Últimas histórias

  • Querido Papai Noel, 

    Nem sei se preciso dizer que fui uma boa menina neste ano inominável de tão desafiador. Que os tempos não andam fáceis já sabemos, mas acho que não é necessário exagerar, né? Escrevo isso e penso que fora a perda de pessoas amadas, estamos aqui a despeito de tudo e mais juntos dos nossos e até disponíveis pros nem tão nossos assim. Estamos com saúde física – a mental está sendo batalhada a cada dia -, ainda temos prazer na companhia das pessoas, alegria para desfrutar de pequenos momentos , a grana não anda tão abundante, mas também não falta. Vem suada, como tudo o mais nesse mundo acalorado. Não sei avaliar se 2023 me trouxe mais maturidade ou se apenas aceitei o que não consigo mudar… Olha a maturidade aí, gente! Tenho respirado fundo mais vezes, confesso, naqueles átimos em que me sinto pronta a explodir. Algumas brigas definitivamente não valem a pena nem o mau humor e a tristeza que sempre acompanham o travo amargo das derrotas que a vida nos impõe. Não posso nem devo me cobrar mais do que consigo dar e se essa regra vale pra mim também tem que valer pros que me rodeiam. Sabe, Papai Noel, deve ser verdade aquele ditado que a gente tem que se perder para se achar… Assim como aquele que diz que o que acalma não é água com açúcar, mas água com sal, seja a do mar, do suor ou das lágrimas. Como canta Belchior, tenho chorado demais e se Deus é Brasileiro e anda do meu lado, posso me considerar uma garota de sorte, nem tão sã, nem sei de quê salva e um tanto o quanto forte e espero ganhar um merecido e belíssimo Ano Novo, cor do arco-íris, cheio daquelas coisas que sempre desejamos da boca pra fora ou do coração pra dentro: saúde, prosperidade, amor, harmonia. O mais importante eu já tenho, aquela meninazinha de olhos verdes chamada ES-PE-RAN-ÇA.

    Um abraço,

    Ana Paula  

  • Os Caminhos da Cidade: Festival Histórico leva conhecimento e reflexão às ruas do Centro

    por Ana Paula Cadengue

    A Cidade Alta em dezembro era certeza de ruas iluminadas e famílias inteiras cheias de pacotes tentando andar de mãos dadas para ninguém se perder. As lojas ofereciam mercadorias para todos os gostos e bolsos. Quando o dia não era de compras, o lazer estava assegurado pelos cinemas e delícias com endereço certo, como um bom suco de frutas nativas, um pastel quentinho ou um sorvete saboroso. Nas calçadas, uma democrática mistura de estudantes, donas de casa, trabalhadores e visitantes.

    Era assim. E já faz um tempo. O que se observa hoje na mesma Cidade Alta é um vazio que dói não só em quem conheceu os ditos tempos áureos, em quem vivenciou o Centro em algum momento de sua história – dos Cafés Grande Ponto e Magestic ao Café São Luiz, à Casa da Maçã, dos movimentos populares no calçadão da João Pessoa às apresentações teatrais do Alegria, Alegria, da escada rolante da Lobras aos cinemas Nordeste ou Rio Grande –, mas também em quem está só de passagem para dar uma olhada. É triste ver lugares outrora tão disputados sendo lacrados com tijolo e cimento.

    Enquanto se revitalizam ou requalificam alguns prédios e espaços, outros se fecham e alguns órgãos e instituições públicas mudam de endereço, comprometendo ainda mais a vitalidade da Cidade Alta. Em contraponto, eventos culturais pululam e movimentam o bairro. O Festival Histórico de Natal, que ao longo do tempo se tornou cada vez mais grandioso e passou a fazer parte do calendário de festividades tradicionais da capital potiguar, é uma dessas iniciativas. “Precisamos resgatar o amor pela cidade, Natal tem um acervo cultural maravilhoso, diz Jarbas Filho, idealizador do evento.

    Praça Sete de Setembro – Foto: Túlio Ratto

    Saindo do Marco Zero de Natal, a Praça André de Albuquerque, a Caminhada Histórica realizada no último dia 2 de dezembro levou mais de 2 mil pessoas às ruas com o objetivo de retomar o interesse e aproximar a população e os turistas do centro histórico da cidade. Para Alexandre Rocha, historiador que guia o passeio, o evento é uma oportunidade de se conhecer mais sobre o local em que vivemos, uma aula. “Houve um tempo em que esse era o Grande Centro. A cidade se desenvolveu a partir desse redor. Ruas, praças e avenidas que contam a História de Natal”.

    Foi bonito ver famílias inteiras aproveitando a tarde do sábado para saber um pouco mais sobre Natal e seus monumentos. As irmãs Josy e Irla Ribeiro participaram pela primeira vez da Caminhada Histórica a convite da mãe e estavam animadas com o passeio. “Venho geralmente pro Beco da Lama, pro Zé Reeira, já fui também para um evento na Casa Vermelha, na Pinacoteca… Eu acho o Centro lindo e é incrível o resgate da cidade. Infelizmente alguns pontos estão mortos por falta de investimentos do setor público, mas acho o Centro incrível e gostaria muito de vê-lo vivo”, conta Irla.

    Sede da Prefeitura é um dos monumentos do Centro Histórico – Foto: Ana Cadengue

    Aos 50 anos, o fotógrafo José Aldenir, o ‘Joinha’, lembra que sempre frequentou o lugar. “Aqui é bacana, gosto de almoçar no Beco da Lama. Infelizmente o comércio teve uma caída, principalmente após pandemia. Eu reparo também que os comerciantes reclamam que os preços dos aluguéis são muito altos e termina o pessoal migrando para outros locais. Antigamente, o final de ano todo mundo vinha comprar roupa pras festas aqui, no São João também. Hoje, o comércio mais popular deixou o centro e foi para o Alecrim”.

    José Aldenir é fotógrafo –
    Foto: T. Ratto

    A percepção de ‘Joinha’ é corroborada pelo colega de profissão, Fernando Pereira. Morador do Barro Vermelho, o fotógrafo fluminense radicado em Natal há 50 anos lamenta a falta de continuidade dos investimentos públicos no Centro da Cidade. “Moro perto, gosto de andar por aqui. Natal é uma cidade linda, infelizmente as praças não são bem cuidadas, entra ano sai ano, as praças continuam mal cuidadas, prédios mal conservados… também frequento o comércio do Centro que está em crise, todo mundo vê, muita coisa fechando”.

    Fernando acredita que deveria haver um incentivo para alavancar o turismo na região. “Natal não é só praia. Precisa reformar… Quem vem pra cá não conhece a cidade, não tem um ‘city tour’, não tem nada pra conhecer o Centro”, reclama. 

    A Cidade Alta e o bairro da Ribeira formam o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico da cidade de Natal, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, em 2010. O centro histórico possui um conjunto preservado com elementos urbanos do núcleo colonial e outros que evidenciam a trajetória de modernização da cidade. Os prédios mais conhecidos são a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação (Catedral antiga),  o Palácio do Governo, atual Pinacoteca, o Sobradinho (hoje Museu Café Filho), o Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura do Natal, Solar Bela Vista  e o Theatro Alberto Maranhão.

    A rua da Conceição é uma das mais belas do Centro Histórico – Foto: Ana Cadengue

    Para o historiador Thiago Henrique, o Centro não precisa só de comércio, eventos e turismo e sim de ocupação popular. “Aqui não é um bairro em que se vive, é um bairro que se consome comercialmente, mas ele é consumido até determinado ponto, no horário comercial. Na minha percepção, para que o centro comece a ser vivido 24 horas, precisa que exista um projeto de moradia popular para que as pessoas vivam realmente aqui e não só sobrevivam do comércio formal e de ambulantes”, defende.

    Com uma vivência desde a infância no bairro em que seus pais trabalhavam, Thiago costuma frequentar o Centro da Cidade profissionalmente e para lazer, além de desenvolver pesquisas na área para a universidade federal. “A cidade muda com o tempo, se renova e eu gosto de acompanhar essa dinâmica. Mas, sinto falta de pessoas vivendo aqui para além de momentos de transporte ou trabalho. Eu sinto falta disso 24 horas. Não existe segurança, não existe possibilidade de ter um tipo de turismo acessível no centro histórico… O caminho da Cidade Alta é a ocupação popular, principalmente dos prédios que estão à mercê da especulação imobiliária”, afirma o jovem historiador.

    A despeito do esvaziamento e fechamento de lojas, a comerciante Lindomar Medeiros costuma rebater quem fala que “o Centro está morto”. Dona de uma ótica no edifício Barão do Rio Branco, Lindomar lembra que dali vivem muitas famílias que se levantam cedo e trabalham duro todas as semanas. “Podem vir, não morreu, não. Aqui no Centro você consegue comprar de tudo. E os preços são os melhores”, convida ela.

    Acreditando nisso, o Sistema Fecomércio RN lançou o “Brilha Natal”, que será realizado entre os dias 13 e 23 de dezembro e promete movimentar o comércio de rua do Alecrim e da Cidade Alta com uma extensa programação cultural. “O Centro da Cidade está passando por um esvaziamento, as pessoas se afastaram. O ‘Brilha Natal’ é mais uma contribuição na tentativa de reverter essa situação, de chamar as famílias para passear e fortalecer o comércio de rua”, afirmou o presidente da Fecomércio RN, Marcelo Queiroz, durante o lançamento do projeto, no último dia 24.

    Iniciativas como essa, junto com os diversos eventos culturais no Centro Histórico, talvez consigam trazer de volta a efervescência do bairro e seus inúmeros clientes e visitantes. A beleza dos longevos prédios e templos religiosos é um charmoso diferencial que costuma encantar gente de todas as idades e emociona quem já caminhou muito por essas ruas, como o senhor Jaime Rodrigues Magalhães, de 90 anos, que estudou na antiga Faculdade de Farmácia e fez questão de participar pela primeira vez da Caminhada Histórica de Natal. “Gosto dos prédios históricos, da antiga governadoria, do prédio da Prefeitura, a praça André de Albuquerque …”.

    – Do que o senhor tem saudade?

    – “Do Centro da Cidade”.  

  • Vaca Profana

    “De perto, ninguém é normal”. Pelo que tenho visto e conversado com amigos, Caetano nunca foi tão certeiro. Quase todo mundo que conheço toma algum ‘remedinho’. Seja para conseguir dormir, tratar depressão, controlar a ansiedade. E, não, não é só gente da minha meia inteira idade. É todo mundo mesmo. Crianças agitadas se tornam hiperativas e são medicadas. Adolescentes buscam seu lugar no mundo e viram melancólicos depressivos. Adultos não conseguem dormir por tantos motivos e têm que ser dopados. Ansiedade campeia, crises de pânico, tristeza.  Ah, deixa de ser exagerada! Exagerada? Eu? Tá, posso até forçar um pouco a barra ao generalizar, mas não tô exagerando naum. Basta um pouquinho de atenção ao redor ou escutar colegas de trabalho, parentes e amigos que você constata que a sociedade caetaneou. Mas, caetaneou errado, né? Quando Gal rasgou o vozeirão em Vaca Profana naquele longínquo 1984, eu era apenas uma adolescente alta com bustão. A identificação foi quase imediata. Se não divinas, minhas tetas não eram passíveis de ser ignoradas. Além disso, sempre respeitei mais minhas risadas e aquela coisa toda de colocar os cornos “pra fora e acima da manada”, derramar “o leite mau na cara dos caretas” e a “movida Madrileña”… Tudo aquilo me pegou de um jeito traduzir-se. Sempre tive horror em ser igual e ter só uma tribo. Fazer parte de vários grupos e rodas e turmas me permitiu ser várias e aprender com todos e me divertir e viver intensamente. Apesar de me considerar tímida em determinados aspectos e situações, noutras só puro acontecimento. Ou era. É, porque o meu não ser normal está sendo o normal desse mundo que caetaneou errado, que tem crises de ansiedade e precisa também de ‘remedinhos’ para dormir ou não enlouquecer. Respira. Respirar fundo e profundamente, expirar lentamente e tentar não se perder de mim. Respeito muito minhas lágrimas, mas continuo além disso e me buscar é exercício diário. “A vida não é só trabalhar”, já dizia Pepe Mujica, “há que se deixar um bom capítulo para a loucura que tenha cada um. Porque uma coisa que fazes por obrigação não é liberdade. Só és livre quando gastas o tempo de sua vida em coisas que te motivam, que gostes”.

  • Sem medo de ser feliz

    Adjetivo de dois gêneros, feliz significa “favorecido pela sorte” e aquele “cujos desejos, aspirações, exigências etc. foram atendidos ou realizados”. Seria legal que ser feliz fosse assim, fácil como ler no dicionário. Mas, não é. É preciso muito amor próprio e consciência das limitações.  É preciso coragem para aceitar o que a vida nos traz e o que fazemos com isso. Coragem para ver nossos anseios realizados. Saber que nossas escolhas impactam diretamente no dia-a-dia e em qualquer aspecto de nossas vidas. Ser feliz é compromisso com você mesmo e com o que nos rodeia. Todo mundo quer ter as necessidades atendidas, da mais básica – como comer e dormir – às da alma. Todo mundo quer ser feliz. Feliz nos relacionamentos. Feliz na vida familiar. Feliz no trabalho que temos. Feliz na profissão que escolhemos. Feliz com os amigos. Feliz na vida que conseguimos ter e com as opções que fazemos. Não se trata aqui, é claro, de viver rindo ou ser um bobo da corte, mas sim daquela sensação de que alcançamos o possível e nos contentamos com isso. Ninguém falou também em abandonar ou não ter sonhos, mas em estarmos dispostos a lutar por eles e sabermos que nem sempre é fácil. Dizem que a felicidade é construção, é jardinagem, é regar todos os dias e ver como floresce ou frutifica. É estado de espírito. É exercício diário. É correr riscos e batalhar pelas mudanças que queremos. É preciso coragem e todos os dias dar a cara à tapa e ao riso, sem medo nenhum de ser o que se é, de esperançar por dias melhores, sem medo de ser feliz.

  • Sábado à noite

    Ouço as conversas ao redor, meus olhos disparam por todo o ambiente, os pensamentos vagam enquanto rio das piadas e balanço o corpo no ritmo da música. As percepções se sucedem. A bela mulher que passa derramando olhares. O homem branco levemente constrangido com a informalidade local. A negra linda exibindo orgulhosa suas raízes afro. O músico que se anima tanto com a performance que espanta o cansaço e vibra energia. A atendente do balcão com o sorriso forçado congelado nos lábios a repetir insinceras delicadezas. O turista que fala alto na mesa ao lado para se fazer notar. O casal barbudo que aparenta estar em lua de mel. A não tão jovem senhorita que tenta sem jeito se sentir à vontade. Respondo animada ao cumprimento de uma amiga querida que o dia-a-dia afastou do convívio, escuto as novidades de filhos e netos, repetimos perguntas já feitas algum dia enquanto dançamos e fazemos selfies. Outras amigas se juntam, o alarido de vozes não esconde a alegria do momento nem da banda que interpreta boa parte da trilha sonora de nossa existência. Peço um espetinho à garçonete sempre tão gentil e que parece não esquecer as poucas vezes em que estivemos ali. Meus companheiros à mesa conversam e dançam e gravam vídeos como a imortalizar um momento prazeroso. A chuva forte não estraga a alegria da noite entre bares, caminhadas, bebidas estranhas e sonoras gargalhadas. A vida é boa. Celebremos.

  • Todas as Mulheres

    Todas as Mulheres

    Todas as mulheres do mundo pode até ser nome de filme e série, mas é algo muito sério quando a gente pensa que todas nós sofremos apenas por ser mulher.

    Todas as mulheres em mim estão cansadas, diz a poeta afro-americana Nayirrah Waheed. Estamos mesmo. Cansadas de violência, de abuso, do desrespeito, de cagarem regras por nós e para nós, de julgamentos, de opressão, de sentir medo, de assédio, de trabalho doméstico, de acharem que não somos capazes, da imensa carga mental que é ser mulher.

    Todas as mulheres do mundo vivem em mim e há dias em que é difícil demais levantar. Há outros em que é quase impossível dormir.

    Todos os dias.

    Todas as mulheres.

    Tudo em mim.

  • Até quando esperar?

    Covid. Dengue. Zika. Chikugunya. Fome. Malária. Hepatite. Desrespeito. Desemprego. Falta de empatia. Abusos. Asfixia. Corrupção. Aumentos. Inflação. Sucateamento. Descaso. Desamor. Ameaças. Ataques. Tiros. Ciladas. Chacinas. Destruição. Perda de direitos. Invasão. Milícias. Estupros. Violência. Caos. Necropolítica. Aporofobia. Racismo. Homofobia. Misoginia. Feminicídios. Intolerância. Mentiras. Miséria. Abandono. Câmaras de gás. Genocídio. Fake News. Desencanto. Desesperança.

    Se ainda não mataram o Brasil, lamento informar que falta pouco.

    E, confesso, estou se não como o Brasil, doente de Brasil.

    Todos os dias ataques a instituições e mais e maiores rasgos numa constituição espancada, sangrada e espezinhada.

    Todos os dias um Jesus morto. Seja um Genivaldo, os que padre Júlio tenta alimentar ou os tantos que encontramos nas ruas e calçadas.

    Todos os dias um tapa na cara e uma porrada no estômago.

    Cada vez mais difícil respirar.

    A dor é tão intensa que ninguém reage. Ou será que é isso que todos querem mesmo? Zumbis?

    Estamos vivendo, fingindo ou apenas esperando algo que nem sei mais se vem.

    Era sabido e anunciado que esse desgoverno ia ser difícil, mas não se imaginava que muitos que pensávamos bons, instituições que achávamos que funcionavam, categorias que… Silêncio, omissão e conivência.

    Todos os dias um tapa na cara e uma porrada no estômago.

    Até quando esperar?

    Como tentar se manter são nesse descalabro?

    Como deixar de ser uma plebe rude e néscia?

    Ainda existe um gigante para acordar? Ou ele também já está morto e não ficamos sabendo?

  • Invernada

    De Natal a Baraúna, passando por Mossoró, São Rafael, Assú e mais um bocado de cidades no meio do caminho, muita chuva e uma vegetação verdejante. Os garrotes tudo gordinho, como diria meu sogro, agricultor calejado e aposentado há um bom par de anos. Nuvens de todos os tamanhos, calibres e cores. Formas também, já que eu passo boa parte da viagem olhando pro céu. O sol se insinua em alguns momentos e se deixa adivinhar pela mudança na paleta celeste. Carneirinhos se transformam em coelhos que viram porcos, jacarés e unicórnios antes que mudem para verdadeiros temporais. O som dos trovões se sobrepõe ao rock que sai do celular. Eparrê! Saúdo mentalmente pedindo proteção à Iansã enquanto cruzamos o estado e os desafios. Nas paradas para refeições e uso do banheiro, alguns alongamentos tentam minimizar as dores que com certeza virão. Reuniões de trabalho se sucedem aos encontros com amigos. Ou seria o contrário? Bom conhecer pessoas novas, melhor ainda é rever quem gostamos, tomar cerveja, rir desbragadamente, cantar a plenos pulmões, se entregar a abraços. As conversas se atropelam e os assuntos ficam inconclusos como se a aguardar o próximo encontro. Poucas horas de sono, mais estrada e a vontade de chegar num novo lugar. Gosto de correr campo, falar com gente, conhecer histórias. Um sentimento de esperança é percebido junto com a certeza de um bom inverno pro sertanejo. Tempo bom de plantar pra colher na primavera. Pelas minhas andanças, o que mais se planta é o desejo de um amanhã melhor. E eu sinceramente espero que a água das chuvas lave as ruas, almas e mágoas e desemboque num futuro que já vivi. E ainda me lembro.

  • Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô…

    A voz de Jorge Ben – sou dessa época – ressoa na minha cabeça me lembrando que em fevereiro tem carnaval. Se for sincera, diria que ecoa em todo meu corpo. É, exatamente o que você imaginou, a minha carne é de carnaval.

    E, se os tempos não deixam que, assim como Moraes Moreira, “eu viro toca, eu viro moita”, me conformo em virar a foliã do bloco do “ensaia, mas não sai” ou do “eu sozinha” mesmo. As sombrinhas de frevo se juntam às máscaras de papelão colorido e aos colares havaianos enfeitando as paredes do terraço e trazendo um alento à minha alma foliã.

    “Sonhei que estava em Pernambuco/Fiquei maluco/Quando o frevo passou/Mas, quando estava no melhor da festa/Ora, esta alguém me despertou…”. Sei que é clichê, mas nada define melhor minhas últimas aventuras no reino de Morfeu do que o frevo de Antônio Nóbrega.

    Penso em Carnaval e as velhas marchinhas, sambas, frevos e maracatus invadem minha mente. A memória se atropela, subo e desço ladeiras, canto com blocos líricos, me impressiono e divirto com a criatividade das fantasias e adereços, pulso com a energia que vem do chão num mar de gente.

    Não vai ser neste ano que vou cantar “Voltei Recife”, mas a saudade que me pega pelo braço e pernas vai tentar se resignar com mais um ano de espera e de pequenas reuniões ao som das melodias que acalantam minha alma foliã. Porque Carnaval que se preze e se escreve com o C maiúsculo é festa popular e alegria de um povo.

    E já que hoje não tem clarins de Momo aclamando com todo ardor, fica a reverência dos que sabem bem ao que brindam quando gritam Evoé!  “E viva o Zé Pereira/Pois a ninguém faz mal/E viva a bebedeira/Nos dias de Carnaval”.

    Viva o Zé Pereira. E viva o Carnaval!

  • Nem Alice, nem maravilha

    Que princesas que nada, o personagem da literatura infantil com o qual sempre me identifiquei é o coelho, da Alice. Principalmente depois que cresci. “Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”. A frase que desencadeia toda a maratona no país das maravilhas, me persegue há anos. Bom, pelo menos desde que assumi essa tal de vida adulta.

    Trabalho, casa, menino, marido, cachorro, jardim, papagaio… Falando assim pode até parecer exagero, mas se coloque no lugar de uma mãe/dona de casa/trabalhadora que você vai ver que eu não estou brincando. Fico até de boca aberta quando a mulher no caso tem mais de um filho.

    Gente, é quase insano dar conta de tanta coisa e ser boa nisso. Caprichar no almocinho, comprar as roupas da família – tá bom: lavá-las, passa-las e remendá-las também -, acompanhar as lições da escola, limpar e arrumar a casa, cuidar do jardim, ser uma profissional eficiente, uma companheira dedicada e mãe presente. Ah, e ainda tem que manter a boa estampa.

    Ok. Algumas têm ajuda de diaristas, mães, filhos e até companheiros. Outras de nós nem ligam tanto assim para tudo isso. Ainda há as que jamais saberão quem foi Amélia. Existem também as que se colocam naturalmente no papel. Confesso meu esforço e que não sou me saio lá essas maravilhas.

    “Estou atrasado! Estou atrasado!”. A voz do coelho ecoa no momento em que abro os olhos. E assim que consigo calar a vontade de virar pro lado e não fazer nada, começo a planejar o dia. Pelo menos rascunhá-lo. Nunca fui muito boa com planos mesmo. Me sinto meio Cebolinha…

    Mas, aí já é outra história.