Últimas histórias

  • Visita

    A borboleta, irrompendo da pilha de roupas recém-tiradas do varal, arrancou-me um grito e um pulo para trás ao mesmo tempo em que me fez mergulhar numa avalanche de emoções. Enquanto meu companheiro praticamente dançava com um travesseiro na mão, numa tentativa de espantar a visita de nossa cama, minha mente rememorava os momentos vividos nos últimos dias e a presença do meu pai na finalmente e tantas vezes adiada reunião de seus filhos. Interessante ver como somos tão diferentes e iguais e como tentamos encher o vazio de mais de 20 anos com histórias e lembranças e música e locais, piadas, brincadeiras e risos. Mostramos nossas crias, algumas cicatrizes e o gosto pela alegria. Comidas típicas, todas as bebidas e sugestões de passeios não faltaram, numa tentativa, sei lá, de refazer aquele caminho que se perdeu no tempo, mas que parece que ainda não é tarde demais. Fotografias e informações pessoais foram trocadas, assim como promessas de nos mantermos em contato e exercitarmos juntos essa coisa Cadengue de ser. Se é verdade que as borboletas são visitas de espíritos queridos, então sei bem quem voava ao meu redor. E os meus olhos se encheram d’água.

  • Pássaro Valente

    O Twitter me tem feito muita companhia nesta pandemia. A nossa história começou em junho de 2009 por curiosidade profissional quando eu era editora de jornal e queria ver o que os políticos postavam, passou por uma intensa fase de deleite pessoal, onde conheci gente e fiz bons amigos, e uma outra fase que nem sei quanto durou de profundo abuso e total ausência. 

    Do ano passado para cá nos reatamos e, como todo recomeço, ainda tateamos nossos novos limites. Se já não sou mais a tuiteira atuante, sou aquela que acompanha com curiosidade muitas histórias que desfilam pela minha timeline diariamente. Lá, me informo, indigno, emociono, surpreendo, divirto e até acompanho programas de TV sem precisar ligar a televisão. 

    Quer saber o que está acontecendo no mundo? Acesse o twitter. A última boiada do Salles, os anúncios do maravilhoso mundo do Guedes ou a inauguração da última pinguela presidencial estão por lá, assim como os melhores comentaristas sobre tudo de BBB à CPI da Pandemia. 

    Ah, você prefere uma coisa mais animada, numa linguagem mais jovem? Temos! De dancinhas de todas as redes às infindáveis tretas de todos os dias. E haja confusão e cancelamentos. Bem didáticos, inclusive. Lá você só não aprende se não quiser e sobre tudo. De desconstruções socioculturais à receitas culinárias e medicina. Tá, acho que lá o único lugar onde médico é acessível.

    Em tempos tão sombrios, é bom perceber que existem pessoas com as mesmas inquietações e dúvidas que você, que o sentimento de desolação não é exclusividade sua, que muitos não desistiram de lutar, que a ciência – a despeito de esforços contrários – vem dando respostas exitosas, que a humanidade não está de todo perdida e, principalmente, que você não está só. 

    Lá também encontramos histórias de vida emocionantes, como a de vítimas de violência de gênero ou sexual, de gente que perdeu entes queridos para este descaso em que vivemos e de pessoas como a mãe do escritor e economista Paulo Nogueira Batista Jr. que, do alto dos seus 91 anos, com problemas de visão e mobilidade, ao ser perguntada sobre como estava nessa confusão toda respondeu: “Não estou bem. Mas a gente tem que ser valente”.

  • AO DEUS-DARÁ

    O carro avança pelas ruas da cidade e a saudade que me invade é sem-par. Meus olhos saltam de ruas e prédios enquanto a lembrança de bons momentos vem galopante. O apartamento em que morei, o mercadinho da esquina, o bar sob as mangueiras, aquele restaurante que nem existe mais onde ouvimos Silvinha e Angolano… As memórias se atropelam e se cruzam com o desejo de novas histórias, lugares, instantes.

    Tem sido muito difícil estar no atual Brasil e viver uma pandemia de uma doença tão singular ao mesmo tempo. Um eterno cada um por si ou dane-se, escolha.  Estar vivo parece ter que bastar, independente do como.

    Prometi a mim mesma não pensar sobre a Covid-19 e tudo a que ela remete, mas é impossível calar sobre um dos piores períodos já vividos. Sei que para alguns parece não haver motivos para pânico mesmo quando a realidade nos espanca todos os dias. Aqueles que preferem desdenhar da vida e da morte de mais de 360 mil brasileiros não são dignos de serem chamados de gente, e espero que, um dia, paguem pela falta de humanidade.

    Enquanto uns negam e distorcem a verdade das coisas e das pessoas, as redes sociais mostram o medo e desespero de quem está doente ou perdeu algum ente querido para o coronavírus ou não tem o que comer. São tantas e tão pungentes as publicações que parece que estacionamos todos num grande obituário. “Meus sentimentos”, “lamento muito”, “triste” nunca foram expressões tão frequentes e ainda mais doídas porque poderiam ter sido evitadas.

    No arrastar dos dias, a rotina se estabelece. Máscaras, álcool, distanciamento, aulas online, trabalho doméstico, luto, tristeza e o cuidado para que a convivência extrema e forçada não deixe ninguém pelo caminho. Manter-se são nunca foi tão difícil.

    Tento parar um pouco os pensamentos e volto a olhar a paisagem. Gente nas ruas, nos carros, ônibus e bicicletas, alguns caminham, os pedintes parecem brotar em canteiros e semáforos. Crianças sem infância tentam equilibrar laranjas num triste arremedo de malabares. Famílias inteiras estendem as mãos em busca do hoje, quiçá um amanhã.

    Olho pro céu azul porque me dói menos. Respiro fundo e recordo uma querida amiga que com sua voz triste fez questão de me lembrar de que não sou uma pessoa desanimada e que se entrega. É como disse a escritora Nélida Piñon numa antiga entrevista: “Não sou uma mulher dada a infelicidades”. Nunca fui.

    A voz de meu companheiro me tira dos pensamentos. Falo da vontade de sair por aí, da saudade de amigos e lugares e o que chamamos de nossas aventuras. Ele sorri concordando e eu tenho a absoluta certeza de que não estou só.  

  • Acalanto

    Entro no quarto e fecho a porta. Momentos a sós e em silêncio têm ganhado a cada dia mais importância, como um exercício de me ouvir ou apenas descanso ou autocuidado. A televisão sem som me mostra vislumbres de séries que de tão repetidas nem me interessam mais. Desligo. O barulho do ventilador embala os pensamentos e, às vezes, as tentativas de não pensar. Inspiro profunda e lentamente e tento visualizar o azul do céu com meus olhos fechados. Expiro e a profusão de cores que explode em mim não se aquieta. Do meu remanso, percebo a azáfama diária: as vibrações do meu filho jogando ao computador, mamãe e seus afazeres na cozinha, a máquina de lavar roupas e seu ritmo compassado. Alguns acordes no violão dão sinal de que meu companheiro também está relaxando. Amplio os sentidos e percorro a vizinhança com a memória, ouvindo até o que não acontece no momento. O vizinho carrancudo que se derrete numa videochamada com as netinhas, uma furadeira e batidas de martelo mostram os eternos cuidados em uma casa próxima, a voz afinada da senhora ao lado em músicas gospel, alguns cachorros latem e logo chegam os gritos do menino da frente e suas descobertas chamando o pai repetidas vezes. Os entregadores e suas motos estrondam pela rua enquanto um pássaro muito sabido tenta quebrar uma semente em cima do muro. Pássaros não faltam e não param de comer as mudas que insistimos em plantar no quintal. Uns, até se alojam no terraço e nos fazem ter medo de perturbar os filhotes. Outros só nos visitam e despertam os dias com seu canto. O sino dos ventos se anuncia alegre e traz esperança de boas novas. Os sons do silêncio me acalantam. 

  • A telefonista

    Os números no visor do celular se fazem conhecidos. A primeira ligação foi num dia corrido de trabalho. Ignorei. Voltou a chamar numa manhã de sábado. A mulher do outro lado demonstrava um certo nervosismo e perguntou se podia fazer uma oração por mim. Sempre achei indelicado recusar uma palavra de fé independente de quem ofereça. A voz do outro lado começou a recitar profetas dos quais pouco ouvi falar. Logo depois tentou iniciar um diálogo, me fazendo perguntas respondidas com pouco entusiasmo. Agradeceu e desligou.

    No contato seguinte explicou tudo de novo, falou seu nome, que estava ligando para números aleatórios e perguntou se eu aceitaria ouvir algo da Bíblia Sagrada. Respondi que tínhamos nos falado antes e que, naquele momento, estava muito ocupada. Ao saber que não éramos completas desconhecidas, a mulher me disse animada que ligava depois.

    De lá para cá se passaram meses e as ligações continuam. Descobri que é da Igreja Testemunhas de Jeová, está perto de fazer 70 anos e que a pandemia a fez aprender a se ligar ao mundo e a Deus de forma digital. “Não brinque com essa doença, Ana, é muito grave! Eu mal saio de casa e sempre uso máscaras e álcool em gel”, me adverte, preocupada.

    Nos nossos vários contatos chegou a me acordar algumas vezes e até a invadir ressacas valorosas. Expliquei que não tenho religião, que não frequento igrejas, que acredito na Ciência. Outro dia, numa certa provocação, inverti os papéis e comecei a ler para ela trechos do Evangelho segundo o Espiritismo. Me escutou, curiosa, fez perguntas e disse que era interessante e voltou à palavra de seus profetas.

    Quando atendo, se mostra tão animada e feliz que fica difícil não ser atenciosa. “Bom dia! É Ana, é?”. Às vezes me chama de Aninha e dispara a recitar coisas de sua fé. Numa dessas, foi tentar explicar que Deus era tipo um cargo, como Bolsonaro ocupava o cargo de presidente. Logo depois me perguntou como eu imaginava o Paraíso. Respondi que não tinha muita ideia, mas a certeza de que Bolsonaro não estaria lá. Ela riu.

    Dia desses, ao me pegar tristonha, foi rápida em suas orações e, para minha surpresa, ligou no dia seguinte perguntando se estava tudo bem, que tinha ficado preocupada. É, semana que vem ela deve ligar de novo. Talvez seja a hora de salvar seu nome nos contatos.

    Ana Cadengue é jornalista

  • Será?

    A tela em branco me chateia e quase me hipnotiza do tanto que olho ao tentar achar palavras. Logo eu, que não paro a matraca, me pergunto meio cínica, mas também sem humor. Tédio? Cansaço? Ansiedade? Depressão? Cabeça a mil? As dúvidas se sucedem numa velocidade ímpar. “Administre sua crise!”, diz a voz de um antigo colega de sala da UnB daquele 1987. O conselho dado rispidamente magoou a princípio, mas me acompanha desde então. “Administre sua crise”, repito como um mantra, respiro fundo e acendo um incenso.

    A lembrança de Brasília traz uma enxurrada de memórias. Colegas, amigos e momentos que volta e meia sentam ao meu lado, trocam segredos ou bebem um vinho em silêncio. Sei lá, mil coisas. Era isso que dizia uma faixa de um protesto feito por nós estudantes de comunicação em frente ao Palácio do Planalto que tinha o presidente Sarney como ocupante. Saudades do Sarney, quem diria. E também do Itamar, do Fernando, do Luiz…

    Saudades da esperança, da juventude nas ruas, lutando pela democracia, por eleições diretas, por educação e saúde públicas e de qualidade. Gente como a gente que não desistia do sonho e ia à luta pelo que era melhor para todos. Fossem direitos trabalhistas, fosse acesso universal à saúde ou aulas noturnas nas universidades, permitindo que pobre também pudesse estudar e ter seu canudo.

    Cheguei a Brasília no dia em que a UnB entrou em greve, num fevereiro há 34 anos. Caloura e sem conhecidos, logo me engajei numa edição do jornal laboratório cobrindo o movimento grevista. Minha primeira matéria assinada e a oportunidade maravilhosa de conhecer gente da melhor qualidade que me acompanha até hoje mesmo à distância. Ah, ter 18 anos em Brasília… As melhores farras, noitadas, descobertas, pequenas viagens, livros, cinema, festas, amores, comidas, música, barzinhos, lutas. Quanta saudade de uma juventude linda, saudável, curiosa e solidária.

    Naquela cidade dita sem esquinas, tantos encontros. Brasileiros de todos os recantos. Estrangeiros que aqui chegavam para contar aquele momento ou recomeçar a vida num país que construía sua Constituição cidadã e se desenhava como Nação para o mundo. “Que país é esse?”, bradávamos sem medo dos generais de dez estrelas, sem medo de ser ou fazer. Agora, de novo sujeira pra todo lado, me pergunto se nada vai acontecer, se nos perderemos entre monstros de nossa própria criação ou se ainda vamos conseguir vencer?

  • Manhã de Carnaval

    “Manhã, tão bonita manhã…”. Enquanto os versos de Antônio Maria ressoam, as memórias despertam céleres e misturam histórias e fantasias de carnaval.

    A menina pirata olha pra mim feliz e me faz duvidar que este ano não haverá carnaval. Sério? E minhas fantasias? Que faço com a vontade de sair de mim, de cantar a altos brados, dançar sem vergonha de ser vista e sentir que, sim, “minha carne é de carnaval”, como diria o Moraes?

    Se alguém, em meus piores pesadelos, dissesse que não haveria carnaval em  algum momento, confesso, talvez não o levasse a sério. Uma coisa é não querer festejar, outra é curtir entre poucos, alguns hão de dizer que não gostam da festa, mas desejam o feriado. Sem carnaval não há quem. Imagino. Ou melhor, espero.

    Já fui havaiana, Pedrita, marinheira, palhaça, borboleta, cigana… Me cobri de brilhos, retalhos, adereços, cores, bandeiras. Cantei frevos, sambas, axés e tudo o que me levasse ao enlevo.  Saí de mim.

    Festa pagã, dizem alguns. Cristã, bradam outros. Carne Vale, adeus à carne, como traduz o latim, ou a festa da carne como acreditam os profanos. Não sei. Só sei que me dá um negócio, um freviado na alma. Não importa se eu esteja em Natal, Recife, na Usina, em Olinda, Tibau, Mossoró… Não importa mesmo. O carnaval acontece em mim, constato.

    Decorei a casa. O terraço só, para ser sincera. Comprei umas fitas metalizadas, juntei antigas fantasias, uma coisinha aqui, outra ali e já me vi em festa.

    É, me desculpe quem não gosta, quem não vê motivos para celebrar, quem só critica tudo mesmo, quem está triste. Mil desculpas. É carnaval. Em casa. A folia sou eu.

  • Despertar

    Abro os olhos e antes mesmo de saber onde estou ou que dia é, antes ainda que a vida me alcance ou que algum pensamento me visite, me inundo de paz. O som dos ventiladores não corta o silêncio, apenas dá ritmo ao momento diário. Inspiro lenta e profundamente e começo a perceber a claridade que se insinua entre as cortinas. Vejo a TV desligada e constato que o espaço ao meu lado na cama está vazio. Me aninho preguiçosamente entre lençóis e travesseiros e tento lembrar sem muito empenho o que tenho pela frente. Trabalho? Afazeres domésticos? Lazer? Fito o teto e os olhos míopes garantem que a manhã não se revele por inteiro. Talvez fosse melhor saber das horas. Enquanto a mão tateia em busca do celular, a mente teima em voltar para o casulo. Seria tão bom estar no mar, deitada languidamente enquanto as marolas massageiam meu corpo. É lá que me encontro com os deuses, que converso com Deus, que paro de pensar. Gosto do silêncio. Mais, preciso dele para tentar organizar meu caos interior. O mostrador do relógio digital avisa que o tempo se esvai. Começo alguns alongamentos enquanto luto contra a vontade de esquecer o mundo e continuar em meu ninho.  Estendo o braço, pego o copo na mesinha lateral, tomo bons goles d’água e é hora de levantar. Que seja um bom dia. 

    Ana Cadengue é jornalista

  • Feliz Natal!

    As luzinhas piscando em árvores, casas e varandas me enlevam assim como as tradicionais canções de Natal. O bater do sino, que nunca ouvi das igrejas, ressoa em mim e desperta uma emoção que só não é única por ser tão presente.

    O período natalino ou das festas, como dizem, devia mesmo ser de festa para todos. Sei que milhões sofrem as feridas da desigualdade social, outros carregam chagas na alma. Muitos nunca se comovem, o que eu não sei se é sofrimento ou castigo.

    Habita em mim uma criança que até hoje se deslumbra com as luzes de Natal e, creiam, acredita em milagres. Uma menina de laço de fita no fino cabelo que corria solta na velha Usina Santa Terezinha, em Pernambuco.

    Era para lá que íamos nas festas. Família toda reunida numa grande, amorosa e bagunçada congregação. Presentinhos de todos para todos. Mimos e lembranças que faziam a alegria da criançada.

    Quando as vacas não eram magras, ganhávamos pequenas quantias e disparávamos para a praça onde um parque com todas as suas maravilhosas atrações nos roubava o fôlego, arrancava risadas e levava todos os trocados.

    Ao invés da roda-gigante, proibida por mamãe, e dos “perigosos” barcos, gostava mesmo era das barracas que tivessem prendas. Pescaria, jogo de argolas, tiro ao alvo. Passava a noite ganhando brindes para presentear os meus queridos.

    E lá ia eu, para casa e de volta para a festa na praça, carregando sabonetes, caixas de pastas de dente Kolynos e pequenos espelhos e pentes me sentindo a própria menina Noel ao presentear a todos com o coração transbordando de alegria. 

    Tem gente que se sente solitária nesta época. Eu raramente me sinto só porque carrego em mim momentos incríveis e uma quantidade imensa de gente que me fez feliz por um segundo ou uma vida inteira. Velhos amores, amizades eternas, familiares que se foram.

    Eurico, avô paterno que nunca conheci, mas que dança comigo quando leio seus poemas. Minha avó Cicy que me legou tanto, da aparência à receita de rabanada.  Do meu avô Amarino, doce apesar do nome, tantas boas lembranças com gosto de manga espada e cheiro de capim-santo. 

    Da minha avó materna, Paula, levo o nome e uma excitação que quase nunca cessa. Dona Mariinha, minha sogra querida, que me ensinou resiliência. Luis, ah, Luis… seu imbecil amado. 

    E o meu pai que fazia da vida uma festa. Hoje ele estaria na cozinha preparando o peru ou um frango, o que o dinheiro permitisse, cheio de animação, ouvindo música e inventando temperos. Em alguns momentos, os olhos dele estariam cheios de lágrimas, assim como os meus enquanto escrevo. Quanta saudade, meu pai.

    A menina que mora em mim já não usa laço de fita, mas ainda corre e olha deslumbrada para a festa. E enche as mãos de presentes e sonho e alegria. Quisera estar agora mesmo lhe entregando um sabonete barato, uma pasta de dentes ou um espelhinho que conseguisse refletir um pouco do que sinto… 

    Feliz Natal!

  • We are the champions

    “I’ve paid my dues time after time, I’ve done my sentence but committed no crime, and bad mistakes, I’ve made a few…”. Mal começa a canção que o professor de meu filho colocou no grupo de WhatsApp da sala deles e eu caio num choro sentido. É verdade, Lucenildo, nós somos os campeões. Vocês, professores, mais que muitos. Se reinventaram e não deixaram a peteca cair, conseguindo manter a atenção e o aprendizado da garotada. Os meninos e meninas, então… Ai, nem sei o que falar. O nó sobe à garganta e as lágrimas não me deixam escrever.

    Que ano difícil, Senhor! Quantos e imensos desafios. Manter o corpo são e a mente o menos enlouquecida possível não tem sido tarefa fácil para ninguém. A gente disfarça.
    Olho ao redor e vejo os preparativos para celebrar Natal e Ano-Novo e mais uma vez me emociono. Eu sei, sou chorona mesmo. Até comerciais de margarina me fazem derreter, que dirá as pessoas nas ruas, com fome, tentando alguma forma de sobreviver com um mínimo de dignidade.

    Nas redes sociais, depoimentos de quem sobreviveu e de quem perdeu entes queridos para o Sars-Cov-2. Também perdi alguns. E soube ontem, ao receber o resultado de um exame de sorologia que todos fizeram no trabalho, que tive Covid-19. Enquanto murmuro preces de agradecimento por não ter sofrido com essa terrível doença, peço perdão aos céus por aqueles que posso ter contaminado sem querer. Eu não tive sintomas. Perdão!

    Quem vê corre e minha cara de quem finge ser brava nem imagina que, como Saramago, tenho um coração de carne que sangra todos os dias. E torce e chora pelos outros. E dá gargalhadas. Porque se existem duas coisas que eu não quero perder nunca é a capacidade de rir — de mim mesma e de tudo — e a esperança.

    We are the champions, my friends, já cantou meio desafinado o professor. Tá certo ele. Vamos em frente. Respira fundo e renova a vida dia a dia, momento a momento. O sol há de brilhar mais uma vez e eu sempre espero luminosas manhãs.

    Ana Cadengue
    Jornalista