. Não adianta lamentar, resmungar, tentar efeito, da vida esse é o defeito que não tem quem organize.

    Existe ainda a saudade que é feita de perigo, essa tem a ver consigo que se esquece de se ver. Repara tanto o presente que não atina, não sente, o que foi acontecendo. Vai guiado e pendendo pruma vontade alheia, atolado na areia de uma vida mal corrida, segue esquecendo da vida que é sua por direito. Essa saudade destrói, mata a vontade, corrói a imagem no espelho, aí só com bom conselho, muita dobra de joelho talvez se possa dar jeito.

    Tem também a dependência que não é uma saudade, mas carrega a maldade de um querer que domina. Perigosa cafeína que nos guia pro errado, esse troço malfadado que nos torna tão carentes de querelas recorrentes que só nos leva pro mal. Essa vontade malvada precisa ser combatida com boldo ou criolina, pois se ela nos domina é sofrência infernal.

    Por fim, no último exemplo, a saudade equivocada. Essa é mais despudorada, pois pode ser resolvida. Saudade de ir à casa dos pais que moram na esquina, de falar com a menina pela rede social, de dizer ao pessoal que hoje se sai à rua, seca o balde, bebe a lua pra esquecer os problemas. Dar um telefonema pra falar com um amigo, rir de empinar o umbigo lembrando desimportâncias, ultrapassando as instâncias de estar sem estar sendo, passo a passo revivendo, resgatando e removendo as saudades desta vida.

  • Paulo freire, o mamão e a galinha

    A vida de Paulo Freire virou um pesadelo desde a aposentadoria de seu pai, o militar Themístocles Freire, e piora com a suspensão do apoio financeiro de seu tio Rodovalho, comerciante de secos e molhados que vê seus negócios afundarem a partir de 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque. A crise da família Freire que sai da classe média para a pobreza vai piorando até pelo menos 1936, período que ficou marcado na memória de Paulo como uma cicatriz que nunca parou de doer. Em “Cartas a Cristina, Reflexão sobre minha vida e minha práxis” ele dedica o primeiro capítulo especificamente para falar de sua maior angústia e sofrimento: a de passar fome, situação que alcança seu estágio mais agudo em Jaboatão dos Guararapes, lugar que teve, para ele, “sabor de dor”.

    “A nossa fome foi a que chegava sem pedir licença, a que se instala e se acomoda e vai ficando sem tempo certo para se despedir. Fome que, se não amenizada, como foi a nossa, vai tomando o corpo da gente, fazendo dele, às vezes, uma escultura arestosa, angulosa. Vai afinando as pernas, os braços, os dedos. Vai escavando as órbitas em que os olhos quase se perdem, como era a fome mais dura de muitos companheiros nossos e continua sendo a fome de milhões de brasileiros e brasileiras que dela morrem anualmente”, relata Paulo Freire.
    Ele lembra que tinha ciência das precárias condições financeiras da família mas não tinha como ajudá-la aos 11 anos de idade. “Assim como meu pai não podia prescindir da gravata, que, mais do que pura expressão da moda masculina, era representação de classe, não podia permitir que eu, por exemplo, trabalhasse na feira semanal, carregando pacotes ou fosse serviçal de alguma casa”, pondera Paulo sobre a necessidade da família de, apesar das angústias, ainda tentar manter um status que não mais lhe pertencia.

    Segundo Paulo, a coisa piorou depois da morte do pai, mas é com mágoa que ele conta o que viu sofrer sua mãe, dona Tudinha, para não deixar faltar o mínimo para mantê-los de pé. “Era, por exemplo, acompanhando-a, que eu pude ver com que rosto de vergonha, de intimidação ela ficava quando o sujeito da venda – minha mãe ainda não tinha posto o corpo inteiro na porta – gritava por trás do balcão que não venderia a ela porque a dívida já era grande e que ele não acrescentaria mais. Ela nem balbuciava um ‘desculpe’ ou ‘muito obrigada’, voltava-se para rua e saía e eu atrás, sem comentários também. Essa coisa me marcou profundamente”, lembra.

    Neste período, restou a Paulo e seus irmãos fazerem incursões proibidas nos quintais alheios de sua rua e bairro em busca de alimento nos pomares e árvores frutíferas. O que ele chamou de “geografia dos quintais” era, na verdade, a geografia da fome que agora constituía sua nova forma de olhar o mundo e a natureza. Diferente de quando ele, na condição de sujeito alimentado, podia vislumbrar os fenômenos e seres naturais como parte de sua constituição como sujeito da vida, pessoa humana na construção de sua autonomia individual, agora suas incursões tinham o propósito único de vencer suas necessidades primárias. De menino bem criado, Paulo era agora um faminto delinquente que agia com o único intuito de matar o que lhe matava: a fome.

    “Conhecíamos os lugares mais seguros, onde, cuidadosamente, entre folhas secas, acolhedoras, mornas, escondíamos as bananas que tirávamos ainda ‘em vez’ (amadurecendo) e que assim ‘agasalhadas’ amadureciam ‘resguardadas’ de outras fomes, como, sobretudo, do ‘direito de propriedade’ dos donos dos quintais”, conta Paulo em suas Cartas a Cristina.

    Um desses donos de quintais, prossegue ele, o flagrou um dia, manhã cedo, tentando furtar um mamão de seu quintal. “Apareceu inesperadamente em frente a mim, sem que eu tivesse tido a oportunidade de fugir. Devo ter empalidecido. A surpresa me desconcertou. Não sabia o que fazer de minhas mãos trêmulas, das quais mecanicamente tombou o mamão. Não sabia o que fazer do corpo todo – se ficava empertigado, se ficava relaxado, em face da figura sisuda e rígida, toda ela expressão de uma dura censura a meu ato. Apanhando a fruta, tão necessária a mim naquele instante, de forma significativamente possessiva, o homem me fez um sermão moralista que não tinha nada que ver com minha fome. Sem dizer palavra – sim, não, desculpe ou até logo -, deixei o quintal e fui andando sumido, diminuído, achatado, para casa, metido no mais fundo de mim mesmo. O que eu queria naquele instante era um lugar em que nem eu mesmo pudesse me ver”, relata.

    Outra recordação de que Paulo chama de “atentados”, realizados por ele e seus irmãos, aconteceu numa manhã de domingo por volta das 11h da manhã. Tinham entretido o estômago com um pouco de café e um pão sem manteiga, quando apareceu, no quintal da velha casa em Jaboatão, uma galinha que, possivelmente, pertencia ao vizinho. A galiforme que ciscava em busca de algum inseto incorreu no erro de se aproximar dos meninos que a agarraram e a sacrificaram imediatamente.

    “Minha mãe chegou em seguida. Nenhuma pergunta. Os quatro se olharam entre si e olharam a galinha já morta nas mãos de um de nós. Hoje, tantos anos distantes daquela manhã, imagino o conflito que deve ter vivido minha mãe, cristã católica, enquanto nos olhava silenciosa e atônita. A sua alternativa deve ter estado entre repreender-nos severamente, devolvendo em seguida ao vizinho com desculpas o corpo ainda quente de sua galinha pedrês ou preparar com ela um singular almoço”, disse Paulo.

    Mas, diante da situação, venceu a fome (Paulo chama de “bom-senso”). Dona Tudinha, no mesmo silêncio que flagrou o delito, entrou na cozinha e foi depenar e preparar o animal abatido, “num trabalho que há muito não fazia”, segundo Paulo. “Nosso almoço, horas depois, naquele domingo, decorreu num tempo sem palavras. É possível que sentíssemos um certo gosto de remorso entre os temperos que condimentavam a galinha pedrês do nosso vizinho. Ali, sobre os pratos, aguçando a nossa fome, ela deveria ter sido, também, para nós, uma ‘presença’ acusadora do que nos teria parecido um pecado ou um delito contra a propriedade privada”, acrescenta.

    No dia seguinte, supõe Freire, ao perceber o desfalque em seu galinheiro, o vizinho deve ter esbravejado contra o ladrão acusando, possivelmente, pessoas pobres da região. “Jamais poderia haver pensado que perto, muito perto dele, estavam os autores daquele sumiço”, completa Paulo Freire.

  • Sonhar é preciso

    “É hora de abandonar o hábito ancestral de competir em vez de colaborar, de acumular em vez de compartilhar”. Com essa frase, o biólogo e neurocientista Sidarta Ribeiro abre o último parágrafo de um artigo de opinião amplamente difundido pela conceituada revista norte-americana Time. O pesquisador e vice-diretor do Instituto do Cérebro (ICe), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ganhou notoriedade internacional nas ciências estudando os efeitos do sono, dos sonhos e das memórias. No artigo Why we can’t ignore our dreams, ele discute a importância de voltar ao passado para compreender o presente e mudar a maneira de olhar a vida e seus efeitos na natureza.

    Sidarta começa lembrando dos sonhos premonitórios de Júlio César e sua esposa, Calpúrnia. O imperador romano sonhou voando alto a ponto de se encontrar com o deus Júpiter. Já sua esposa viu no sonho que ele seria esfaqueado e pediu para que não saísse de casa no dia seguinte. “Ambos os sonhos eram precognitivos: enquanto a subida ao céu para estar com o rei dos deuses era uma metáfora da morte de César e subsequente divinização, as imagens concretas do sonho de sua esposa previam o futuro em detalhes”, conta Ribeiro no artigo.

    Ao trazer essa referência, o neurocientista desafia a ordem vigente da ciência ao defender que os sonhos podem ser compreendidos além de uma experiência de imaginação do inconsciente, assim como pensam a psicanálise e a maioria dos líderes espirituais. Em seu texto, Sidarta lembra que a noção de que os sonhos podiam prever o futuro era amplamente aceita na Antiguidade, como visto em alguns dos primeiros registros escritos da Mesopotâmia, no Império Assírio e até no sonho de São José, que previu o risco que corria o menino Jesus de ser morto pelo rei Herodes. 

    O pesquisador reforça que a maioria, senão todas as religiões, considera o sonho um portal para a revelação divina e é preciso compreender a jornada psicológica feita por ancestrais para justificar essas crenças fantásticas e descobrir se é possível conciliar os sonhos com a visão de mundo materialista e ainda saber por que isso importaria. Mas, para chegar a uma resposta adequada, Sidarta lembra que é preciso compreender as funções biológicas do sono.

    “O sono desempenha muitos papéis diferentes em nossos corpos, como a estimulação da síntese de proteínas, liberação hormonal, desintoxicação e processamento da memória. Durante o sono, as memórias são reproduzidas por meio da reverberação de padrões de atividade neuronal. O sono tem diferentes estágios. O sono de ondas lentas processa memórias de pessoas, animais, objetos, lugares e eventos. O sono REM processa memórias emocionais, como lidar com um incidente frustrante, e memórias de procedimento, como andar de bicicleta”, explica Sidarta, reforçando que a intensidade e a complexidade da experiência do sonho atingem o pico durante o sono REM (do inglês: Rapid Eye Movement: Movimento Rápido dos Olhos).

    O cuidado com o sonho, segundo Ribeiro, começou a se desenvolver já no Paleolítico Superior, quando nossos ancestrais sonharam com inovações empáticas e transformadoras. No entanto, esse comportamento começou a mudar nos últimos cinco séculos, a partir do estabelecimento do capitalismo no mundo. E, mesmo voltando a ter repercussão com Freud e Jung, os sonhos nunca mais recuperaram sua importância social, perdendo inteiramente sua relevância de grupo. 

    “Com todos os estímulos que invadiram nossas vidas, a oportunidade de dormir e sonhar está cada vez mais ameaçada. A perda de sono pode levar ao déficit de memória, alterações de humor, depressão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e riscos de doença de Alzheimer. A perda de sonhos, por sua vez, pode levar a uma profunda falta de percepção de nossos desejos, medos e desafios, bem como a uma incapacidade de avaliar as consequências de nossas ações”, alerta.

    Para o pesquisador, uma atualização cultural é urgentemente necessária, tanto por parte dos líderes políticos como dos cidadãos comuns, pois é hora de reaprender a arte de sonhar com os xamãs nativos que alertam sobre a iminente ‘queda do céu’ causada pelas ações predatórias imprudentes. “Desigualdade, intolerância, mudança climática e a pandemia tornam muito clara a necessidade de uma ação conjunta. A segurança só pode vir de um sonho compartilhado sobre um futuro mais inclusivo. Se quisermos ficar por aqui, é vital entender o que são os sonhos para o bem comum e reaprender a arte de compartilhá-los com nossa família, amigos e vizinhos planetários”, completou Sidarta Ribeiro.

  • Menino Passarinho

    Chico não perdia a mania de provocar e fazer traquinagens. Impressionante como uma pessoa tão sensível e quista por todos nós se deixava inundar por pensamentos autoritários e inapropriados, quando ele mesmo nem de longe era ou se comportava assim. Não perdia a chance de chamar para o confronto e irritar os mais fracos ou forçar os que lhe conheciam a caminhar pela brincadeira e o deixa-disso.

    Um sujeito atravessado por um passado duro, vítima da imprudência da juventude, tornou-se um homem de fé, apaixonado e saudosista. Mas o destino lhe foi cruel e cobrou uma conta da maneira mais perversa levando drasticamente a quem ele mais amava. Estava nítida em sua peregrinação pelos arrependimentos do malfeito e ele os materializou em um livro extraordinário cujo título não podia ser mais adequado: Perdão.

    Quando o conheci, ele já era um idoso, desses inconvenientes que dizem ter chegado à idade da razão. Então, dizia o que lhe vinha à cabeça e, por conta disso, nos tornamos bons amigos. Além disso, era um cronista extraordinário com amigos valiosíssimos que o ajudaram a erguer-se e manter-se no meio literário com sua fina elegância do século passado.

    Passei a chamá-lo de “Menino Passarinho”, exatamente porque via, por trás de tanta dor e teimosia, a fragilidade de um adolescente escondido na carcaça de um velho provocador. Seus olhos entregavam essa leveza de menino bom que precisou criar couraça para enfrentar os demônios que lhe rodearam a vida toda.

    Francisco Rodrigues da Costa, seu Chico, Chico de Neco Carteiro. Filho de Areia Branca, escritor dos melhores, contador de histórias e estórias, amigo de Clauder Arcanjo e David Leite – seus anjos da guarda. Meu amigo Menino Passarinho que, por esses dias, disse adeus para nunca mais. Foi-se no tempo do universo, após ter deixado uma longa e turbulenta história, digna da literatura.

    Em tempos difíceis, vamos lembrar dele como esse sujeito inconsistente e provocativo porque esse tipo de coisa não deve ser esquecido, mas nem isso ou outra coisa será suficiente para tirar de nós, de nossas memórias e corações, a grandiosidade daquele que chamei – em tom provocativo para ele e seus editores – de “o maior escritor da Sarau das Letras”. Piada de “tio”, já que era um homem alto e corpanzudo. Ele ria e usava isso para arengar com David Leite, porque Chico era assim, um traquina Menino Passarinho.

  • Velho é seu cérebro!

    Perguntei se tinha capa para meu smartphone comprado há dois anos e o boy disse que não. “Vixe, esse é das antigas!”, afirmou com a maior pompa. Já pensou?! Das antigas? Um negócio comprado há dois anos ser das antigas? Onde essa galera tá com a cabeça minha gente?! Então, ele que devia ter uns 25 anos é de que tempo, da era dos dinossauros?

    Parece uma bobagem, mas isso reflete muito como nossa juventude está olhando para o tempo. Estão comparando a vida com a tecnologia efêmera da internet onde tudo parece velho, menos a bobajada que uma galerinha tá criando aí nas redes. É biquinho com a boca, boné de rolé estrangeiro, rits sem pé nem cabeça. Um esforço gigantesco para ser jovem, estar na moda; uma sofreguidão ou uma foto para cada ação.

    Nosso país avançou um pouco na educação, mas ainda está muito atrasado na percepção da realidade e leitura de sua própria cultura. A história aqui, além de ser mal contada, acobertada e falseada, é desprezada. O esforço do brasileiro médio para se parecer com os EUA é tanto, mas tanto, que a gente não se preocupa em construir uma cultura solidificada na experiência, vivência e reconhecimento dos feitos anteriores.

    A galera acha que ter telefone do momento ou saber dizer o ditado do dia, saber cantar a modinha é o que rende para vida. Tudo é velho, menos a cabeça dessa gente que não se preocupa em ter conteúdo, volume de conhecimento, consciência do tempo e entendimento sobre o perigo do consumismo crescente. Essa gente é que ajuda o país a entrar nesta curva acentuada de retrocesso cultural, humano e social; que escolhe mal presidente, deputado e prefeito. Uma gente que nada tem com nada, mas acha que pode tudo.

    Velho aqui é o pensamento imaturo de uma juventude que não tem de dar duro em nada para ter o que nós, de minha geração, levamos uma vida para conquistar. Quem nunca carregou um balde de água nunca saberá o valor de uma gota, nunca valorizará a caminhada e a necessidade de olhar para trás antes de dar o próximo passo. Gente assim, que acha que a vida é fácil,  pode se tornar o gargalo das próximas gerações, porque, infelizmente, pagará o preço cruel e mesquinho do desinteresse, da facilidade insustentável de uma geração criada no leito em pó.

  • Chuva de Bala no País de Mossoró, uma crítica

    Foi boa a iniciativa da Prefeitura de Mossoró de manter o evento Chuva de Bala de forma virtual. Esse espetáculo visto por milhares é esperado todos os anos pelos mossoroenses e por pessoas que entendem a importância histórica e cultural dessa atividade artística. Em 2021, a apresentação foi transportada para as telas mesclando teatro e cinema e nos dando outras perspectivas dos atores e da direção, mas também aguçando novas ideias e possibilidades.

    Os pontos positivos começam pelo já dito que é a manutenção do evento, respeitando e oportunizando a vários artistas, desde atores, músicos, dançarinos, diretores, cinegrafistas, roteiristas e tantos outros, o direito ao trabalho. Sabemos que nesta pandemia a arte foi muito prejudicada, pois sem público não há apresentações. Pudemos ver ainda várias performances de atores conhecidos que ficaram melhores no vídeo do que no teatro, ao contrário de outros.

    Imagino a dificuldade que foi de adaptar um texto teatro-musical para as telas sem praticamente haver modificação de roteiro, mais financiamento para cuidar melhor do cenário e de outros detalhes. No adro da Capela de São Vicente a utilização de armas artesanais não faz muita diferença, já no detalhe da câmera, isso não ficou bem. Ainda assim, é notório o esforço dos participantes em tornar o roteiro possível, ainda que com suas características lúdicas, esse jeito meio mambembe para tornar a coisa mais leve e acessível a todos.

    Quero pontuar aqui e reconhecer o talento do diretor Marcos Leonardo que sempre foi muito corajoso e agora mais do que nunca. Destaco também a beleza da atuação de Igor Fortunato, o Totonho, personagem que vai dando a linha narrativa e contextual do acontecido. Alguns nomes desconhecidos por mim também surpreenderam em suas atuações. Como sempre, a cena das viúvas foi a melhor parte, a que mais tocou e movimentou emoções nesta apresentação híbrida. Mas digo isso porque tenho clara preferência por este momento, de maneira que acho até caberia, depois, um espetáculo específico com pegada semelhante.

    Aponto como críticas menos positivas o fato de o roteiro não ter sido reescrito e adaptado exclusivamente para o cinema. Confesso que esperava um filme com frames específicos, atuações mais de cinema e menos de teatro, sequências melhor elaboradas e algumas atuações que poderiam ter sido refeitas. Novamente, coloco como pontos negativos as locações e objetos do cenário, como o carro dirigido pelo chofer Gatinho, o qual levava o Coronel Gurgel, que foi o mesmo cenográfico usado no espetáculo de rua. Em minha visão de espectador leigo, acho ainda que o teatro mossoroense precisa se reciclar para que alguns atores sejam menos teatro de rua e tragam mais verdade na atuação.

    Critico também a ausência das músicas oficiais que, certamente, não foram novamente liberadas pelos autores, o que considero um enorme desserviço.

    Tudo isso me faz imaginar que a Prefeitura, os diretores, atores e outros setores, poderiam sim pensar, de fato, na produção de um filme para cinema dessa história. Mossoró e o estado do Rio Grande do Norte têm condições, atores, diretores e roteiristas para produzir algo a nível do grande cinema brasileiro. O cinema potiguar, que neste ano está concorrendo à Palma de Ouro no Festival de Cannes, merece um filme sobre o acontecimento histórico mais relevante do interior potiguar, sobretudo por suscitar amor por nossa terra, respeito e sensação de pertencimento.

    Mossoró sozinha tem condições técnicas e humanas para fazer isso. Espero que o filme desse ano seja o motivador para esse grande feito futuro.

    Imagem: Cedida/Prefeitura de Mossoró

  • Verdade engarrafada

    Manuel Maria, caixeiro viajante de família tradicional galega, dessas que ainda mantém o “x” pronunciado em várias de suas palavras, chegou cedo numa dessas cidades pequenas, ainda com característica de vila, do Rio Grande do Norte, com um produto curioso, mas muito instigante para aquela gente simples. Trazia o mascate, em uma de suas caixas feitas de couro de bode, encardidas por poeira e suor, uma série de garrafas de cor âmbar em formatos diversos, aparentemente vazias, mas que, nas palavras do vendedor, carregavam um dos mais importantes produtos já envasados no mundo.

    Teria sido um trabalho, resultado de muito estudo, de um velho alquimista cigano, encontrado por ele em nalguma serra das Minas Gerais, e que estava tendo uma procura muito grande por seus efeitos benéficos. Teria esse sujeito captado as ondas sonoras dos pensamentos e palavras da autenticidade humana e, por meio de um instrumento produzido por ele próprio, com peças de vidro, latão e algum tipo de energia, engarrafado a verdade.
    Em sua eloquência de vendedor, disse ao pequeno grupo que lhe rodeava que, ao comprar produto misterioso, bastaria afrouxar a tampa e deixar escapar, aos poucos, sua química para que a verdade fosse estabelecida nos lares e repartições. Ao dizer isso, sacudiu uma das garrafas e os moradores, vários, inclusive, asseguram ter visto se mexer no vasilhame uma espécie de fumaça possivelmente verde. O comerciante explicou, no entanto, que recomendava a compra apenas por pessoas realmente honestas, pois os resultados poderiam ser catastróficos para o comprador.

    Obviamente, as pessoas, apesar da curiosidade, deram pouca atenção àquele charlatanismo e usaram suas moedas para adquirir outros utensílios mais necessários em seus casebres, como bacias, facas, tecidos e pomadas diversas. Mas o galego, sapiente, ao fechar as tampas da carroça, afastou-se alguns metros da vila, acendeu um candeeiro e armou uma rede esperando o que, possivelmente, já vinha acontecendo em muitos outros lugares. O que não demorou muito, pois assim que a penumbra cobriu todo o lugar, a primeira pessoa apareceu sorrateiro para comprar a verdade engarrafada.

    Até às 4h da manhã, metade da mala tinha sido vendida. Quando o sol esquentou, os moradores não avistaram sequer rastros da carroça do caixeiro que havia sumido em mistério. Na cidade, o silêncio de sempre reinava até que se ouviu o primeiro estardalhaço. Joana de Quitéria deixou a garrafa quebrar ao tentá-la abrir e, no crença de ter sido contaminada pelo elixir invisível, danou-se a contar seus segredos, antes mesmo de acusar o marido, Antônio de Queirá, de estar se deitando com Mariquinha de Chá de Nelson. Foi um estardalhaço e quebra-quebra.

    Quando a notícia chegou à casa da citada, motivada por garrafa também aberta, essa deixou escapar outras astúcias, assim como seu marido, de maneira que em meia hora toda a cidade se revelava numa teia de segredos cômicos e escabrosos, o que suscitou ameaças de morte por acusação de pederastia, roubo e pedofilia. Não era possível saber ao certo, dadas as circunstância da confusão, se havia inocente na cidade.

    O moleque Pardal, filho de Rosália do Café e Tião Pereira, armou-se de faca e saiu a cavalo em busca do galego Manuel Maria. Com ele, foram os rapazotes Miró de Peba e Sival de Pedro do Açude. Cada um mais brabo que o outro. Encontraram a carroça do mascate 10 léguas adiante nas primeiras horas da noite, mas foram surpreendidos por um velho moreno segurando duas garruchas engatilhadas. Os moços contaram a história e o dito velhote, com sotaque sigano, disse que eles estavam loucos ou embriagados porque, além de nunca ter passado naquela cidade, o galego de que eles falavam tinha morrido há mais de duas décadas e sua mulher havia vendido aquela carroça.

    É certo que os valentões não tinham certeza da imagem do galego que haviam visto uma única vez, além do que, era noite escura e eles estavam muito cansados e com fome. Enfrentaram e, sob a mira dos revólveres, ainda vasculharam as coisas até encontrar as garrafas. O velho cigano riu-se e explicou que a coisa da verdade engarrafada era uma brincadeira que ele tinha criado apenas para entreter, mas que as vasilhas eram vendidas apenas para as mulheres guardarem remédio caseiro. Enfurecidos, os moleques quebraram as garrafas e saíram avoados em seus cavalos de volta para casa. No caminho, duvidaram da conversa do cigano sobre o conteúdo dos vasilhames e começaram uma teima. Na vila, as coisas se acalmaram nos dias seguintes, mas nunca mais souberam dos meninos.

  • Demônios no travesseiro

    De onde vem a literatura? Opiniões e opiniões, algumas especialistas, outras de ouvir dizer. A literatura é um monte de coisa e não é nada. É contação de memórias ou fenômeno social advinda da comunicação humana que precisou construir cenários hipotéticos para fugir da realidade estática de catar e colher, de viver na submissão ou de morrer nas guerras e ataques de outros humanos também cheios de ilusões. O que é a boa literatura? Teremos inúmeras respostas a depender de quem fala: um crítico dirá de um jeito, um professor de literatura de outro, um leitor voraz, um escritor, cada um à sua maneira. Mas, o certo seria perguntar a cada um dos leitores. Aquele livro que uso como escora de algum objeto certamente está na cabeceira de alguém que encontrou ali algo semelhante à sua realidade.
    A literatura sempre está em perigo, mas ela própria é o perigo em si e para os que a leem. Por isso, criticar a literatura é tão necessário e estudá-la tanto quanto, mas nada disso refletirá uma verdade, porque as verdades se constituem em cada um de nós, apesar de motivadas pelos grupos. E quando se trata de literatura, a questão pode ser colocada numa perspectiva da filosofia clássica que considera a natureza humana, ao contrário da moderna. Mas também é necessário levar para esse outro lado, tendo em vista o cuidado de não colocar rumo em todas as ideias publicadas para não se correr o risco de decidir o que é bom e o que é ruim como critério universal sólido. “Essa literatura presta, essa não presta – queima!”.

    Com exceção dos excessos, a literatura é um campo aberto e florido onde todos podem passear, independente da opinião dos bastiões da verdade. Assim como muitos religiosos se sentem donos de Deus, muitos leitores/escritores/críticos se acham donos da verdade literária, do estilo perfeito, das leituras mais adequadas. Há muitas entrelinhas nas entrelinhas de Borges e é lá onde reside o autor originário de tanta beleza provocativa, só para citar o autor dos mais ávidos críticos de tudo. Cada um tem a biblioteca que lhe convém. Leontino usa a dele para formar leitores, Pedro Salgueiro para ajudar escritores. Eles não citam qualquer coisa, mas leem tudo para poder criticar se perguntados, senão, continuam lendo e deixando que cada um faça seu caminho.

    Uma parte disso reside na crítica dos movimentos. Mossoró, como exemplo disso, tem muitos grupos literários, embora nem todos completamente. Academias de Letras, associações, sociedades e confrarias. É claro que nem tudo que eles produzem tem a qualidade que agrada a mim, mas duvido que cada um desses textos produzidos não encontre alguns leitores satisfeitos. E se não fossem essas manifestações o que seria dessa literatura local? Quem começa escrevendo frases perfeitas? Todos precisamos de um caminho para encontrar nosso lugar nesse mundo exigente. Alguns se isolam, outros precisam de incentivo, de pessoas para conversar e compartilhar. Cada um de nós é uma ilha e uma ponte, um dia e uma noite.

    As teorias literárias são feitas de hipóteses e metodologias científicas que tanto podem ser testadas como refutadas. Toda literatura é feita de vida, de um entendimento interno ou de uma visão própria que revela claramente quem está escrevendo: se alguém com muito conhecimento de si ou do mundo ou uma pessoa carente de reproduzir ditos e sentimentos alheios. Quem escreve mostra sua intimidade. Quem tem seu próprio universo o faz refletir e ingressar em nós, quem não, repete aquilo que pensa saber e também nos revela sua limitação diante de sua própria existência. Assim a literatura se torna um demonstrativo do que é real e fatídico em cada uma das pessoas que a escreve.

    Para saber o que é qualidade nesse meio é fácil, basta ler os clássicos, sejam antigos ou contemporâneos. Ninguém precisa se filiar aos que todos dizem gostar. Tem muita gente que fala de Dostoiévski por causa de Bakhtin, outros porque leram Crime e Castigo. Para muitos, como eu, Antônio Torres consegue dizer a vida como uma possibilidade universal, principalmente quando fala de sua intimidade rural. Cada um precisa encontrar seus autores, suas referências que podem estar em Tolstoi ou em Martha Medeiros, em Yu Hua ou Paulo Coelho. Contudo, cada um que se aventura na escrita literária deve buscar, por si só, seu caminho e não parar de escrever por uma crítica, ao contrário, pode crescer com ela enquanto escritor ou pessoa.

    É a emancipação que ajuda o autor a explorar boas ideias e conduzir bons textos, mas a emancipação requer autorreflexão e criticidade. Um bom papo com amigos e uma cerveja gelada ajudam muito também.

    José de Paiva Rebouças – cronista