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Culpa – Capítulo XXV

Por Clauder Arcanjo

Ninguém saía, nem entrava. O silêncio era tudo o que vazava daquele quarto em que se encontravam Seu Zequinha e Creuza.

Tempos depois, Creuza saiu. Silente, mas decidida.

Dona Maria Djanira, que rezava seu terço na cadeira de balanço na sala, abençoou-a:

— Vá com Deus, minha filha. Me dê um abraço. Tudo se resolverá.

Creuza se aproximou. Abraçou-a, beijou-lhe a mão, e se despediu:

— Preciso agir rápido. Grata por tudo.

Deixou a casa e se dirigiu na direção do rio.

& & &

— O homem se entregou. Voluntariamente.

A conversa corria solta na pedra do Mercado. Em meio às pingas, o comentário era um só: ele entrara na cadeia ladeado apenas por Creuza.

— Os meganhas até se assustaram. Nunca tinham visto uma mulher de tamanha coragem.

— Dizem que ela comunicou aos “homens da lei” que se machucassem ele, veriam o que era bom para tosse.

No meio desse burburinho, padre Araquento, que comparecera ao Mercado para comprar milho verde, reclamou:

— Se trabalhassem o quanto fuxicam, Licânia seria uma…

— … grande merda! — rechaçou um dos presentes.

— Cambada de pinguços desocupados! O Inferno os espera.

— E dizem que o porteiro de lá será um padre oriundo destas bandas.

Antes que o pároco respondesse, o Gazumba cuidou de interceder:

— Minha gente! Vamos nos concentrar na questão anterior. O homem terá ou não um julgamento justo?

Padre Araquento, resmungando, se retirou, sem comprar aquilo a que viera.

E a discussão tomou ares de intensa disputa. Uns, jurando que a lei prevaleceria. Outros, advogando que a justiça era surda e cega para as causas dos desvalidos.

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Semana seguinte, a notícia galopou pelas ruas:

— O julgamento foi marcado. O júri popular decidirá pelo futuro do “criminoso”.

— Que criminoso? — protestou Zequinha ao ouvir tal comentário.

— Bom dia, compadre. Que bom vê-lo recuperado.

— Que criminoso? Eu gostaria de saber. Ou vocês não sabem que ninguém pode ser considerado culpado antes de um julgamento justo? Volto a insistir: que criminoso?

Ninguém respondeu. A presença de Zequinha, refeito e ainda mais íntegro, calara a boca de todos.

Com pouco Zequinha se retirou, não sem antes anunciar:

— Pode ser que haja nesta cidade homem tão justo quanto ele, não mais. E saibam todos: eu o defenderei como se fosse um filho meu.

Deu as costas aos presentes e ganhou o rumo de casa.

Num piscar de olhos, a novidade correu pelas calçadas:

— Seu Zequinha fez do julgamento um caso pessoal.

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— Meu velho, você tem certeza desta sua decisão?

— Maria, minha filha, se os homens sérios não cuidam de sua cidade, os canalhas vêm e…

Maria Djanira sabia quando o seu esposo fechava questão. Nunca o vira tão decidido. E como se orgulhava daquela hombridade!

Creuza entrou, saudou dona Maria Djanira e, inquieta, disse:

— Tenho tanto medo, tanto medo!

Zequinha e Djanira a abraçaram afetuosamente.

Aquele abraço traduzia o quanto a sua causa seria defendida pelo casal.

Escrito por Clauder Arcanjo

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