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  • EXPULSO DE CASA

    Por Clauder Arcanjo

    Expulso de casa, Ferreira ganhou a rua. Apesar do sol forte, sentia um frio na barriga. Caminhando por entre os becos de Licânia, tudo lhe parecia estranho, agressivo. A sentença da companheira Gervásia ainda zoando-lhe nas oiças:

    — “Domênica, Domênica…” Chega! Esta foi a minha última noite em claro. Seja, então, feliz. Comigo, não.

    Ele parou frente a Matriz, olhou para a imagem da Senhora Sant’Anna e ficou como se a lhe pedir a bênção (ou seria a piedade?) dos Céus. Tudo a lhe girar na memória, palavras e cenas confusas, como se sopradas em tom de reprovação a suas últimas atitudes.

    — … Chega! Esta foi a minha última noite em claro. Seja, então, feliz. Comigo, não.

    “Minha Madrinha, proteja os meus passos. Preciso da sua luz no meu caminho”. Ferreira não sabia se rezava ou se implorava; com pouco, ajoelhou-se e ficou cabisbaixo no adro da igreja.

    Um gaiato passou de bicicleta e jogou-lhe um achincalhe:

    — Andou bebendo, Ferreirinha?!

    Não teve coragem de responder. Calado permaneceu, perdido numa onda de pensamentos soltos, retalhados, a roubar-lhe o sentido.

    &&&

    Não se sabe quanto tempo lá ficou. Ajoelhado, sob o sol forte da província. Acompanhado tão somente pelos comentários das pias Filhas de Maria, a reprovar sua situação a partir das calçadas próximas:

    — A verdadeira esposa já botara ele para fora de casa. Domênica Melgaço cansou de ser besta.

    — Homem que não leva o pão para dentro do seu lar, comadre, merece mesmo um pé na bunda.

    — E agora, pelo jeito, a que lhe deu guarida, a tal de Gervásia, não quis mais sustentar o malandro…

    Nesse exato momento o padre Araquento saiu da casa paroquial, caminhando em direção à sacristia.

    — Sua bênção, padre — rogaram, em uníssono, as Filhas de Maria.

    O pároco, sem mudar a velocidade dos passos, devolveu-lhes:

    — Que Deus nos abençoe e que Ele modere os nossos juízos.

    — Assim seja.

    — É bom cuidarem do almoço. O dia já vai alto.

    Tal diálogo as dispersou, fazendo com que elas deixassem as calçadas e sumissem no interior de suas casas.

    &&&

    Ao chegar à sacristia, o sacristão saudou o velho pároco:

    — Bom dia, padre Araquento.

    — Bom dia, Batista, o que temos para hoje? — indagou.

    O sacristão dirigiu o olhar na direção de uma senhora que, sob um xale negro, estava ajoelhada próxima ao confessionário. Era Gervásia.

    — Bom dia, minha filha. Em que posso lhe ser útil?

    — Padre, estou sofrendo tanto, eu queria… — um choro forte embargou-lhe a voz.

    Após ouvir toda a história que a afligia, aconselhou-a:

    — É grande a misericórdia divina. Não há sentimento maior do que o perdão, dona Gervásia. E nunca devemos nos envergonhar do amor. Vá em paz. E que Deus os guarde.

    Gervásia recompôs-se, e um sorriso tímido assomou-lhe à face antes tão sofrida.

    Minutos depois, enquanto o pároco rezava aos pés de Maria Santíssima, ele foi chamado pelo novo coroinha, a pedido do sacristão.

    — Seu padre, há uma outra senhora aguardando junto ao confessionário.

    Desta feita era Domênica Melgaço.

    — Bom dia, senhora Domênica.

    Sem perda de tempo, Domênica inquiriu-o:

    — Seria pecado eu recebê-lo de volta?

    — Quem, dona Domênica Melgaço? — indagou, aturdido, o padre Araquento.

    Ela baixou o tom de voz, aproximou-se, levantando levemente o xale azul-celeste, e disse-lhe:

    — O meu esposo… o Ferreira.

    Padre Araquento levantou os olhos em direção ao madeiro, rogando a Cristo e a todos os santos:

    — Meu Deus! Que seja sempre grande a misericórdia divina.

    Domênica Melgaço ainda ponderou:

    — Ele deve estar sofrendo… e a Santa Madre Igreja nos uniu: na saúde, na doença, na alegria, na tristeza.

    Lá fora os pardais chilreavam nas copas dos benjamins, enquanto o relógio da torre da Matriz de Sant’Anna anunciava o meio-dia.

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • UMA NOITE EM CLARO

    Ao entrar, tirou a camisa suada, largando-a sobre a pilha de roupa suja. Depois de sentar-se no tamborete, na varanda aos fundos, tirou os sapatos, dando um tempo para esfriar os pés, e ficou com os olhos perdidos no céu cego de estrelas. Minutos depois ganhou a direção do banho. Calado e casmurro, sem razão clara, apenas como se com desgosto da vida, numa espécie de mal-estar.

    — E o trabalho, Ferreira? — indagou-lhe Gervásia.

    Nenhum argumento lhe ocorreu, ele calou-se, fechando a porta do banheiro atrás de si. Levou mais tempo do que de costume. A água a correr pela pele, os olhos acompanhando a espuma do sabonete em seu trajeto em direção ao ralo. Enxugou-se com vagar; arreganhou os dentes frente ao espelho embaçado, se sentindo velho e cansado. Penteou o cabelo ralo, aspergiu a lavanda nos sovacos e saiu.

    — O jantar já está na mesa, querido. Vai querer que eu esquente o leite?

    — Não… não precisa.

    Gervásia respeitou-lhe a resposta.

    — Se precisar de algo, me chame. Vou para o quarto, estou com um pouco de dor de cabeça.

    — Boa noite — expressando um tom de despedida, não de saudação.

    Mais mexia no prato de comida do que se servia. A boca sem a volúpia do apetite, a cabeça a vagar em pensamentos mil, enquanto a mão afastava o pedaço de carne do fio do macarrão. Os cotovelos enfiados na toalha colorida sobre a mesa da copa. Resolveu depositar o resto dos alimentos na lixeira do muro; jogou água sobre a louça da pia e se arrastou em direção ao quarto. Quando entrou, percebeu que Gervásia dormia. Vestiu-se com o pijama que ela deixara pendurado no cabide; escovou os dentes e, antes de deitar-se, foi para a sala. Ao abrir a janela, o cheiro da noite… e um entalo assomou-lhe à garganta.

    — Meu deus, meu deus… — Ferreira a sussurrar, em murmúrio de queixa.

    Um vento frio a anunciar um possível alento, depois de um dia quente; agosto de muito trabalho e sol marcante.

    Mexeu nas coisas que trazia na bolsa: uns pedidos dos clientes, promessas de venda, cartões de apresentação… muita promessa e poucos negócios certos.

    De repente, a presença de um abajur com motivos japoneses no canto da saleta chamou a sua atenção. Dirigiu-se a ele, observando os detalhes nipônicos: cena de um casal com vestes típicas do Oriente. Na mão da dama, um leque.

    Aquilo o levou às lágrimas.

    — Meu deus, meu deus…

    — Venha dormir, Ferreira. Amanhã você precisa acordar cedo — a voz de Gervásia fez com que sentisse vergonha dos seus modos. Enxugou as lágrimas, tentando esconder tamanho desalento.

    — Já vou, estou apenas arrumando a pasta para amanhã.

    Pouco depois entregava-se aos lençóis, mas o sono não vinha. Um galo desorientado saudava a alvorada em plena meia-noite. A dama com o leque, de quando em vez, a surgir diante dos seus olhos insones.

    &&&

    Na manhã seguinte Gervásia não preparara o café.

    Procurou por ela e a encontrou na sala, sentada na poltrona diante do abajur.

    — O café já está na mesa, querida? Vou querer um pouco de leite e…

    Gervásia envolta em silêncio, a correr os dedos sobre o tecido do abajur.

    Ferreira sentou-se ao lado, e levou a mão direita sobre o seu ombro. Um leve tremor em Gervásia inquietou-o.

    — Querida…

    Aquilo, como se uma gota d’água, fez com que ela desabasse em choro.

    Ferreira levantou-se e abriu a janela. A manhã se marcava de rubro, e as abelhas festejavam os botões das rosas no jardim.

    Quando ele voltou os olhos para a porta, viu a sua mala.

    — Bom dia, Ferreira. Já está tudo pronto.

    — Meu deus, meu deus… Querida…

    Ela não o deixou concluir:

    — “Domênica, Domênica…” Chega! Esta foi a minha última noite em claro. Seja, então, feliz. Comigo, não.

    E Ferreirinha abriu a porta da frente. Na rua, o sol de Licânia costumeiro. Na sala de Gervásia, um abajur arremessado contra a parede. “Maldito! Maldito!…”

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • UM SONHO

    — Não, não… Não tive culpa, Domênica. Tanta dificuldade financeira… Não tivemos culpa. Não, não…

    — Você está sonhando, Ferreira? Ou seria… — pronunciou Gervásia ao seu lado.

    Levantou-se, o corpo suado, a mente em tumulto. Dirigiu-se para a cozinha, lá bebeu um copo d’água. Envergonhado, ele sentou-se à mesa. Os pensamentos em desalinho. Ainda a rever cada cena do pesadelo que vivenciara há pouco.

    Sem saber o que falara durante o sono, Ferreirinha teve vergonha de encarar Gervásia, e postergou a sua volta ao leito. “Uma mulher tão especial como Gervásia, a tudo me completando, sempre me assistindo… e eu a sonhar com a outra. Meu Deus!”

    Ferreira abriu a janela e hauriu o frescor que vinha do jardim. Lá fora, a madrugada silenciosa e uma lua cândida a pontuar o céu de julho.

    — Quer que eu lhe prepare um chá?

    Teve um susto ao perceber a presença da companheira.

    — Um chá é sempre bom, querida — respondeu-lhe, a fala embargada.

    Ouviu a água a cair na chaleira e o riscar do fósforo. Os sons na noite alta a rasgarem a paz com uma nitidez que incomodava, definidora.

    Ele pressentiu a disposição das xícaras sobre a toalha da mesa e permaneceu com olhos fixos lá fora. Já se passaram vários meses em companhia de Gervásia; acolhido, tratado com carinho e zelo, sentindo-se revigorado para a vida. No entanto a lembrança do relacionamento com Domênica ainda persistia, toldando-lhe a paz de espírito. Algumas vezes em sonhos leves, discretos; outros, em fúria de paixão, entremeados por momentos de briga e reconciliação.

    Nessa noite a coisa ganhara amplitude: o aroma dela nos lençóis, os lábios finos a lhe criticarem e lhe atentarem… enfim, um pesadelo. Ele, aflito, a argumentar, tentando estabelecer a paz com Domênica Melgaço; ela mais linda do que nunca, tal qual quando a conhecera. Sem falar no vestido de seda fino e colorido a marcar-lhe o corpo, e ele rogando-lhe perdão. Tudo em vão, ela a desprezá-lo e…

    — O chá, querido. Venha.

    Ele se voltou, os olhos a denunciarem o seu estado. Gervásia serviu-o e se retirou, cabisbaixa.

    &&&

    No dia seguinte, Ferreira saiu cedo. Sem fazer a barba, sem tomar o café da manhã, nem esperar que Gervásia acordasse.

    Seguiu em passos firmes e rápidos. Quando diante da casa em que se dera o seu sonho da noite, parara junto ao portão. O jardim com flores banhadas pelo sereno da noite. Com pouco mais ele ouviu o barulho da casa, como se todos à mesa no desjejum.

    — Mais chá, queridinho?

    A voz de Domênica, coberta com o tom da delicadeza, chocara-o. Cabisbaixo, Ferreirinha retirou-se e fez o caminho de volta, em passadas dúbias, num ritmo lento.

    Quando frente à sua nova morada, Gervásia o esperava no portão, com um riso acolhedor, de vestido elegante, sóbrio, e com os lábios marcados pelo batom vermelho. Fitou-o e, em voz melíflua, ela tocou-o para dentro de casa, consolando-o:

    — Foi apenas um pesadelo, Ferreirinha.

    E ele caiu nos seus braços, em pranto e sem culpa.

    ……………..

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • XÍCARA DE CHÁ

    — Aceita uma xícara de chá, querido? — indagou-me Gervásia.

    Nem lhe respondi, a cabeça ainda sob o impacto da cena que presenciara pouco antes.

    — Algo o preocupa?

    Novamente em silêncio, meti-me quarto adentro. Lá fitei-me ao espelho; no rosto, uma certa ruga de raiva pelo que assistira.

    Ao retornar para a sala, joguei-me na poltrona e perdi-me em revisitar tudo o que me ocorrera há instantes.

    &&&

    A rápida chuva que caíra no fim de tarde me forçara a interromper meus passos e procurar a proteção na frente do restaurante. Enquanto aguardava, passei os olhos pela rua e presenciei a cidade se preparando para a noite iminente. Cansado de procurar um novo emprego, de certa forma invejava a fadiga que flagrava na face daqueles que retornavam para casa depois de mais um dia de labuta.

    Assim me encontrava quando, ao virar o rosto para o interior do prédio, dei pela presença de Domênica a uma mesa ao fundo, acompanhada de um senhor de meia-idade.

    Sem nem avaliar a pertinência do meu ato, entrei e me dirigi à mesa dos dois.

    No caminho, flagrei um sorriso no rosto de Domênica. E uma gargalhada nos lábios finos do senhor que a acompanhava.

    — Espero que as crianças não tenham ficado sozinhas! — disparei.

    Domênica, com uma elegância no trato que ainda mais me irritou, ergueu os olhos negros em minha direção, enxugou o canto da boca e anunciou:

    — Senhor Aparício, esse é meu ex-marido, o senhor Ferreira das Mercês.

    E, sem esperar, ela complementou:

    — Senhor Ferreira, apresento-lhe o senhor Aparício, meu dileto amigo.

    Sem me dar conta de que estava em ambiente público, elevei ainda mais a voz e devolvi:

    — Sim, Aparício. O velho Aparício! Não o tinha como caçador de mulheres desamparadas. Espero que não esteja apresentando a ela suas manias e rabugices de homem solteiro, muito menos desfilando seu surrado rosário de filosofias tupiniquins, retiradas do último almanaque de autoajuda.

    O restaurante todo caiu num silêncio de expectativa. Algo que ocorre quando os presentes percebem que um barraco está prestes a se dar.

    Domênica baixou a face, fez um muxoxo de incômodo e serviu o Aparício de mais uma xícara de chá.

    — Obrigado, querida! O chá é sempre um bálsamo para as horas mais difíceis — provocou-me, fingindo não dar mais pela minha presença.

    O ciúme tomou-me o juízo e me levou ao desatino.

    — Não deixe esfriar, seu Aparício! Saiba devolver a cortesia da dama — disparei, tomando-lhe a xícara e derramando o conteúdo na sua boca. Enquanto ele se engasgava, eu lhe abria os lábios e forçava-o a ingerir tudo.

    Domênica irritou-se e ordenou a minha expulsão do ambiente:

    — Senhor maître, ponha este sem-vergonha para fora. Ele está nos incomodando.

    &&&

    — Sem-vergonha! Isso não! — reclamava cá comigo.

    Nesse exato momento Gervásia se aproximou de mim. Sentou-se ao meu lado e me pediu para relatar o que tanto me contrariara.

    Procedi ao relato completo, aquilo aliviava a minha fúria. De quando em quando fazia uma pausa para disparar:

    — Sem-vergonha? Isso não! Nunca fui tratado assim.

    Quando concluí toda a narrativa, Gervásia levantou-se e foi à mesinha de chá. Enquanto se servia, notei-lhe as mãos trêmulas. E, com a voz rascante:

    — Seu sem-vergonha!

    *Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.

    clauderarcanjo@gmail.com

  • CASO DE POLÍCIA

    Nem sei como acertei o caminho de volta. A mente turva, os pensamentos em alvoroço, a culpa a mexer, e remexer, com os meus miolos.

    Ao pôr os pés na sala, entreguei-me ao sofá. Sentado, com os olhos baixos, a cabeça perdida; a reviver a cena que testemunhara há pouco. Testemunhara não, protagonizara.

    A casa recolhida em silêncio. Um silêncio de vergonha?

    — Você já voltou, querido?!

    Não reuni coragem de fitá-la, receio de que meus olhos me denunciassem. Sabia-os a janela da alma.

    Como o silêncio voltasse a reinar, desta vez parecia-me mais abissal, ela me convidou:

    — Vamos preparar um café fresquinho. Não é uma boa ideia?

    A cena revista. A correria desabalada daquele senhor à saída do supermercado. A minha entrada, disperso. O choque entre nós dois. A pessoa no chão, um pacote de carne próximo dele. A voz de alguém a ordenar: “Pega ladrão!”

    Da cena, como se em câmera lenta, a correr na tela do juízo, a parte relativa ao olhar do homem junto ao pacote, o objeto do furto. Em seus olhos, a placidez da fome, a entrega ao destino. Olhando para mim, e furando-me de remorso. “Lá em casa, senhor… a fome… senhor!”

    — Não vai querer, não é? Não diga depois que eu não lhe ofereci! — Gervásia a me chamar, porém como se a voz dispersa pelos ecos da lembrança. Ou seria apagada pela força expressiva do olhar do pobre homem? “… fome… senhor…”

    Enfiei mais os olhos nos detalhes do mosaico do piso da sala, na vã tentativa de me ocupar com algo do momento atual, e banir o fato recém-acontecido.

    “Obrigado, senhor! Graças a você, conseguimos deter o meliante.”

    Um segurança forte, vestido numa farda cáqui, os olhos escuros e sanguíneos, fitando-me da sua altura, enquanto dava-lhe uma chave de braço e ordenava a outro vigia que se aproximava: “Ligue para a polícia!”

    A palavra polícia fez com que eu conseguisse abandonar o mutismo em que o inusitado me jogara:

    — Desculpe, mas isto é caso de polícia?

    O olhar de clemência do homem que fugia me cobriu com uma força estranha, e continuei:

    — Nada foi levado. O pacote aqui está!

    Notei que, quando recolheram a carne do chão, o gerente, homem gordo e de olhos cinza, ordenou:

    — Segundo nosso protocolo de segurança alimentar, o produto será descartado.

    O desespero do homem que se encontrava imobilizado, tão logo ouviu a orientação quanto ao descarte: “— Não, minha família… moço… temos fome, muita fome!”

    &&&

    A entrada na delegacia. Eu arrolado como testemunha.

    — O senhor é a testemunha?

    — Sim. De certa forma, sim.

    O escrivão picava uns pedacinhos de bolacha, e dispunha-os junto à janela que dava para os fundos; fazia isso meticulosamente, enquanto aguardávamos a chegada do delegado. Seus olhos eram azuis, como o céu que se apresentava pelo gradeado da sala.

    Foram tomados os depoimentos do guarda e do gerente. Fui, então, convidado a dar a minha versão.

    Quando da minha tentativa de minimizar a ocorrência, o delegado me ameaçou:

    — Você está em conluio com o meliante? Conhece-o de algum lugar?

    Passei os olhos de espanto pela sala; com pouco, dei pela presença de um pássaro que bicava os pedaços de bolacha dispostos no umbral da janela e depois voava para o seu ninho. Nesse instante um riso luminoso se esboçou na boca murcha do escrivão.

    Calei-me. Ou seria acovardei-me? A ocorrência foi encerrada; e o denunciado, levado às grades.

    — Você está calado demais, Ferreira. Se abra comigo, meu bem.

    As palavras de Gervásia precipitaram o meu choro, a assunção da culpa, minha máxima culpa:

    — Eu não devia ter me calado, não devia. O caso não era de polícia! Fome, apenas fome, Gervásia! Ah, meu Deus! Ô, meu Deus!

    Lá fora, varrido por ventos assanhados, o céu de Licânia se recobria de pesadas nuvens, como se o firmamento anunciasse assomos de fúria.

  • O DIVÓRCIO

    Domênica dirigiu-se ao cartório, os advogados protocolaram o encontro para as 10 horas. Lá seriam firmados os termos do seu divórcio.

    Na noite anterior ela se sentira tomada por uma melancolia incomum; mal bicara a sopa que havia preparado. As crianças, de início inquietas, calaram-se, estranhando o silêncio da mãe.

    — Mãezinha, não quero mais a sopa, não — reagira Telzinho.

    Domênica, cabisbaixa, a passear a colher por entre os fios de macarrão no prato, nada respondeu.

    — Mamãe, vou brincar na casa de dona Gildinha — aproveitou Belinha.

    Os dois filhos se entreolharam, nada entenderam e, sem perda de tempo, abandonaram o jantar.

    Agora, a caminho do cartório, Domênica Melgaço segue cabisbaixa e lenta. Como a carregar nos ombros o peso do mundo.

    — Bom dia, senhora Domênica — saúda o quitandeiro Alcides.

    — Dia…

    Na esquina seguinte, ao se aproximar do cartório, ela resolve interromper os passos e entrar na igreja. Ajoelha-se mais ao fundo, faz o nome do pai e tenta rezar o credo. A mente confusa não permite, a oração lhe escapa por entre o pensar confuso. Tenta de novo, em vão. Resolve elevar os olhos para a imagem da Virgem Maria, a lhe pedir proteção. Com pouco os olhos de Domênica se enchem de lágrimas, a brotarem de uma tristeza profunda.

    Ao pressentir que alguém se sentava ao seu lado, numa vã tentativa de disfarce tenta esconder sua dor cobrindo a face com um véu rendado.

    — Deixemos as coisas menores de lado. Deus há de nos ajudar. Olhai os lírios do campo…

    — Ferreira?! Fe… — gritou Domênica e, em seguida, desmaiou.

    &&&

    — Eu sei que ele não vai me perdoar! Eu sei que ele não vai me…

    — Senhora Domênica Melgaço, tenha calma. Tudo está bem, tudo bem. Foi apenas um leve passamento — consolou-a o padre Araquento.

    Ela estava amparada por duas filhas de Maria, a lhe abanarem com espanto e curiosidade.

    — Quer que uma das senhoras a acompanhe até a sua casa? — indagou o velho pároco.

    Domênica se recompôs, agradeceu a todos e disse que seguiria sozinha. Saiu, não sem antes correr os olhos por toda a nave da igreja.

    — A senhora veio com alguém?

    — Sim… digo, não, não. Estou só.

    Tomou novamente o rumo do cartório do Mundola. Passava do horário agendado.

    Mal ela pôs os pés na calçada, outro tremor assomou-lhe à face lívida. “… faltou tudo a ti, senhora Dômenica Melgaço, menos amor.”

    No interior do cartório se encontrava o tabelião, acompanhado pelos dois advogados. Seu Lourenço, que a representava, dirigiu-se à cliente:

    — Estava preocupado com a demora, dona Domênica. Mas, sem problema, ainda aguardamos a outra parte.

    Um carro de propaganda passou frente ao tabelionato, a espalhar uma canção pelas ruas de Licânia:

    Os sonhos mais lindos sonhei

    De quimeras mil um castelo ergui

    E no teu olhar, tonto de emoção

    Com sofreguidão mil venturas previ

    Domênica sentiu uma onda de calor a invadir-lhe o corpo. De repente o tabelião Mundola se ergueu do birô, saudando:

    — Senhor Ferreira das Mercês, seja bem-vindo! E veio acompanhado das crianças.

    Quando Domênica se virou em direção à porta de entrada, sua vista escureceu…

    — Minha senhora!

    — Mamãe, ma…

    E outro desmaio lhe ocorreu naquela manhã de abril. Enquanto Licânia via-se varrida por um estranho e inesperado redemoinho.

    Os sonhos mais lindos sonhei

    De quimeras mil um castelo ergui

    E no teu olhar, tonto de emoção

    Com sofreguidão mil venturas previ

    *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

  • Picolé de Morango

    Quando menino em Licânia, ele conhecera a novidade. O tio, morador da capital, chamara-o para um passeio pelo Mercado Público:

    — Vamos, Ferreirinha, me acompanhe.

    Depressa enfiou os pés nos chinelos e fez carreira.

    — Se comporte, ouviu? E não vá dar trabalho ao seu tio Expedito — alertou Djacira, sua mãe.

    — Ferreirinha já está taludo e graúdo, minha irmã! — devolveu o bom homem.

    No caminho, Ferreirinha ia lhe apresentando tudo: a farmácia, a nova loja de ferragens, o armazém de secos e molhados, o atacadão de tecidos… A boca não parava, sempre incentivada pelos monossílabos do tio: sim, bem, hum, ah, não…

    Ao entrarem no Mercado, deram com uma placa vermelha, coisa nova na cidade: Gellato.

    Ferreirinha diminuiu o passo e calou-se. Olhou, revirou, passou por baixo da plaquinha, roído pela curiosidade. Seu Expedito dirigiu-se ao estabelecimento e saiu de lá com algo na mão:

    — Experimente, Ferreirinha. O de morango é o que eu mais gosto.

    — Mas… o que é isso?

    — É um picolé de morango, rapaz.

    Ferreirinha o recebeu; retirou, com uma certa dificuldade, a capinha lustrosa que o recobria; e, ao lhe pôr os lábios, sentiu um prazer que lhe levou lágrimas aos olhos.

    — Vamos, pois ainda quero passar no comércio do meu irmão Manoel — comunicou-lhe Expedito.

    Ferreirinha foi caminhando, mas agora sem nenhuma pressa. Calado. Um olho no caminho, o outro no Gellato de morango, e, de quando em quando, uma lambida de êxtase.

    Aquela experiência marcara-lhe os anos de infante. A família sempre a lutar com pouca renda, a mãe a se virar para alimentar os cinco rebentos. E, naquele mundo de pindaíba, o picolé de morango!

    &&&

    Domingo, Ferreira resolvera levar os filhos, Telzinho e Belinha, para brincar na praça. Ofertar-lhes um pouco de alegria naquela manhã cinza.

    — Aproveite, passe na farmácia e compre o seu remédio, Ferreira — orientou Domênica.

    No centro da pracinha, o bulício da criançada em torno da tenda vermelha da sorveteria. Telzinho e Belinha, com os olhos baixos, fingindo desinteresse.

    Ferreirinha se lembrou do tio Expedito.

    Pediu a Telzinho e Belinha que brincassem de esconde-esconde à sombra das mangueiras. Sentou-se no banco, contando e recontando os cobres de que dispunha. Apenas o suficiente, justo e recontado, para a compra da medicação.

    Levantou-se, o sabor do gelado ainda na memória, e se dirigiu ao vendedor:

    — Veja-me dois de morango.

    Passou-lhe o dinheiro, sobrando-lhe um parco troco.

    — Telzinho e Belinha, olhem o que eu comprei.

    O esconde-esconde rendeu-se a dois fortes concorrentes: os picolés de morango.

    Sorveram-nos com uma avidez de famélicos.

    — Pelo amor de Deus, não se lambuzem. Domênica me mata! — alertou o bom Ferreirinha.

    Voltaram com o riso frouxo, a chutar o ar, de tão contentes.

    — Viram passarinho verde, foi? — recebeu-os Domênica.

    Entreolharam-se, e os filhos foram tomar banho.

    — Muito bem, muito bem! O almoço já está quase pronto.

    — Vou para o nosso quarto — anunciou Ferreira.

    Domênica seguiu-o. Ao se ver a sós com o esposo, indagou-lhe:

    — E o seu remédio da pressão?

    Nenhuma resposta.

    — E esse cheiro de morango nas roupas das crianças?

    Mais silêncio.

    — Senhor Ferreira das Mercês!…

    — Não me contive, Domênica. Você precisava ver o brilho nos olhos deles, minha princesa.

    &&&

    Domênica deixou as crianças sob os cuidados da vizinha e resolveu dar uma volta pela cidade. Era um fim de tarde de um domingo nublado, as ruas quase sem movimento, apenas as praças ainda apinhadas de casais, a entreterem os seus filhos com novos brinquedos.

    Correu a vista pelo céu de Licânia. Logo em seguida os olhos se enfiaram nas lembranças do convívio com Ferreirinha. Sentiu-se tristonha e resolveu sentar-se em um dos bancos da Praça do Progresso. “Por onde tu andas, Ferreira?”

    De repente alguém se aproximou:

    — Mandaram para a senhora!

    Era o vendedor da sorveteria. Ela recebeu-o, ao olhar as horas no relógio: seis da noite, em ponto.

    “Minha Dodó, o céu se enche de estrelas para celebrar o nosso amor. Deixemos as coisas menores de lado. Deus há de nos ajudar. Olhai os lírios do campo…”

    E Domênica sorveu, em lágrimas, um picolé de morango com a sofreguidão e a fúria, sem falar na pressa ardente, de uma eterna condenada.

    E, naquela noite de março, Licânia foi surpreendida por uma estranha chuva de verão.

    *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

  • O SILÊNCIO DE DOMÊNICA MELGAÇO

    Domênica saiu cedo, antes alimentou as crianças e aguou o pequeno jardim. A noite lhe fora longa, em claro com os resmungos e as tosses dos filhos. Quando cuidava das plantas, o pensamento correu solto, levando-a para lembranças distantes. Ao fim, Domênica acabou rememorando o tempo de casada. “Uma flor para outra!”, as palavras de Ferreirinha a assanhar sua tristeza.

    Domênica Melgaço ganhou o Mercado. Por entre as lojas e o burburinho de Licânia, ela se esqueceria de tudo e estamparia um pouco de riso na face merencória.

    Na bodega do Bastião, comprou fubá, café e açúcar. Não sem regatear um preço melhor.

    — Senhor Bastião! O meu bolso não é tão forte!

    — Sempre prezei minha clientela, senhora Domênica. E nunca explorei a senhora, nem agora nem quando a senhora vivia com… — Bastião calou-se, baixou a cabeça, a fingir conferir os trocados na gaveta ensebada do balcão.

    Domênica silenciou e seguiu.

    Antes da esquina, ela entrou na farmácia do Galvino, conferindo a receita.

    — Bom dia, Domênica — saudou-a o boticário.

    — Bom dia, seu Galvino. Me veja este remédio — solicitou Domênica, entregando-lhe a prescrição médica com a letra esgarranchada do Dr. José Arcanjo.

    — Broncodilatador, pelo jeito a sua garotinha voltou com as crises de asma — comentou Galvino.

    — Sim. E eu achava que ela havia se livrado dessa maldita! E, o que é pior, o menino vem apresentando os mesmos sintomas alérgicos. O doutor falou que poderia ser apenas um quadro psicossomático — emendou Domênica.

    — É possível, a mente comanda tudo, e os filhos sempre sentem muito se o pai os deixa… — Galvino cortou a fala, dirigiu-se à parte interna, incomodado com o próprio comentário.

    Domênica silenciou, pagou a conta e seguiu.

    Aquela manhã mostrava-se imersa num calor forte, como se um sol para cada um. Abriu a sombrinha e rumou na direção do açougue do Gregório. Antes, Domênica conferiu o que lhe sobrara na bolsa, decidindo, devido aos parcos cobres, cortar a carne da semana, levando tão só frango e ovos.

    — Bom dia, senhora Domênica! — bradou o velho magarefe.

    — Bom dia, seu Gregório.

    — Hoje temos carne de gado de primeira, sem falar que abati também um porquinho daqueles — anunciou Gregório, enquanto amolava as facas uma na outra.

    — Desta vez, vou querer um frango e uma dúzia de ovos caipiras — anunciou Domênica Melgaço, constrangida com a contenção do pedido.

    — Se seu Ferreirinha visse a chã de dentro que tenho aqui, ele… — Gregório entalou-se, tomou um trago da pinga que guardava na parte inferior da bancada e, rubro, depositou na bolsa de compras de Domênica o frango e os doze ovos.

    — Quanto foi tudo, seu Gregório?

    — Não se incomode, deixo registrado no caderno. A senhora acerta depois — comunicou o velho Gregório, como a se penitenciar pela indelicadeza de há pouco.

    Domênica silenciou, ajustou a sombrinha e voltou para o seu lar.

    &&&

    No caminho, uma melancolia lhe invadira ainda mais seu pensar; Domênica Melgaço julgara que ganhar as ruas, flanar pelo Mercado Público e fazer suas compras poderia lhe devolver o sorriso. Ao contrário, tudo lhe trouxera mais nostalgia.

    Mal ela abriu a porta da frente, chamou pelas crianças:

    — Filhos? Mãezinha chegou.

    Silêncio. Pouco depois, ouviu uma voz masculina, em tom baixo, no quarto das crianças.

    — Filhos.

    Enquanto chamava, ela dirigia-se para o quarto. Ao abrir a porta, deu pela janela aberta, com os dois filhos fingindo dormir.

    Domênica correu em direção à janela; antes de fechá-la, passou a vista pelo terreno dos fundos, a galharia a se mover. Apesar de nenhuma brisa.

    Sentou-se na cama da pequena, ajeitou-lhe o lençol sobre o corpo miúdo e percebeu que a febre cedera.

    — Estou melhor agora, mãezinha.

    — E eu também — completou o garoto.

    Domênica silenciou. “… faltou tudo a ti, senhora Domênica Melgaço, menos amor. Adeus. Diga aos meninos que o pai deles morreu”, a lembrança do esposo, como um aperto no coração.

    Licânia, ensolarada, sob um céu sem nuvens e de um azul limpo. Era fevereiro, em pleno e silente verão.

  • A CARIDADE DE GERVÁSIA

    A noite o acolheu numa frieza incomum. Ferreirinha andava, sem rumo, os olhos baixos e a cabeça em tumulto.

    “… Não saí da casa dos meus pais para me entregar a uma vida de sem-vergonhice, senhor Ferreira! Logo, nada nos resta…” A voz da esposa Domênica a segui-lo, desde que fora expulso do seu lar.

    “… faltou tudo a ti, senhora Domênica Melgaço, menos amor. Adeus. Diga aos meninos que o pai deles morreu.”

    Parou numa praça deserta. E entregou-se a um choro convulso, sentado num banco frio.

    — Senhor?! Aceita nossa ajuda?

    Ao levantar a face, a visão ainda turva, percebeu que uma senhora dirigia-se a ele, ofertando-lhe um lanche.

    — Somos da Irmandade de São Francisco de Assis.

    Envergonhado, enxugou as lágrimas e quis se explicar, mas não teve êxito. A dor apertava-lhe o peito, o abandono fizera-o um desgraçado, e o soluço voltou ainda mais sofrido.

    — Senhora, eu…

    Ela se sentou ao seu lado, o lanche no colo e os olhos postos à distância.

    Não se sabe nem quando nem por que, ela resolveu segurar sua mão e permanecer ali, em silêncio.

    Aquele gesto de caridade trouxe uma candura a Ferreirinha. Em seguida, soltou a voz, fazendo-a confidente de sua terrível crise matrimonial.

    O relógio da Matriz de Sant’Anna badalou meia-noite.

    — Venha. Há um quarto vago no quintal de casa. O senhor não pode ficar vagando pela cidade. Amanhã, Deus é grande, Ele irá serenar sua dor e guiá-lo.

    Gervásia tomou Ferreira pela mão, e conduziu-o à sua residência. Pelos postigos das casas da Praça da Matriz, olhos curiosos a tudo acompanhavam.

    &&&

    — Dona Maria Djanira, muito caridosa, presenteou-me hoje com um bolo de banana. Está delicioso! Mas, antes, deixe eu esquentar uma sopa…

    — Não precisa, Dona Gervásia! Eu…

    — Precisa sim, senhor Ferreira! Estamos necessitando de algo quentinho no estômago, a noite vai fria. E isso não é trabalho, sabia? Pois sempre deixo um pouco de sopa no fogão, para me servir quando do retorno após minhas ações de socorrer na rua aos mais necessitados. Dorme-se melhor pondo um caldinho na barriga; isso eu aprendi com o meu finado Crescêncio. Que Deus o tenha na Sua infinita misericórdia!

    Um silêncio se interpôs entre eles.

    Ao colocar os pratos na mesa, Gervásia reparou que Ferreirinha voltara a ter os olhos úmidos.

    — Entregue tudo a Deus. Ele põe e dispõe, nada acontece sobre a Terra sem o Seu consentimento.

    Serviram-se. Ferreirinha mal levava a sopa aos lábios, como se a garganta não deixasse nada entrar, embargada pela agonia.

    Lá fora o pio da coruja na torre da Matriz.

    — Alguns dizem que a coruja é bicho agourento, seu Ferreira. Não acredito, não. Prefiro crer que o seu pio é prenúncio de boa coisa — comentou Gervásia, a conter uma nesga de riso nos lábios carnudos.

    Reparando que ele não se serviria mais, pois apenas deixava a colher passear no prato, Gervásia partiu um bom pedaço do bolo de banana e o serviu. Desta vez, na boca.

    — Se não come bem, homem de Deus, a doença vai lhe fazer companhia.

    — Dona Gervásia, é muito abuso da minha parte e…

    — Abuso, seu Ferreira, é você cair doente logo sob os meus cuidados! — interrompeu-o, servindo-lhe outra garfada.

    &&&

    — Vejamos aqui no guarda-roupa, eram as coisas do meu marido, se algum pijama dele lhe serve. Não é bom dormir de calça e camisa.

    Gervásia orientava-o num tom angelical, mas sem lhe dar espaço para ponderações. O pobre Ferreira, imerso na pindaíba, era facilmente conduzido.

    Levou-o para o quarto dos fundos, não sem antes providenciar um jogo de lençóis limpos e toalhas. Quando percebeu que estava tudo arrumado, Gervásia ainda recomendou:

    — Calma, descanse agora. Não se resolve nada assim de um dia para o outro.

    — Nem sei como lhe ser grato, Dona…

    — Estamos aqui a serviço um do outro, como filhos e filhas de Deus. E, uma última coisa, Seu Ferreira: reze. Peça à Senhora Sant’Anna que abençoe o seu destino. E se precisar de algo, a porta da cozinha fica só encostada. A empregada chega bem cedo, meu despertador é o cheirinho do café coado. Boa noite!

    — Boa noite, senhora Gervásia. Que Cristo Jesus a recompense. — Ferreira conteve, a custo, o choro.

    &&&

    Mal Ferreirinha se deitou, mergulhou num sono inquieto.

    Num pesadelo, o grito da esposa Domênica: “Quem é tão irresponsável como você, senhor Ferreira das Mercês, nem deveria se benzer…”

    Aos prantos, sentou-se na cama e o espectro de Domênica a toldar-lhe o juízo. Desesperado, abriu a porta do quartinho; a lua no alto, chorosa, presságio de um bom inverno. “Quem é tão irresponsável como você, senhor Ferreira…”

    Sem se dar conta, Ferreirinha entrou de casa adentro e foi parar nos aposentos de Dona Gervásia. Ela o esperava.

    Num jeito cândido, Gervásia alisou-lhe os cabelos e, por caridade, dormiu com ele àquela noite.

    “Deus há de me ajudar. Olhai os lírios do campo…”, relembrou Ferreira.

    E o céu de Licânia se cobriu de estrelas. Era primeiro de janeiro.

    *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

  • A VIUVEZ DE DOMÊNICA

    — Comadre Gildinha, eu sei que ele não vai me perdoar!

    Domênica, com as mãos trêmulas e os olhos marcados pela saudade, a conversar com sua amiga Gildinha.

    — Amiga, o golpe foi forte, mas a situação não era das melhores. Eu bem sei…

    — O problema é que, apesar de tudo, ele sempre foi um romântico. E era o que me mantinha ligado a ele, superando todos os dissabores, atravessando as crises.

    Nessa hora Domênica não se conteve, as lágrimas tornaram-se testemunhas do seu testemunho.

    — Calma, calma. Não se resolve um drama com outro, você sempre me ensinou. Lembra-se da minha crise com o Juvenal? A sua atitude foi decisiva, e não rompemos com a nossa relação.

    — Sei, lembro…

    Domênica conteve o choro, enxugou a face inchada, marcas das noites em claro, e ajeitou o vestido de listinhas, como se Ferreira fosse chegar. Era a hora do Ângelus, ele costumeiramente voltava naquele horário, coçava o rosto com a barba hirsuta por fazer, o gesto do pelo-sinal de forma descrente, e solfejava uma ave-maria. Entrava no banheiro; em seguida, cheirando a sabonete, chamava-a de “princesa” num tom manhoso; enquanto a esposa lhe exigia os cobres: do mercadinho, do débito com a padaria, e do botijão do gás… Enfim, a vida com o mínimo de dignidade. No entanto, ele afastava todas aquelas cobranças da sua boca, beijando-a e cobrindo-a de afagos. “Minha Dodó, o céu se enche de estrelas para celebrar o nosso amor. Deixemos as coisas menores de lado. Deus há de nos ajudar. Olhai os lírios do campo…” E a abraçava, com a sofreguidão de um banido, com a fúria e pressa ardentes de um condenado.

    Não foram poucas as noites nas quais Domênica mergulhara as dívidas nas lavas do vulcão do amor de Ferreirinha, esquecendo-se de tudo e festejando nova noite de paixão.

    Pela manhã, o cesto sem pães e a geladeira sem o leite das crianças traziam a raiva de Domênica de volta, porém Ferreirinha saía cedo. “Quem madruga, minha filha, Deus ajuda!”

    No final da tarde a cena se repetia, com as discussões a estourarem no centro da sala. Ferreirinha, pai zeloso, dava um jeito de levar as crianças para a vizinha, e deixá-las sob a tutela da boa Gildinha, comadre e amiga leal.

    Contudo, quando o padre Armênio entrou certa tarde, o relógio a marcar quinze horas, e pediu licença para sentar, Domênica julgara que os céus os abandonaram. O vigário não aceitou o café ralo, indo direto ao assunto que o trouxera ali:

    — Há oito meses que o senhor Ferreira não honra com as mensalidades escolares dos filhos. A paróquia é pobre e não suporta mais, mantemos o colégio com muita dificuldade; aprovei uma bolsa de cinquenta por cento, coisa que só concedemos aos mais necessitados. Mesmo assim… nem um centavo foi pago pelo seu esposo. É tripudiar da nossa boa vontade! Vim até aqui com a missão de pedir a vocês que resolvam tal situação, ou não me restará outra saída senão…

    Padre Armênio suspendeu a ameaça, apontando-lhe o nariz adunco. Aquela pausa cortou as carnes dela mais do que a pior das admoestações.

    O pároco saiu sem lhe dar a bênção, e Domênica ficou com a mão estendida, como se numa posição de pedinte.

    Com pouco sua cabeça entrou num rebuliço infernal. As crianças fora da escola, as cobranças sobre o criado-mudo, a geladeira sem nada, os filhos a rabiscarem as cartas endereçadas ao Papai Noel… Tudo foi se misturando e azedando o juízo de Domênica.

    Em torno das cinco da tarde, Domênica foi à calçada, chamou pela comadre Gilda e lhe pediu que levasse Telzinho e Belinha. Os olhos rubros e a voz embargada deram a pista de que algo de muito mau a afligia.

    — Não me pergunte nada, comadre! Apenas, por nossa amizade e pelo amor de Deus, fique com as crianças. Preciso ter uma conversa com o senhor Ferreira das Mercês.

    Gilda, ao ouvi-la chamar o esposo de “senhor Ferreira das Mercês”, concluiu que a situação descambara para um litígio sério. Recolheu os meninos, sob a justificativa de que aquela seria noite de pipoca com guaraná.

    — Vamos, Telzinho e Belinha, o milho já está na panela na minha cozinha. Podem me ajudar?

    As crianças desembestaram felizes, sem dar por nada.

    Seis da noite, em ponto, o portão da casa se abriu. Mal pôs o pé na sala, Ferreirinha recebeu o primeiro agravo:

    — Quem é tão irresponsável como você, senhor Ferreira das Mercês, nem deveria se benzer na hora do Ângelus. Deus odeia os maus pagadores…

    Ferreirinha tentou um contra-ataque:

    — Minha princesa, o amor de Deus é maior do que…

    — Não meta Deus na sua falta de vergonha! Você, como provedor do lar, tem se revelado um fracassado. Um fracassado!

    Aquela palavra, fracassado, repetida e assacada com a potência de uma maldição, levou Ferreira a baixar a cabeça, murchar os olhos e puxar os beiços.

    — Sua pindaíba, seu Ferreira das Mercês, acabou com tudo. Inclusive com o meu amor, sabia?

    Ferreirinha, que já se sentia golpeado, dobrou os joelhos, como se recebesse a cutilada mortal.

    Quis argumentar, nada lhe assomou aos lábios miúdos. Nem o choro o socorreu.

    — Nossos filhos fora da escola?!… Não saí da casa dos meus pais para me entregar a uma vida de sem-vergonhice, senhor Ferreira! Logo, nada nos resta…

    Ferreira ainda manteve o ânimo e proferiu algumas palavras. As primeiras, inaudíveis. As últimas soaram vívidas:

    — … faltou tudo a ti, senhora Dômenica Melgaço, menos amor. Adeus. Diga aos meninos que o pai deles morreu.

    E saiu, sem nada levar. O gato Felizardo ainda ronronou-lhe aos pés, última esmola de carinho daquela casa.

    &&&

    — Comadre Gildinha, eu sei que ele não vai me perdoar!

    Domênica, com as mãos trêmulas e os olhos marcados pela saudade, a conversar com sua amiga Gildinha.

    Lá fora, as estrelas a luzirem num céu de dezembro. Em todas as casas de Licânia, a espera das crianças pelo Papai Noel.

    *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
    clauderarcanjo@gmail.com