Últimas histórias

  • NÃO FOI ASSIM

    O jornalista paraense Ruy Godinho publicou quatro volumes da série ENTÃO, FOI ASSIM? livros onde compositores relatam, em entrevistas com o autor, como foram compostas algumas das mais conhecidas de nossas canções, desfazendo muitas versões falsas, algumas delas circulando na Internet.

    Na edição anterior da PAPANGU, me reportei a fakes, falsas notícias veiculadas nas redes sociais e, se retorno ao tema, é porque este assunto é bem interessante.

    São famosos os versos de Fernando Pessoa “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que às vezes finge que é dor a dor que deveras sente”. É sempre bom ter em mente o poder da criação e não interpretar de forma simplista a obra para não cair em armadilhas. Nem sempre a canção é baseada em um fato, muitas vezes é baseada em uma só palavra, em uma rima, em um sonho, em uma suposição.

    Irei me reportar a dois grandes sucessos de décadas que ainda tocam hoje em dia, um na voz de Tim Maia e outro de Djavan, embora existam outras gravações, todas duas com histórias que circulam nas redes sociais, ambas de conteúdo mórbido.

    A primeira das canções é GOSTAVA TANTO DE VOCÊ, composição de Edson Trindade, cuja primeira gravação foi de Tim Maia, no ano de 1973. Circula na Internet uma versão de que a canção teria sido composta por Tim Maia ou por Edson Trindade para homenagear uma filha que teria falecido em tenra idade. A composição é de Edson Trindade, músico já falecido, que tocou com Erasmo Carlos no grupo Snakes, no final da década de 1950 e com Tim Maia. Segundo Erasmo, em sua biografia MINHA FAMA DE MAU, quando relata que foi exatamente Edson Trindade quem o levou para a música, a música poderia ter sido composta por Edson em virtude de uma briga com a namorada, com quem viria a casar depois. Há versões circulando na Internet falando em depoimento da própria viúva de Edson confirmando a versão de Erasmo mas nada de 100% concreto. O certo é que não há confirmação dessa suposta filha de Edson que teria morrido precocemente e muito provavelmente foi apenas um desabafo depois de uma simples briga de namorados.

    Parece, no entanto que a morbidez toma conta das interpretações da feitura das canções, tanto que o compositor Paulinho Pedra Azul já teve que desmentir várias vezes que não existiu uma noiva que ele perdeu e para quem teria composto sua mais famosa canção, JARDIM DE FANTASIA. Essa história circulava já antes do advento das redes sociais.

    Outra versão mórbida e fantasiosa que também circula na Internet, essa já desmentida pelo autor, é a de FLOR DE LIS, um grande sucesso de Djavan, incluído em seu primeiro disco, datado de 1976, que por conta dos versos finais “do pé que brotou Maria nem margarida nasceu”, ganhou também uma versão mórbida e fantástica.

    Como circula na Internet, a canção teria sido composta pelo artista alagoano para uma namorada que teria morrido em consequência de um aborto. Já vi Djavan desmentindo e ficando arrepiado ao comentar essa história, mas a verdade é que tem gente para imaginá-las e colocar na Internet para despertar sentimentos.

    Tem ainda uma outra história envolvendo O MUNDO É UM MOINHO, clássico de Cartola,  e considerada uma das mais belas canções da nossa música popular. Mas isso já é outra história e deve merecer uma outra crônica. Até a vista!

  • O IDIOTA DA ALDEIA E OS FAKES

    O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a dono da verdade, disse o escritor Umberto Eco ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim, na Itália.

    A existência das redes sociais, entre outras coisas, permitiu que a mentira se espalhasse com mais velocidade e abrangência do que antes e tudo pode ser divulgado através de algo reconhecido hoje como viciante e manipulador. Não que a imprensa tenha sido sempre honesta e imparcial mas hoje, com milhões de jovens e crianças com um aparelho na mão e acesso ao que nele foi introduzido, chega a ser preocupante a disseminação dos chamados fake news.

    Não há como confiar nas redes sociais e quem o faz pode se arrepender profundamente ao difundir aquilo em que acreditou e não teve o cuidado de verificar a veracidade. Difundem-se artigos, crônicas, opiniões, como tendo sido escritos por escritores famosos como Gabriel Garcia Marques, Vinicius de Moraes e Luis Fernando Veríssimo que não foram escritos por nenhum deles. Fatos políticos são deturpados e veiculados de acordo com o interesse do usuário, gerando brigas e brigas.

    O documentário da Netflix O DILEMA DAS REDES merece ser visto pois esclarece e desfaz mitos e mostra que há um verdadeiro batalhão de profissionais à disposição das redes, encarregados de disseminar a mentira e manipular o usuário. Em determinado momento, um ex-executivo dessas redes diz que há apenas dois negócios que classificam sua clientela como usuário, as redes sócias e as drogas.

    Na área da música popular, os erros são criminosos. Já encontrei em vários livros publicados sobre o assunto, erros gritantes, especialmente no que se refere à autoria de canções, tendo em vista que os autores, na hora da citação confiarem no google, que serve para tudo. Qualquer pessoa que sente uma dor de cabeça ou uma coceira no nariz procura logo Dr. Google e já chega no médico com um diagnóstico.

    No campo da música popular os autores das canções são quase sempre substituídos por seus intérpretes. Cidadão (Tá vendo aquele edifício, moço), de autoria de Lúcio Barbosa, aparece como sendo de Zé Ramalho; Gostava tanto de você, de Édson Trindade, aparece como sendo de Tim Maia, Chalana, de Mário Zan e Arlindo Pinto, aparece como sendo de Almir Sater e A natureza das coisas (aquela da burrinha da felicidade) de Accioly Neto, aparece como de Flávio José. Sites de letras de música e cifras também comete os mesmos erros.

    Se neste campo inofensivo, as redes sociais e sites disseminam inverdades, imagine-se no campo da política, da saúde,  da economia. Estamos no mato sem cachorro. Frequentemente recebo ligações de amigos que se interessam por música para dar informações e dirimir dúvidas mas, para quem gosta e procura um site de confiança, recomento o IMMuB, uma organização voltada para a preservação e promoção da música popular brasileira. Há o costume de se dizer que somos um país sem memória e já é tempo de dela cuidarmos e reconhecermos que música é cultura e retrato de um povo.

    Tem uma outra coisa que é a divulgação de histórias mentirosas que tentam explicar como nasceu uma canção, ninguém sabe de onde parte, mas isso é assunto para outra conversa. Enquanto isso, continuemos ouvindo música de boa qualidade para enriquecer nossas vidas e ajudar a atravessar o tempo negro porque o mundo passa há mais de um ano. Saúde!

  • REVISITANDO ROBERTA SÁ

    Em julho de 2005, publiquei na Papangu uma crônica intitulada UMA CANTORA POTIGUAR, saudando o primeiro CD de Roberta Sá – BRASEIRO. Quinze anos se passaram e, para nosso contentamento, a artista consolidou sua carreira como um dos mais importantes nomes da MPB, já contabilizando quase uma dezena de discos.

    Para refrescar a memória, vale lembrar que Roberta Sá alcançou visibilidade quando em 2002 participou do programa FAMA da Rede Globo de Televisão e, a partir daí, só fez crescer, convivendo com a fina flor da música popular brasileira. Agora, sua primeira gravação, feita sob encomenda para ser distribuída como brinde por uma empresa multinacional, chega ao esquema de comercialização com capa sofisticada e com o título de SAMBAS & BOSSAS.

    Nada mais justo pois o trabalho já revelava o bom gosto e o requinte que tem sido a principal característica de nossa cantora. Passeando por um repertório que vai de Nelson Cavaquinho a Chico Buarque, passando por Cartola e Tom Jobim, Roberta já se impunha como intérprete e o disco não poderia ficar apenas na mão de poucos privilegiados que talvez nem deem o devido valor pois nem sempre aficionados de música popular de qualidade.

    Durante estes quase 20 anos, Roberta Sá compôs, gravou, fez shows, produziu, apresentou programas na televisão, fez lives durante a pandemia e sempre se fez acompanhar dos maiores nomes de nossa MPB. Já no disco BRASEIRO, Ney Matogrosso e o grupo MPB-4 faziam participações e, com o correr do tempo, ela dividiu gravações com Gilberto Gil, que compôs um disco inteiro para ela, Jorge Benjor, Chico Buarque, Martinho da Vila, variando de estilo mas com característica bem própria, se impondo também pela simplicidade e simpatia com que sempre se conduziu.

    É quase impossível pinçar no seu repertório canções e discos que melhor a representem mas, particularmente, considero seu disco QUANDO O CANTO É REZA, de 2010, gravado com o Trio Madeira Brasil, seu melhor trabalho. Roberta Sá foi buscar no repertório de Roque Ferreira, o sambista baiano, um dos compositores preferidos de Maria Bethânia, treze preciosas composições com as características do samba produzido na Bahia fazendo a gente pensar nos versos do poetinha que dizia que “o samba nasceu lá na Bahia e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração”.

    Roberta sá ainda tem muito para dar e provoca reviravoltas em sua carreira, sem nenhum medo de errar, gravando dos jovens aos antigos e mostrando para as novas gerações que existe música de qualidade e que para fazer sucesso não é necessário apelar para a música de consumo fácil, facilmente esquecida.

    O termo música popular brasileira surgiu em 1965 com a realização do primeiro seu primeiro festival e a sigla MPB foi usada inicialmente para denominar uma música dita de protesto e com conteúdo social, se desvirtuando com o passar do tempo, chegando a englobar o pop e o folclore mas, durante estes 56 anos de sua existência, Roberta Sá é nossa primeira representante como intérprete de longa penetração pois só tivemos artistas de sucesso nos gêneros pop e brega. E que representante!

  • A BOA MÚSICA POTIGUAR

    Você conhece Yrahn Barreto, Geraldo Carvalho, Genildo Costa, Helder Gomes, Mariano Tavares, Lysia Condé, Arthur Porpino, Igapó de Almas, Pietá, Orquestra Greiosa, Skarimbó, Rosa de Pedra, Ângela Castro, Clara Menezes, Brinquedo Rico?

    São ilustres desconhecidos da música potiguar. Sim, ilustres porque produzem música da melhor qualidade e desconhecidos porque são conhecidos apenas pelos amigos e familiares, por quem é do ramo e por quem vive plugado na FM Universitária de Natal, a 88.9, a única que toca estes artistas.

    São talentos que cantam em pequenos ambientes, dão aulas de música ou fazem outra coisa para sobreviver. Imaginem como estão vivendo neste tempo de pandemia!

     O Rio Grande do Norte sempre teve grandes músicos e compositores, o problema é que artistas de público da denominada MPB com fama nacional, passamos décadas sem ter, até que apareceu Roberta Sá, mas isto já é outro assunto.

    Há outros mais antigos como Pedrinho Mendes, Babal (parceiro de Geraldo Azevedo) e Mirabô, que só veio gravar seu primeiro Cd com 70 anos de idade. Ilustres desconhecidos!

    O rádio surgiu no Brasil em 1922 mas foi dos anos 1930 a 1950, denominada A Era de Ouro do Rádio, que a radiodifusão atingiu uma importância muito grande e quando a música ocupou um espaço extraordinário com a descoberta e divulgação de grandes ídolos, os reis e rainhas do rádio. Havia rádios de grande potência, com alcance nacional e outras com alcance apenas local mas mesmo estas foram importantes na difusão da música. Se a Rádio Nacional tinha Orlando Silva, Marlene e Emilinha Borba, a Rádio Educadora de Natal tinha Glorinha Oliveira e a Difusora de Mossoró tinha Aldenora Santiago, ídolos dos programas de auditório que desapareceram no final da década de 60, sendo substituídos pelos de televisão. Foi quando sumiram os ídolos regionais, que deixaram muito pouca coisa gravada pois,  à época, as grandes gravadoras se concentravam no Rio e São Paulo.        

    As coisas foram mudando, durante a ditadura militar ocorreram os festivais da canção mas não substituíram os programas de auditório e para os candidatos a artistas das regiões mais distantes do país não restava outra opção senão migrar para o sul-maravilha. Pernambucanos, paraibanos e cearenses, dentre os nordestinos, foram os melhor sucedidos com a migração. O potiguar, parece que mais apegado à sua terra, ficou por aqui marcando o passo.

    Temos grandes músicos, compositores, cantores, com produção da melhora qualidade e muitos não apenas deixaram o Rio Grande do Norte, saíram do Brasil e estão vivendo de música em outros países como Diogo Guanabara e Camila Masiso, sua esposa, hoje residindo em Portugal.

    Resta então aos nossos artistas um criminoso anonimato pois temos dezenas de emissoras de rádio que simplesmente ignoram essa fantástica produção musical, de qualidade e bom gosto, de ritmos e temas variados e continuam com sua programação medíocre e de mau gosto.  Pouco adiantou a performance de Khrystal no programa the Voice ou de Plutão já foi planeta  no SuperStar, nossas emissoras continuaram a ignorá-los. Resta a FM Universitária de Natal, a 88.9, com seu trabalho solitário.

    Muitos artistas, no entanto, já tem trabalhos nas plataformas digitais, permitindo que sejam ouvidos mais fora de nosso próprio país que na cidade onde residem. Muitos tem realizado excursões de sucesso, especialmente na Europa como a grande cantora Valéria Oliveira mas permanece a máxima que diz que santo de casa  não faz milagre.

  • O LAMENTÁVEL FIM DO BOCA LIVRE

    A música popular brasileira está mais pobre. O Boca Livre acabou. Grupos musicais não duram eternamente e geralmente se desfazem por divergências artísticas, disputa por espaço, problemas financeiros e relacionados com a própria atividade. Acabaram os Beatles, Oasis, RPM, Secos & Molhados, só para citar alguns muito conhecidos. Não foi o caso do Boca Livre.

    O grupo surgiu em 1979, fundado por Maurício Maestro, músico que já fizera parte do Momentoquatro junto com o saudoso Zé Rodrix e com trabalhos de arranjos aplaudidos e com sucesso para, por exemplo, Marcos Valle. Juntou-se com o também maestro David Tygel, que também fizera parte do Momentoquatro, Cláudio Nuccci, o afinadíssimo Zé Renato e simplesmente explodiram em todas as FMs do Brasil com a canção Toada (Na direção do dia), numa gravação independente e produziram ao longo de 40 anos trabalhos primorosos, além de gravarem junto com nossos melhores artistas.

    De quem foi o mérito do sucesso de Toada, uma música que já havia sido gravada por nossa Terezinha de Jesus e passado despercebida? Exatamente de Maurício Maestro, que buscou na bela voz de Zé Renato a base para um arranjo primoroso para uma bela mas simples canção. Assim foi também com Quem tem a viola, outro sucesso do mesmo disco, que contava também com a gravação de Feito Mistérios, composição mais sofisticada, parceria de Maurício Maestro com Joyce.

    O tempo passou, Claudio Nucci saiu do grupo e foi substituído posteriormente por Lourenço Baeta, Zé Renato gravou vários trabalhos individuais e um em parceria com Cláudio Nucci e, sem a obrigação de gravar um disco anualmente, o Boca Livre seguiu sua carreira de sucesso entre pessoas de bom gosto.

    Aí o Brasil mudou e um radicalismo político doentio dividiu as pessoas em dois grupos, nós e eles e a convivência de contrários ficou quase impossível, se acentuando ainda mais com a eleição do presidente Bolsonaro. Somos todos bandidos, uns petralhas, ou seja, ladrões, liderados por um molusco contagioso, outros, fascistas, liderados por um louco torturador. A polarização atingiu todas as áreas, até as relações pessoais e com o crescimento das redes sociais tem gente que gasta a maior parte de seu tempo tripudiando dos adversários, inclusive usando notícias falsas e fabricadas, os chamados fake News.  Não é coisa de país educado e desenvolvido.

    No meio artístico, tradicionalmente dominado por pessoas com ideias à esquerda, as rupturas começaram a ocorrer. Problemas sempre aconteceram. Roberto Carlos, o “nosso rei”, que acaba de completar 80 anos, sempre foi acusado pela esquerda de ser direitista e omisso, como se ele não tivesse direito a isso. Esqueceram-no. Caetano Veloso quando gravou Odara (deixe eu dançar pro meu corpo ficar Odara…) foi patrulhado pois como vivíamos uma ditadura, “era proibido ser alegre e dançar”. Mas a intolerância era menor. Hoje,  as pessoas tem até medo de colocarem um adesivo no seu carro e serem vítimas de depredação.

    Pois é. O Boca Livre não existe mais e teve até gente aplaudindo o seu fim. É porque não  gostam da boa música ou, pelos menos, não colocam o prazer de apreciá-la acima de convicções politicas. Talvez, na situação que estamos vivendo, haja até emissoras de rádio que deixe de executar suas gravações para evitar que os direitos vão para Maurício Maestro, que é o detentor da marca Boca Livre.

    Eu, por minha vez, vou continuar ouvindo-os e apreciando-os e vou continuar guardando com carinho os seus cds que possuo e espero que todos eles encontrem seu caminho e continuem fazendo sucesso pois talento eles tem de sobra, o que não tiveram, e muito gente no Brasil vem sofrendo da mesma síndrome, foi a tolerância para a convivência.

    Quanta mediocridade!

    Não bastasse o Covid…

  • A DIFUSÃO DO SOM

    O filósofo Friederich Nietzshe disse que sem música a vida seria um erro e a música é companheira, alento e terapia para muita gente.

    Mas como a música chega até nós?

    Imagine-se um tempo em que não havia tecnologia para o armazenamento! Assistia-se a um concerto, a uma exibição pública ou privada e o local do armazenamento do som era exclusivamente a memória.

    Em 1877 o gênio Thomas Edison inventou o cilindro fonográfico e o fonógrafo, a primeira forma de armazenar e reproduzir os sons da música. Muitas outras mídias vieram depois com a evolução da tecnologia, os discos planos de cera e vinil, as fitas magnéticas, os cds.
    Em outubro de 2004, eu estreei nas páginas da revista PAPANGU com um artigo com o título PARA ONDE VAI A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA, àquela época tendo como principal produto o cd e assolada pela pirataria.

    O tempo passou e, ao reler o artigo, tem-se a impressão de que tudo vem virando poeira com o avanço da tecnologia. A própria PAPANGU no papel já não existe.

    Naquele tempo já existia o comércio de downloads, a coisa foi evoluindo e o armazenamento e a forma de difusão da música é hoje quase que exclusivamente digital, com o streaming, a distribuição digital sem a necessidade de downloads. Fora isso, somente as velhas emissoras de rádio, com a programação quase igual, de má qualidade e sem novidades.

    Um simples smartphone na mão de um cidadão substitui o velho radinho de pilha e o toca-discos, com a diferença de que se escolhe o que quer ouvir, onde estiver, algumas com pagamento de assinatura e outras sem pagar absolutamente nada. Plataformas digitais como Spotify armazenam milhões de gravações de todas as épocas, de todos os lugares, de todos os gêneros.

    O cd virou um fetiche, um artigo para colecionador e a indústria fonográfica que inclui não apenas os artistas mas uma infinidade de técnicos, tenta se reinventar para não sucumbir, inclusive com a volta dos velhos discos de vinil.

    E a vida para novos artistas, como é que fica? Sem o esquema de divulgação das gravadoras, sem a difusão na televisão e no rádio, com o encolhimento da crítica especializada, cada vez mais difícil.

    Em todos os lugares, do Oiapoque ao Chuí, temos gente produzindo música da melhor qualidade mas seu reconhecimento fica restrito a um nicho, uma região onde tem a oportunidade de mostrar seu trabalho. E quando os grandes nomes de nossa MPB quase todos na casa dos 70 anos desaparecerem, quem vai substituí-los? Nunca mais teremos um “cantor das multidões” como Orlando Silva, nem um “rei” como Roberto Carlos.

    A propósito, vocês conhecem Ninah Jo, Toni Ferreira, Ayrton Montarroyos, Ze Manoel? São novos com trabalhos que valem a pena se conhecer.

    Enquanto isso, o veterano Matheus Aleluia, com 76 anos, continua produzindo pérolas com sua voz metálica de deus negro e o baiano Antonio Carlos Tatau produz seu primeiro e excelente disco aos 61 anos de idade. Não deixem de ouvir!

    DAMIÃO NOBRE é médico e escritor

  • A ESTRELA, O DOUTOR, O FÃ

    Foto: Canindé Soares

    Somente aos 17 anos descobri minha vocação para a medicina. Antes, nunca havia proferido a frase que boa parte das crianças diz logo cedo,  quando crescer vou ser médico. Com 67 anos de idade e 42 de profissão, procuro fazer o meu trabalho como se fosse o primeiro dia, com disposição, ética e humanismo.  Às vezes, não é fácil, porque lidamos com seres humanos, com todo tipo de comportamento numa sociedade competitiva, consumista, desrespeitosa e egoísta mas, quase sempre vale a pena.  

    Tive alguns clientes importantes entre políticos, empresários, intelectuais, artistas mas o grosso de minha clientela sempre foi feita de pessoas simples, humildes e, com o perdão dos demais, é com quem mais eu me identifico.

    A profissão nos reserva surpresas, algumas agradáveis e, infelizmente, às vezes desagradáveis, mas o saldo é bem positivo. Ser médico é um privilégio.

    No dia  3 de fevereiro de 2020, por volta das 16 horas, entrou em meu consultório uma velhinha de 94 anos, bastante maltratada pelo peso da idade, com as curvas das linhas do sofrimento estampadas no rosto, curvada, andando com muita dificuldade e auxiliada por um tipo de bengala e por uma pessoa que se tratava de seu neto. Chamava-se Maria de Oliveira Queiroz.

    – Ai doutor, me ajude!

    Foi debulhando então um rosário de queixas que incluíam praticamente todos os aparelhos e sistemas, problemas ósseos, gástricos, intestinais, neurológicos, dores diversas. Enquanto ela falava, meus olhos não desgrudaram de seu rosto e depois de tê-la chamado por duas ou três vezes de D. Maria, eu a reconheci e mudei o tratamento, ela era Glorinha Oliveira, o Rouxinhol Potiguar, a maior cantora que o Rio Grande do Norte já teve.

    – Glorinha, a partir de agora, vou chamá-la pelo seu nome artístico, eu sou um amante da boa música, eu sou seu fã, eu tenho seus cds autografados e estive em shows seus. É uma honra atendê-la e espero poder ajudá-la.

    A partir daí, foi uma conversa não apenas técnica mas entre amigos e ainda tive o prazer de abraçá-la  ao final da  consulta pois àquela altura, a pandemia do Covid ainda não havia começado.

    Solicitei uma Endoscopia digestiva alta que ela ficou de fazer e retornar e saiu um pouco mais feliz do que entrou.

    Ao chegar em casa tirei da estante o cd Glorinha Oliveira entre amigos e ouvi Mulata Rosinha, uma das mais belas canções de seresta que eu conheço em sua voz límpida e perfeita. Guardei o encarte na bolsa que conduzo para o trabalho para mostrar-lhe a relíquia autografada no dia 19 de março de 2003. Carreguei o encarte por mais de um ano, o tempo passou, veio o Covid e ela não voltou.

    Glorinha Oliveira foi nossa maior estrela na era de ouro do rádio, um ídolo com fã-clube. Encantou gerações, mas como permaneceu radicada em Natal numa época em que não tínhamos estúdios de gravação, deixou poucos registros de sua bela voz. Recusou convites para morar no sul-maravilha e virar um nome nacional. Foi, além de cantora, rádio-atriz, produtora, compositora.

    A velhice pode ser dolorosa, difícil,  humilhante e ela o foi para a notável Glorinha Oliveira. Em 23 de fevereiro de 2001, depois de muito padecimento, ela nos deixou e fica a saudade e ficam os belos registros de sua voz.

  • VANUSA E A MALDIÇÃO DE ANTÔNIO MARCOS

    O Brasil não sabe que no dia 8 de novembro de 2020 perdeu uma de suas maiores cantoras. Sim, a maioria dos brasileiros, especialmente os mais jovens, vai lembrar de Vanusa às gargalhadas pelo lamentável episódio ocorrido em 2009 em que, doente e sob o efeito de medicamentos, errou a letra do hino nacional em uma cerimônia. Que bom que o tema da redação do ENEM tenha sido “O estigma associado às doenças mentais na  sociedade brasileira”, talvez assim se mude o comportamento pois naquele momento a grande cantora era apenas uma sombra do que era, uma pobre doente carecendo de cuidados e carinho.

    Vanusa entrou na MPB pela porta da Jovem Guarda em 1968 mas logo no primeiro disco mostrou que não era uma Martinha, uma Rosemary, nem mesmo uma Wanderléa, pois na estreia aparecia como compositora e incluía temas políticos como o racismo e elementos de black music. Neste disco, ganhou as paradas com Pra nunca mais chorar, de seu padrinho Carlos Imperial em parceria com Eduardo Araújo e a regravação de Mensagem, antigo  sucesso de Isaura Garcia.

    Em 1971 casou com Antônio Marcos, de quem já gravava composições e com ele teve as filhas Aretha e Amanda. Teve outros casamentos como o com Augusto César Vannucci, mas o grande amor de sua vida foi mesmo o “ébrio louco” Antônio Marcos, cuja convivência relatou em livro.

    Morreu como mais uma vítima da “vida de “artista”, como Elis Regina, Raul Seixas, Cazuza, Sérgio Sampaio, Noel Rosa, a vida que leva do céu ao inferno em pouco tempo, relacionamentos conturbados, álcool, drogas . Gravou Milton Nascimento, João Bosco, Fagner, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Belchior e uma versão do mega-sucesso de Gloria Gaynor ,I will survive. Vanusa foi ousada e mexeu em preconceitos como os  contra os negros e as mulheres e bebeu nas fontes do Tropicalismo e do psicodelismo.

    2015 foi  o ano em que saiu seu último trabalho, VANUSA SANTOS FLORES, produzido por Zeca Baleiro. Já bastante doente, foi um trabalho difícil que só um fã como Zeca poderia fazer mas é um belíssimo disco de despedida. Nele, entraram composições suas, de Zé Ramalho, de  ngela Ro Ro e a melhor gravação de Esperando aviões, o já clássico de Vander Lee, onde um flugelhorn acentua o tom melancólico da composição e Vanusa extravasa sua dor. A presença de Zé Ramalho nos recorda que ela foi a primeira a gravar Avôhai, em 1977 como foi a primeira a gritar pelos ares “teu infinito sou eu”, da antológica Paralelas, de Belchior. Como compositora teve grandes sucessos como Mudanças e Manhãs de setembro.

    Foi Antônio Marcos o homem que mais marcou a vida de Vanusa, como marido e como compositor. Falecido aos 46 anos de idade, vítima de cirrose alcoólica, conta Vanusa em seu livro que ele acordava às 10 da manhã, abria um litro de uísque e tomava pelo gargalo. Apesar de deixar belas composições como Você pediu e eu já vou daqui e Como vai você, revividas por Nando Reis, Gaivotas, feita para Roberto Carlos, a quase desconhecida Registro Geral, com um pungente texto declamado, Coração Americano, parceria com Fagner e Sonhos de um palhaço, feita com seu irmão Mário Marcos, estas duas, grandes sucessos de Vanusa, Antônio Marcos ficou marcado como o brega de Menina de trança.

    A maldição parece ter sido transmitida a Vanusa que, além de não ter recebido o merecido reconhecimento, ficou marcada pelo lamentável episódio do hino nacional e veio a falecer exatamente no dia em que Antônio Marcos faria 75 anos.

    Damião Nobre é médico.