Últimas histórias

  • O LAMENTÁVEL FIM DO BOCA LIVRE

    A música popular brasileira está mais pobre. O Boca Livre acabou. Grupos musicais não duram eternamente e geralmente se desfazem por divergências artísticas, disputa por espaço, problemas financeiros e relacionados com a própria atividade. Acabaram os Beatles, Oasis, RPM, Secos & Molhados, só para citar alguns muito conhecidos. Não foi o caso do Boca Livre.

    O grupo surgiu em 1979, fundado por Maurício Maestro, músico que já fizera parte do Momentoquatro junto com o saudoso Zé Rodrix e com trabalhos de arranjos aplaudidos e com sucesso para, por exemplo, Marcos Valle. Juntou-se com o também maestro David Tygel, que também fizera parte do Momentoquatro, Cláudio Nuccci, o afinadíssimo Zé Renato e simplesmente explodiram em todas as FMs do Brasil com a canção Toada (Na direção do dia), numa gravação independente e produziram ao longo de 40 anos trabalhos primorosos, além de gravarem junto com nossos melhores artistas.

    De quem foi o mérito do sucesso de Toada, uma música que já havia sido gravada por nossa Terezinha de Jesus e passado despercebida? Exatamente de Maurício Maestro, que buscou na bela voz de Zé Renato a base para um arranjo primoroso para uma bela mas simples canção. Assim foi também com Quem tem a viola, outro sucesso do mesmo disco, que contava também com a gravação de Feito Mistérios, composição mais sofisticada, parceria de Maurício Maestro com Joyce.

    O tempo passou, Claudio Nucci saiu do grupo e foi substituído posteriormente por Lourenço Baeta, Zé Renato gravou vários trabalhos individuais e um em parceria com Cláudio Nucci e, sem a obrigação de gravar um disco anualmente, o Boca Livre seguiu sua carreira de sucesso entre pessoas de bom gosto.

    Aí o Brasil mudou e um radicalismo político doentio dividiu as pessoas em dois grupos, nós e eles e a convivência de contrários ficou quase impossível, se acentuando ainda mais com a eleição do presidente Bolsonaro. Somos todos bandidos, uns petralhas, ou seja, ladrões, liderados por um molusco contagioso, outros, fascistas, liderados por um louco torturador. A polarização atingiu todas as áreas, até as relações pessoais e com o crescimento das redes sociais tem gente que gasta a maior parte de seu tempo tripudiando dos adversários, inclusive usando notícias falsas e fabricadas, os chamados fake News.  Não é coisa de país educado e desenvolvido.

    No meio artístico, tradicionalmente dominado por pessoas com ideias à esquerda, as rupturas começaram a ocorrer. Problemas sempre aconteceram. Roberto Carlos, o “nosso rei”, que acaba de completar 80 anos, sempre foi acusado pela esquerda de ser direitista e omisso, como se ele não tivesse direito a isso. Esqueceram-no. Caetano Veloso quando gravou Odara (deixe eu dançar pro meu corpo ficar Odara…) foi patrulhado pois como vivíamos uma ditadura, “era proibido ser alegre e dançar”. Mas a intolerância era menor. Hoje,  as pessoas tem até medo de colocarem um adesivo no seu carro e serem vítimas de depredação.

    Pois é. O Boca Livre não existe mais e teve até gente aplaudindo o seu fim. É porque não  gostam da boa música ou, pelos menos, não colocam o prazer de apreciá-la acima de convicções politicas. Talvez, na situação que estamos vivendo, haja até emissoras de rádio que deixe de executar suas gravações para evitar que os direitos vão para Maurício Maestro, que é o detentor da marca Boca Livre.

    Eu, por minha vez, vou continuar ouvindo-os e apreciando-os e vou continuar guardando com carinho os seus cds que possuo e espero que todos eles encontrem seu caminho e continuem fazendo sucesso pois talento eles tem de sobra, o que não tiveram, e muito gente no Brasil vem sofrendo da mesma síndrome, foi a tolerância para a convivência.

    Quanta mediocridade!

    Não bastasse o Covid…

  • A DIFUSÃO DO SOM

    O filósofo Friederich Nietzshe disse que sem música a vida seria um erro e a música é companheira, alento e terapia para muita gente.

    Mas como a música chega até nós?

    Imagine-se um tempo em que não havia tecnologia para o armazenamento! Assistia-se a um concerto, a uma exibição pública ou privada e o local do armazenamento do som era exclusivamente a memória.

    Em 1877 o gênio Thomas Edison inventou o cilindro fonográfico e o fonógrafo, a primeira forma de armazenar e reproduzir os sons da música. Muitas outras mídias vieram depois com a evolução da tecnologia, os discos planos de cera e vinil, as fitas magnéticas, os cds.
    Em outubro de 2004, eu estreei nas páginas da revista PAPANGU com um artigo com o título PARA ONDE VAI A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA, àquela época tendo como principal produto o cd e assolada pela pirataria.

    O tempo passou e, ao reler o artigo, tem-se a impressão de que tudo vem virando poeira com o avanço da tecnologia. A própria PAPANGU no papel já não existe.

    Naquele tempo já existia o comércio de downloads, a coisa foi evoluindo e o armazenamento e a forma de difusão da música é hoje quase que exclusivamente digital, com o streaming, a distribuição digital sem a necessidade de downloads. Fora isso, somente as velhas emissoras de rádio, com a programação quase igual, de má qualidade e sem novidades.

    Um simples smartphone na mão de um cidadão substitui o velho radinho de pilha e o toca-discos, com a diferença de que se escolhe o que quer ouvir, onde estiver, algumas com pagamento de assinatura e outras sem pagar absolutamente nada. Plataformas digitais como Spotify armazenam milhões de gravações de todas as épocas, de todos os lugares, de todos os gêneros.

    O cd virou um fetiche, um artigo para colecionador e a indústria fonográfica que inclui não apenas os artistas mas uma infinidade de técnicos, tenta se reinventar para não sucumbir, inclusive com a volta dos velhos discos de vinil.

    E a vida para novos artistas, como é que fica? Sem o esquema de divulgação das gravadoras, sem a difusão na televisão e no rádio, com o encolhimento da crítica especializada, cada vez mais difícil.

    Em todos os lugares, do Oiapoque ao Chuí, temos gente produzindo música da melhor qualidade mas seu reconhecimento fica restrito a um nicho, uma região onde tem a oportunidade de mostrar seu trabalho. E quando os grandes nomes de nossa MPB quase todos na casa dos 70 anos desaparecerem, quem vai substituí-los? Nunca mais teremos um “cantor das multidões” como Orlando Silva, nem um “rei” como Roberto Carlos.

    A propósito, vocês conhecem Ninah Jo, Toni Ferreira, Ayrton Montarroyos, Ze Manoel? São novos com trabalhos que valem a pena se conhecer.

    Enquanto isso, o veterano Matheus Aleluia, com 76 anos, continua produzindo pérolas com sua voz metálica de deus negro e o baiano Antonio Carlos Tatau produz seu primeiro e excelente disco aos 61 anos de idade. Não deixem de ouvir!

    DAMIÃO NOBRE é médico e escritor

  • A ESTRELA, O DOUTOR, O FÃ

    Foto: Canindé Soares

    Somente aos 17 anos descobri minha vocação para a medicina. Antes, nunca havia proferido a frase que boa parte das crianças diz logo cedo,  quando crescer vou ser médico. Com 67 anos de idade e 42 de profissão, procuro fazer o meu trabalho como se fosse o primeiro dia, com disposição, ética e humanismo.  Às vezes, não é fácil, porque lidamos com seres humanos, com todo tipo de comportamento numa sociedade competitiva, consumista, desrespeitosa e egoísta mas, quase sempre vale a pena.  

    Tive alguns clientes importantes entre políticos, empresários, intelectuais, artistas mas o grosso de minha clientela sempre foi feita de pessoas simples, humildes e, com o perdão dos demais, é com quem mais eu me identifico.

    A profissão nos reserva surpresas, algumas agradáveis e, infelizmente, às vezes desagradáveis, mas o saldo é bem positivo. Ser médico é um privilégio.

    No dia  3 de fevereiro de 2020, por volta das 16 horas, entrou em meu consultório uma velhinha de 94 anos, bastante maltratada pelo peso da idade, com as curvas das linhas do sofrimento estampadas no rosto, curvada, andando com muita dificuldade e auxiliada por um tipo de bengala e por uma pessoa que se tratava de seu neto. Chamava-se Maria de Oliveira Queiroz.

    – Ai doutor, me ajude!

    Foi debulhando então um rosário de queixas que incluíam praticamente todos os aparelhos e sistemas, problemas ósseos, gástricos, intestinais, neurológicos, dores diversas. Enquanto ela falava, meus olhos não desgrudaram de seu rosto e depois de tê-la chamado por duas ou três vezes de D. Maria, eu a reconheci e mudei o tratamento, ela era Glorinha Oliveira, o Rouxinhol Potiguar, a maior cantora que o Rio Grande do Norte já teve.

    – Glorinha, a partir de agora, vou chamá-la pelo seu nome artístico, eu sou um amante da boa música, eu sou seu fã, eu tenho seus cds autografados e estive em shows seus. É uma honra atendê-la e espero poder ajudá-la.

    A partir daí, foi uma conversa não apenas técnica mas entre amigos e ainda tive o prazer de abraçá-la  ao final da  consulta pois àquela altura, a pandemia do Covid ainda não havia começado.

    Solicitei uma Endoscopia digestiva alta que ela ficou de fazer e retornar e saiu um pouco mais feliz do que entrou.

    Ao chegar em casa tirei da estante o cd Glorinha Oliveira entre amigos e ouvi Mulata Rosinha, uma das mais belas canções de seresta que eu conheço em sua voz límpida e perfeita. Guardei o encarte na bolsa que conduzo para o trabalho para mostrar-lhe a relíquia autografada no dia 19 de março de 2003. Carreguei o encarte por mais de um ano, o tempo passou, veio o Covid e ela não voltou.

    Glorinha Oliveira foi nossa maior estrela na era de ouro do rádio, um ídolo com fã-clube. Encantou gerações, mas como permaneceu radicada em Natal numa época em que não tínhamos estúdios de gravação, deixou poucos registros de sua bela voz. Recusou convites para morar no sul-maravilha e virar um nome nacional. Foi, além de cantora, rádio-atriz, produtora, compositora.

    A velhice pode ser dolorosa, difícil,  humilhante e ela o foi para a notável Glorinha Oliveira. Em 23 de fevereiro de 2001, depois de muito padecimento, ela nos deixou e fica a saudade e ficam os belos registros de sua voz.

  • VANUSA E A MALDIÇÃO DE ANTÔNIO MARCOS

    O Brasil não sabe que no dia 8 de novembro de 2020 perdeu uma de suas maiores cantoras. Sim, a maioria dos brasileiros, especialmente os mais jovens, vai lembrar de Vanusa às gargalhadas pelo lamentável episódio ocorrido em 2009 em que, doente e sob o efeito de medicamentos, errou a letra do hino nacional em uma cerimônia. Que bom que o tema da redação do ENEM tenha sido “O estigma associado às doenças mentais na  sociedade brasileira”, talvez assim se mude o comportamento pois naquele momento a grande cantora era apenas uma sombra do que era, uma pobre doente carecendo de cuidados e carinho.

    Vanusa entrou na MPB pela porta da Jovem Guarda em 1968 mas logo no primeiro disco mostrou que não era uma Martinha, uma Rosemary, nem mesmo uma Wanderléa, pois na estreia aparecia como compositora e incluía temas políticos como o racismo e elementos de black music. Neste disco, ganhou as paradas com Pra nunca mais chorar, de seu padrinho Carlos Imperial em parceria com Eduardo Araújo e a regravação de Mensagem, antigo  sucesso de Isaura Garcia.

    Em 1971 casou com Antônio Marcos, de quem já gravava composições e com ele teve as filhas Aretha e Amanda. Teve outros casamentos como o com Augusto César Vannucci, mas o grande amor de sua vida foi mesmo o “ébrio louco” Antônio Marcos, cuja convivência relatou em livro.

    Morreu como mais uma vítima da “vida de “artista”, como Elis Regina, Raul Seixas, Cazuza, Sérgio Sampaio, Noel Rosa, a vida que leva do céu ao inferno em pouco tempo, relacionamentos conturbados, álcool, drogas . Gravou Milton Nascimento, João Bosco, Fagner, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Belchior e uma versão do mega-sucesso de Gloria Gaynor ,I will survive. Vanusa foi ousada e mexeu em preconceitos como os  contra os negros e as mulheres e bebeu nas fontes do Tropicalismo e do psicodelismo.

    2015 foi  o ano em que saiu seu último trabalho, VANUSA SANTOS FLORES, produzido por Zeca Baleiro. Já bastante doente, foi um trabalho difícil que só um fã como Zeca poderia fazer mas é um belíssimo disco de despedida. Nele, entraram composições suas, de Zé Ramalho, de  ngela Ro Ro e a melhor gravação de Esperando aviões, o já clássico de Vander Lee, onde um flugelhorn acentua o tom melancólico da composição e Vanusa extravasa sua dor. A presença de Zé Ramalho nos recorda que ela foi a primeira a gravar Avôhai, em 1977 como foi a primeira a gritar pelos ares “teu infinito sou eu”, da antológica Paralelas, de Belchior. Como compositora teve grandes sucessos como Mudanças e Manhãs de setembro.

    Foi Antônio Marcos o homem que mais marcou a vida de Vanusa, como marido e como compositor. Falecido aos 46 anos de idade, vítima de cirrose alcoólica, conta Vanusa em seu livro que ele acordava às 10 da manhã, abria um litro de uísque e tomava pelo gargalo. Apesar de deixar belas composições como Você pediu e eu já vou daqui e Como vai você, revividas por Nando Reis, Gaivotas, feita para Roberto Carlos, a quase desconhecida Registro Geral, com um pungente texto declamado, Coração Americano, parceria com Fagner e Sonhos de um palhaço, feita com seu irmão Mário Marcos, estas duas, grandes sucessos de Vanusa, Antônio Marcos ficou marcado como o brega de Menina de trança.

    A maldição parece ter sido transmitida a Vanusa que, além de não ter recebido o merecido reconhecimento, ficou marcada pelo lamentável episódio do hino nacional e veio a falecer exatamente no dia em que Antônio Marcos faria 75 anos.

    Damião Nobre é médico.