Por Natália Chagas
Ela acordava suada de seus pesadelos. A multidão em aplauso se juntava em torno dela em aglomerações violentas e a pisoteava. Porém ela só acordava quando os aplausos paravam e ela estava submersa aos pés da audiência.
Olhou as horas, faltavam meia hora para acordar. Decidiu levantar e ter a manhã mais calma. Preparou café e sentou na cozinha olhando para o nada. Para dentro da sua mente, pensamentos medonhos prendiam sua respiração. Um galo canta e a desperta para o dia começar.
Banho. Roupa. Porta. No caminho para o ensaio, ela olha para o chão evitando olhares. Apenas seus pensamentos são inevitáveis. Turbulentos e silenciosos, a visão das solas era nítida ao fechar dos olhos. Nem piscar conseguia. Ainda havia o barulho dos aplausos. E só.
– Bom dia! – saudou Milena ao porteiro que ela nem sabia o nome. Ele acenou com os olhos, e ela seguiu pelo corredor que chegaria ao palco vazio. Aplausos, aplausos, aplausos em sua cabeça. Uma réstia de luz a guiava até as escadas que subia o tablado, onde tudo se tornaria silêncio em sua cabeça. Calma e respiração revelavam que aquele era o seu lugar. Ali ela podia não ser mais ela. Não ser mais julgada por seus atos, é agora apenas um personagem.
Risos adentraram o teatro em cima dos pés de quatro pessoas. O diretor, a maquiadora, o coadjuvante e sua substituta. Milena que havia sido trocada no papel de amante do diretor pela substituta. Quanta ironia!
– Começamos em dez minutos. – anunciou Ricardo, o diretor.
Camarim. Roupa. Porta. Na passagem do banheiro, trombou com Clarice, a substituta. Aquele cheiro de jasmim enjoativo que a fazia embrulhar o estômago nos últimos meses de seu casamento invadiu sua narina lembrando da frase final de Ricardo “Você nunca será tão boa quanto ela!”. Clarice esboçou um sorriso. Milena apressou para não vomitar.
Dentro de seu monólogo, Ricardo interrompe lembrando que ela era a vilã em um mundo de ódio, e que as pessoas devem se conectar com empatia às matanças da personagem.
– Você tem motivos indiscutíveis para tudo que você faz. Não discuta, não tente argumentar com quem não vai lhe ouvir. Apenas aja!
Palavras de terror, homicídios e tortura fluíam de sua boca como saliva grossa que não passa mais pela garganta, só tem direção para fora projetada a partir de seu útero. Ódio tomava conta de seu corpo e formigavam os dedos dos pés e mãos.
Em casa, ela colocava os pés e as mãos em água quente para conseguir senti-los novamente. Apenas após uma taça de vinho e um baseado, conseguia desanuviar a mente e o corpo voltava a ser seu.
A rotina do ódio mantinha sua vida tediosa até a estreia. Naquela noite, não houve aplausos em seus pesadelos, só o pisotear das pessoas com raiva pulsante sobre sua cabeça e corpo. Todo corpo doía quando a água do banho trepidava seus músculos. No meio do caminho para o teatro, a desidratação invadiu seus órgãos sugando sua energia. Um torpor tomou conta de sua mente e apenas as palavras de malevolência reverberavam em sua mente. Pele pálida, olhos vermelhos, lábios sem cor e muita olheira assustaram todos.
– Você está doente? – perguntou Ricardo. – Clarice pode te substituir.
O olhar de Milena emudeceu não só o diretor, mas a todos em volta. Três horas antes da estreia, e ninguém criava coragem para trocar palavra próximo à armadura que envolvia Milena. Naquele momento, já não era Milena, era Sane. Calafrios e arrepios eram distribuídos a todos que dividiam o camarim. As luzes dos holofotes encandeciam com sua presença.
Primeiro ato. Aplausos. Segundo ato. Aplausos. Ato final. Aclamação.
O público de pé se consumia em palmas. Sane vislumbrava pessoas sorrindo e mãos interminavelmente se batendo sem ouvir um sussurro. Lágrimas corriam nos rostos de atores, produtores, direção. Nenhum músculo mexia no rosto da ovacionada da noite. Todos a seus pés pararam vagarosamente em tempos diferentes as palmas e mudaram a fisionomia para o horror de sua face distorcendo na rigidez muscular. As mãos e os braços paralisados, órgãos contraídos, sangue coagulado em gelo expulsaram o que restava de vida naquele corpo de pura ira.