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SAUDADE DE RENATO BARROS

À minha frente RENATO BARROS Um mito! Uma lenda! É um calhamaço de 644 páginas e não é um bom livro. Por exigência do próprio biografado, a publicação saiu sem ter uma edição e se torna repetitiva, cansativa e muito longa. É uma espécie de longa entrevista dada pelo músico a Lucinha Zanetti, com acréscimo de outras falas, recortes de jornais e revistas, levantamento de discografia e alguns depoimentos.

Se às vezes depende de um esforço para continuar a leitura, serve, pelo menos, para se concluir que o biografado é um dos maiores, senão o maior dos personagens do rock nacional. Exagero? Não. Seria falso falar de Renato como um nome da Jovem Guarda, pois isto se trata apenas de um rótulo criado para denominar um programa surgido em 1965 para juntar Roberto Carlos e sua turma, leia-se Erasmo e Vanderléa, quando a música existia há alguns anos, o rock nacional, com Cely e Tony Campelo, Ronnie Cord e muitos outros. Renato inclusive não gostava de ser relacionado com a Jovem Guarda pois participou poucas vezes do programa e saiu por vontade própria.

A banda Renato e Seus Blues Caps, da qual foi fundador e líder até seu falecimento em 28 de julho de 2020, foi entre tantas coisas a responsável pela chegada da música dos Beatles no Brasil pois quando o primeiro disco da banda inglesa chegou ao conhecimento dos brasileiros, Renato já estava nas paradas de sucesso com Menina linda, versão de I should have no a better. Conheci os Beatles através de Renato e a maioria dos de minha geração pode dizer o mesmo.

Quando falo saudades de Renato é porque tive o prazer de conhece-lo e, pelo menos por duas vezes, desfrutar de sua companhia por longas horas em que conversamos e ele tocou com prazer. Nessas ocasiões, nada era do seu repertório, preferia bossa nova e blues. Em uma das vezes, tomamos um porre homérico durante uma jam session que ele nos proporcionou. Simples, bom papo, nessas ocasiões Renato só parava de tocar quando lhe tomávamos o instrumento.

Mas porque Renato é um dos maiores músicos de rock da história de nosso país? Vamos aos fatos. A banda surgiu em 1959 e permanece em atividade mesmo depois da perda de seu líder. Teve dezenas de canções nas paradas de sucesso durante todos esses anos. Renato foi cantor, compositor, tocou múltiplos instrumentos, produtor musical e arranjador. Foi ele quem inventou uma batida denominada de cha cum dum, mistura do rock com o bolero que abrasileirou o toque dos Beatles, pois ninguém conseguia fazer igual a eles. O seu tocar está presente em muitos dos artistas da atualidade, como Lulu Santos, Kid Abelha, Nando Reis, Vanguart e até na produção de Rita Lee com Roberto de Carvalho. Tem mais. O som que se ouvia nos discos de Roberto Carlos durante a Jovem Guarda era do grupo Renato e seus Blue Caps, que também acompanhavam as gravações Erasmo Carlos (que fez parte da banda), Vanderléa e Jerry Adriani, entre outros.

Renato morreu levando mágoas de nunca ter sido reconhecido pelo trabalho e pelo seu valor, pois quando se fala de Jovem Guarda, geralmente só se fala do trio Roberto, Erasmo e Vanderléa. Era um grande músico e compositor, às vezes com harmonias sofisticadas como a que se ouve em Nós dois e, apesar de ter produzido brega, tinha bom gosto, tanto que incluía
Tom Jobim em seus shows, compositor que considerava do maior do mundo.

Renato se foi e deixou um pedido: “Não gostaria de ser lembrado como roqueiro ou como um simples artista da Jovem Guarda… Foram portas que se abriram… foram importantes, porém não refletem a minha verdade. Gostaria de ser lembrado como “homem da música”, independente de gêneros musicais.

Escrito por Damião Nobre

Sábado à noite

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