Últimas histórias

  • Os dias

    Perdi tanta gente querida. Vi tantos sofrendo pela perda dos seus. Lamento constatar que jamais saberemos quantos milhares (milhões?) se foram por descaso, experimentos, negacionismo. Essa pandemia mais que apresentar um vírus novo, descortinou pensamentos e ações que eu julgara já esquecidos. Sempre fui idealista e acreditei na humanidade que deveríamos todos ter. Sou daquelas pessoas que se emocionam fácil e estão sempre querendo ajudar o próximo e os não tão próximos assim. De besta, gritariam alguns. Pode ser, mas não sei ser diferente. Até ensaio vez em quando me dessensibilizar um pouco… sem conseguir. Tento evitar pessoas e situações, não assistir a telejornais nem acessar portais e redes sociais, mas é impossível querer se isolar do que lhe cerca mesmo tendo consciência de que o entorno lhe adoece. Ficar sem notícias quando é exatamente o jornalismo sério, a difusão de fatos e números que, por mais que doam, precisam ser mostrados? E lá vou eu de novo para as redes sociais, sites e portais me engajar no que acredito, dar visibilidade ao que precisa ser mostrado. Tá, tudo bem se permitir uns respiros. Embriagar-se de vida e vinho e cerveja e sol e amigos e risadas aos sábados, esquecer o celular desligado aos domingos, deixar-se levar pela lua ou a música ou um livro ou filme em qualquer dia da semana, olhar as flores, os pássaros, os bebês e crianças que atravessam o caminho. Respirar lenta e profundamente, fechar os olhos, pensar na sua riqueza apesar das dificuldades, sua família, o filho que finalmente foi vacinado, os carinhos e pequenos prazeres como uma tapioca com nata e um café amargo ou um copo de água gelada, um mergulho no mar de verdade e no de emoções que a vida desperta.

  • Reza

    “Santo anjo do Senhor…”. Mal você me abraça e inicio a oração que só aprendi depois que fui mãe. Enquanto ficamos em silêncio, me encho de um amor que de tão grande parece impossível e bem maior do que o mar. “(…) Meu zeloso guardador…”. Lembro de quando te ensinei essas palavras e as dizíamos juntos todos os dias durante anos. Não importava onde eu estivesse, pegava o telefone um pouco antes da hora do meu menino dormir e rezávamos unidos. E nem sei bem como parecia aquela mulher praticamente gritando uma prece no meio de uma multidão de um comício, de um show, de um bar. “(…) Se a ti me confiou a piedade divina…”, continuo, como se ter um filho fosse a própria encarnação desse benfazer e peço saúde e coragem para estar ao seu lado o tempo que for necessário para lhe dar a mão, o colo, uma bronca, o suporte. “(…) Sempre me rege, guarda…”, murmuro alisando seu cabelo e imaginando quantos desafios e aventuras a vida há de te trazer. E amor, muito amor, invoco. Às vezes, dizemos que queríamos parar o tempo. Eu não. Se me fosse concedido, talvez, dar uma espiadinha lá na frente para voltar exatamente a esse ponto e aproveitar tudo com calma, sem sobressaltos, como deve e deveria ser mesmo sem a gente saber do futuro. “(…) Governa e ilumina…”. Ah, filhote, muita luz no seu caminho, alegria, boas risadas, paciência, resiliência. Sei que não é fácil esse momento com uma pandemia de um vírus e outra de ruindade destilada a cada minuto pelo anonimato das redes sociais e o escudo das instituições. Te desejo a esperança de esperançar, a capacidade de contornar as dificuldades, o bom humor para saber que as coisas valem a pena e a leveza do caminhar cada passo dessa estrada linda que é a vida. “(…) Amém!”.

  • Brasil

    Notícias e comentários se sucedem velozmente na tela do celular e me trazem fatos que eu não queria ler. Mentiras, descaso, desmonte, desgoverno, violência contra mulher, gays, negros, pobres, crianças, índios, gente… O frio mata, o fogo mata, a fome mata, a falta de vacinas mata. Uma menina une brasileiros ao deslizar sobre rodas, um nordestino ao voar sobre ondas, uma negra ao desafiar os limites. Alguns conseguem rir das misérias, outros pedem algo para combatê-las. O computador pifou. A ciência parou. A estátua não pode ser queimada, mas a cultura pode ser dizimada pelas chamas. A floresta também. Os silvícolas idem. Vamos usar mercúrio, desmatar, calcinar, derrubar árvores, poluir rios, derrubar óleo, derrubar duna, invadir o mar, desrespeitar leis, derrubar direitos. Viver é muito perigoso, já dizia Guimarães Rosa, e essa travessia parece que não se acaba nunca. Uma menininha encanta ao falar palavras difíceis, dancinhas são vigiadas, fakes news criadas, inverdades incentivadas, teorias conspiratórias disseminadas. Respira, inspira e não pira. Manter a espinha ereta ainda vai, mas a mente quieta parece meio impossível. Uma declaração de amor alivia, uma brincadeira entre amigos, mensagens que chegam com carinho, a música que acalenta, o livro que aconchega, o filme que enleva. Jornalismo é o melhor remédio contra mentiras, diz o experimentado repórter. O esporte proporciona um futuro, a arte salva. O padre Júlio escancara empatia. Ele não.

  • Visita

    A borboleta, irrompendo da pilha de roupas recém-tiradas do varal, arrancou-me um grito e um pulo para trás ao mesmo tempo em que me fez mergulhar numa avalanche de emoções. Enquanto meu companheiro praticamente dançava com um travesseiro na mão, numa tentativa de espantar a visita de nossa cama, minha mente rememorava os momentos vividos nos últimos dias e a presença do meu pai na finalmente e tantas vezes adiada reunião de seus filhos. Interessante ver como somos tão diferentes e iguais e como tentamos encher o vazio de mais de 20 anos com histórias e lembranças e música e locais, piadas, brincadeiras e risos. Mostramos nossas crias, algumas cicatrizes e o gosto pela alegria. Comidas típicas, todas as bebidas e sugestões de passeios não faltaram, numa tentativa, sei lá, de refazer aquele caminho que se perdeu no tempo, mas que parece que ainda não é tarde demais. Fotografias e informações pessoais foram trocadas, assim como promessas de nos mantermos em contato e exercitarmos juntos essa coisa Cadengue de ser. Se é verdade que as borboletas são visitas de espíritos queridos, então sei bem quem voava ao meu redor. E os meus olhos se encheram d’água.

  • Pássaro Valente

    O Twitter me tem feito muita companhia nesta pandemia. A nossa história começou em junho de 2009 por curiosidade profissional quando eu era editora de jornal e queria ver o que os políticos postavam, passou por uma intensa fase de deleite pessoal, onde conheci gente e fiz bons amigos, e uma outra fase que nem sei quanto durou de profundo abuso e total ausência. 

    Do ano passado para cá nos reatamos e, como todo recomeço, ainda tateamos nossos novos limites. Se já não sou mais a tuiteira atuante, sou aquela que acompanha com curiosidade muitas histórias que desfilam pela minha timeline diariamente. Lá, me informo, indigno, emociono, surpreendo, divirto e até acompanho programas de TV sem precisar ligar a televisão. 

    Quer saber o que está acontecendo no mundo? Acesse o twitter. A última boiada do Salles, os anúncios do maravilhoso mundo do Guedes ou a inauguração da última pinguela presidencial estão por lá, assim como os melhores comentaristas sobre tudo de BBB à CPI da Pandemia. 

    Ah, você prefere uma coisa mais animada, numa linguagem mais jovem? Temos! De dancinhas de todas as redes às infindáveis tretas de todos os dias. E haja confusão e cancelamentos. Bem didáticos, inclusive. Lá você só não aprende se não quiser e sobre tudo. De desconstruções socioculturais à receitas culinárias e medicina. Tá, acho que lá o único lugar onde médico é acessível.

    Em tempos tão sombrios, é bom perceber que existem pessoas com as mesmas inquietações e dúvidas que você, que o sentimento de desolação não é exclusividade sua, que muitos não desistiram de lutar, que a ciência – a despeito de esforços contrários – vem dando respostas exitosas, que a humanidade não está de todo perdida e, principalmente, que você não está só. 

    Lá também encontramos histórias de vida emocionantes, como a de vítimas de violência de gênero ou sexual, de gente que perdeu entes queridos para este descaso em que vivemos e de pessoas como a mãe do escritor e economista Paulo Nogueira Batista Jr. que, do alto dos seus 91 anos, com problemas de visão e mobilidade, ao ser perguntada sobre como estava nessa confusão toda respondeu: “Não estou bem. Mas a gente tem que ser valente”.

  • AO DEUS-DARÁ

    O carro avança pelas ruas da cidade e a saudade que me invade é sem-par. Meus olhos saltam de ruas e prédios enquanto a lembrança de bons momentos vem galopante. O apartamento em que morei, o mercadinho da esquina, o bar sob as mangueiras, aquele restaurante que nem existe mais onde ouvimos Silvinha e Angolano… As memórias se atropelam e se cruzam com o desejo de novas histórias, lugares, instantes.

    Tem sido muito difícil estar no atual Brasil e viver uma pandemia de uma doença tão singular ao mesmo tempo. Um eterno cada um por si ou dane-se, escolha.  Estar vivo parece ter que bastar, independente do como.

    Prometi a mim mesma não pensar sobre a Covid-19 e tudo a que ela remete, mas é impossível calar sobre um dos piores períodos já vividos. Sei que para alguns parece não haver motivos para pânico mesmo quando a realidade nos espanca todos os dias. Aqueles que preferem desdenhar da vida e da morte de mais de 360 mil brasileiros não são dignos de serem chamados de gente, e espero que, um dia, paguem pela falta de humanidade.

    Enquanto uns negam e distorcem a verdade das coisas e das pessoas, as redes sociais mostram o medo e desespero de quem está doente ou perdeu algum ente querido para o coronavírus ou não tem o que comer. São tantas e tão pungentes as publicações que parece que estacionamos todos num grande obituário. “Meus sentimentos”, “lamento muito”, “triste” nunca foram expressões tão frequentes e ainda mais doídas porque poderiam ter sido evitadas.

    No arrastar dos dias, a rotina se estabelece. Máscaras, álcool, distanciamento, aulas online, trabalho doméstico, luto, tristeza e o cuidado para que a convivência extrema e forçada não deixe ninguém pelo caminho. Manter-se são nunca foi tão difícil.

    Tento parar um pouco os pensamentos e volto a olhar a paisagem. Gente nas ruas, nos carros, ônibus e bicicletas, alguns caminham, os pedintes parecem brotar em canteiros e semáforos. Crianças sem infância tentam equilibrar laranjas num triste arremedo de malabares. Famílias inteiras estendem as mãos em busca do hoje, quiçá um amanhã.

    Olho pro céu azul porque me dói menos. Respiro fundo e recordo uma querida amiga que com sua voz triste fez questão de me lembrar de que não sou uma pessoa desanimada e que se entrega. É como disse a escritora Nélida Piñon numa antiga entrevista: “Não sou uma mulher dada a infelicidades”. Nunca fui.

    A voz de meu companheiro me tira dos pensamentos. Falo da vontade de sair por aí, da saudade de amigos e lugares e o que chamamos de nossas aventuras. Ele sorri concordando e eu tenho a absoluta certeza de que não estou só.  

  • Acalanto

    Entro no quarto e fecho a porta. Momentos a sós e em silêncio têm ganhado a cada dia mais importância, como um exercício de me ouvir ou apenas descanso ou autocuidado. A televisão sem som me mostra vislumbres de séries que de tão repetidas nem me interessam mais. Desligo. O barulho do ventilador embala os pensamentos e, às vezes, as tentativas de não pensar. Inspiro profunda e lentamente e tento visualizar o azul do céu com meus olhos fechados. Expiro e a profusão de cores que explode em mim não se aquieta. Do meu remanso, percebo a azáfama diária: as vibrações do meu filho jogando ao computador, mamãe e seus afazeres na cozinha, a máquina de lavar roupas e seu ritmo compassado. Alguns acordes no violão dão sinal de que meu companheiro também está relaxando. Amplio os sentidos e percorro a vizinhança com a memória, ouvindo até o que não acontece no momento. O vizinho carrancudo que se derrete numa videochamada com as netinhas, uma furadeira e batidas de martelo mostram os eternos cuidados em uma casa próxima, a voz afinada da senhora ao lado em músicas gospel, alguns cachorros latem e logo chegam os gritos do menino da frente e suas descobertas chamando o pai repetidas vezes. Os entregadores e suas motos estrondam pela rua enquanto um pássaro muito sabido tenta quebrar uma semente em cima do muro. Pássaros não faltam e não param de comer as mudas que insistimos em plantar no quintal. Uns, até se alojam no terraço e nos fazem ter medo de perturbar os filhotes. Outros só nos visitam e despertam os dias com seu canto. O sino dos ventos se anuncia alegre e traz esperança de boas novas. Os sons do silêncio me acalantam. 

  • A telefonista

    Os números no visor do celular se fazem conhecidos. A primeira ligação foi num dia corrido de trabalho. Ignorei. Voltou a chamar numa manhã de sábado. A mulher do outro lado demonstrava um certo nervosismo e perguntou se podia fazer uma oração por mim. Sempre achei indelicado recusar uma palavra de fé independente de quem ofereça. A voz do outro lado começou a recitar profetas dos quais pouco ouvi falar. Logo depois tentou iniciar um diálogo, me fazendo perguntas respondidas com pouco entusiasmo. Agradeceu e desligou.

    No contato seguinte explicou tudo de novo, falou seu nome, que estava ligando para números aleatórios e perguntou se eu aceitaria ouvir algo da Bíblia Sagrada. Respondi que tínhamos nos falado antes e que, naquele momento, estava muito ocupada. Ao saber que não éramos completas desconhecidas, a mulher me disse animada que ligava depois.

    De lá para cá se passaram meses e as ligações continuam. Descobri que é da Igreja Testemunhas de Jeová, está perto de fazer 70 anos e que a pandemia a fez aprender a se ligar ao mundo e a Deus de forma digital. “Não brinque com essa doença, Ana, é muito grave! Eu mal saio de casa e sempre uso máscaras e álcool em gel”, me adverte, preocupada.

    Nos nossos vários contatos chegou a me acordar algumas vezes e até a invadir ressacas valorosas. Expliquei que não tenho religião, que não frequento igrejas, que acredito na Ciência. Outro dia, numa certa provocação, inverti os papéis e comecei a ler para ela trechos do Evangelho segundo o Espiritismo. Me escutou, curiosa, fez perguntas e disse que era interessante e voltou à palavra de seus profetas.

    Quando atendo, se mostra tão animada e feliz que fica difícil não ser atenciosa. “Bom dia! É Ana, é?”. Às vezes me chama de Aninha e dispara a recitar coisas de sua fé. Numa dessas, foi tentar explicar que Deus era tipo um cargo, como Bolsonaro ocupava o cargo de presidente. Logo depois me perguntou como eu imaginava o Paraíso. Respondi que não tinha muita ideia, mas a certeza de que Bolsonaro não estaria lá. Ela riu.

    Dia desses, ao me pegar tristonha, foi rápida em suas orações e, para minha surpresa, ligou no dia seguinte perguntando se estava tudo bem, que tinha ficado preocupada. É, semana que vem ela deve ligar de novo. Talvez seja a hora de salvar seu nome nos contatos.

    Ana Cadengue é jornalista

  • Será?

    A tela em branco me chateia e quase me hipnotiza do tanto que olho ao tentar achar palavras. Logo eu, que não paro a matraca, me pergunto meio cínica, mas também sem humor. Tédio? Cansaço? Ansiedade? Depressão? Cabeça a mil? As dúvidas se sucedem numa velocidade ímpar. “Administre sua crise!”, diz a voz de um antigo colega de sala da UnB daquele 1987. O conselho dado rispidamente magoou a princípio, mas me acompanha desde então. “Administre sua crise”, repito como um mantra, respiro fundo e acendo um incenso.

    A lembrança de Brasília traz uma enxurrada de memórias. Colegas, amigos e momentos que volta e meia sentam ao meu lado, trocam segredos ou bebem um vinho em silêncio. Sei lá, mil coisas. Era isso que dizia uma faixa de um protesto feito por nós estudantes de comunicação em frente ao Palácio do Planalto que tinha o presidente Sarney como ocupante. Saudades do Sarney, quem diria. E também do Itamar, do Fernando, do Luiz…

    Saudades da esperança, da juventude nas ruas, lutando pela democracia, por eleições diretas, por educação e saúde públicas e de qualidade. Gente como a gente que não desistia do sonho e ia à luta pelo que era melhor para todos. Fossem direitos trabalhistas, fosse acesso universal à saúde ou aulas noturnas nas universidades, permitindo que pobre também pudesse estudar e ter seu canudo.

    Cheguei a Brasília no dia em que a UnB entrou em greve, num fevereiro há 34 anos. Caloura e sem conhecidos, logo me engajei numa edição do jornal laboratório cobrindo o movimento grevista. Minha primeira matéria assinada e a oportunidade maravilhosa de conhecer gente da melhor qualidade que me acompanha até hoje mesmo à distância. Ah, ter 18 anos em Brasília… As melhores farras, noitadas, descobertas, pequenas viagens, livros, cinema, festas, amores, comidas, música, barzinhos, lutas. Quanta saudade de uma juventude linda, saudável, curiosa e solidária.

    Naquela cidade dita sem esquinas, tantos encontros. Brasileiros de todos os recantos. Estrangeiros que aqui chegavam para contar aquele momento ou recomeçar a vida num país que construía sua Constituição cidadã e se desenhava como Nação para o mundo. “Que país é esse?”, bradávamos sem medo dos generais de dez estrelas, sem medo de ser ou fazer. Agora, de novo sujeira pra todo lado, me pergunto se nada vai acontecer, se nos perderemos entre monstros de nossa própria criação ou se ainda vamos conseguir vencer?

  • Manhã de Carnaval

    “Manhã, tão bonita manhã…”. Enquanto os versos de Antônio Maria ressoam, as memórias despertam céleres e misturam histórias e fantasias de carnaval.

    A menina pirata olha pra mim feliz e me faz duvidar que este ano não haverá carnaval. Sério? E minhas fantasias? Que faço com a vontade de sair de mim, de cantar a altos brados, dançar sem vergonha de ser vista e sentir que, sim, “minha carne é de carnaval”, como diria o Moraes?

    Se alguém, em meus piores pesadelos, dissesse que não haveria carnaval em  algum momento, confesso, talvez não o levasse a sério. Uma coisa é não querer festejar, outra é curtir entre poucos, alguns hão de dizer que não gostam da festa, mas desejam o feriado. Sem carnaval não há quem. Imagino. Ou melhor, espero.

    Já fui havaiana, Pedrita, marinheira, palhaça, borboleta, cigana… Me cobri de brilhos, retalhos, adereços, cores, bandeiras. Cantei frevos, sambas, axés e tudo o que me levasse ao enlevo.  Saí de mim.

    Festa pagã, dizem alguns. Cristã, bradam outros. Carne Vale, adeus à carne, como traduz o latim, ou a festa da carne como acreditam os profanos. Não sei. Só sei que me dá um negócio, um freviado na alma. Não importa se eu esteja em Natal, Recife, na Usina, em Olinda, Tibau, Mossoró… Não importa mesmo. O carnaval acontece em mim, constato.

    Decorei a casa. O terraço só, para ser sincera. Comprei umas fitas metalizadas, juntei antigas fantasias, uma coisinha aqui, outra ali e já me vi em festa.

    É, me desculpe quem não gosta, quem não vê motivos para celebrar, quem só critica tudo mesmo, quem está triste. Mil desculpas. É carnaval. Em casa. A folia sou eu.