Últimas histórias

  • No leito de morte

    — Há dias sem se alimentar? — indagou o médico.

    O paciente com os olhos fundos, a respiração fraca, a pele numa cor baça.

    — Sim, doutor. Ele não aceita nada. A boca cerrada.

    O quarto em penumbra, como se a combinar com o quadro de tristeza que cercava Domênica Melgaço, a esposa fiel, sempre vigilante.

    Com pouco mais, a entrada das crianças, Telzinho e Belinha, ladeadas pela vizinha.

    — Aqui estamos, Domênica. Você nos chamou? — inquiriu a vizinha, dona Gildinha.

    — Fi…lhos? Telzi…nho?… Be…linha?

    — Ô, paizinho! Estamos aqui. Não faça muito esforço…

    A voz do garoto, embargada pela emoção, fez com que Ferreirinha tentasse se levantar da cama, mas as forças não foram suficientes para aquela intenção.

    Ele, então, pediu que Telzinho e Belinha o ladeassem, a recolher a mão de cada um e mantendo-as sobre o tronco magro. Em seguida, confidenciou-lhes:

    — Perdoem-me, nunca fui um pai… à altura… mas… filhos… a vida… sabe?

    A testa tomada pelo suor, o corpo em febre, inquieto. De repente, um desmaio. Domênica afastou depressa os dois filhos e tomou a mão do marido. Não sem antes gritar pela intervenção do doutor Artur Arcanjo:

    — Pelo amor de Deus!

    Com muita calma, doutor Artur se aproximou, enquanto sinalizava para que dona Gildinha levasse as crianças. A seguir, tomou do estetoscópio e auscultou o peito magro do convalescente.

    O choro de Domênica era mais forte do que os batimentos cardíacos do paciente.

    — Chamem o padre Araquento. O quadro é crítico.

    &&&

    Sete meses depois.

    — A senhora se consolou como?

    — É difícil de explicar, Gildinha. Tem dias mais difíceis, horas nas quais eu revisito tudo e nem sei como tive forças para suportar aquela minha decisão.

    A mesa de chá ao centro, duas xícaras sob a pequena bandeja. Testemunhas únicas daquela conversa de final de tarde.

    Gildinha baixou a vista e resolveu quebrar novamente o silêncio:

    — Foi tudo por amor, Domênica?

    Domênica olhou para as próprias mãos trêmulas e, sem nenhuma peia, deixou-se levar pela corrente de lembranças:

    — Ferreira fez todo esforço, bem sei. Queria restabelecer nossa vida normal, cuidar de mim e dos seus filhos. Viver como se nada nos tivesse acontecido, mas…

    — Se não quiser falar, amiga, saberei entender.

    — Não, será melhor para mim. Há meses isso me engasga. Invade minhas noites, assanha meus pensamentos. Será bom botar tudo para fora. Como eu lhe dizia, amiga, ele tentou levar uma rotina como a de antes. Procurou emprego, trabalhou pesado, seguiu à risca as obrigações de homem sério, respeitador, bom pai, digno esposo. Aos sábados, levava as crianças para o parque. Aos domingos, depois da missa, geralmente se confessava com o padre Araquento. No entanto, eu percebia que tudo era, como posso dizer, difícil para ele, a exigir-lhe cada vez mais esforço, a roubar todas as suas energias… e foi o que vimos. Ele prostou-se, extenuado, como se a vida não lhe…

    — Chorar sempre é uma forma de desabafar, amiga Domênica. E você, naquele dia em que o padre Araquento entrou para a extrema-unção, percebeu que…

    — Sim, ou melhor, um pouco antes eu diria. Lembra-se de que chegaram as outras três, minutos antes?

    — Lembro. Claro que me lembro da cena! Até hoje eu não sei, amiga, quem as chamou.

    Domênica Melgaço levantou os olhos para o teto, respirou fundo, a enxugar a face, antes de responder:

    — Fui eu.

    — Você? Como, amiga…

    Domênica abriu os braços e disparou em tom choroso, revoltada:

    — Sabe quando se percebe que a fidelidade de um homem pode ser a sua morte? Você não me entende, Gildinha, me entende? Quando coloquei meu esposo para fora de casa, parece que o levei a conhecer outras vidas, a mostrar-lhe novos mundos… eu que estava a me preocupar apenas com a nossa condição financeira.

    — Não estaria você, comadre, se responsabilizando por coisas que não estão, nem nunca estiveram, sob o seu domínio?

    — Pode até ser, Gildinha, porém eu tive que tentar. A morte dele me seria dura demais. Com as três mulheres no quarto, soprei a informação nos ouvidos dele, e percebi um rubor na sua face, antes tão lívida. Quando o padre Araquento chegou com os paramentos, Gildinha, concluí que a extrema-unção não mais seria necessária. Era só dar tempo ao tempo, e, no meu caso… sair de vez da vida de José Ferreira das Mercês.

    &&&

    As duas caminharam até o portão da casa. O passaredo já a ocupar os benjamins de Licânia, anunciando mais um crepúsculo na província.

    — Muito obrigada por me ouvir, Gildinha.

    As amigas se abraçaram fortemente, enquanto o relógio da Matriz anunciava a hora do ângelus.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • A Rotina

    — Minhas desculpas — Ferreirinha, disperso, não deu pela presença daquele senhor, quase indo de encontro a ele, postado na esquina do Mercado Público.

    — Não adianta fugir de si mesmo.

    — Como? O que disse? — indagou-lhe José Ferreira das Mercês. Só então percebendo que aquele homem, de estatura média e roupa bem cortada, permanecia estático, com os olhos fixos num ponto distante.

    Passou a mão no cabelo, como se a querer mantê-lo em alinho, e respondeu, assertivo:

    — Eu disse, caro Ferreira, que não adianta você fugir de si mesmo.

    E antes que Ferreirinha das Mercês, atônito com aquela intimidade, pudesse emitir qualquer resposta, ele emendou, conselheiro:

    — Vamos caminhar um pouco. Flanar pelas ruas sempre renova os nossos pensamentos, sem falar que estimula sobremodo o livre pensar. Se não se importa, siga ao meu lado. Dobremos na próxima rua, à esquerda.

    Com os primeiros passos, Ferreira concluiu:

    — O senhor é…

    — Sim, cego desde os quinze anos. Não se preocupe, a perda da visão não me trouxe maiores problemas. Se eu pudesse lhe explicar, acredite, isso me fez mais… Como poderia lhe dizer, mais atento aos outros sentidos do corpo. Porém não estamos aqui para falar de mim.

    Seguiam lado a lado, Ferreira, de início, preocupado com o passeio, com receio de que o outro topasse em algum ponto do trajeto, se atrapalhasse num degrau, ou não desse por uma irregularidade qualquer.

    — Nem me apresentei. Permita-me. Muito prazer, sou Edmir Crespo, seu criado.

    — Sou… Bem, não sei como, já conhece o meu nome — completou, apertando-lhe a mão direita.

    — Não só o nome, como toda a sua história — confidenciou, resoluto.

    Antes de dobrarem a esquina, Ferreirinha reteve o passo, e Edmir Crespo, solícito, orientou-o:

    — Atenção ao galho do benjamim, a poda foi malfeita, deixando uma ponta bem baixa.

    E parou, diante do risco, descrito com riqueza de detalhes.

    — Sou amigo de um grande amigo seu: Companheiro Acácio. Ele me escreveu relatando o seu drama pessoal e fiz questão de me dirigir até Licânia, a fim de ajudá-lo a… sair do imbróglio em que se meteu.

    Ferreira irritou-se com aquela intromissão nos seus assuntos pessoais. Acácio, julgava-o leal e digno, agora assumindo uma nova condição: a de fuxiqueiro.

    — Dobremos a esquina e paremos para um caldo de cana. Reflete-se melhor sem o aperreio do estômago.

    Edmir sentou-se no tamborete mais distante do balcão e, apontando para o outro, pediu-lhe:

    — Diga ao Gazumba que nos sirva dois copos com bem gelo.

    — E o senhor conhece toda a…

    — Mais coisas do que você possa imaginar, seu Ferreirinha.

    Foi ao balcão; e, com pouco mais, bebiam o famoso caldo de cana do Mercado, em silêncio de regalo.

    — Uma esmola para o ceguinho, meus bons cidadãos. Pelo amor de Deus!

    Seu Crespo irritou-se, elevando a voz para o pedinte, quase a esbravejar:

    — Vá trabalhar, filho de Deus. O cego aqui sou eu, não me faça de moleque. Ora, bolas!

    O falso cego cuidou de se afastar depressa, antes que os demais presentes dessem com o seu embuste. Foi rogar caridade alheia no outro lado da feira.

    &&&

    — A cegueira não faz do homem um ser menor. Muito menos um imprestável para a luta da vida… Bom, isso é assunto para uma outra ocasião, senhor Ferreira, voltemos ao ponto que nos une. Como eu ia lhe explicando, não se deve fugir de si mesmo — disse-lhe, em ar de antigo confidente.

    — Mas quem aqui está fugindo? — questionou-lhe José Ferreira das Mercês.

    Edmir Crespo arregalou os olhos, como se a visão lhe voltasse, e pronunciou, em desabafo raivoso:

    — Ora, ora, quem mergulhou no mar da pindaíba aqui? Quem foi expulso de casa pela esposa, a senhora Domênica Melgaço? Quem ganhou os braços de uma caridosa dama, a senhora Gervásia? E quem recorreu aos serviços da cartomante Marlúcia de Oxum? E a atração pela enfermeira Magda?…

    &&&

    Caminharam até o portão da casa. Lá chegando, o trinado do passaredo a retornar para os benjamins de Licânia.

    — Muito obrigado, Edmir Crespo. Você abriu os meus olhos.

    E riram com a piada não intencional. Abraçaram-se e, antes de entrar, Ferreira das Mercês perguntou:

    — Como o senhor vai voltar?

    — Não se preocupe, deixei meu filho Crespinho na praça da Matriz, ele ficou brincando com a meninada em frente da igreja. De lá, seguiremos no próximo carro de praça. Já me informei que sairá um às sete da noite.

    — Venham jantar conosco! Conheço bem Domênica, a comida está feita e, em nosso lar, há sempre lugar para mais…

    Silenciaram. Crespo apertou, forte, a sua mão, dizendo-lhe:

    — Essa conversa entre vocês dois não pode mais ser adiada, nem poderá ter testemunhas. Peça para Telzinho e Belinha irem tomar um sorvete na residência de dona Gildinha.

    &&&

    Ferreirinha entrou e viu a mesa do jantar já posta. No centro da sala, a presença de Domênica. Num elegante vestido vermelho, realçando-lhe as formas do corpo.

    — As crianças estão…

    Ferreirinha não a deixou concluir:

    — Eu sei. Estão com comadre Gildinha. Aproxime-se, por favor, Domênica! O nosso sofrimento foi muito grande. Tudo agora, creio, ficará na conta do passado. Tenha paciência comigo.

    E deram-se as mãos, rumando para o quarto de casal, em busca de recompor as bases de um amor que, até algum tempo atrás, era tão só uma cega rotina.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • O desafio do recomeço

    — Estou bem melhor — respondeu Ferreirinha ao médico de plantão.

    Doutor Artur Arcanjo verificou pressão, temperatura e batimentos cardíacos e, após registrar tudo no prontuário médico, indagou-o:

    — Então, senhor José Ferreira das Mercês, animado? Já posso lhe dar alta hoje. Quem virá para acompanhá-lo?

    Mal completou suas palavras, percebeu que alguém entrara. Ao virar-se, o médico deu pela presença de duas crianças.

    Ferreirinha elevou a cabeça do travesseiro e, ao vê-las, quis se sentar no leito. Foi ajudado pelo doutor.

    — Telzinho, Belinha, meus filhos! Vocês aqui?… — não conseguiu mais nada dizer, a voz embargada, os olhos emocionados.

    Foi surpreendido pelo abraço dos dois, apertando-o na altura da cintura, por entre as pernas.

    — Vou deixá-los a sós. Qualquer coisa, senhor Ferreira, pode chamar a enfermaria. Tenham um bom dia.

    &&&

    — Papai, vamos para casa — A voz da pequena era mais uma ordem do que um pedido.

    Ferreirinha das Mercês olhou Telzinho, sentiu nele já os traços da maturidade, como se ela se antecipasse aos anos. O filho deu-lhe a mão direita e, apoiando-o, fez com que ele se levantasse.

    — Vista a roupa, pai. A gente vai com o senhor.

    Ferreira retirou as vestes de paciente e voltou ao surrado traje que usara quando fora internado, há dias.

    &&&

    Chegaram em casa, José Ferreira das Mercês entre a filha e o filho. Rumaram direto para o quarto grande. Lá deram com a cama preparada, chinelos ao pé do leito, pijama junto à cadeira, e a Bíblia Sagrada na cabeceira.

    — Mas, filhos, sua mãe…

    Foi interrompido por Belinha:

    — Troque de roupa, paizinho, e descanse.

    Os filhos se retiraram, encostando a porta do quarto.

    Ferreirinha correu a vista pelo ambiente, lá vivera muitos anos de sua vida matrimonial, até que se dera a sua…

    Emocionou-se, sentiu a visão turva e sentou-se na cadeira próxima da janela que dava para o pequeno jardim.

    Um trinado na copa da árvore atraiu-lhe a atenção: um canário, em cântico belo, a encantar a companheira, esta no galho ao lado. Com pouco, os dois se encontraram ternamente.

    &&&

    — Venha almoçar, a mesa está posta…

    Era a ex-esposa, Domênica Melgaço. Ele sentiu o seu perfume, sempre discreto. Na voz, um quê de súplica.

    Ao chegar à sala de jantar: a cabeceira vazia, com o seu prato e os talheres. Tudo como antes.

    As crianças já sentadas, banhadas e esperando pelos pais. Domênica serviu a todos, antes de se servir. Uma galinha caipira, prato preferido de Ferreirinha.

    Ele comeu regiamente; a cabeça sempre baixa, o silêncio sobre a mesa, como companheiro fiel e incômodo daquele possível recomeço.

    Ao terminar, Ferreira abençoou os filhos e, antes de se recolher, dirigiu-se a Domênica:

    — Conversaremos depois da minha sesta. Neste momento ainda me sinto fraco.

    Domênica Melgaço ajeitou os cabelos, passou a mão na cintura e… preferiu permanecer calada.

    Ferreira das Mercês hauriu o perfume de Domênica, agora nem tão discreto. No silêncio, captou-lhe um acento de acordo.

    &&&

    Ferreirinha dormiu, profundamente. Sonhou que entrava em um campo onde imperava uma paz angelical. Cercado de tranquilidade e de cordura, descansava e via-se abraçado por uma dama apaixonada. Ela acariciava-o, a tomá-lo nos braços, afastando todos os seus fantasmas do passado. A expulsão de casa: “Você, como provedor do lar, tem se revelado um fracassado. Um fracassado!”; o enamoramento com Gervásia, o recurso à cartomante, a busca por caminhos desconhecidos, a desorientação, os dias no hospital, os cuidados de Magda… Tudo em flashes rápidos, mas vivos e intensos.

    Ao despertar, percebeu um trinado quase junto de si. Os canários se bicavam, carinhosamente, à janela.

    Quando Ferreira virou-se, a presença de Domênica Melgaço: calada, atenta. Em seguida, reunindo coragem, ela indagou, amável:

    — Sonhou comigo, querido?

    Ela aproximou-se ainda mais, o rosto em lágrimas.

    Ferreirinha das Mercês quis consolá-la, não pôde. Aquela proximidade, aquele perfume…

    Os pensamentos em redemoinho, a língua como se presa, o corpo em febre.

    — Afaste-se, por favor! O meu sofrimento foi muito grande, Domênica. Tenha paciência comigo.

    E deixou o quarto, em busca de ar livre.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • O sonho

    — E esse sonho, senhor Ferreira? — indagou a enfermeira Magda.

    José Ferreira das Mercês respirou fundo; paciente, elevou os olhos para o teto do quarto do hospital em que se encontrava, ficando a observar o ventilador em sua cadência regular.

    — Tão vivo e intenso, senhorita Magda, como se eu estivesse a viver todas as cenas. Tudo tão…

    Embargou a voz, invadido pela emoção. O aparelho que monitorava os seus sinais vitais emitiu alguns bips. A enfermeira de pronto verificou a situação, recomendando-lhe:

    — Mantenha a calma. Nada de emoções fortes. O seu quadro ainda inspira cuidados.

    — Eu sei, eu sei… mas é bom falar. O que se deu na última noite está a me consumir, mexendo muito comigo — argumentou Ferreirinha.

    Magda encostou-se ao leito e pôs a mão direita sobre a testa suada do paciente. Misto de carinho e atenção.

    — Se me prometer que me contará tudo sem deixar a pressão subir, sem problema. Serei uma ouvinte atenta ao seu relato. Estamos combinados?

    Nesse instante Ferreira sentiu um discreto perfume. Uma fragrância leve e cítrica. Em seguida observou-lhe a beleza dos olhos agateados e a conformação do seu corpo. Sem dúvidas, uma bela jovem, apesar daquela beleza ficar um pouco escondida na vestimenta de trabalho.

    — Combinado. Já é noite, aproxime-se mais. Preciso falar em tom baixo. Vou contar tudo, exatamente como ocorreu. Melhor, como sonhei.

    Magda puxou a cadeira de acompanhante para bem perto do leito de Ferreirinha, ajeitou os cabelos cacheados, a liberar os ouvidos para colher a narrativa.

    — Sou um desgraçado, eu sei. Minha vida tem sido um martírio. A viver sempre na pindaíba, atacado pelas dívidas e sempre cercado de compromissos financeiros atrasados. O dia todo vigiado por credores. Isso fez, Magda, com que o meu primeiro casamento naufragasse. Ao sair de casa, fui abençoado pelo carinho de uma nova companheira. Pouco depois, os filhos — sabe, tenho um casal — levaram-me a repensar aquela situação… Com pouco, nova crise. Quando recorri aos astros, uma forte amizade surgiu entre mim e a cartomante… e o ciúme das duas companheiras tornou tudo um inferno.

    — Isso foi um sonho? — interrompeu-lhe Magda.

    — Não, não, amiga. Estou contando um pouco da minha vida, a fim de você compreender melhor o meu sonho. Entendeu?

    — Sim. Continue.

    — Pois bem, custei a dormir na noite passada. Lembra quando eu pedi a você um comprimido para relaxar?

    — Sim, o médico havia prescrito um ansiolítico leve, caso você precisasse.

    — Após tomar aquele comprimido, ainda levei um tempo para cair no sono profundo. E…

    — Calma, seu Ferreira, não se deixe levar pela emoção — advertiu-lhe a enfermeira.

    Nesse momento Magda, atenciosa e meiga, já estava a segurar-lhe a mão direita. O olhar fixo nos olhos do narrador.

     — No sonho, a primeira companheira se aproximou de mim, disse-me uns desaforos e saiu. Eu nada pude falar, a língua presa. Na sequência, a segunda companheira se achegou, pôs-me dois olhos de loba revoltada e deixou-me também. Calado estava, mais calado fiquei. A voz me sumira. De repente a cartomante entra, joga as cartas nos meus pés e, apontando para uma delas, profere uma sentença… Não pude ouvir suas palavras, mas percebia que eram terríveis. Acenava-lhe, a pedir que me escutasse. Nada, nada, ela me deu as costas e abandonou-me na escuridão. Um fosso, então, se abriu aos meus pés, e eu pressenti que era o meu fim. Chorei; e, quanto mais chorava, mais caía naquele vale sem fundo. Na memória, em flashes rápidos, o filme de toda a minha vida. Meu Deus, meu Deus!… Sou um pobre coitado!

    Magda aproximou-se mais ainda do seu rosto em lágrimas, consolando-o com expressões amáveis, na tentativa de fazê-lo sair daquele fosso de melancolia. A proximidade dos lábios fez com que… um beijo surgisse.

    — Seu desgraçado!

    — Desgraçado! Agora conquistaste mais uma?

    — As cartas não me revelaram tamanha traição.

    Na entrada do quarto, as vozes de Domênica Melgaço, Gervásia e Marlúcia de Oxum.

    Ferreirinha das Mercês teve um choque, e os sinais vitais fizeram com que a enfermeira Magda gritasse:

    — Afastem-se, afastem-se! O caso é de emergência.

    E saiu do quarto, às pressas, em busca de socorro.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • A carta

    — Leia em voz alta, Domênica!

    — Psiu… ele pode acordar, Gervásia — alertou, apontando para o leito no qual Ferreirinha permanecia há dias.

    — Tudo bem, Domênica, me desculpe. Mas, pelo amor de Deus, leia esta carta de forma que eu possa ouvi-la — rogou a ansiosa Gervásia.

    — Combinado, vou então voltar para o começo: “Querido Ferreirinha, resolvi escrever porque me esqueci de lhe dizer algumas coisas. Nossa despedida foi tão apressada, estávamos todos ainda em choque com os acontecimentos. Eu, em especial, ferida na alma, sem falar nas marcas no corpo. Pois bem, não havia condição de me expressar de forma mais equilibrada. Eu que sempre, lembra?, lhe pedia ponderação em suas decisões. Em especial quando se tratava de com quem você voltaria a viver pelo resto dos seus dias…”

    As duas se entreolharam, interrogando-se, bem como indagando, uma a outra, onde aquela missiva iria dar.

    — Continue, continue.

    — Claro, vou continuar: “Em especial quando se tratava de com quem você voltaria a viver…”

    — Essa parte você já leu, que-ri-da! — irritou-se Gervásia.

    — Estou apenas voltando para o início da frase em que parei. Pode ser? — defendeu-se Domênica.

    Gervásia, incomodada, como a prever o que viria, moveu a cabeça em círculo, na tentativa de aliviar a tensão que já se alojara nos músculos do pescoço. A seguir, declarou:

    — Siga, vá.

    De repente, Ferreira das Mercês emitiu, num tom muito baixo, algo ininteligível.

    — O que ele disse? Não seria melhor chamar a enfermeira, Domênica?

    Domênica não deu a mínima atenção ao que ocorria, prosseguindo a leitura, as mãos um pouco trêmulas.

    — “… com quem você voltaria a viver pelo resto dos seus dias. Sei que você se importa comigo, mas, há de convir, após tudo o que dividimos, depois de tudo o que ocorreu a nós quatro…” — Domênica parou, a voz embargada.

    Nesse instante Gervásia disparou:

    — Que diacho essa cartomante de araque quer dizer com: “… após tudo o que dividimos, depois de tudo o que ocorreu a nós quatro…”?

    Domênica, concentrada, não deu atenção ao que Gervásia dissera. No entanto, quando ia prosseguir, ouviu claramente Ferreirinha a proferir:

    — Marlúcia?… Marlúcia?…

    — Não seria melhor chamar a enfermeira, Domênica?

    — Para que, Gervásia, para matar esse condenado? Nós duas aqui, dia e noite nos revezando nos cuidados junto ao leito dele, e por quem primeiro ele chama? Mar-lú-cia. Tenha a santa paciência! — protestou Domênica, a fala embargada com um inesperado pranto.

    — Tenha calma, amiga. Ele está variando. Deve ser efeito do trauma. Lembra o que o doutor nos confidenciou: “Não esperem restabelecimento rápido. O caso é de recuperação lenta, vamos precisar de tempo”. Não foi isso?

    Domênica enxugou as lágrimas; pegou novamente a carta, tossiu como a limpar a garganta, prosseguindo:

    — “… depois de tudo o que ocorreu a nós quatro, não poderia viver sem sua definição. Uma noite, após uma longa sessão, você declarou que amava mais a…”

    Um silêncio profundo naquele quarto de hospital. Apenas, de quando em vez, na dependência ao lado, num misto de reza, rogo e choro: “Não, Pai do Céu, não permita que ele se vá!”

    Domênica tentou continuar:

    — “… que amava mais a…” — Nenhuma outra palavra escapou da boca de Domênica Melgaço. Os lábios rijos, os olhos marejados, voltados, em fúria, para a cama em que José Ferreira das Mercês despertava.

    — Domênica?… Gervásia?… E onde está Marlúcia? A minha querida Marlúcia de Oxum.

    As duas, num ímpeto assassino, partiram para cima do paciente:

    — Seu desgraçado! Seu desgraçado!

    Ferreirinha das Mercês foi salvo pela enfermeira de plantão, que, naquele exato momento, entrava para lhe aplicar a última injeção da noite.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • MISTÉRIOS

    — Domênica, Domênica, encontraram o nosso… Digo, o Ferreirinha.

    — Deus é grande, Deus é grande! Eu nunca perdi a fé — gritou Domênica, abrindo a porta de casa para a entrada de Gervásia.

    Quando se viram frente a frente, as senhoras perceberam um quê de estranheza; ou seria sentimento de culpa? Desde que surgira aquele bilhete — “Enquanto duas damas lutam entre si para a posse do Ferreira, ele se entrega aos mistérios de uma cartomante…” —, tudo se dera muito rápido: José Ferreira das Mercês não mais aparecia, a boataria de que ele agora estava sob os cuidados da cartomante Marlúcia de Oxum, o ciúme. E, depois, a entrada de Marlúcia no hospital de Licânia, vítima de uma surra descomunal. Em seguida, sua “partida” da cidade, sem mesmo dar tempo ao delegado de colher o seu depoimento.

    E, o pior, ao ter ciência do ocorrido, Ferreirinha tomou de empréstimo a velha Rural do bom Zequinha, e saíra à procura de Marlúcia.

    Segundo as más línguas, ao encher o tanque da Virgulina no Posto Galvino, Ferreirinha confidenciara ao bombeiro:

    — Tudo por minha culpa. Pobre Marlúcia!

    Semanas se passaram, nenhuma notícia do paradeiro de Ferreira. De início, Gervásia e Domênica mantiveram a discrição, até porque o senhor delegado acompanhava cada passo das duas. Na certa, suspeitando de que estivessem envolvidas no caso da agressão à cartomante. Com pouco, elas não se aguentando mais, resolveram fazer uma visita ao senhor Zequinha Arcanjo, com o intuito de “saber notícias da Virgulina”.

    — Nada, minhas senhoras. Mas, bem sei, Virgulina o trará de volta. Qualquer novidade, mandarei lhes avisar — comprometeu-se.

    &&&

    Já brotava entre elas o remorso. Como se estivessem empurrado definitivamente o bem-amado para os braços da dita “terceira via”.

    — E se ele nunca mais voltar?

    — Não pense nisso.

    — Ora, não pense nisso! Ele sempre se revelou abobalhado quando uma pessoa chorava aos seus pés. Imagine ela, toda ferida, se fazendo de perseguida, de vítima dos ciúmes das…

    — Você fique calada, Domênica. Parede aqui nesta terra de muro baixo tem ouvidos bem atentos. Se isso chega ao delegado… ai, meu Deus!, melhor nem pensar!

    — E eu lá me importo. O problema é que jogamos a caçada no mato, como dizia meu velho pai. Nem a matriz, nem a filial, agora quem se lambuza com o mel do Ferreirinha é a…

    — Vá para casa, e procure serenar seu espírito, mulher. Logo teremos novidades. Entreguei o desvendamento desse mistério a Santa Rita de Cássia, sem falar das minhas orações a Sant’Anna e minhas promessas a padre Cícero.

    — Eu rezei tanto que acho que Cristo está nos punindo, Gervásia. Não era para termos feito…

    — Não quero ouvir mais nenhuma palavra. Vá. Não se deve nunca perder a esperança. Tenha uma boa noite.

    &&&

    As duas agora paradas, na sala da casa de Domênica, com a notícia de que Ferreirinha das Mercês fora encontrado.

    — E como ele está? Quem o encontrou? Sozinho?… — perguntou Domênica, uma interrogação atrás da outra.

    Tudo ainda envolto em mistérios.

    — Só sei que ele permanece sob cuidados médicos no Hospital Dr. José Arcanjo Neto. O delegado deu ordens expressas para ninguém ter acesso ao quarto dele. O cabo Jacinto Gamão até montou guarda no hospital.

    — Vou me arrumar depressa. Eu tenho direito a receber informações, pois…

    — Nós temos direito. Nunca esqueça: nós. Estamos juntas, sempre juntas. Concorda?

    — Sim, claro. Mas, creia-me, a titular sempre tem primazia, pois…

    — Não tem pois, nem depois… Ou ficaremos juntas, ou prestarei meu depoimento ao delegado…

    — Tudo bem, tudo bem. Vamos, então, nos apressar.

    &&&

    Ao chegarem ao hospital, Zequinha já estava na recepção.

    — Bom dia, seu Zequinha. Como ele está?

    — Bom dia, minhas senhoras. Está ainda desacordado, recebendo soro. Encontraram ele desmaiado dentro da Virgulina; esta, parada no meio da mata, de tanque vazio. Pane seca.

    Repararam que o cabo Jacinto Gamão pusera-lhes os olhos de samango, como se a observar cada reação delas.

    — As senhoras têm algo mais a declarar acerca do caso da agressão à senhora Marlúcia de Oxum? — Era o delegado que entrava e, de surpresa, partia para sondá-las.

    Elas se entreolharam, esboçaram uma nesga de risada, e lhe responderam, uníssonas:

    — Mistérios, mistérios.

    O cabo Jacinto levou a mão nervosa ao seu indefectível cacete de jucá, sendo contido pelo olhar de cautela do delegado. Este, experiente no laborar detetivesco, sabia de antemão que teria à frente um caso por demais complexo, e misterioso.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • A TERCEIRA VIA

    — Você vai ficar aí, parada, enquanto… essa mulher invade…

    — Mas, Domênica, nem temos certeza se é verdade o que está escrito nesse bilhete anônimo! — argumentou Gervásia.

    Domênica segurava o papel com as mãos trêmulas, o ciúme embaçava-lhe a razão, além de cerrar os dentes, dificultando-lhe a clareza da voz.

    — Não sei. Mas por que Ferreirinha su…miu? Ele não apa…receu mais… nem aqui, nem lá… em ca…sa — expôs Domênica, num assomo de fúria e gagueira.

    Gervásia foi à cozinha, voltando de lá com um copo de água com açúcar.

    — Tome isso, Domênica. Precisamos manter a calma, amiga…

    Gervásia estacou, após fazer uso daquele vocativo: “amiga”. Toda Licânia sabia que elas disputavam o coração do Ferreira das Mercês. Levando até a pequena cidade, sempre amante dos jogos de azar, a lançar suas apostas sobre quem ficaria, em definitivo, com o Ferreirinha.

    Após alguns minutos, Domênica recompôs-se; e, depois de reler o bilhete mais uma vez, disparou:

    — Quem escreveu isso, Gervásia, sabe o que diz. Veja, escute-me, se ficarmos paradas, conheço bem como aquele homem é crédulo, teremos ele como uma presa fácil de uma… “terceira via”.

    — Terceira via?

    — Sim, aprendi essa expressão num discurso que ouvi nas últimas eleições. Uma disputa forte entre duas candidaturas acaba por viabilizar uma terceira… e não podemos permitir que isso aconteça conosco. Entende?

    Gervásia passou suas mãos nervosas no rosto, esforçando-se para não entrar em pane. Recebeu o escrito das mãos de Domênica Melgaço e correu a vista pelas frases ali datilografadas: “Enquanto duas damas lutam entre si para a posse do Ferreira, ele se entrega aos mistérios de uma cartomante. Confira no seguinte endereço…”. Não pôde mais continuar a leitura, os olhos embaçaram-se, invadidos por um choro incomum.

    &&&

    Na manhã seguinte, muito cedo, alguém bateu à porta da cartomante.

    — Quem é?

    — Uma… cli…ente.

    — Um minuto, por favor.

    Meia hora depois, outro chamado.

    — Quem bate?

    — Uma cliente.

    — Um instante, por favor.

    &&&

    — Mas, seu delegado, eu não saí de casa! Pergunte à dona Gervásia! — respondeu Domênica, ao ser inquirida sobre onde se encontrava no início da manhã.

    O delegado de Licânia estava perante um caso de agressão física, a cartomante Marlúcia de Oxum fora encontrada na sua residência, pelo Ferreirinha das Mercês, desacordada e com vários sinais de espancamento. Como única prova, um pequeno bilhete, amassado e jogado perto da vítima.

    O delegado, ao tomar em seguida o depoimento de Gervásia, estranhou a resposta:

    — Mas, seu delegado, eu não saí de casa! Pergunte à dona Domênica!

    Ele retornou, então, ao Hospital Dr. José Arcanjo Neto, e perguntou ao médico de plantão se já poderia ouvir o relato da paciente que dera entrada no meio da manhã, com hematomas generalizados, conhecida como Marlúcia de Oxum.

    O médico de pronto lhe respondeu:

    — Essa paciente, mal terminei os curativos, assinou um termo de responsabilidade e deixou o hospital.

    — Mas… Só ou acompanhada?

    — Sinceramente, delegado, não sei lhe dizer. O que me causou estranheza é que a coitada não parava de falar que não tinha nada a ver com uma tal de “terceira via”.

    O relógio da Matriz de Sant’Anna badalou o meio-dia; neste exato momento o delegado, tido por todos como um homem agnóstico, fez o nome do pai. “Enquanto duas damas lutam entre si para a posse do Ferreira, ele se entrega aos mistérios de uma cartomante…”, conjecturou, entrando na viatura policial e tomando rumo não conhecido.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • O SONHO

    A manhã anunciava seu alarido de vozes e o trinado do passaredo, quando Ferreira das Mercês se sentou para o café.

    — Dormiu bem, seu Ferreirinha?

    — Sim, boa Lídia. Como há tempo não dormia.

    — Seu Zequinha e Dona Djanira já acordaram, tomaram café cedo e saíram, pois tinham compromisso de um batizado na localidade de Santa Rita. Me pediram para não acordar o senhor, que era preciso que o senhor descansasse.

    Ferreira coçou o queixo, a cabeça ainda povoada de lembranças. Uma mistura confusa de falas, desencontros e brigas. Serviu-se de uma xícara de café amargo, sorvendo-a lentamente, com ar distante.

    — Se alimente, homem de Deus! Pão, tapioca, manteiga, ovos, leite… Sem falar nesta pamonha que Dona Djanira fez ontem. Fica melhor ainda de um dia para o outro — argumentou Lídia.

    Para não ser descortês com a empregada do casal que o acolhera tão bem, Ferreirinha serviu-se de um pedaço da pamonha. Levou uma pequena fatia aos lábios; o apetite não o acudia, e a pamonha só inchava na sua boca sem tomar o rumo da garganta.

    Lídia, como a evitar constrangê-lo, pegou da vassoura e fingiu varrer a área de serviço, contígua à cozinha. De repente, um choro baixo, Lídia inquietou-se. Sabia cozinhar e conversar coisas de casa, no entanto consolar alguém era algo estranho para ela. “Meu Pai, Mãe de Deus, socorrei-me!”, clamou aos céus.

    Aproximou-se da mesa do café e foi tirando a louça, cabisbaixa, olhando de canto de olho para o pequeno homem.

    — Ando desorientado, sem rumo; tudo me parece tão embaralhado… como se não me houvesse saída…

    — É grande a misericórdia divina — professou Lídia.

    Tal sentença, como se enxugasse os olhos marejados de Ferreirinha, recobrou-lhe o ânimo para conversar.

    — Sente-se aqui mais próximo, dona Lídia. Preciso conversar com alguém, antes que eu enlouqueça. Você sabe o que me trouxe aqui. Seu Zequinha, homem bom e generoso, me tirou do abandono da rua. Domênica, a minha primeira mulher, havia me posto para fora de casa, há meses. Fui acolhido pela caridosa Gervásia. Esta, também, cansou do meu jeito. Não sei se me comportei, não sei o que fiz… nem se sou digno, à altura da sua acolhida. O coração da gente, sabe, é terra estranha e…

    Não conseguiu concluir o raciocínio, a voz embargava e a emoção toldava-lhe o sequenciar da fala.

    — É grande a misericórdia…

    — … e me vi diante de uma situação por demais esquisita. Na rua, queria voltar para junto de Gervásia. Ao deitar com ela, na solidão da noite em meio à insônia, os olhos de Domênica Melgaço se atreviam perante os meus, e eu só pensava em abraçá-la novamente. Nessa consumição, dona Lídia, Gervásia percebeu a minha divisão e… também me expulsou de casa. Sei que não é certo, mas o que posso fazer, me diga? Me diga? — rogou Ferreira das Mercês.

    — É grande a miseri…

    — E agora aqui estou, sem mel nem cabaço. As duas ontem vieram aqui, mas, pela paz da minha alma, não posso escolher uma, sem trair a outra. Você me entende, não?

    — É grande…

    Um silêncio se pôs entre eles. Ferreira tomou das mãos da boa Lídia, apertando-as, em sinal de desalento e angústia, confidenciando-lhe:

    — Nesta noite, um sonho me ocorreu. Tenho até vergonha de revelá-lo. A senhora poderia me entender mal.

    — É…

    Sem esperar por mais nada, ele desabafou, num fôlego só:

    — Sonhei que vivia em paz com as duas. De dia, era o bom esposo de Domênica Melgaço, pai zeloso dos meus filhos, cidadão exemplar. À noite, recolhia-me ao lar de Gervásia; e, estando lá, era-lhe um amante fiel, que lhe atendia a todos os desejos. O que a senhora acha?

    — Misericórdia! Misericórdia!… — pronunciou, em desespero, Lídia.

    Pouco depois, como se sem mais tempo a perder, Lídia fez o sinal da cruz, cuidando de cobrir-se com o seu xale cinza, a fim de correr para prostrar-se aos pés de Cristo na Igreja Matriz de Licânia.

    — Misericórdia! Misericórdia!… Pelo amor de Deus!

    A manhã alta, com seu bulício costumeiro, nem deu pelo clamor de Lídia a suplicar diante da fechada Matriz.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • A DISPUTA

    A voz rascante do sacristão ecoou por toda a nave da Matriz de Sant’Anna:

    — Padre Araquento! Padre Araquento! Deus é grande, e enorme a Sua misericórdia.

    O velho pastor, cabisbaixo, indagou-lhe:

    — O que foi desta vez, Batista?

    Afobado pela novidade e pressa com que adentrara a igreja, o sacristão precisou recuperar o fôlego. Com as palavras em atropelo e a respiração ofegante, anunciou:

    — Antes que as duas mulheres saíssem da igreja, o bom Zequinha recolheu o Ferreirinha aos seus cuidados. Evitando assim… o senhor bem pode imaginar. As duas pretendentes perante o Ferreira. A disputa ou, quem sabe, a briga… tudo na porta desta Casa de Cristo. Deus é grande, e enorme a Sua misericórdia.

    Padre Araquento elevou a face, marcada pela conversa que tivera com Gervásia e, logo em seguida, com Domênica Melgaço. As palavras de aconselhamento a Gervásia ainda a ressoarem em sua mente:

    — É grande a misericórdia divina. Não há sentimento maior do que o perdão, dona Gervásia. E nunca devemos nos envergonhar do amor. Vá em paz. E que Deus os guarde.

    Balançou a cabeça, na vã tentativa de se livrar daquele diálogo, mas, depois, como se tudo novamente diante dos seus olhos, a indagação de Domênica, a ex-esposa do Ferreirinha:

    — Seria pecado eu recebê-lo de volta?

    Padre Araquento ajoelhou-se frente à imagem de Maria Santíssima, a rezar fervorosamente:

    — Mãe do Altíssimo, madrinha da Santa Igreja, guie os passos deste servo do Senhor. Não sei como agir, e sinto que caí em pecado…

    Enquanto orava, as lágrimas corriam na sua face, como se a mente e o corpo invadidos por uma consumição indescritível.

    — Mãe do Altíssimo, madrinha da Santa Igreja, guie os passos deste servo…

    &&&

    Ao entrar em casa, levando pelo braço Ferreirinha, Zequinha comunicou a Djanira:

    — Minha filha, arme uma rede para nosso compadre. E, depois, lhe prepare uma boa refeição.

    Djanira, ao ver o estado de sofrimento daquele homem, ficou aturdida. Zequinha teve que repetir:

    — Filha, filha, a rede para o compadre. E, depois, a refeição.

    Diante da rede, armada no quarto mais ao fundo, Ferreira não se mexia, apenas de pé e de cabeça baixa, a repetir a mesma sentença, seguidas vezes:

    — Eu não mereço: nem Domênica, nem Gervásia… eu não presto… Eu não mereço: nem Domênica, nem Gervásia… eu não presto…

    Zequinha fez com que Ferreira se deitasse, encostou a porta e deixou-o sozinho, não sem antes adverti-lo:

    — Por ora, compadre, não pense em nada, procure apenas descansar. Deus é Pai, e ninguém sabe os desígnios Dele. Descanse.

    &&&

    — A bênção, padre — rogaram, em uníssono, Zequinha e Djanira, quando o padre Araquento entrou em seu lar no início da noite.

    O velho pároco abençoou-os:

    — Deus os proteja e que Ele continue iluminando este lar.

    Em seguida ele foi pedindo:

    — Meu caro Zequinha, encoste a porta. Preciso ficar a sós com o casal e com o… senhor Ferreira.

    Zequinha encostou a porta de entrada, cuidando também de cerrar a janela que dava para a rua.

    — Vou trazer um café — informou Djanira.

    Em sequência, Zequinha declarou:

    — Nosso compadre está sofrendo demais; ele não para de pronunciar, numa espécie de suplício: “Eu não mereço: nem Domênica, nem Gervásia… eu não presto…”. Num choro constante a embargar-lhe a fala.

    — Eu bem sei, eu imagino… — respondeu padre Araquento.

    Djanira já voltava da cozinha com a bandeja de café, acompanhada pelos biscoitos amanteigados, ponto fraco do padre Araquento.

    — Café, seu padre?

    — Não, querida dona Djanira.

    — E os biscoitinhos de que o senhor tanto gosta? — insistiu.

    — Não, hoje nada me assenta no estômago.

    Um silêncio na sala. Zequinha, Djanira e o padre Araquento calados. Como se não soubessem o que declarar naquele momento.

    — Preciso conversar com o senhor Ferreira — solicitou o padre Araquento.

    Foi, então, conduzido ao quarto dos fundos.

    — Deixem-me sozinho com ele. E não quero ser interrompido. Por ninguém.

    Zequinha e Djanira voltaram à sala. Djanira, para ocupar o tempo, resolveu oferecer um terço em honra de Sant’Anna.

    Pouco depois alguém bateu à porta:

    — Quem é?

    — Sou eu: Gervásia.

    — Mas…

    Sem esperar resposta, dona Gervásia foi entrando. Sentou-se numa cadeira ao canto; as mãos aflitas, um xale negro a encobrir-lhe a cabeça.

    Pouco depois, outro chamado:

    — Quem é?

    — Domênica Melgaço.

    — Mas…

    Dona Domênica foi também entrando. Optou por sentar-se na poltrona, frente à cadeira em que estava Gervásia. As mãos inquietas, e um véu azul-celeste encobrindo-lhe a face.

    Passaram-se alguns minutos, Zequinha e Djanira com as duas senhoras; enquanto o padre Araquento conversava no quarto com o Ferreirinha.

    De repente, os passos do pároco. Mal chegou à sala, perguntou:

    — Boa noite, minhas filhas. Em que posso lhes ser útil?

    — Padre, estou sofrendo… eu quero cuidar dele novamente — disse Gervásia.

    — Quero recebê-lo de volta! Eu sou a sua legítima esposa, perante Deus e a Santa Igreja — exigiu Domênica.

    O silêncio, desta feita mais pesado.

    — É grande a misericórdia divina. Não há sentimento maior do que o…

    O padre Araquento foi interrompido pela presença de Ferreira das Mercês. Marcado pelo sofrimento, ele solicitou às duas:

    — Vão em paz. E que Deus as guarde.

    — É sempre grande a misericórdia divina — emendou padre Araquento.

    Gervásia e Domênica Melgaço se entreolharam, com as mãos rijas enrolavam seus xales; pouco depois saíram.

    O relógio da Matriz marcava dez horas. As corujas circunvoavam a Praça do Poeta, indício de maus presságios em Licânia.

    Clauder Arcanjo é escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • EXPULSO DE CASA

    Por Clauder Arcanjo

    Expulso de casa, Ferreira ganhou a rua. Apesar do sol forte, sentia um frio na barriga. Caminhando por entre os becos de Licânia, tudo lhe parecia estranho, agressivo. A sentença da companheira Gervásia ainda zoando-lhe nas oiças:

    — “Domênica, Domênica…” Chega! Esta foi a minha última noite em claro. Seja, então, feliz. Comigo, não.

    Ele parou frente a Matriz, olhou para a imagem da Senhora Sant’Anna e ficou como se a lhe pedir a bênção (ou seria a piedade?) dos Céus. Tudo a lhe girar na memória, palavras e cenas confusas, como se sopradas em tom de reprovação a suas últimas atitudes.

    — … Chega! Esta foi a minha última noite em claro. Seja, então, feliz. Comigo, não.

    “Minha Madrinha, proteja os meus passos. Preciso da sua luz no meu caminho”. Ferreira não sabia se rezava ou se implorava; com pouco, ajoelhou-se e ficou cabisbaixo no adro da igreja.

    Um gaiato passou de bicicleta e jogou-lhe um achincalhe:

    — Andou bebendo, Ferreirinha?!

    Não teve coragem de responder. Calado permaneceu, perdido numa onda de pensamentos soltos, retalhados, a roubar-lhe o sentido.

    &&&

    Não se sabe quanto tempo lá ficou. Ajoelhado, sob o sol forte da província. Acompanhado tão somente pelos comentários das pias Filhas de Maria, a reprovar sua situação a partir das calçadas próximas:

    — A verdadeira esposa já botara ele para fora de casa. Domênica Melgaço cansou de ser besta.

    — Homem que não leva o pão para dentro do seu lar, comadre, merece mesmo um pé na bunda.

    — E agora, pelo jeito, a que lhe deu guarida, a tal de Gervásia, não quis mais sustentar o malandro…

    Nesse exato momento o padre Araquento saiu da casa paroquial, caminhando em direção à sacristia.

    — Sua bênção, padre — rogaram, em uníssono, as Filhas de Maria.

    O pároco, sem mudar a velocidade dos passos, devolveu-lhes:

    — Que Deus nos abençoe e que Ele modere os nossos juízos.

    — Assim seja.

    — É bom cuidarem do almoço. O dia já vai alto.

    Tal diálogo as dispersou, fazendo com que elas deixassem as calçadas e sumissem no interior de suas casas.

    &&&

    Ao chegar à sacristia, o sacristão saudou o velho pároco:

    — Bom dia, padre Araquento.

    — Bom dia, Batista, o que temos para hoje? — indagou.

    O sacristão dirigiu o olhar na direção de uma senhora que, sob um xale negro, estava ajoelhada próxima ao confessionário. Era Gervásia.

    — Bom dia, minha filha. Em que posso lhe ser útil?

    — Padre, estou sofrendo tanto, eu queria… — um choro forte embargou-lhe a voz.

    Após ouvir toda a história que a afligia, aconselhou-a:

    — É grande a misericórdia divina. Não há sentimento maior do que o perdão, dona Gervásia. E nunca devemos nos envergonhar do amor. Vá em paz. E que Deus os guarde.

    Gervásia recompôs-se, e um sorriso tímido assomou-lhe à face antes tão sofrida.

    Minutos depois, enquanto o pároco rezava aos pés de Maria Santíssima, ele foi chamado pelo novo coroinha, a pedido do sacristão.

    — Seu padre, há uma outra senhora aguardando junto ao confessionário.

    Desta feita era Domênica Melgaço.

    — Bom dia, senhora Domênica.

    Sem perda de tempo, Domênica inquiriu-o:

    — Seria pecado eu recebê-lo de volta?

    — Quem, dona Domênica Melgaço? — indagou, aturdido, o padre Araquento.

    Ela baixou o tom de voz, aproximou-se, levantando levemente o xale azul-celeste, e disse-lhe:

    — O meu esposo… o Ferreira.

    Padre Araquento levantou os olhos em direção ao madeiro, rogando a Cristo e a todos os santos:

    — Meu Deus! Que seja sempre grande a misericórdia divina.

    Domênica Melgaço ainda ponderou:

    — Ele deve estar sofrendo… e a Santa Madre Igreja nos uniu: na saúde, na doença, na alegria, na tristeza.

    Lá fora os pardais chilreavam nas copas dos benjamins, enquanto o relógio da torre da Matriz de Sant’Anna anunciava o meio-dia.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com