Perdão, padre, porque pequei. Não, eu não queria, nem nunca havia imaginado tal coisa; afinal, fui criada para a função de santa. Desde criança, mantive-me na fé, cumprindo os rituais que me foram cobrados e repassados desde minha avó. Minha mãe morre de orgulho e repete a todo canto a dádiva de sua filha. Estou na missão desde que me entendo por gente e nunca, nunca mesmo, pensei em abandonar a tarefa de cuidar de Deus, até hoje.
Eu sei que foi provação, eu sei, mas nunca soube como me livrar dela, embora às vezes ache que não nasci para a culpa, só às vezes. Talvez depois desta confissão. Mas o que seria de mim se eu negasse a verdade?
Não pensei ser assim tão ruim, e tive educação para não ser. Tudo estava bem, e eu rezo todas as noites, mas há dias em que só o banco celestial da casa de Deus é suficiente para aplacar a minha dor material. A vida é um jogo muito duro para quem se prepara para o paraíso. Nunca desejei morrer porque é pecado, mas queria que o céu não estivesse tão longe; assim não teria acontecido a minha desgraça.
A Cristo converto o meu espírito enquanto tenho forças, mas há momentos em que preciso olhar em seu rosto e sentir-me mais próxima, então venho à igreja. Mas nesta noite não estava sozinha. A sombra estava à espreita, a mesma sombra que há dias vinha me perseguindo. Não sei por que, sempre me pergunto, não sei por que não tive medo. Há tanto tempo sendo caçada pela mesma aparição rasteira, estendendo-se nas paredes ou apontando nas esquinas, que me senti íntima dela. As sombras, padre, vêm sempre nos momentos vagos, quando os proscritos suspiram o seu pecado. As sombras nos preenchem mais que o próprio espírito, porque somos sombra tanto quanto.
Eu percebi, confesso, mas não gritei como faz toda temente. Eu fechei os olhos como sombra e deixei-me consumir qual um corpo putrefato entregue aos deliciosos vermes da terra, porque eu era terra. Pela primeira vez, deixei-me ser terra e consumir. Haveria pecado mesmo na defesa; por isso, deixei-me. E o pior, padre, pequei por não me arrepender da sombra. Não acredito nesta ressurreição. Eu sou um prego nos pés de Cristo e não sei se posso ser diferente.
Já tentei encontrar a compunção nas lembranças antigas. Tentei encontrar uma lágrima qualquer que me fizesse sentir triste como uma condição de arrependida, mas só me lembro do ato e do chão empoeirado; do caminho onde transcendi abastadamente. Não pude escapar da satisfação de ser jogada contra o chão para satisfazer a sombra, nem de vê-la fugindo na escuridão após me deixar na sarjeta: dolorida e lambuzada pelos seus instintos. Não há sensação melhor, por isso entrego-me ao desatino e ao descaminho. Não sirvo para Deus ou ao mundo santo. Eu sou carne e, como as ovelhas do campo, sirvo apenas de alimento aos homens e aos vermes. Sou filha dos pensamentos e não das paredes.
Gozo das sensações de minhas irmãs e da madre superiora, tão boas e tão ingênuas. Da sensação da sombra sobre o meu corpo esfarrapado como num sonho distante. De vê-la correndo na escuridão de sua própria casta, rumo ao mesmo quarto vazio onde as luzes se acendem toda madrugada aos olhos de nós todas. Deixá-lo-ei, padre, mas não se assuste com a minha partida. Meus olhos estarão fechados e tudo estará mudo quando eu me for. Não há o que temer, há perdão para tudo.