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  • CULPA | Capítulo XVIII

    — O preso fugiu! O preso fugiu!…

    Licânia acordou com aquele tumulto que brotou da cadeia e, em pouco tempo, tomou as ruas da cidade. Quando chegou ao Mercado, virou domínio público.

    Durante o dia só se falava daquela fuga.

    — Com certeza, minha gente, teve ajuda de alguém lá de dentro da…

    — Feche esta matraca, Acácio! As autoridades, até prova em contrário, estão acima de qualquer suspeita.

    — Você é um inocente, Dederardo! Sempre acredita em tudo.

    — Prefiro ser considerado um tolo do que um precipitado, seu Acácio. Aguardemos a conclusão das investigações.

    Gazumba, com receio de que aquela discussão espantasse os clientes da sua panelada, cuidou de interceder:

    — Só sei que os nossos policiais de plantão estão sempre bem alimentados: todos são fiéis clientes da minha banca. Inclusive, meus senhores, hoje o Maguinho se serviu com gosto e ainda levou meia panela para o plantão — disse, caindo em seguida numa gaitada gostosa.

    — Lá vai o seu Zequinha de volta para casa. Na certa irá levar a novidade para a sua hóspede! — supôs o João Américo.

    — Vai chegar atrasado. A notícia aqui nestas bandas anda a cavalo; o padim Zequinha tem a passada curta — disparou o Gordinho.

    — Hoje em dia, ninguém respeita mais o próprio padrinho. Sei não! Sei não! — cutucou o Batista.

    Gordinho tentou lançar uma resposta nos peitos do Batista do Zé Aguiar, mas a gagueira lhe tomou o fôlego. E ele ficou apenas de rosto em brasa, tomado pela forte emoção:

    — E, e, e…

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    — Seu Zequinha, é verdade?

    Zequinha fecha o portão, silente, e entra, sem responder nada e em passo decidido.

    Ao sentar-se na cadeira de balanço da sala, ele pede água a Lídia.

    Maria Djanira se aproxima com o terço na mão e indaga:

    — O que vamos fazer, meu velho? Ô, Senhora Santana!

    — Em primeiro lugar, manter a calma. E, depois… rezar — diz, enquanto se levanta e segue em direção ao quarto de Creuza. No corredor, para e pergunta:

    — Ela já soube?

    — Por nós, não.

    & & &

    Na delegacia.

    — Sim, comandante. Sei, sei… mas, senhor…

    Silêncio em torno da mesa do delegado. Ele, ao telefone, nervoso, a riscar a madeira do birô com a unha do dedo indicador direito.

    — Mas… Sim, obedecerei, são ordens. Agirei. Bom dia.

    Ao desligar, leva as mãos à cabeça, suspirando:

    — Que diacho!

    — Algum problema, seu delegado?

    — O caso ganhou proporções estaduais. O secretário de Segurança Pública pede… melhor, exige…

    Ao perceber que não estava sozinho, cala-se, interrompendo o que dizia.

    Levanta-se e convoca o seu assistente:

    — Tenente, recolha o soldado Maguinho à prisão.

    — Delegado?!

    — Faça isso, são ordens expressas superiores.

    & & &

    — Prenderam o soldado Maguinho. Ele é o principal suspeito pela fuga do preso.

    Aquilo leva Licânia a uma disputa de opiniões. Parte da cidade regozijando-se pela pronta resposta da polícia. Outra parte reclamando que o pau sempre quebra no lombo dos mais fracos.

    Na casa do seu Zequinha, a história chega depressa.

    — Aonde você vai, minha filha?

    Creuza sai sem dizer nada.

    — O que vamos fazer, meu velho? Ô, Senhora Santana!

  • CULPA | Capítulo XVII

    — Bom dia, dona — o soldado Maguinho saudou-a.

    — Bom dia. O senhor quer falar com o seu Zequinha?

    — Na realidade, minha senhora, queria dar uma palavrinha com a Creuza, hóspede do casal.

    Lídia, sempre receosa com as coisas da lei, ficou nervosa e logo indagou:

    — Algum problema?

    Maguinho, amassando a boina, titubeou, enganchando-se com as palavras:

    — Não estou aqui representando a polícia. Quero ter um particular com a hóspede. Isso se for possível, claro.

    Lídia enxugou as mãos veiadas no avental e, mais serena, disse-lhe:

    — Sente-se aqui na sala, seu…

    — Pode me chamar de Maguinho, é assim que sou conhecido por todos em Licânia.

    — Muito bem, seu Maguinho. Volto já. Aceita um cafezinho?

    — Não, muito grato. Acabei de sair do plantão e tenho pressa — arrematou ansioso.

    Lídia foi ao quarto da Creuza. Bateu e, sem esperar por resposta, entrou a falar assustada:

    — Tem um guarda aí, Creuza, querendo um particular com você. Ah, meu Deus do Céu, não gosto de polícia. Tome cuidado, minha filha. Não seria melhor avisar ao patrão? Ele acabou de sair para visitar dona Adamir, no São João.

    Creuza, que rezava no pequeno oratório improvisado no canto do quarto, fez o nome do pai, passou a mão na fivela do vestido, como se querendo ajustá-la, e se levantou.

    — Vamos ver o que esse senhor quer falar comigo, Lídia. Não se preocupe. Vou apenas ouvi-lo.

    Chegando à sala, cumprimentou-o:

    — Bom dia.

    Maguinho surpreendeu-se com a altivez daquela mulher: olhos fortes, corpo esbelto, tez morena.

    — Seu homem, senhorita, é melhor do que muitos dos que estão soltos pelas ruas desta cidade. Muito melhor…

    Maguinho, de pé diante de Creuza, não conseguiu continuar sua fala: a emoção embargava-lhe a voz, os olhos marejados, os lábios trêmulos…

    — Vou pegar um copo d’água. Tenha calma.

    Ao retornar, Creuza se deparou com o soldado cabisbaixo, ainda emocionado.

    — Tome. Vai ajudar o senhor a explicar tudo com tranquilidade.

    Pouco mais, Maguinho recomeçou:

    — Tenho muito conhecimento das coisas da prisão e…

    Não conseguia articular os pensamentos. Um choro profundo, tal qual aqueles que brotam de uma pessoa aflita.

    Creuza se aproximou, puxando uma cadeira para junto do visitante. Conversou com ele num tom baixo e brando.

    Lídia, na saleta próxima, não conseguia captar nada daquele diálogo. Era como se ele se desse ao pé do ouvido. Não que Lídia tivesse algum interesse por fuxico ou coisa da vida alheia; postara-se ao lado tão somente com receio de que o samango partisse para os maus modos com Creuza. Ela nunca confiava nesses homens da lei.

    Meia hora depois, a despedida:

    — Vá em paz, senhor Maguinho. Obrigada. Eu lhe serei eternamente grata.

    Quando Lídia retornou para a sala, o soldado já havia saído. Creuza, ainda com o copo na mão, movia os lábios como se em prece silenciosa.

    — O que ele queria, Creuza? O filho da mãe lhe disse alguma ofensa? — perguntou, azogada.

    — Em todo lugar, amiga, existe gente boa. O Maguinho é um homem direito.

    E Creuza retornou para o seu quarto. Lá se ajoelhou diante da imagem de Sant’Anna, orando com mais fervor pelo destino que os esperava.

  • CULPA | Capítulo XVI

    Por Clauder Arcanjo

    A manhã se apresenta em passos lentos. Sol tímido e passaredo em pios baixos, coisa incomum.

    Na cadeia, os dois homens (um preso e outro na parte externa da cela) se olham, mas parece que não se veem. A vista perdida em lonjuras, em coisas que só o pensamento capta.

    Com pouco a chegada dos demais guardas à delegacia.

    — Onde está o Maguinho?

    — Será que saiu antes da hora? Sempre suspeitei que ele anda de chamego para cima da cabocla Adalgisa! Não sabe que aquela mulher é enrabichada com o Abelardão! Mulher assim chama o coveiro antes da hora.

    E riram alto, coçando os bagos e sungando os cintos com os revólveres 38.

    — Maguinho?!… Houve alguma coisa, homem de Deus?

    Nenhuma resposta.

    — Está passando mal? Levante-se desse chão. Rapazes, venham até aqui. Na cela dos fundos.

    Três guardas em pé e um sentado em frente ao prisioneiro. Estes dois extenuados, marcados pelo sereno da noite, abúlicos.

    — Vamos, Maguinho! Tá na hora de você ir para casa, o seu plantão já encerrou.

    Os três guardas recém-chegados pegaram-no pelos braços e cuidaram de arrastá-lo para a parte de fora da carceragem. Sentaram-no na cadeira do delegado, a mais confortável, e lhe ofereceram água.

    — Beba, homem!

    Não quis.

    — O que aquele filho de uma égua fez com você? Aposto que encheu a sua paciência, enfiando no seu juízo as culpas dele… Espere aí que vou acertar logo essas contas! Nada que uma boa surra com o meu cacete de jucá não possa resolver! — vociferou o cabo Jacinto Gamão.

    — Não mexa com o meu amigo! — disparou Maguinho, arregalando os olhos, saindo depressa daquele estado de letargia.

    — E desde quando você, Maguinho, é amigo de assassino? — devolveu Jacinto Gamão, incomodado.

    — Aquele homem, pessoal, é melhor do que todos nós juntos. Mas muito melhor — reforçou Maguinho, já de pé diante dos samangos.

    Nesse momento entra o delegado.

    — O que está havendo? Isto aqui está parecendo mais um boteco de feira livre do que um distrito policial! — esbravejou, enquanto largava seu corpanzil sobre a cadeira antes ocupada por Maguinho.

    — E o senhor, cabo Asdrúbal Santiago, já era para estar no seu descanso.

    Os policiais encerraram a discussão. Sabiam que o pavio do delegado estava mais para espoleta: aquilo poderia desaguar em punição para os quatro. A corda sempre arrebenta no lombo deles: registro de má conduta, ou coisa que o valha, em seus apontamentos funcionais.

    Asdrúbal Santiago, o Maguinho, pediu permissão para retornar para as celas:

    — Acabei me esquecendo de uma coisa, delegado. Volto já!

    Logo depois Maguinho retornava mais animado. Despediu-se de todos sem mirar nenhum deles.

    — Bom dia. E, cabo Jacinto, repare bem no que eu lhe disse.

    Jacinto Gamão quis reagir, mas Severino Pontão, o mais ponderado, fez-lhe um aceno para que ele não respondesse à provocação.

    Maguinho ganhou a rua, já em alvoroço. Não seguiu para a bodega do Gazumba, como era de costume, mas em direção à Praça do Poeta.

    Ninguém na delegacia entendeu aquela sua mudança de rumo, porém com o tempo tudo se explicaria.

  • CULPA | Capítulo XV

    Noite fria. Longa e inquieta.

    Cabeça em tumulto, entre o sono e a vigília:

    — Não, Creuza. Melhor não.

    A cidade dorme. Acordados, somente os bêbados. Mas esses, em Licânia, parece que nunca dormem.

    — Creuza, sou… É perigoso, Creuza. Perigoso, ouviu?

    O soldado de plantão, incomodado com o vozerio, resolve conferir de qual preso procedia. Devagar, caminhou até o conjunto das celas, ao fundo do terreno. Coisa de poucos metros, entre a sala do plantão e o presídio em si.

    — Não!

    O grito forte reteve-lhe os passos.

    — Que desespero, meu Deus! — disse, enquanto, mecanicamente, benzia-se. Em nome do Pai.

    Acende a lanterna, e o facho de luz mancha o chão de amarelo.

    Com pouco, outro lamento. Agora de bem perto:

    — Fuja, fuja de mim. Creuza, fuja. Eu não sirvo… sou…

    As outras celas dormiam, era da mais ao fundo de onde vinham as vozes. Daquele que seria julgado por duplo homicídio. Segundo relato que escutara, do primeiro fora inocentado por legítima defesa. Júri popular. Depois, novo crime e a fuga. Agora, novo julgamento. Tudo marcado para o final do mês. Com certeza, toda a cidade se envolveria.

    — Fuja… fuja!

    Aquilo quase fez com que o samango desse as costas, correndo de volta para a delegacia.

    — Durma, rapaz! — ordena o homem da lei, reunindo coragem para soltar a fala.

    A ordem e o feixe da lanterna despertam o preso. Senta-se, cabisbaixo, os cabelos molhados pelo suor do pesadelo. Levanta o olhar em direção ao guarda. Olhos esbugalhados, como se surgindo de uma luta cruel.

    Sem saber o que dizer a mais, o soldado reforça:

    — Durma, rapaz!

    Ele se encosta na grade, homem forte, corpo rígido. E, segurando-as, declara:

    — Melhor, não. A noite sempre a consumir a minha paz. Se é que tenho paz! Mal entro no sono e já surge um pesadelo dos diabos: machucando os meus miolos, afundando todo o meu juízo num precipício, cenas terríveis de enlouquecer qualquer filho de Deus.

    O guarda, de baixa estatura e magricela, recua, quase sem perceber.

    Então o preso deixa o corpanzil escorregar e, quando sentado, cai num choro convulso.

    — Durma, rapaz!

    Aquele bordão é tudo que o homem da lei consegue recomendar.

    — Não, não… A noite tem sido a minha pior condenação. Minha pior condenação, seu guarda! — reafirma, entre lágrimas.

    O guarda também se senta no chão. Em seguida, desliga a lanterna; e o manto do silêncio, numa quietude estranha, apenas é rasgado de vez em quando pelo choro discreto daqueles dois.

  • Culpa: Capítulo XIV

    — Cabo, há quanto tempo que ela entrou para falar com o preso?

    — Delegado, faz meia hora.

    O delegado arrumou o revólver na cartucheira e deu uma volta em torno da mesa.

    — Vá e veja se colhe alguma pista para… Seja discreto, não vá se aproximando com aquelas suas botinadas de acordar quarteirão!

    O cabo Jacinto Gamão amassou os bagos para controlar a fúria que lhe assomava ao juízo, ergueu a calça grossa e, antes que pudesse responder ao “doutorzinho da capital”, dirigiu-se às celas. Estas ficavam numa construção nos fundos do terreno.

    Meia hora depois o cabo Jacinto retornou. Sem dizer nada, sentou-se ao canto e mergulhou num silêncio longo.

    O delegado levantou-se do birô e foi ao seu encontro:

    — E aí, o que colheu?

    — Do lugar onde me postei pude ouvir…

    — Pôde ouvir… Sim, continue, homem de Deus. Você ouviu o quê?

    Cabo Jacinto retirou o lenço que sempre trazia no bolso traseiro da calça, enxugou os olhos agateados e soprou baixinho, quase como se em confissão:

    — Pude ouvir seu choro.

    — O choro de quem, cabo? Dele ou dela? Seja claro no seu depoimento.

    Aquela palavra “depoimento” fez com que Jacinto perdesse o rumo da prosa: a voz ganhou um travo de raiva, quando ele disparou:

    — Se é depoimento, senhor delegado, então está aberta a coleta de provas testemunhais?

    O delegado inchou as veias do pescoço e se dirigiu até onde se encontrava o cabo. Este não recuou um centímetro, pondo o olhar na direção da arma do delegado, enquanto afastava um pouco os braços do corpo. Quem se aproximasse, julgava que estaria prestes a um duelo.

    Nesse exato momento o sargento Palmiro chegou; e, ao perceber o clima tenso, cuidou de serenar os ânimos:

    — Passei na bodega do Gazumba e trouxe uma panelada bem fresquinha. Cabo Jacinto, já pode ir para casa, amigo! Seu plantão terminou. Se quiser, cabo, leve a sua porção para se servir com sua senhora.

    — Eu lá sou homem de…

    — Cabo! Eu já lhe disse que pode ir-se embora! E não diga mais nada. Expediente encerrado. Agora é comigo. Vá, vá-se embora! — Palmiro falava, empurrando Jacinto para a porta da rua.

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    Pouco depois o delegado recobrou o controle dos nervos, passando a falar em voz alta:

    — Um folgado. Isso sim, sargento, é o que ele é. No mínimo poderia enquadrá-lo em desacato a autoridade. Sou ou não sou o delegado aqui?! Me diga, Palmiro, sou ou não?

    O sargento tirou um cigarro da carteira, acendeu e pôs-se a fumá-lo em longos tragos. Silenciosamente.

    — Folgado, um folgado. Isso sim é o que ele é. Onde já se viu… sei não.

    Como o sargento não lhe contestava, muito menos concordava com seu esbravejar, o delegado foi serenando, serenando… Quando resolveu se sentar à mesa da delegacia, lembrou-se da visita de Creuza ao preso por duplo homicídio:

    — Sargento, faz um bom tempo que a senhorita Creuza entrou para falar com o indigitado. Coisa de quase uma hora.

    O delegado levantou-se, ajustou a cartucheira no cinto e, pensativo, deu uma outra volta em torno da mesa.

    Pôs a mão direita sobre o ombro de Palmiro, instruindo-o:

    — Que tal, sargento, você ir até junto à cela do prisioneiro e recolher alguma pista? Você é um agente discretíssimo e saberá como se aproximar sem que os dois percebam.

    Uma hora se passou e nada do sargento retornar. O delegado já roera todos os cantos de unhas e, sem mais se aguentar, resolveu ele mesmo se dirigir à cela do homem que, segundo o processo, assassinara pai e filho.

    Tudo mergulhado numa quietude estranha.

    Apurou os ouvidos e pôde ouvir… um choro triplo. “Choro de quem, meu Deus?”; pensou.

    Ao se aproximar, a constatação: lágrimas do preso, da visitante Creuza e do sargento Palmiro. Este último, o mais desconsolado:

    — Ninguém é forte o bastante para enfrentar isso tudo sozinho. Precisaremos um do outro.

    O delegado catou o lenço… mas percebeu que esquecera na outra calça.

    — A panelada está esfriando, sargento.

  • CULPA | Capítulo XIII

    — Estou recuperada e pronta para seguir em frente — disparei mal entrei na copa.

    À mesa, seu Zequinha e dona Maria, ladeados por Lídia, serviam-se do café da manhã.

    — Bom dia! — saudou-me o dono da casa, apontando-me uma cadeira.

    — Minhas desculpas pelos maus modos, mas é que… — tentei me justificar.

    — Lídia, por favor, sirva a nossa amiga. Ela deve se alimentar muito bem para enfrentar o que a espera. Pelo jeito que aqui entrou, acho que o que a ofertamos não lhe seja suficiente — disse dona Maria, enquanto me olhava com um modo acolhedor, apesar da ligeira ironia.

    Realmente, ao me sentar, tive um desjejum daqueles: tapioca, cuscuz, queijo, leite quente, ovos fritos, suco e um café fresquinho. Comi e repeti.

    Ao final notei que os presentes me olhavam como se satisfeitos com o meu renovado apetite.

    Em seguida seu Zequinha se levantou, convidando-me para uma conversa na sala.

    De início, encabulada, somente ouvi a voz daquele homem manso, inteligente e sempre preocupado em tornar os meus dramas menos sofridos.

    De vez em quando interrompia e me indagava:

    — Isso se você concordar com a minha percepção, Creuza?

    Eu levantava a face, levando os meus olhos em direção aos dele:

    — Claro, concordo.

    Meia hora depois me perguntou:

    — Seu amor por ele é capaz de enfrentar a tudo e a todos?

    Calei-me, como se a minha resposta ficasse embargada pela emoção.

    — Não ouviu, Creuza? Quer que eu lhe repita a pergunta?

    — Não, não é preciso.

    — Então…

    — Sim, sou capaz de enfrentar a tudo e a todos.

    Quando essa frase escapou dos meus lábios, ele me abraçou, dizendo-me paternalmente:

    — Nunca tive nenhuma dúvida de que essa seria a sua escolha, menina!

    Ri um pouco, entre os olhos marejados, daquela sua saudação. Eu, menina?!

    Abraçamo-nos, enquanto ele chamou por Lídia:

    — Lídia, venha cá, por favor. Quero que peça ao Marquinhos para conduzir Creuza até… ao escritório do advogado Mateus. E que ele fique à sua disposição o dia inteiro. Ela terá muitas coisas a acertar ao longo do dia de hoje.

    Lídia chegou e me conduziu ao portão. O motorista Marquinhos já me aguardava.

    Ao entrar no carro, percebi que os três — Zequinha, Maria e Lídia — esperavam que o carro partisse. Ao me virar em direção à casa, tive a sensação de que esboçavam um sorriso.

    & & &

    A conversa com o advogado transcorreu de forma proveitosa e decidida. Mateus tudo anotava, como se minhas declarações formassem um tapete onde todo o emaranhado dos últimos dias se revelasse uma peça perfeita e coerente.

    Antes que eu saísse, Mateus me confidenciou:

    — Esta causa se reveste de muita importância para mim, Creuza. Primeiro, porque é um pedido dos meus queridos avós paternos, pelos quais tenho muita estima, você sabe. Segundo, por conta do desafio profissional que ela representa. E terceiro… Bom, eu gosto de defender as causas humanitárias, em especial aquelas que me relembram os compromissos que jurei ao abraçar esta profissão.

    — Não terei como pagá-lo, seu Mateus. Como ficaremos?

    — Digamos que o pagamento me chegará de outra forma!

    E riu, exibindo um sorriso com a doçura do afeto.

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    Antes de seguir para o encontro final, pedi a Marquinhos que passasse em casa. Lá, coloquei batom, borrifei um pouco de lavanda no colo e, em seguida, fiz uma oração à Maria Santíssima:

    — Misericordiosa, precisarei da sua divina proteção. Vou enfrentar uma batalha nesta reconstrução da minha vida, assim como a do meu amado. Escolhida por Deus, conduza os nossos passos. Amém.

    — Creuza?! Posso entrar? Sou eu: Lídia.

    Abri a porta, e Lídia logo percebeu que eu estava pronta para o encontro que selaria o meu futuro.

    “… ninguém é tão forte que possa enfrentar sozinho o mundo. Todos nós precisamos uns dos outros…”

  • CULPA | CAPÍTULO XII

    Por Clauder Arcanjo

    O advogado Mateus se apresentou, enquanto seu Zequinha pedia que me sentasse:

    — Creuza, é importante que haja uma relação de confiança entre vocês. Estou certo, doutor Mateus?

    Mateus esboçou um sorriso; pressenti que, entre eles, havia um carinho mútuo.

    — Vou deixar os dois à vontade. Se precisarem de algo, podem chamar por Lídia. Terei que sair, mas voltarei logo.

    — Nem sei como lhe agradecer, seu…

    — Não tem de quê. Esta casa é sua, e esta causa agora é nossa — Zequinha mal terminou de falar, e já ria do trocadilho inesperado.

    Foi saindo, deixando-me a sós com o advogado. De olhar firme, cabelos escuros e rosto bem delineado, Mateus abriu a pasta, colocou um bloco e uma caneta sobre a mesa ao lado, indagando-me:

    — O que pode me dizer, senhora Creuza?

    Baixei a vista, sentindo-me tonta, como se o fato de falar mais uma vez sobre tudo que passei me torturasse. Um silêncio se interpôs entre mim e o advogado.

    Ele se levantou e se aproximou de mim, perguntando-me:

    — A senhora está bem? Aceita um pouco de água?

    Pálida, pedi licença e me retirei; nada consegui declarar.

    & & &

    Entrei no quarto e me joguei na cama. Pensamentos, imagens, visões… coisas embaralhadas. Tentei me levantar, porém não consegui. Trêmulas, as pernas não me atenderam. De repente, num espasmo estranho, perdi os sentidos.

    “Creuza… Creuza?!… Minha filha… o que houve… Está…”

    & & &

    Noite escura, uma voz, informando-me, num compasso lento:

    — A sua vida não permitirá que se submeta às regras que não saiam de dentro de você.

    Eu buscava de onde vinha tal fala. Abria ainda mais os olhos, nada. A escuridão era forte e ampla.

    Pouco depois, ouvi. Agora em um tom macio, quase maternal:

    — Não criei você, minha pequena, para ser indecisa. Vá em frente, o mundo precisa daqueles e daquelas que escolhem e constroem o seu próprio caminhar.

    Enrolei-me com minhas próprias pernas, como se, imitando a posição fetal, aquilo menos me importunasse.

    Senti alguém caminhar rápido na minha direção. Toc… toc… toc… Sobre um assoalho de madeira. De repente, parou. Percebi-lhe a respiração ofegante.

    — O pior cansaço, amiga, é aquele que vem da espera. Ficar parada lhe fadigará ainda mais, isso ninguém suporta por muito tempo.

    A carne ardia-me, numa febre sem causa definida. Os músculos extenuados, os ossos doloridos, a mente confusa.

    Quis gritar, chamar por alguém, pedir socorro… Não pude, aquele estado sufocava-me a voz, e eu…

    & & &

    “Creuza… filha… Está… bem?…”

    Ao abrir os olhos, seu Zequinha, dona Maria Djanira e Lídia junto à minha cama.

    Um homem de branco preenchia um papel. Em seguida, anunciou:

    — Passei esse remédio aqui. Um comprimido após o café da manhã, outro no almoço e um após o jantar. Sigam essa prescrição por uma semana. Qualquer alteração no quadro, avisem-me.

    — E o que ela teve, doutor Artur? — quis saber Lídia.

    O médico guardou o estetoscópio dentro da valise, olhando-me, como se eu tivesse a melhor resposta.

    — Digamos que… Bom, o ideal é aguardar um pouco mais. O seu estado requer muito repouso, uma boa alimentação… E a medicação ajudará a melhorar o seu quadro clínico de um modo geral. E, uma última coisa: nada de emoções fortes, mantenham-na descansando por, no mínimo, uns bons três dias.

    Levantou-se, despediu-se dos presentes e, antes de se retirar, dirigiu-se a mim:

    — Outra coisa, minha senhora, ninguém é tão forte que possa enfrentar sozinho o mundo. Todos nós precisamos uns dos outros. Você, isso me deixa tranquilo, será bem cuidada. Nesta casa, eu sei, nada lhe faltará. Aqui o amor sempre nos foi a melhor das terapias, um infalível tratamento. Sua bênção, vovô! Bênção, vovó Maria! Um beijo grande, querida Lídia. Boa noite.

    “Vovô? Vovó?… Mas…”

    Quando fiz menção de dizer algo, Lídia já me deitava, afagando-me os cabelos suados pelos terrores que me haviam importunado.

    — E você, queridinha, cuide de se aquietar! Ouviu o que doutor Artur falou, ouviu? Estarei aqui ao lado. Antes, vou lhe preparar uma sopinha, quase não comeu hoje.

    Na janela, o clarão do luar de julho. Já era noite, eu perdera totalmente a noção do tempo.

    “… ninguém é tão forte que possa enfrentar sozinho o mundo. Todos nós precisamos uns dos outros…”

  • CULPA | Capítulo XI

    Antes de me recolher, seu Zequinha me chamou:

    — Filha, precisamos conversar.

    Pressenti que a conversa seria decisiva para mim. De início, tive vontade de evitá-la; no entanto, antes que pudesse dizer algo, sua voz terna me aquietou:

    — O que você sabe da história de…

    Antecipei-me, a fim de evitar mal-entendido:

    — Nem sei o verdadeiro nome dele, seu Zequinha.

    Abalada, senti uma nova carga de emoção e chorei.

    Aquilo pôs um silêncio entre nós, interrompido pela entrada de dona Maria Djanira.

    — Quando existe amor, Creuza, a coisa se resolve. Sempre acreditei que Deus é um guardião dos que amam! — declarou, enquanto se sentava ao meu lado, pondo uma caixa de lenços de papel em minhas mãos.

    — Mas o mundo…

    — O mundo não vale um naco de paixão, quanto mais uma lágrima de amor! Acho que estou ficando cada vez mais romântica, meu velho!

    Dona Maria foi dizendo isso, enquanto riam, tornando o ambiente um pouco menos tenso.

    Então seu Zequinha se levantou, fez um leve carinho no ombro da esposa e se postou à minha frente. Em seguida, de forma paternal, aconselhou-me:

    — Esse homem é mais vítima do que culpado. Claro que o peso das duas mortes é algo que o persegue, porém a lei reconheceu que, no primeiro caso, o crime se deu por legítima defesa. No segundo, se ele não houvesse fugido, também a justiça da terra não o condenaria. Sei que ele correu… Quem somos nós para julgá-lo? Para longe, percebo, ele tentou fugir dos seus fantasmas. Como, se os fantasmas estão dentro dele? Ele vai ser julgado novamente, da forma mais justa possível, pois já constituí advogado para ficar encarregado da defesa. No mais, Creuza, somente você pode decidir.

    — Por que ele me escondeu tanta coisa? Eu…

    Antes que eu completasse, dona Lídia entrou com a bandeja de café. Dona Maria serviu-nos, enquanto declarava:

    — E o medo de perdê-la? Esse pobre viveu aqui em Licânia como um moribundo. Isolado, num casebre na ilha do rio. Do primeiro amor dele, poucos se lembram. Ela o traiu com o sujeito que, tempos depois, quando viúvo, ainda veio, naquele domingo, fazer troça do seu destino. Jogando ditos cretinos sobre o coitado. Ele calado estava, calado ficou. Até que o desgraçado, ainda não satisfeito, puxou a peixeira e começou a ameaçá-lo. Os presentes, testemunhas do fato, depuseram e relataram como o ocorrido se deu. Até que houve a facada, em defesa, e… Bem, o resto você, Creuza, pode supor.

    Lídia observava, sem nada dizer, como se o fato de presenciar aquele relato tirasse-lhe as forças para voltar à cozinha.

    & & &

    Tentei dormir, porém várias vozes invadiam o meu sono: “Assassino!”, “Matou pai e filho!”, “Creuza, Creuza, me perdoe!”…

    Saí do quarto em busca de ar. Quando entrei na cozinha, dei pela presença de Lídia.

    — O sono não veio? — perguntou-me.

    A mão trêmula segurando o copo com água denunciava o meu estado de nervos.

    — A insônia não é o pior dos meus males, dona Lídia.

    — Não julgue, dona Creuza. Pelo menos por ora, fique apenas junto dele. Passando esse redemoinho todo, ou seja, cadeia, julgamento… Conversem e, com Deus e Nossa Senhora, decidam o melhor para cada um.

    & & &

    O sol alto me encontrou ainda dormindo.

    Dona Lídia entrou no quarto e, com cuidado, chamou-me:

    — O advogado está aí e quer conversar com você.

    — Eu…

    A boa Lídia não me deixou completar:

    — Se me permite: tome um banho, troque de roupa, enquanto eu preparo um café fresquinho. Não tenha pressa, o compadre Zequinha está dando as primeiras orientações ao doutor Mateus.

    No chuveiro, senti como se a água fria me restabelecesse a energia. Ao me enxugar, já levava a certeza de que lutaria por ele. Contra todos, caso fosse necessário.

    — Bom dia, seu Zequinha. Bom dia, senhor Mateus. Vamos conversar.

    O dia em Licânia nascera ensolarado.

  • Culpa | Capítulo X

    Eu, perdida pelas ruas, sem noção de nada, apenas acompanhada de uma dor de cabeça forte, tornando tudo ainda mais confuso em mim. As palavras do padre, vívidas, quando no confessionário:

    — Filha, filha… Não! Não faça isso.

    Quando uma rasga-mortalha cruzou o céu escuro, uma voz mansa interrompeu meus pensamentos:

    — Vamos para minha casa, senhorita Creuza. Não pode ficar assim pelas ruas.

    Um homem ao meu lado, de jeito educado e manso, conteve-me o desespero.

    — A vida sem ele… senhor?

    — Zequinha. Todos me chamam de Zequinha Coletor. Vamos! Maria, a minha esposa, já preparou um quarto.

    — Mas…

    Não me deixou completar, conduzindo-me.

    Eu não tinha noção de nada, os pensamentos ruins assombrando o meu juízo. Como se a vida nada significasse. Levei os olhos de relance em direção ao rio, que corria no vale escuro, aos fundos da cidade.

    Ao perceber aquela intenção, o senhor Zequinha afastou a minha vista das correntezas e foi me levando em silêncio.

    & & &

    Uma casa se apresentou à minha frente. Até então caminhara cabisbaixa. No portão, duas mulheres nos aguardavam. Uma delas saudou-me com a voz embargada:

    — Vamos, entre! A casa é sua. Lídia, conduza a nossa hóspede ao quarto de visita.

    Lídia pegou no meu braço direito e entramos. Quis falar algo; apenas me escapou:

    — Obrigada. Que Deus os abençoe.

    & & &

    Na manhã seguinte, a casa acordou cedo e o cheiro do café me animou.

    Na cozinha, Lídia, junto ao fogão, preparava o desjejum. Ao me ver, disse:

    — Ô, não precisava ter acordado tão cedo, senhorita!

    — É costume — argumentei.

    Pondo a mesa, Lídia reparou no meu jeito e me confidenciou:

    — Da maneira que entrou aqui ontem e como está agora, meu Deus! As nossas orações chegaram ao Céu.

    Um pesar invadiu os meus olhos; e me sentei à mesa, aos prantos.

    — Tudo vai se resolver, filha de Deus. E outra coisa, você não poderia estar sob melhores cuidados. Não é porque sejam os meus patrões, mas dona Maria e seu Zequinha são pessoas do bem, um casal muito caridoso.

    — Não quero atrapalhar a vida de ninguém, dona Lídia. Eu…

    Uma pessoa chegou junto a mim, saudando-me:

    — Bom dia, Creuza. Espero que tenha repousado bastante.

    Era dona Maria Djanira. Levantei-me, constrangida, enxugando as lágrimas na manga do vestido de chita.

    — Na medida do possível, sim. Sou grata a vocês pela acolhida.

    — Não há de quê. Estamos neste mundo para servir. Somos todos servos e servas de Deus, sob a proteção de nossa mãe, Maria Santíssima.

    — Amém! — respondeu Lídia, dispondo à mesa café com leite e tapioca, com queijo de coalho.

    & & &

    Depois do café que, confesso, servi-me com fastio, fui chamada ao escritório. Lá seu Zequinha me aguardava. Pediu-me que me sentasse, dizendo-me:

    — Já liguei para o meu advogado. Ele defenderá o seu…

    Ele silenciou, no intuito de me resguardar de algum fato que poderia me constranger.

    — Não conheço o seu nome verdadeiro, mas fui informada, quando entrei na prisão, de que era perigoso. “Assassino que carrega no lombo dois crimes: pai e filho”, estas foram as palavras do delegado.

    Zequinha rabiscou algo num papelote sobre a escrivaninha e, de repente, ordenou, indiferente ao meu depoimento:

    — Lídia, chame o Marquinhos aqui.

    E, antes que fôssemos interrompidos, ele olhou dentro dos meus olhos, declarando-me:

    — Quem de nós não cometeu os seus erros? Trata-se de um homem bom, isso eu posso lhe assegurar. Creuza, só existe um sentimento maior do que o amor: o perdão. Pense nisso.

    Um jovem se apresentou à entrada do ambiente. Seu Zequinha lhe repassou um bilhete, ordenando:

    — Entregue na mercearia do Gazumba. Ficarão por minha conta as refeições do preso… Sim, o que deu entrada ontem, Marquinhos.

    & & &

    Licânia toda comentava a recente prisão. Na pedra do Mercado Público, a conversaria corria solta:

    — Achava que, do jeito que a nossa polícia é fraca, ele não seria encontrado!

    — Quem deve sempre paga!

    — Pessoal, não julguem. Quem repara um cisco no olho do outro nunca vê uma trave na própria vista. Vamos deixar o caso com a justiça.

    & & &

    No final da manhã, reuni coragem e pedi ao seu Zequinha que me escrevesse uma carta. Das Dores precisava receber notícias.

    — Será uma honra.

    Pegou da caneta e do papel pautado:

    — Me diga sobre o que quer avisá-la.

    Cocei o alto da cabeça, passei as mãos pelos lábios secos, presa à dificuldade de expressar o que queria transmitir.

    — Vejamos. Que tal assim? Estou bem acomodada, encontrei um casal amigo. Não se preocupe, pois ficarei enviando notícias de vez em quando…

    — Não, espere. Estou arrumando aqui dentro as ideias.

    Com pouco, declarei:

    — Escreva: Minha querida Das Dores. Que você esteja na paz do Senhor. A decisão de seguir até Licânia foi acertada, apesar de estar sofrendo muito. O homem que amo é… — E um choro embaralhou a minha fala.

    Zequinha não parou a escrita, continuou sereno a carta, como se traduzisse em palavras o que me afligia.

    & & &

    No final da tarde, voltamos à prisão. Lá chegando, seu Zequinha saudou o delegado.

    — O advogado Mateus Praxedes Arcanjo ficará responsável pela defesa do detento. Gostaria de acertar outros detalhes. Vejamos. As refeições dele, a fim de não onerar as despesas públicas, ficarão também ao meu encargo. Gazumba será o fornecedor. As visitas de dona Creuza serão sempre acompanhadas por uma pessoa de inteira confiança. Aliás, a senhorita Creuza está residindo conosco. Qualquer necessidade, seu delegado, pode me acionar.

    De repente, um dos guardas soprou:

    — Com tão forte padrinho, pelo jeito o cabra vai ser inocentado.

    Seu Zequinha virou-se em direção ao samango e respondeu-lhe com um acertado silêncio.

    Ao se despedir, ele agradeceu ao delegado e retornamos.

    A noite já chegava em Licânia; no céu, o prenúncio de uma lua dadivosa. Nas algarobas e nos benjamins, o passaredo se achegava festivo.

  • CULPA | Capítulo IX

    Por Clauder Arcanjo

    — Não! Não faça isso com ele! Ô, meu Deus…

    A voz de Creuza, como se um pouco distante, misturada com um choro forte, me chegava embaciada pelas terríveis bordoadas dos cassetetes que eu recebia.

    Quase desacordado, ainda tive tempo de ouvir a ordem de um dos guardas:

    — Vamos, toca, toca! Este homem é perigoso.

    Fui jogado na caçamba de um jipe. O carro arrancou, e a minha cabeça bateu em algo firme, o que me levou ao desmaio.

    — Vamos… toca!

    & & &

    — O que houve aqui, gente?

    Das Dores entrou no casebre e encontrou Creuza em desespero.

    — Ô, minha amiga! Ô, amiga!… Levaram ele, debaixo de uma surra animal; não entendi por quê. Ninguém me deu nenhuma explicação. A polícia, a polícia…

    E nada mais Creuza conseguia falar, tomada pelo choro convulso, o cabelo em desalinho. Ao seu lado, tentando conter-lhe a agonia, a presença de uma das vizinhas.

    — Tudo tem que ter uma explicação. Terá que ter! — disse Das Dores, transmitindo uma certeza de que o seu olhar baixo não dava garantias.

    Pouco depois o ambiente no casebre mergulhou num silêncio fúnebre.

    Das Dores preparou um chá para Creuza, que ela recusou decidida.

    — Não quero me acalmar. Não quero! — declarou, enxugando a face sofrida.

    & & &

    Os intensos sacolejos da viatura, sem livrar os buracos na estrada de terra, levaram-me a despertar. Quando abri os olhos inchados, percebi que estava entre vários samangos.

    “De novo, tudo de novo. A prisão, o julgamento. Os depoimentos, a voz enjoada do promotor, na tentativa de me fazer apodrecer na prisão. De novo, tudo de novo.”

    Não sei se emiti alguma palavra, mas senti uma estocada do cassetete do samango mais próximo.

    — Fique quieto. Nem se meta a besta.

    Com as mãos e os pés algemados, ainda me deu vontade de lhe dizer: “Covarde, só é valente assim”. Engoli o cuspe grosso, entregando-me ao destino que me aguardava.

    “Devia ter vindo para junto deles, no reino dos mortos. Mas intercederam por ele, sem merecer…”

    — Hein?!… Quem está…

    — Fique calado. Não se meta a besta, não se meta!

    O trepidar da viatura na buraqueira da estrada. “Tudo foi sonho; agora, o inferno, a vida real: prisão, novo julgamento, promotor, testemunhas… Condenado!”

    & & &

    O lugarejo fervia com os comentários:

    — Sempre achei o jeito dele meio esquisito!

    — Quem foge sempre deve!

    — Pessoal, não julguem. Vocês estão parecendo com aquelas velhas fuxiqueiras. Vamos respeitar o sofrimento de Creuza. A coisa vai se aclarar, eu sei!

    & & &

    Na manhã seguinte, a decisão de Creuza:

    — Não vou ficar aqui parada. Vou atrás dele.

    O arrepio de Das Dores:

    — Mas, minha querida, você sozinha ir para a cidade. Sabe que lá é tudo diferente. Sabe que…

    — Eu prometi a ele que nada de mal ia lhe acontecer, e isso não me sai da cabeça. É como um ferrão, entende, a me cobrar uma atitude. Sem falar que eu lhe garanti que sempre estaria ao seu lado — disparou Creuza, num tom de quem não admite contestação.

    — Eu… vou rezar por vocês. Que Nossa Senhora guie os seus passos e mantenha o mal distante do caminho dos dois.

    Abraçaram-se. Antes de Creuza ganhar a estrada, Das Dores pediu que ela esperasse. Saiu e voltou rápido.

    — Pegue, você vai precisar. É pouco dinheiro, mas é tudo que eu tenho. E outra coisa: chegando em Licânia, procure o seu Zequinha Arcanjo. Ele é meu compadre. Um homem bom que pode lhe ajudar, caso precise. Pode falar em meu nome.

    — Obrigado. Cuide das minhas coisas até eu retornar. Com ele, pode ter certeza.

    & & &

    No final da tarde, Creuza entrou em Licânia. Seguiu direto para a cadeia.

    O delegado autorizou que Creuza visse o preso, porém distante, longe das grades.

    — Você não devia ter vindo. Isto aqui não é lugar para…

    Creuza sentou-se num tamborete, acompanhada pela vigília de um dos soldados.

    — Trouxe uma paçoca feita com carne-seca. Você precisa, não pode ficar sem se alimentar.

    Quando ela fez menção de lhe passar a boia, o soldado informou que tudo seria inspecionado. Tomou das mãos da visitante a refeição e dirigiu-se à saleta contígua.

    — Você não devia ter vindo.

    — Saiba, e já deveria me conhecer depois do nosso convívio, que não sou mulher de abandonar meu companheiro.

    Aquela expressão, “meu companheiro”, fez com que o detento baixasse a cabeça, como se recebesse uma estocada profunda.

    & & &

    No início da noite os sinos da Matriz de Sant’Anna convidavam os cristãos para a missa das seis. Creuza entrou na nave e se ajoelhou diante da imagem de Nossa Senhora.

    Ela assistiu à missa. Ao final, resolveu se confessar.

    Padre Araquento ouviu os supostos pecados daquela mulher, mais se abençoando do que abençoando-a.

    — Filha, filha… Não! Não faça isso.

    A noite caiu em Licânia: um céu sem estrelas, com o passaredo inquieto por entre a galharia das algarobas e dos benjamins da cidade.