Por Ana Cadengue
Impossível conter as lágrimas ao ouvir pela primeira vez os versos de “Carta a papai Noel”, do poeta Luiz Campos. Se o poema doeu em mim, a situação do poeta era de cortar o coração. Sozinho, quase cego, numa casinha humilde e passando necessidades. Ajudávamos como podíamos, Túlio Ratto, eu, alguns amigos e poetas. De minigravador, para que registrasse seus versos, a faxina, telefone celular, comida ou algum trocado, convite para cantoria.
Era triste ver um homem daquele talento naquela situação. Mas, o que poderia ser motivo de amargor, se transformava em versos, alguns cáusticos e irônicos, outros divertidos e surpreendentes. Não se furtando à responsabilidade que por ventura lhe coubesse, ele, que se orgulhava de ser filho de Mossoró, reclamava de ter sido esquecido pelo Poder Público municipal. Reclamação, diga-se, bem comum entre os que fazem cultura e não tem apoio financeiro e institucional. Principalmente, entre os verdadeiros mestres.

Nascido aos 11 de outubro de 1939, o mossoroense Luiz Campos foi poeta, repentista e cordelista. Brincava com as palavras, mesmo estas não indo para um livro. Ria da sorte e cativava plateias pela simplicidade e o fino linguajar nordestino no trato com o vocabulário e uma velocidade invejável em anexar “causos” em tudo que fluía à sua volta.
E é para contar essas histórias de Luiz, falecido em 2013, e para que ninguém esqueça de sua grandeza poética, que o chargista, caricaturista, artista plástico e editor da Papangu na Rede está lançando nesta sexta-feira, 24, o documentário “Luiz Campos, um encantador de palavras” em seu canal do YOUTUBE. https://www.youtube.com/watch?v=qerdMk1Bu70/
O que começou numa entrevista para a revista Papangu em 2011, se tornou um documento importante para a memória da cultura no Rio Grande do Norte. “Tenho essa gravação há anos, sempre quis lançar, mas faltavam recursos. Com a Lei Aldir Blanc, vi a oportunidade de fazer esse resgate e contar um pouco sobre a falta que Luiz Campos faz à cultura de Mossoró e do Estado”, diz Túlio Ratto.
No documentário, de 41 minutos, os poetas Antônio Francisco, Nildo da Pedra Branca, José Di Rosa Maria, Crispiniano Neto e Genildo Costa e o pesquisador e escritor Kydelmir Dantas falam sobre Luiz Campos e sua importância para a poesia de cordel.
As gravações misturam diversos momentos, com Luiz Campos em 2011, cenas de seu enterro em 2013 e depoimentos colhidos agora em 2021. Poesias e causos se sucedem numa justa homenagem. “Queria ter feito mais, ter mais gente participando, mas a pandemia isolou algumas pessoas e, também, se a gente fosse contar tudo virava um seriado”, explica Túlio rindo.
Compadre e vizinho de Luiz Campos desde menino, Antônio Francisco “conversa” com o amigo em versos e nos leva com eles para um paraíso onde a poesia e a cultura são elementos mais que valorizados, divinos.
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“Luiz campos, um encantador de palavras”
41 minutos
Estreia: 24 de dezembro no canal do Youtube
Direção: Túlio Ratto
Produção e Entrevistas: Ana Cadengue
Assistente de Produção: Tuca Viegas
Diretor de Imagens: João Batista Freitas
Edição: Ramatis Pessoa
Ilustração em xilogravura: Rodrigo Brum
Interpretação do poema “Meu caso é um descaso”: Carlos José
Patrocínio: Lei Aldir Blanc, Governo do Estado do Rio Grande do Norte/Fundação José Augusto
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CARTA A PAPAI NOEL
Seu moço eu fui um garoto
Infeliz na minha infância
Que soube que fui criança
Mas pela boca dos ôto…
Só brinquei com gafanhoto
Que achava nos tabuleiro
Debaixo dos juazeiro
Com minhas vaca de osso
Essas catrevage, moço,
Que se arranja sem dinheiro.
Quando eu via um gurizim
Brincando de velocipe,
De caminhão e de jipe,
Bola, revólve ou carrim
Sentia dentro de mim
Desgosto que dava medo,
Ficava chupando o dedo
Chorando o resto do dia
Só pruque eu num pudia
Pegá naqueles brinquedo.
Mas preguntei certa vez
A uns fio dum dotô
Diga, fazendo um favô
Quem dá isso prá vocês?
Mim respondeu logo uns três
Isso aqui é os presente
Que a gente é inocente
Vai drumí às vezes nem nota
Aí Papai Noé bota
Perto do berço da gente.
Fiquei naquilo pensando
Inté o Natá chegá
E na Noite de Natá
Eu fui drumi me lembrando
Acordei, fiquei caçando,
Por onde eu tava deitado
Seu moço eu fui enganado
Que de presente o que tinha
Era de mijo uma pocinha
Que eu mesmo tinha botado.
Saí c’a bixiga preta
Caçando os amigo meu
Quando eles mostraram a eu
Caminhão, carro e carreta
Bola, revólver, corneta,
E trem elétrico, até
Boneca, máquina de pé,
Mas num brinquei, só fiz ver
E resolví escrever
Uma carta a Papai Noé.
“Papai Noé é pecado
Aos outros se matratá
Mas eu vou lê recramá
Um troço qui tá errado
Que aos fio do deputado
Você dá tanto carrin
Mas você é muito ruim
Que lá em casa num vai
Por certo num é meu pai
Qui num se lembra d e mim.
Já tô certo que você
Só balança o povo seu
E um pobre que nem eu
Você vê, faz qui num vê
E se você vê, por que
Na minha casa num vem?
O rancho que a gente tem
É pequeno mas lhe cabe
Será que você num sabe
Qui pobre é gente também?
Você de roupa encarnada,
Colorida, bonitinha,
Nunca reparou qui a minha
Já tá toda remendada
Seja mais meu camarada
Pr’eu num chamá-lo de ruim
Para o ano faça assim:
Dê menos aos fio dos rico
De cada um tire um tico
Traga um presente pra mim.
Meu endereço eu vou dá
Da casa que eu moro nela
Moro naquela favela
Que você nunca foi lá
Mas quando você chegá
Qui avistá uma paioça
Cuberta cum lona grossa
E dois buracão bem grande
Uma porta veia de frande
Pode batê que é a nossa.