Últimas histórias

  • Humor: Em Cartaz – FUJA

    Tem trama de suspense em nossa lista de filmes e séries neste ano de 2022. Sobre o tema “mãe e filho” eia o nosso primeiro.  Em Fuja, um jovem que sofre de inúmeras patologias narcisistas, estando inclusive confinado a uma cadeira do senado federal, vive na casa com sua mãe, que o educa no próprio domicílio — o roteiro sugere isso. Aguardando por uma possível confirmação para sua ideia de concorrer à cadeira do governo do RN, mas devido ao seu momento mais ególatra desde a época que só sabia prender bêbados, fica deveras angustiado com a demora de mãinha. É tanta ansiedade, que ele começa a desconfiar que a matriarca pode não lhe conceder a ordem de seguir em frente. O que não é de tudo ruim para o egocêntrico mais famoso das terras de Cascudo, pois assim não passa vergonha sendo o terceiro de três candidatos.

    Direção: Mãinha

    Ano: 2022

    Elenco: Ególatra Valentin

  • Manifesto pela Democracia

    O Manifesto pela Democracia, organizado por integrantes da Faculdade de Direito da USP Universidade de São Paulo), ultrapassou as 500 mil assinaturas neste sábado (30). O texto critica o que considera “ataques infundados e desacompanhados de provas” que questionam “o Estado Democrático de Direito” e a lisura do processo eleitoral.

    O documento conta com o apoio de organizações da sociedade civil, foi lançado no final da tarde de 3ª feira (26.jul) com 3.069 assinaturas iniciais. Depois disso, as adesões explodiram: até o final da noite de 3ª feira (26.jul) foram 30.000 assinaturas adicionais.

    Banqueiros, empresários, artistas, advogados, integrantes da magistratura e do Ministério Público estão entre os signatários. Para assinar clique aqui: https://www.estadodedireitosempre.com/.

    Algumas das pessoas que aderiram ao texto inicialmente são:

        Alberto Toron – advogado;

        Armínio Fraga – ex-presidente do Banco Central;

        Candido Bracher – integrante do Conselho de Administração do Itaú Unibanco;

        Celso Antônio Bandeira de Mello – advogado;

        Eduardo Vassimon – presidente do Conselho de Administração da Votorantim;

        Fábio Alperowitch – sócio-fundador do Fama Investimentos;

        Guilherme Leal – co-presidente da Natura;

        Horácio Lafer Piva – acionista e integrante do Conselho de Administração da Klabin;

        João Moreira Salles – cineasta;

        João Paulo Pacifico – CEO do Grupo Gaia;

        José Roberto Mendonça de Barros – economista;

        Miguel Reale Júnior – ex-ministro da Justiça;

        Natália Dias – CEO do Standard Bank;

        Pedro Malan – ex-ministro da Fazenda;

        Pedro Moreira Salles – co-presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco;

        Pedro Passos – conselheiro da Natura;

        Pedro Serrano – advogado;

        Pierpaolo Bottini – advogado;

        Roberto Setubal – co-presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco;

        Sérgio Renault – advogado;

        Walter Schalka – presidente da Suzano.

    Também assinam a carta os cantores e compositores Chico Buarque e Arnaldo Antunes, o ex-jogador de futebol Walter Casagrande, as atrizes Débora Bloch e Alessandra Negrini, o apresentador Cazé Peçanha e a chef de cozinha Bel Coelho.

    Onze ex-ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) aderiram à iniciativa: Carlos Ayres Britto, Carlos Velloso, Celso de Mello, Cezar Peluso, Ellen Gracie, Eros Grau, Marco Aurélio Mello, Nelson Jobim, Sepúlveda Pertence, Sydney Sanches e Joaquim Barbosa.

    O curioso é que desde o lançamento o site vem sofrendo com ataques hacker. Por causa disso, a Faculdade informa que foi necessário reforçar a segurança para que o portal seguisse no ar.

    O manifesto recebeu o nome de “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”. Será lido em evento realizado em 11 de agosto, no Pátio das Arcadas do largo de São Francisco.

  • “Rastejar – No rasto de Lamartine”: exposição fotográfica  imerge na obra de um dos maiores sertanistas brasileiros

    Por Ana Cadengue

    A diversidade do sertão sob a ótica do pesquisador natalense Oswaldo Lamartine de Faria é o tema de “Rastejar – No rasto de Lamartine”, nova exposição do fotógrafo Vlademir Alexandre, que está aberta até o dia 14 de agosto na Pinacoteca do Estado.

    Além de atores e cenários tradicionais dessa região – como um vaqueiro em galope e os açudes cheios na invernada – a mostra de 37 imagens retrata cenas peculiares, o fumegar de uma panela com canjica de milho. Múltipla, a exposição envolve as expressões artísticas de desenhos, textos, fotografias.

    Para expor este resultado, o fotógrafo debruçou-se por quase vinte anos em registros fotográficos e pesquisas sobre a obra do chamado “sertanólogo” e escritor que se tornou referência sobre o tema, após 21 livros publicados. Os visitantes terão a oportunidade de fazer uma “imersão transversal na obra de Lamartine, já que é atravessada pela minha própria impressão desta obra”, diz o autor, nascido no Rio de Janeiro e radicado em Natal, “migração oposta à feita por Lamartine”.

    Vlademir destaca a “capacidade de Lamartine de fazer um mapeamento técnico e preciso sobre os costumes do Seridó, mas com a força da poesia e da cultura popular, o que o torna singular”. Segundo a escritora Rachel de Queiroz, que consultou Lamartine para escrever o clássico “Memorial de Maria Moura”, ele é o maior “sertanólogo” do Brasil.

    Sobre o conceito da mostra, Vlademir resume: “É uma provocação à percepção de um Nordeste a partir de sua essência, um ensaio fotográfico de imersões para o universo da linguagem, da origem e da identidade sertaneja a partir dos escritos de Oswaldo Lamartine que, após o ano de seu centenário, propõe ressignificar o lugar, uma vivência possível no aportar ao tempo, o espírito e o fazer sertanejo do homem e da mulher do campo como atores de suas crenças e edificadores do imaginário popular”.

    Impressas no melhor material “canvas museum” para fine art, as 37 telas de tamanhos variados possuem 100 anos de garantia e estarão à venda. A exposição conta com apoio da Fundação José Augusto.

    Sobre Vlademir Alexandre

    Cientista social e fotojornalista, trabalha com mídia visual, fotografia e produção de vídeo há 27 anos. É arte educador e professor de fotografia. Membro do Coletivo daFOTO!, atua em assessoria institucional nas áreas de indústria, legislativa, campanhas políticas e publicitárias, jornais (Tribuna do Norte, Estado de São Paulo, Novo Jornal) e revistas nacionais e do RN. Já produziu para instituições como Petrobras, Governo do Estado, Assembleia Legislativa, SENAC, Câmara Municipal e Prefeitura do Natal.

    Criador do Blog Além do Mar, discute desde 2009 o turismo rural e desenvolvimento sustentável como alternativa. Educador em projetos de fotografia como ferramenta didática e conceitual em abordagens individuais e por meio de coletivos e ONG’s, é escritor, cursando Ciências Sociais.

    Foi vencedor e teve menção honrosa em concursos como Sindipetro, IDEMA,

    Brahma e SENAC MG. É coordenador e proponente do livro Seis Formas de

    Ver o mundo (2021) e fez a direção das entrevistas Foto Coletiva, codireção

    e fotografia websérie Autorretrato (2021).

    SERVIÇO:

    Exposição “Rastejar – No rasto de Lamartine”

    Pinacoteca do Estado – Praça Sete de Setembro, S/N – Cidade Alta, Natal

    Entrada gratuita. Até 14 de agosto.

    Visitação de terça a sexta (08h às 17h) e aos sábados e domingos (09h às 16h).

    Crédito das fotos: Vlademir Alexandre

  • É de camaleão aiaiai

    Por ANA CADENGUE

    Promulgada no dia 28 de setembro do ano passado, a reforma eleitoral estabelecida pela Emenda Constitucional 111 tinha pretensões de contribuir para o “o equilíbrio da atividade político brasileira”, segundo o presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco e trazer inovações em três aspectos políticos eleitorais: promoção da diversidade nos cargos públicos, estímulo à participação popular, e fidelidade partidária. 

    Menos de um ano depois, com as novas regras em vigor e praticamente às vésperas de uma eleição geral, o que a gente vê é uma verdadeira miscelânea de partidos ao gosto do freguês. 

    Com as coligações partidárias só valendo para as eleições majoritárias (governador, senador e presidente da República), alguns partidos se uniram nas federações, que reúne dois ou mais partidos para atuarem como se fosse uma única agremiação partidária por, no mínimo, 4 anos e tem abrangência nacional.

    Apesar de ser novidade, apenas 3 federações foram registradas para as eleições deste ano: Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Comunista do Brasil (PC do B) e Partido Verde (PV); Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Cidadania (CIDADANIA); e Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Rede Sustentabilidade (REDE).

    E já que as regras são novinhas, votadas e aprovadas por políticos, era de se esperar que fossem – ao menos – respeitadas por eles, né? Qual o quê? O lema parece ser o de sempre: salve-se quem puder ou, no melhor politiquês: “vote em quem quiser”.

    A confusão é tão grande que fica difícil para nós, meros mortais, acompanharmos as alianças, reviravoltas e justificativas partidárias e de seus líderes para tanta permissividade. Haja retórica. Ou óleo de peroba. Escolha. 

    Adversários se tornam melhores amigos, inimigos jurados se vêm no mesmo palanque, partidos não se coligam nem estão numa federação, mas  cedem seu tempo da propaganda eleitoral gratuita em Rádio e TV para determinados candidatos, algumas legendas coligam, mas só para um determinado cargo sem chance de juntar a tal da sonhada chapa completa.

    Quem percorre o Rio Grande do Norte vê uma salada de candidatos a cada vez que uma liderança abre a boca para anunciar seus candidatos. Se fosse Cazuza, diria que queria uma ideologia para viver. Na boca pequena, o que diz-se é que a ideologia serve mesmo é pra vender.

    Não querendo entrar em rebuliços numerários, nem pesquisar orçamento secreto para verbas públicas, recorremos ao grande e saudoso Millôr Fernandes: “O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor”. 

    Animal pertencente à Família Chamaeleonidae, segundo biólogos, o camaleão apresenta normalmente uma cabeça angulosa, com olhos que se movimentam independentemente. Uma de suas principais características é a capacidade de mudar de cor, o que lhes permite camuflar-se no ambiente.

    A sua língua é coberta por muco e pode ser lançada a uma distância de quase um metro para capturar o alimento. A Biologia também diz que são animais solitários que só se unem a outros animais apenas na época reprodutiva e que deve existir entre 150 e 160 espécies diferentes de camaleões. 

    Bom, nem precisava de tanto, nas tradições dos povos pigmeus acredita-se que  foi o camaleão que retirou da árvore da vida o primeiro homem e a primeira mulher juntamente com a primeira água da terra e foram os filhos deste casal que deram origem a todas as raças existentes. 

    Tá explicado. 

    Sendo assim, só nos resta adotar a música do Chiclete com Banana como jingle desta campanha e sair cantando: “Cara caramba, cara caraô”. 

  • Parábola do rato

    Certo dia, um homem entrou numa loja de antiguidades e se deparou com uma

    belíssima estátua de um rato.

    Bestificado com a beleza da obra de arte, ele correu ao balcão e perguntou o preço ao vendedor:

    — Quanto custa?

    — A peça custa R$ 50 e a história do rato custa R$ 10.000.

    — O quê? Você ficou maluco? Vou levar só a obra de arte.

    Feliz e contente o homem saiu da loja com a estátua debaixo do braço. À medida que ia andando, percebeu que inúmeros ratos saíam das lixeiras e bocas de lobo na rua e passaram a segui-lo. Desesperado o homem foi até o cais do porto e atirou a peça com toda a sua força para o meio do oceano. Incrédulo, viu toda aquela horda de ratazanas se jogarem atrás e morrerem afogadas.

    Ainda sem forças, o homem voltou para o antiquário e o vendedor disse:

    — Veio comprar a história do rato, não é?

    — Não, eu quero saber se você tem uma estátua do presidente!

  • Todo Mundo em Pânico

    Das mentes dos criadores do seriado da TV potiguar, “Em carne viva”, surge o primeiro thriller-comédia Todo Mundo em Pânico, em que velhos políticos bastante conhecidos da política norte-rio-grandense, surgem apavorados com o impacto das federações partidárias, instituída pelo Congresso Nacional na reforma eleitoral de 2021 com o objetivo de permitir às legendas atuarem de forma unificada em todo o país.

    E o desespero não é pra menos, As eleições deste ano serão uma prova de fogo para os candidatos já conhecidos e um desafio ainda maior para os postulantes considerados nanicos.

    Em um filme caótico movido a ansiolíticos, todo candidato sabe que essa paródia o remete aos recentes filmes de terror, da série “Pânico” até “O sexto sentido”, passando ainda por outros grandes sucessos do cinema, como “Matrix” e “Os suspeitos”.

    É de tirar o fôlego!

    Título Original
    Scary Movie – Todo Mundo em Pânico

    Ano de Lançamento: 2022
    Direção: Federações partidárias

  • No leito de morte

    — Há dias sem se alimentar? — indagou o médico.

    O paciente com os olhos fundos, a respiração fraca, a pele numa cor baça.

    — Sim, doutor. Ele não aceita nada. A boca cerrada.

    O quarto em penumbra, como se a combinar com o quadro de tristeza que cercava Domênica Melgaço, a esposa fiel, sempre vigilante.

    Com pouco mais, a entrada das crianças, Telzinho e Belinha, ladeadas pela vizinha.

    — Aqui estamos, Domênica. Você nos chamou? — inquiriu a vizinha, dona Gildinha.

    — Fi…lhos? Telzi…nho?… Be…linha?

    — Ô, paizinho! Estamos aqui. Não faça muito esforço…

    A voz do garoto, embargada pela emoção, fez com que Ferreirinha tentasse se levantar da cama, mas as forças não foram suficientes para aquela intenção.

    Ele, então, pediu que Telzinho e Belinha o ladeassem, a recolher a mão de cada um e mantendo-as sobre o tronco magro. Em seguida, confidenciou-lhes:

    — Perdoem-me, nunca fui um pai… à altura… mas… filhos… a vida… sabe?

    A testa tomada pelo suor, o corpo em febre, inquieto. De repente, um desmaio. Domênica afastou depressa os dois filhos e tomou a mão do marido. Não sem antes gritar pela intervenção do doutor Artur Arcanjo:

    — Pelo amor de Deus!

    Com muita calma, doutor Artur se aproximou, enquanto sinalizava para que dona Gildinha levasse as crianças. A seguir, tomou do estetoscópio e auscultou o peito magro do convalescente.

    O choro de Domênica era mais forte do que os batimentos cardíacos do paciente.

    — Chamem o padre Araquento. O quadro é crítico.

    &&&

    Sete meses depois.

    — A senhora se consolou como?

    — É difícil de explicar, Gildinha. Tem dias mais difíceis, horas nas quais eu revisito tudo e nem sei como tive forças para suportar aquela minha decisão.

    A mesa de chá ao centro, duas xícaras sob a pequena bandeja. Testemunhas únicas daquela conversa de final de tarde.

    Gildinha baixou a vista e resolveu quebrar novamente o silêncio:

    — Foi tudo por amor, Domênica?

    Domênica olhou para as próprias mãos trêmulas e, sem nenhuma peia, deixou-se levar pela corrente de lembranças:

    — Ferreira fez todo esforço, bem sei. Queria restabelecer nossa vida normal, cuidar de mim e dos seus filhos. Viver como se nada nos tivesse acontecido, mas…

    — Se não quiser falar, amiga, saberei entender.

    — Não, será melhor para mim. Há meses isso me engasga. Invade minhas noites, assanha meus pensamentos. Será bom botar tudo para fora. Como eu lhe dizia, amiga, ele tentou levar uma rotina como a de antes. Procurou emprego, trabalhou pesado, seguiu à risca as obrigações de homem sério, respeitador, bom pai, digno esposo. Aos sábados, levava as crianças para o parque. Aos domingos, depois da missa, geralmente se confessava com o padre Araquento. No entanto, eu percebia que tudo era, como posso dizer, difícil para ele, a exigir-lhe cada vez mais esforço, a roubar todas as suas energias… e foi o que vimos. Ele prostou-se, extenuado, como se a vida não lhe…

    — Chorar sempre é uma forma de desabafar, amiga Domênica. E você, naquele dia em que o padre Araquento entrou para a extrema-unção, percebeu que…

    — Sim, ou melhor, um pouco antes eu diria. Lembra-se de que chegaram as outras três, minutos antes?

    — Lembro. Claro que me lembro da cena! Até hoje eu não sei, amiga, quem as chamou.

    Domênica Melgaço levantou os olhos para o teto, respirou fundo, a enxugar a face, antes de responder:

    — Fui eu.

    — Você? Como, amiga…

    Domênica abriu os braços e disparou em tom choroso, revoltada:

    — Sabe quando se percebe que a fidelidade de um homem pode ser a sua morte? Você não me entende, Gildinha, me entende? Quando coloquei meu esposo para fora de casa, parece que o levei a conhecer outras vidas, a mostrar-lhe novos mundos… eu que estava a me preocupar apenas com a nossa condição financeira.

    — Não estaria você, comadre, se responsabilizando por coisas que não estão, nem nunca estiveram, sob o seu domínio?

    — Pode até ser, Gildinha, porém eu tive que tentar. A morte dele me seria dura demais. Com as três mulheres no quarto, soprei a informação nos ouvidos dele, e percebi um rubor na sua face, antes tão lívida. Quando o padre Araquento chegou com os paramentos, Gildinha, concluí que a extrema-unção não mais seria necessária. Era só dar tempo ao tempo, e, no meu caso… sair de vez da vida de José Ferreira das Mercês.

    &&&

    As duas caminharam até o portão da casa. O passaredo já a ocupar os benjamins de Licânia, anunciando mais um crepúsculo na província.

    — Muito obrigada por me ouvir, Gildinha.

    As amigas se abraçaram fortemente, enquanto o relógio da Matriz anunciava a hora do ângelus.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • Eu, Narcyvenson

    Por ANA CADENGUE

    O poeta romano Ovídio (43 a.C.-18 d.C.) conta em sua obra Metamorfoses que existiu um jovem tão formoso, mais tão formoso, que despertava o interesse de meninos e meninas que eram prontamente ignorados, já que desprezados pelo belo varão.

    O mito de Narciso ou “auto admirador”, como traduzem alguns do grego antigo Νάρκισσος, não aconteceu na velha província do Rio Grande, mas inspira muitos pretensos portentos que após 15 minutos de fama se consideram ungidos, verdadeiros salvadores da pátria.

    Alçado à celebridade pela suposta rigidez – também considerada grosseria e desrespeito – com que conduzia a Operação Lei Seca no RN, o capitão da Polícia Militar eleito Senador da República teve um upgrade de vida e aproveita sua posição para desdenhar da classe política a qual pertence, mas nega.

    Cotado como opção para disputar o governo do Rio Grande do Norte contra a governadora Fátima Bezerra (PT), o senador Styvenson Valentim (Podemos) ainda não se decidiu pela empreitada e vive declarando que não aceita pressões internas de seu partido, que tenta uma definição antes dos 45 minutos do 2º tempo para colocar o bloco na rua (me perdoe, Sérgio Sampaio). 

    “É mais fácil eu sair do partido. Não devo nada a ninguém, não devo nada a partido nenhum”, reclamou o político que repudia a política.

    Considerado explosivo, agressivo e desmerecedor de confiança no meio político, o senador consolidou a imagem de arrogante e grosso até no trato pessoal, confundindo dureza nas palavras com palavrões e fazendo repetidas declarações que dificultam ou inviabilizam alianças.

    Em recente entrevista, Eann Styvenson disse que acha complicado subir em palanque alheio, “por ser difícil estar no meio aonde há falsidade, a rasteira” e “não que seja o melhor de todos os políticos, (mas) pelo menos não sacaneio ninguém, não furo ninguém”.

    Aparecendo em segundo lugar nas últimas pesquisas pré-eleitorais divulgadas recentemente, o senador Valentim diz que aguarda a definição dos potiguares para decidir se será mesmo candidato ao governo do Rio Grande do Norte. Declara que “não tem o ímpeto, nem os métodos arcaicos de fazer política que repudio” e que prefere “aguardar a vontade dos eleitores”.

    Diante de tais alegações, a Papangu na Rede pergunta: não seria exatamente isso – a vontade dos eleitores – que caracteriza uma eleição? Bom, já que é um atuante adepto de ‘lives’ em redes sociais, talvez o nobre parlamentar esteja considerando que a quantidade de “joinhas” corresponda a de votos ou mesmo a uma aclamação popular.

    Enquanto não delibera sobre suas pretensões políticas, o senador anunciou no início de junho que aguarda a conclusão de um relatório sobre a situação financeira do Estado para decidir se será candidato nas eleições deste ano e qual plano de governo pode ser apresentado.

    A indefinição de Styvenson suscita as mais variadas interpretações, sendo a de que tem medo de um eventual fracasso administrativo como a mais comum. Alguns consideram esse suposto relatório como a desculpa esfarrapada perfeita para o Valentim fugir da raia e que lhe falta coragem para topar a parada.

    Já outros acham incrível que embora senador há quase quatro anos, o capitão não saiba ainda qual a realidade financeira do Rio Grande do Norte. Muitos querem mesmo é saber o que ele tem feito como representante do estado no Senado, além de refugar em assinaturas de CPI para investigar suspeitas de corrupção nesse governo federal.

    O Mito de Narciso, ainda segundo Ovídio, narra que ao ver que a apaixonada ninfa Eco correndo em sua direção, o belo mancebo tenha gritado: “Afasta-te! Prefiro morrer do que te deixar me possuir!”. Vai que é isso…

    Bom, segundo a história, Narciso era tão belo e tão vaidoso que, após desprezar inúmeras pretendentes, acabou se apaixonando pelo próprio reflexo. Morreu de fome e sede à beira da fonte de água onde via sua imagem refletida, mostrando que a arrogância, o excesso de vaidade e a falta de empatia não fazem bem a ninguém.

    E, já que Narciso acha feio o que não é espelho (mil perdões aí, Caetano), esperamos sinceramente que se decidir realmente ser candidato ao governo do estado, o capitão não escolha como jingle a música “Eu me amo” do ultrajante Roger e que, se assim for, eles possam ter o mesmo destino.

  • Matadores

    “Agiram com crueldade, para matar”, diz esposa de Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, morto após abordagem da Polícia Rodoviária Federal, no estado de Sergipe.

    Um sobrinho da vítima, Wallyson de Jesus, disse que o tio foi abordado pelos agentes quando pilotava uma motocicleta: “Eu estava próximo e vi tudo. Informei aos agentes que o meu tio tinha transtorno mental. Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse.”

    Em Nota, a Polícia Rodoviária Federal disse que empregou, sem especificar quais, “técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo” para conter o homem, que foi levado no porta-malas de uma viatura após ter sido abordado na BR-101, em Umbaúba (SE). Genivaldo não resistiu à sessão de tortura na câmara de gás da PRF. Veja vídeo AQUI (https://www.youtube.com/watch?v=_MSf2-Yr2Qs).

    O vídeo, viralizado no Brasil e divulgado nos quatro cantos do Mundo, mostra claramente que Genivaldo estava em uma moto quando foi abordado por três policiais. No momento da abordagem (assista ao vídeo) mostra ele sendo revistado, com as mãos para cima, e, em seguida, sendo imobilizado no chão. Genivaldo acabou sendo colocado na viatura, de onde podia ser vista fumaça saindo de dentro. As pernas dele ficaram para fora do porta-malas. Os gritos de desespero da vítima não conseguiram conter a ira dos agentes da PRF.

    A família diz que ele chegou sem vida ao hospital, que afirma ter tentado manobras para reanimá-lo. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) de Sergipe apontou que a causa da morte foi asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. O resultado da análise foi confirmado pela Secretaria de Segurança Pública na manhã de quinta-feira (26).

    Uma instituição antes respeitada, hoje é detestada — e com toda razão — em todo o Brasil.

  • Esticando a Corda

    “Cu de burro, cu de burro na área…”. A expressão alçada à fama pelo saudoso narrador esportivo Zé Ary bem que podia ilustrar os relatos dessa pré-campanha para o Senado este ano no Rio Grande do Norte. Com apenas uma vaga em disputa, sete partidos já se prontificaram a ter candidatos para o chamado “céu” pelo então senador Agenor Maria.

    A eleição que, ao contrário do governo do estado, deve ser definida no 1º turno, com maioria simples, este ano ganhou uma nova sopa de letrinhas, já que alguns partidos mudaram de nome e alguns nomes mudaram de partidos. Mas, como parece que isso não importa mesmo, deixa pra lá.

    O partido Brasil 35 (ex-Partido da Mulher Brasileira) tem como pré-candidato ao Senado Federal o ex-deputado federal e advogado Ney Lopes de Souza. A Democracia Cristã pretende oficializar a candidatura da veterinária Shirlei Medeiros. O PSTU deve lançar a pré-candidatura do professor Dario Barbosa. Já o PSOL, que tinha três pré-candidatos, se definiu pelo nome de Freitas Júnior.

    O ex-ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho é o pré-candidato do PL. Carlos Eduardo vai tentar o caminho do céu pelo PDT e o atual deputado federal Rafael Motta, do PSB, quer que a vaga ocupada atualmente por Jean Paul Prates (PT) seja dele.

    Já o senador Jean sonha que seu partido resolva deixar de lado os forasteiros e se concentre em seu nome para a reeleição. Enquanto isso, se coloca à disposição para suplente do ungido pelo PT, aspira a uma futura secretaria estadual, quiçá um ministério e se nega a concorrer à Câmara Federal ou Assembleia Legislativa.

    Trabalhado exaustiva e escancaradamente há alguns anos sob patrocínio do governo federal, o bolsonarista Rogério Marinho vem reunindo prefeitos em torno de seu nome e urdiu também a pré-candidatura oposicionista de Fábio Dantas (solidariedade) ao Governo do RN.

    Apesar de ter reunido várias siglas em torno de sua pré-candidatura, Marinho deixa claro a quem queira saber “O palanque do presidente, no RN, sou eu, minha candidatura majoritária ao Senado e quem vai defender o legado do presidente Jair Bolsonaro sou eu, quem vai defender as realizações dele no RN, no Nordeste e no Brasil, sou eu”.  Alguma dúvida?

    O ex-prefeito de Natal e ex-candidato ao governo do estado, Carlos Eduardo (PDT) pode ter perdido as eleições em 2018, mas não perdeu a majestade… Ops, digo a oportunidade de se aliar à governadora Fátima Bezerra (PT) e ser seu candidato ao Senado como parece estar sacramentado até o momento.

    Numa bela jogada, a governadora Fátima vem atraindo seus principais adversários para a candidatura majoritária e esvaziando a oposição. Se vai conseguir seu intento, só outubro dirá.

    Quem também é aliado de Fátima e do governo petista, mas tem ‘atrapalhado’ um pouco o xadrez e “fincado pé” para ser o candidato governista ao Senado é o atual deputado Federal Rafael Motta, do mais novo amigo de infância PSB.

    Jovem, articulado, bonito e carismático, Rafael atrai uma boa parcela dos petistas que não perdoa Carlos Eduardo ter apoiado Bolsonaro em 2018. Resta saber se as correntes petistas vão conseguir esquecer ou desculpar o voto do menino Motta pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

    Como, pelo visto, o que não falta são telhados de vidros e estilingues — as velhas baladeiras — a postos e a campanha ainda está só nos ensaios, apesar do jornalismo militante, do jornalismo desejoso e dos blogs a soldo, muita água ainda há de correr sob as muitas pontes deste Rio Grande do Norte.

    Pelo que mostra a pesquisa Item divulgada no último dia 23, as intenções de votos para Marinho, Carlos e Motta estão tecnicamente empatadas, entre 14,7% e 13,4%.

    No quesito rejeição, Rogério Marinho lidera com 16,8%, seguido de Carlos Eduardo com 14% e Rafael Mota com 7,5%.

    Mas, o que impressiona é o número de pessoas que declarou estar indeciso ou votar branco ou nulo: 55,2%.

    Enquanto os eleitores desse cansado elefante não se decidem a assumir a responsabilidade pelas mudanças que quer ver realizadas no estado e votar para isso, a gente fica por aqui, ouvindo aquela velha canção da Xuxa que pergunta “Quem vai ganhar? Eu quero ver!” e, como as nossas referências musicais não estão as melhores neste mês,  encerramos com um pouco de Elias Becky e sua filosofia de cantiga de roda:  “Tem que ser forte pra não escorregar (…) Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá. Só vai vencer quem em pé ficar”.