Últimas histórias

  • Os dias

    Perdi tanta gente querida. Vi tantos sofrendo pela perda dos seus. Lamento constatar que jamais saberemos quantos milhares (milhões?) se foram por descaso, experimentos, negacionismo. Essa pandemia mais que apresentar um vírus novo, descortinou pensamentos e ações que eu julgara já esquecidos. Sempre fui idealista e acreditei na humanidade que deveríamos todos ter. Sou daquelas pessoas que se emocionam fácil e estão sempre querendo ajudar o próximo e os não tão próximos assim. De besta, gritariam alguns. Pode ser, mas não sei ser diferente. Até ensaio vez em quando me dessensibilizar um pouco… sem conseguir. Tento evitar pessoas e situações, não assistir a telejornais nem acessar portais e redes sociais, mas é impossível querer se isolar do que lhe cerca mesmo tendo consciência de que o entorno lhe adoece. Ficar sem notícias quando é exatamente o jornalismo sério, a difusão de fatos e números que, por mais que doam, precisam ser mostrados? E lá vou eu de novo para as redes sociais, sites e portais me engajar no que acredito, dar visibilidade ao que precisa ser mostrado. Tá, tudo bem se permitir uns respiros. Embriagar-se de vida e vinho e cerveja e sol e amigos e risadas aos sábados, esquecer o celular desligado aos domingos, deixar-se levar pela lua ou a música ou um livro ou filme em qualquer dia da semana, olhar as flores, os pássaros, os bebês e crianças que atravessam o caminho. Respirar lenta e profundamente, fechar os olhos, pensar na sua riqueza apesar das dificuldades, sua família, o filho que finalmente foi vacinado, os carinhos e pequenos prazeres como uma tapioca com nata e um café amargo ou um copo de água gelada, um mergulho no mar de verdade e no de emoções que a vida desperta.

  • Reforma do Museu Histórico Lauro da Escóssia avança e obras devem ser concluídas em outubro

    Por Ana Cadengue

    Os serviços de reforma do Museu Lauro da Escóssia estão em andamento, mas antes mesmo da conclusão das obras – prevista para o mês de outubro – os avanços já são visíveis. O prédio ganhou uma escada de emergência construída para criar uma rota de fuga em caso de incêndio. Foram instalados detectores de fumaça em todo o prédio e nove extintores de incêndio serão colocados no museu, além da sinalização de emergência.

    Uma das principais melhorias implantadas foi a construção da torre que receberá o elevador. Agora os operários atuam na instalação da estrutura metálica para em breve receber o equipamento. O elevador será essencial para promover o acesso ao pavimento do primeiro andar onde funcionará a Pinacoteca, garantindo acessibilidade das pessoas com deficiência ou que estejam com mobilidade reduzida.

    O Museu Lauro da Escóssia passa a contar também com para-raios a partir da instalação do Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA). O prédio histórico ainda recebe um sistema de combate a incêndio com instalação de três hidrantes, sendo dois na área interna e um na parte externa.

    “É um avanço muito significativo que atende a qualquer emergência com acessibilidade de fuga. Teremos acessibilidade ao pavimento superior por meio do elevador, que antes não existia, ou seja, ficou com acessibilidade para cadeirantes ou uma pessoa com dificuldade de locomoção também terá acesso a todas as salas do museu”, destacou Carlos Antônio, engenheiro responsável pelas obras.

    O prédio ganhou pintura nova que resgata as cores originais do Museu Lauro da Escóssia e de outros museus do país. A previsão é que as obras sejam concluídas em outubro deste ano. Em setembro do ano passado, as obras tinham sido paralisadas pela antiga gestão, mas foram retomadas em abril deste ano pela nova gestão da Prefeitura de Mossoró. Além da restauração do prédio, os reservatórios de água também foram ampliados. A parte externa, na Praça Pr. Manoel Nunes Paz, também foi recuperada com serviços de restauração.

    Enquanto as obras são realizadas, o Museu Histórico Lauro da Escóssia segue fechado para visitação ao público. Porém, a Secretaria Municipal de Cultura planeja a criação de um projeto de incentivo à visitação pela população e turistas.Uma das iniciativas que serão adotadas é a ampliação do período de funcionamento, que também terá visitação nos finais de semana.

    Os funcionários do Museu Lauro da Escóssia também estão participando do curso Gestão de Museus Municipais e Comunitários, que é uma parceria do Museu do Seridó (MDS) e o Museu Câmara Cascudo (MCC) conjuntamente com a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A participação dos funcionários no curso é uma preparação para a reabertura.

  • Reza

    “Santo anjo do Senhor…”. Mal você me abraça e inicio a oração que só aprendi depois que fui mãe. Enquanto ficamos em silêncio, me encho de um amor que de tão grande parece impossível e bem maior do que o mar. “(…) Meu zeloso guardador…”. Lembro de quando te ensinei essas palavras e as dizíamos juntos todos os dias durante anos. Não importava onde eu estivesse, pegava o telefone um pouco antes da hora do meu menino dormir e rezávamos unidos. E nem sei bem como parecia aquela mulher praticamente gritando uma prece no meio de uma multidão de um comício, de um show, de um bar. “(…) Se a ti me confiou a piedade divina…”, continuo, como se ter um filho fosse a própria encarnação desse benfazer e peço saúde e coragem para estar ao seu lado o tempo que for necessário para lhe dar a mão, o colo, uma bronca, o suporte. “(…) Sempre me rege, guarda…”, murmuro alisando seu cabelo e imaginando quantos desafios e aventuras a vida há de te trazer. E amor, muito amor, invoco. Às vezes, dizemos que queríamos parar o tempo. Eu não. Se me fosse concedido, talvez, dar uma espiadinha lá na frente para voltar exatamente a esse ponto e aproveitar tudo com calma, sem sobressaltos, como deve e deveria ser mesmo sem a gente saber do futuro. “(…) Governa e ilumina…”. Ah, filhote, muita luz no seu caminho, alegria, boas risadas, paciência, resiliência. Sei que não é fácil esse momento com uma pandemia de um vírus e outra de ruindade destilada a cada minuto pelo anonimato das redes sociais e o escudo das instituições. Te desejo a esperança de esperançar, a capacidade de contornar as dificuldades, o bom humor para saber que as coisas valem a pena e a leveza do caminhar cada passo dessa estrada linda que é a vida. “(…) Amém!”.

  • A apaixonante Helen Ingersoll

    Por Ana Paula Cadengue

    “Lembra-nos ainda — não faz muito tempo — quando surgia em Natal uma poetisa, diferente, ensaiando ousados voos, triturando velhas regras e fórmulas, pisando venerados tabus, seguindo no verso livre e desenvolto à escola modernista. Era Helen Ingersoll, uma desconhecida filha de Mossoró, descendente de estrangeiros. De um momento para outro, num espaço de tempo nada considerável, a guria de porte altivo e palestra cheia de calor que toda Mossoró conheceu encontrava a poesia e se encaminhava cônscia de suas responsabilidades e dona de sua arte pelos caminhos das letras”, assim contava o jornalista Dorian Jorge Freire em 1951 sobre a figura que encantou e chocou a sociedade potiguar nos anos pós-guerra pela sua inteligência, liberdade, beleza e ousadia.

    “Esgotada de beleza e vida
    Fundi sensações estranhas
    Ritmos novos e fortes
    Para as minhas mãos inadaptadas.

    Sonhei o corpo informe da noite
    Nos meus braços
    E carreguei enferma
    O próprio deus por sobre os mares,
    Iludida de ventos frios e amores.
    (…)”

    Destinada aos Deuses – 1949

    Nascida em Mossoró, aos 13 de março de 1930, filha do mineiro canadense Willian John Ingersoll e da professora mossoroense Maria Elisa da Silva,  Helen Ingersoll sentiu sua inclinação literária muito cedo, ainda em plena infância.  De acordo com os registros de seu tio Assis Silva, aos 8 anos de idade, escreveu uma pequena peça de teatro, tendo sido muito elogiada por sua preceptora, professora de inglês, Irmã Carmelita.

    Ainda segundo os registros de seu tio, a jovem Helen era uma dedicada leitora e diplomou-se como professora primária, pela Escola Normal de Mossoró. Poetisa, colaborou em diversos órgãos de imprensa de Mossoró e Natal, onde foi morar em 1947 e continuou na vida literária.

    Que ânsia de Bem e de Infinito, essa do meu coração!
     De que vaga procura de uma felicidade ignota e desconhecida
    Se nutre, humildemente, o meu ser!
    Ó eterna interrogação da minha alma,
    Desproporcional, ousada interrogação
    No mundo limitado da matéria…

    Desproporção

    O poeta Laélio Ferreira lembra que Helen Ingersoll chegou em Natal no final da década de 1940, sendo vizinha de sua família, onde foi pupila de Othoniel Menezes e da sua Maria, a pedido de Dona Maria Elisa. “Lia muito, falava inglês com fluência, fumava muito, roía as unhas, bebia cerveja”.

    Laélio também diz que Helen “era bonita, alta, de olhos verdes. Um dia, pegou um Catalina da NAB, no Potengi, e partiu para o Rio. Antes da morte de Othoniel e de sua Maria, no Rio, visitava-os, vez por outra. Na ‘Cidade Maravilhosa’ foi professora, funcionária do Banco do Brasil e advogada”.

    Tenho uma íntima convicção
    De que o meu destino será belo,
    Belo como a noite no seu silêncio.
    – Suprema revelação!
    Ó quietas estrelas
    No espaço sem princípio,
    Eu vos seguirei, cantando
    O meu canto de glória e de amor.

    E eu serei forte e feliz!
    E a montanha do tempo!
    Ou o pássaro que grita mansamente!
    Palpita em mim mesmo
    O coração do destino.
    – Destino claro e pleno!

    Revelação – Natal, agosto de 1947

    A partida de Helen para o Rio de Janeiro, sem nunca mais pisar em solo potiguar, suscitou inúmeras interpretações. Para o jornalista e professor Tarcísio Gurgel, no livro “Helen Ingersoll, poesia”, organizado por Cláudio Galvão, “dificilmente será esclarecido o real motivo da sua partida para o Rio de Janeiro, quando era crescente a admiração conterrânea por sua inteligência e beleza. E ela continuará ainda por muito tempo a desafiar quem se dispuser a pesquisar sua vida e sua produção literária”.  Mas, aponta que muito provavelmente se deu pelas “brumas do preconceito e da incompreensão”.

    Em texto no jornal O Mossoroense, em 1951, Dorian Jorge Freire já delineava tudo que a presença da jovem e bela poeta suscitava. “Apareceram, então, debates acalorados, discussões intempestivas sobre Helen. As opiniões de seus conterrâneos sobre sua poesia eram as mais apaixonadas e diversas entre si. Uns, viam na poetisa Helen Ingersoll uma jovem de inteligência brilhante, de espírito lúcido, de poética extraordinária. Outros, secamente, procuravam inutilmente não tomar conhecimento da existência da poetisa, desdenhando-a e criticando-a com acrimônia. Helen era para estes últimos, uma menina endiabrada, terrivelmente fria e calculista, extravagante no seu realismo pornográfico”.

    E continua, talvez, na melhor explicação para todas as sensações despertadas: “Helen, entretanto, não era nada disso. Era o meio-termo entre as opiniões em choque. Era, apenas, uma moça realmente dona de uma inteligência brilhante, de um espírito irrecusavelmente superior, endiabrada e entusiasmadíssima com a descoberta de si mesma. Era, tão somente, uma poetisa de fato que aparecia”.

    “Eis que carrego comigo
    Os sete pecados
    E o meu ventre perdido
     Reclama um oitavo.
    (…)”

    A que Peça – 1949

    O equilíbrio

    Atraem-me os desânimos florestais.
    Os desmaios de hirtas rosas. Atrai-me
    O doce cacto. Entorpece-me os nervos
    O beijo nu de um ramo em minha face.

    Eu sou doente e negra. Em mim circulam Sofreguidões, anseios, crus delírios,
    Êxtases dolorosos me atormentam,
    Oferto-me ao amor dentro de abismos.

    Em troca, bebo calma na clareira.
    Nela sonho cabana, mão gelada
    Posta em meu seio, vento que me cubra.

    O mergulho num pântano me enfada. Encontro no contato do lodo
    O equilíbrio às minhas mãos crispadas.

    Rio — 1950

    Kelly Lira, cantora e artista plástica pintou O equilíbrio de HI Diário de Natal, 2 de janeiro de 1950

    É através dos relatos de Dorian que se acompanha um pouco do que Helen Ingersoll encontrou em seus primeiros anos de Rio de Janeiro, suas aventuras literárias e um pouco de sua vida como professora. “Alguns afirmavam mesmo que em Helen a poesia fora uma febre passageira, um impulso efêmero, uma criancice inconsequente. Ela não passava agora, segundo eles, de assídua leitora de poetas modernistas, além de ótima funcionária e aluna exemplar”.

    Mas, para o jornalista, a despeito da distância e até um certo ‘apagamento’ de seu nome na intelligentsia potiguar, “Helen existe e continua poetisa”.

    Tenho estrelas na alma e um céu interior.
    Vozes divinas cantam dentro de mim mesma,
    Vozes de exaltação e de glória,
    Vozes loucas, infinitas.
    Um Deus habita em mim.
    Ele me compreende e me perdoa,
    E não me ama por me ter criado
    – Ele não me criou, Ele nasceu comigo.
    Ama-me porque faz parte de mim mesma,
    Porque possui todos os membros do meu corpo
    E penetra na minha alma
    Como num mergulho eterno, infinito…
    Poema o Deus que sinto em mim mesma – 13 de março de 1949.

    Helen Ingersoll faleceu no Rio de Janeiro em 2011, aos 81 anos de idade, sem nunca ter voltado ao Rio Grande do Norte. E é numa forma de resgate, como uma visita a pessoas e locais, uma excelente ocasião para se fazer novos amigos e despertar paixões, que a Sociedade Amigos da Pinacoteca lança neste sábado, 28, na 10ª  Feira de Livros e Quadrinhos de Natal — FliQ o livro “Helen Ingersoll, Poesia”.

    Organizado pelo pesquisado Cláudio Galvão, o livro reúne quatro crônicas e

    20 poemas ilustrados pelos artistas plásticos Laércio Eugênio, Careca, Kelly Lira, Yáscara Samara, Marcelo Morais, Vicente Vitoriano, Isaías Medeiros, Eduardo Falcão e Marcelo Amarelo, além de textos de Tarcísio Gurgel, Dorian Jorge Freire, Laélio Ferreira de Melo e Fausto Cunha.

  • Brasil

    Notícias e comentários se sucedem velozmente na tela do celular e me trazem fatos que eu não queria ler. Mentiras, descaso, desmonte, desgoverno, violência contra mulher, gays, negros, pobres, crianças, índios, gente… O frio mata, o fogo mata, a fome mata, a falta de vacinas mata. Uma menina une brasileiros ao deslizar sobre rodas, um nordestino ao voar sobre ondas, uma negra ao desafiar os limites. Alguns conseguem rir das misérias, outros pedem algo para combatê-las. O computador pifou. A ciência parou. A estátua não pode ser queimada, mas a cultura pode ser dizimada pelas chamas. A floresta também. Os silvícolas idem. Vamos usar mercúrio, desmatar, calcinar, derrubar árvores, poluir rios, derrubar óleo, derrubar duna, invadir o mar, desrespeitar leis, derrubar direitos. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa, e essa travessia parece que não se acaba nunca. Uma menininha encanta ao falar palavras difíceis, dancinhas são vigiadas, fakes news criadas, inverdades incentivadas, teorias conspiratórias disseminadas. Respira, inspira e não pira. Manter a espinha ereta ainda vai, mas a mente quieta parece meio impossível. Uma declaração de amor alivia, uma brincadeira entre amigos, mensagens que chegam com carinho, a música que acalenta, o livro que aconchega, o filme que enleva. Jornalismo é o melhor remédio contra mentiras, diz o experimentado repórter. O esporte proporciona um futuro, a arte salva. O padre Júlio escancara empatia. Ele não.

  • Visita

    A borboleta, irrompendo da pilha de roupas recém-tiradas do varal, arrancou-me um grito e um pulo para trás ao mesmo tempo em que me fez mergulhar numa avalanche de emoções. Enquanto meu companheiro praticamente dançava com um travesseiro na mão, numa tentativa de espantar a visita de nossa cama, minha mente rememorava os momentos vividos nos últimos dias e a presença do meu pai na finalmente e tantas vezes adiada reunião de seus filhos. Interessante ver como somos tão diferentes e iguais e como tentamos encher o vazio de mais de 20 anos com histórias e lembranças e música e locais, piadas, brincadeiras e risos. Mostramos nossas crias, algumas cicatrizes e o gosto pela alegria. Comidas típicas, todas as bebidas e sugestões de passeios não faltaram, numa tentativa, sei lá, de refazer aquele caminho que se perdeu no tempo, mas que parece que ainda não é tarde demais. Fotografias e informações pessoais foram trocadas, assim como promessas de nos mantermos em contato e exercitarmos juntos essa coisa Cadengue de ser. Se é verdade que as borboletas são visitas de espíritos queridos, então sei bem quem voava ao meu redor. E os meus olhos se encheram d’água.

  • Pássaro Valente

    O Twitter me tem feito muita companhia nesta pandemia. A nossa história começou em junho de 2009 por curiosidade profissional quando eu era editora de jornal e queria ver o que os políticos postavam, passou por uma intensa fase de deleite pessoal, onde conheci gente e fiz bons amigos, e uma outra fase que nem sei quanto durou de profundo abuso e total ausência. 

    Do ano passado para cá nos reatamos e, como todo recomeço, ainda tateamos nossos novos limites. Se já não sou mais a tuiteira atuante, sou aquela que acompanha com curiosidade muitas histórias que desfilam pela minha timeline diariamente. Lá, me informo, indigno, emociono, surpreendo, divirto e até acompanho programas de TV sem precisar ligar a televisão. 

    Quer saber o que está acontecendo no mundo? Acesse o twitter. A última boiada do Salles, os anúncios do maravilhoso mundo do Guedes ou a inauguração da última pinguela presidencial estão por lá, assim como os melhores comentaristas sobre tudo de BBB à CPI da Pandemia. 

    Ah, você prefere uma coisa mais animada, numa linguagem mais jovem? Temos! De dancinhas de todas as redes às infindáveis tretas de todos os dias. E haja confusão e cancelamentos. Bem didáticos, inclusive. Lá você só não aprende se não quiser e sobre tudo. De desconstruções socioculturais à receitas culinárias e medicina. Tá, acho que lá o único lugar onde médico é acessível.

    Em tempos tão sombrios, é bom perceber que existem pessoas com as mesmas inquietações e dúvidas que você, que o sentimento de desolação não é exclusividade sua, que muitos não desistiram de lutar, que a ciência – a despeito de esforços contrários – vem dando respostas exitosas, que a humanidade não está de todo perdida e, principalmente, que você não está só. 

    Lá também encontramos histórias de vida emocionantes, como a de vítimas de violência de gênero ou sexual, de gente que perdeu entes queridos para este descaso em que vivemos e de pessoas como a mãe do escritor e economista Paulo Nogueira Batista Jr. que, do alto dos seus 91 anos, com problemas de visão e mobilidade, ao ser perguntada sobre como estava nessa confusão toda respondeu: “Não estou bem. Mas a gente tem que ser valente”.

  • AO DEUS-DARÁ

    O carro avança pelas ruas da cidade e a saudade que me invade é sem-par. Meus olhos saltam de ruas e prédios enquanto a lembrança de bons momentos vem galopante. O apartamento em que morei, o mercadinho da esquina, o bar sob as mangueiras, aquele restaurante que nem existe mais onde ouvimos Silvinha e Angolano… As memórias se atropelam e se cruzam com o desejo de novas histórias, lugares, instantes.

    Tem sido muito difícil estar no atual Brasil e viver uma pandemia de uma doença tão singular ao mesmo tempo. Um eterno cada um por si ou dane-se, escolha.  Estar vivo parece ter que bastar, independente do como.

    Prometi a mim mesma não pensar sobre a Covid-19 e tudo a que ela remete, mas é impossível calar sobre um dos piores períodos já vividos. Sei que para alguns parece não haver motivos para pânico mesmo quando a realidade nos espanca todos os dias. Aqueles que preferem desdenhar da vida e da morte de mais de 360 mil brasileiros não são dignos de serem chamados de gente, e espero que, um dia, paguem pela falta de humanidade.

    Enquanto uns negam e distorcem a verdade das coisas e das pessoas, as redes sociais mostram o medo e desespero de quem está doente ou perdeu algum ente querido para o coronavírus ou não tem o que comer. São tantas e tão pungentes as publicações que parece que estacionamos todos num grande obituário. “Meus sentimentos”, “lamento muito”, “triste” nunca foram expressões tão frequentes e ainda mais doídas porque poderiam ter sido evitadas.

    No arrastar dos dias, a rotina se estabelece. Máscaras, álcool, distanciamento, aulas online, trabalho doméstico, luto, tristeza e o cuidado para que a convivência extrema e forçada não deixe ninguém pelo caminho. Manter-se são nunca foi tão difícil.

    Tento parar um pouco os pensamentos e volto a olhar a paisagem. Gente nas ruas, nos carros, ônibus e bicicletas, alguns caminham, os pedintes parecem brotar em canteiros e semáforos. Crianças sem infância tentam equilibrar laranjas num triste arremedo de malabares. Famílias inteiras estendem as mãos em busca do hoje, quiçá um amanhã.

    Olho pro céu azul porque me dói menos. Respiro fundo e recordo uma querida amiga que com sua voz triste fez questão de me lembrar de que não sou uma pessoa desanimada e que se entrega. É como disse a escritora Nélida Piñon numa antiga entrevista: “Não sou uma mulher dada a infelicidades”. Nunca fui.

    A voz de meu companheiro me tira dos pensamentos. Falo da vontade de sair por aí, da saudade de amigos e lugares e o que chamamos de nossas aventuras. Ele sorri concordando e eu tenho a absoluta certeza de que não estou só.  

  • Acalanto

    Entro no quarto e fecho a porta. Momentos a sós e em silêncio têm ganhado a cada dia mais importância, como um exercício de me ouvir ou apenas descanso ou autocuidado. A televisão sem som me mostra vislumbres de séries que de tão repetidas nem me interessam mais. Desligo. O barulho do ventilador embala os pensamentos e, às vezes, as tentativas de não pensar. Inspiro profunda e lentamente e tento visualizar o azul do céu com meus olhos fechados. Expiro e a profusão de cores que explode em mim não se aquieta. Do meu remanso, percebo a azáfama diária: as vibrações do meu filho jogando ao computador, mamãe e seus afazeres na cozinha, a máquina de lavar roupas e seu ritmo compassado. Alguns acordes no violão dão sinal de que meu companheiro também está relaxando. Amplio os sentidos e percorro a vizinhança com a memória, ouvindo até o que não acontece no momento. O vizinho carrancudo que se derrete numa videochamada com as netinhas, uma furadeira e batidas de martelo mostram os eternos cuidados em uma casa próxima, a voz afinada da senhora ao lado em músicas gospel, alguns cachorros latem e logo chegam os gritos do menino da frente e suas descobertas chamando o pai repetidas vezes. Os entregadores e suas motos estrondam pela rua enquanto um pássaro muito sabido tenta quebrar uma semente em cima do muro. Pássaros não faltam e não param de comer as mudas que insistimos em plantar no quintal. Uns, até se alojam no terraço e nos fazem ter medo de perturbar os filhotes. Outros só nos visitam e despertam os dias com seu canto. O sino dos ventos se anuncia alegre e traz esperança de boas novas. Os sons do silêncio me acalantam. 

  • A telefonista

    Os números no visor do celular se fazem conhecidos. A primeira ligação foi num dia corrido de trabalho. Ignorei. Voltou a chamar numa manhã de sábado. A mulher do outro lado demonstrava um certo nervosismo e perguntou se podia fazer uma oração por mim. Sempre achei indelicado recusar uma palavra de fé independente de quem ofereça. A voz do outro lado começou a recitar profetas dos quais pouco ouvi falar. Logo depois tentou iniciar um diálogo, me fazendo perguntas respondidas com pouco entusiasmo. Agradeceu e desligou.

    No contato seguinte explicou tudo de novo, falou seu nome, que estava ligando para números aleatórios e perguntou se eu aceitaria ouvir algo da Bíblia Sagrada. Respondi que tínhamos nos falado antes e que, naquele momento, estava muito ocupada. Ao saber que não éramos completas desconhecidas, a mulher me disse animada que ligava depois.

    De lá para cá se passaram meses e as ligações continuam. Descobri que é da Igreja Testemunhas de Jeová, está perto de fazer 70 anos e que a pandemia a fez aprender a se ligar ao mundo e a Deus de forma digital. “Não brinque com essa doença, Ana, é muito grave! Eu mal saio de casa e sempre uso máscaras e álcool em gel”, me adverte, preocupada.

    Nos nossos vários contatos chegou a me acordar algumas vezes e até a invadir ressacas valorosas. Expliquei que não tenho religião, que não frequento igrejas, que acredito na Ciência. Outro dia, numa certa provocação, inverti os papéis e comecei a ler para ela trechos do Evangelho segundo o Espiritismo. Me escutou, curiosa, fez perguntas e disse que era interessante e voltou à palavra de seus profetas.

    Quando atendo, se mostra tão animada e feliz que fica difícil não ser atenciosa. “Bom dia! É Ana, é?”. Às vezes me chama de Aninha e dispara a recitar coisas de sua fé. Numa dessas, foi tentar explicar que Deus era tipo um cargo, como Bolsonaro ocupava o cargo de presidente. Logo depois me perguntou como eu imaginava o Paraíso. Respondi que não tinha muita ideia, mas a certeza de que Bolsonaro não estaria lá. Ela riu.

    Dia desses, ao me pegar tristonha, foi rápida em suas orações e, para minha surpresa, ligou no dia seguinte perguntando se estava tudo bem, que tinha ficado preocupada. É, semana que vem ela deve ligar de novo. Talvez seja a hora de salvar seu nome nos contatos.

    Ana Cadengue é jornalista