Últimas histórias

  • Túnel

    — Antigamente, e bote antigamente nisso, o simples ato de curtir uma música era um ou poderia se tornar um grande desafio. Lembra de como era?

    — Lembro demais. No combo não faltava o inigualável “som riscado”, de intenso chiado no gasto vinil, e da virada dos lados A e B. Os mais jovens hoje nem sabem o que é isso.

    — E o sobressalto ao manusear errado o braço da vitrola, e o “raspado” da agulha por toda a extensão do disco?

    — Nossa! Nem me fale. Verdadeiro desastre quando isso acontecia.

    — Sim. De ficar a semana inteira com remorso. Quem nunca, né? — diz ela.

    — E o esporro, caso você não fosse o dono do LP? Passei muito por isso.

    O casal ri com as lembranças e insinuações.

    Como eles sempre fazem, principalmente aos finais de semana, Tasso e Selma se reúnem na varanda de casa. Raramente com visitas. Preferem a sós. Essas coisas simples, como costumam dizer, “consolidam um matrimônio tão longevo”. É quase uma religião, afirmam.  

    — Saudosista. Isso é que você é. Mas sinto saudades daquela época. Um uísque no copo, Billy Holiday ecoando na sala. Você sempre pedia a Ella Fitzgerald! Não, não. Você era fã mesmo de Nina Simone. “Vai lá trocar o disco”, você pedia.

    — É verdade. “Toca Nina”, sempre pedi.

    — Pedia? Soava como uma ordem.

    — Enquanto colocava gelo no copo, aquele olhar, como o nosso primeiro, parecendo como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Um leve sopro quente passando de raspão na orelha…

    — Para! —pede ela.

    Mas ele sabe que não é para obedecer.

    — Tempo, tempo, tempo. De planos, de aventuras, de leituras e versos. A gente ria de tudo: da noite cinzenta de chuva, da falta de estrelas, de riscos de luz no céu, do copo manchado da noite passada, da calça jogada na janela, do biscoito jogado dentro de uma taça de vinho. O que estaremos fazendo daqui a 10 anos? — Selma pergunta.

    — Sentados aqui. Andando de bicicleta. Brincando na praia. Sentados em um monte apreciando o horizonte. O que você imagina?

    — Não responda com pergunta. Oh!… (risos).

    — Aqui? Não sei. Mas juntos — ele reafirma seu desejo. É uma espécie de jura de amor, a mesma frase dita semanalmente, naquela mesma varanda.

    E assim os anos passaram. Como qualquer casal, não faltou o enfrentamento de grandes desafios, medo, vitórias.

    — Acolhendo as coisas boas. Chegamos aqui. Parabéns pelas bodas de ouro, meu amor — suspira ele beijando-a na testa.

    — Alexa, toque Billy Holiday!

    Sem ruídos do LP, e com os copos e corpos mais silenciosos. É vida que segue.

  • Nunca mais eu bebo

    Bateu na cabeça dele sair de fininho. A embriaguez ficara constatada no espelho do banheiro. Mal conseguia concatenar o momento com a música que chegava abafada no banheiro.

    — Se eu sair pela esquerda ninguém nem vai perceber. Poxa! Ainda consigo pensar — disse ele à sua imagem no espelho.

    &&&

    — De quem é esse quarto, essa cama? Como cheguei aqui? Onde estou?

    Ainda consegue lembrar do momento de sua saída do barzinho em meio a uma grande confusão. Não sabe dizer o motivo. Um curativo no ombro o faz recordar de ter sido atingido por algo. Coça os olhos, parece não acreditar no que vê. Reconhece a imagem da moça no porta-retratos colocado em uma mesinha ao lado da cama. A cabeça dói em meio a uma ressaca horrenda, e a vergonha de fazer chorar. “É a cantora Cida. A que estava no barzinho. Como diabos cheguei aqui? Só ela pode dizer o que aconteceu”

    Os minutos seguintes são de completa angústia. “Que enrascada, meu Deus?!”. Lamenta-se.

    Sai de ponta de pé até o banheiro. Heraldo pensa somente em se recompor. Está nu. “Como foi que fiquei nessa situação?”, pergunta-se a todo momento. Anseia sair o mais rápido possível de tamanha enrascada, e que seja da maneira mais sóbria e menos dolorosa possível.

    Conseguiu cobrir o corpo com um grande lençol, e a única opção é esperar que alguém entre por essa bendita porta do quarto. O que acontece cerca de duas horas depois. Fitando a pessoa incessantemente à sua frente, feito uma estátua, a jovem cantora entra e, atropelando cumprimentos, pergunta-lhe sobre o acontecido.

    — Por favor. Poderia me dizer o que aconteceu? Devo ter feito absurdos. Entretanto, não consigo lembrar de absolutamente nada — argumenta  com todo o desapontamento que um ser humano pode sentir.

    — Heraldo, o seu nome, né? Você conseguiu encerrar a festa. Deu início a uma confusão empurrando um cliente ao sair do banheiro, muita gente entrou na briga. Você sofreu um corte, e quando deixou o barzinho bateu seu carro em uma viatura da polícia que estava estacionada na saída. Brigou com uma amiga em comum, dona do estabelecimento, que me incumbiu de retirá-lo do local e assim evitar sua prisão. Logo em seguida você desmaiou. Eu o levei ao hospital. Depois de medicado, e como você não sabia como chegar à sua casa, achei melhor trazê-lo ao meu apartamento — não podia abandoná-lo na rua. Tirei sua roupa porque você vomitou tudo quando chegamos aqui — explicou Cida, sem arroubos nas palavras, na tentativa de acalmar Heraldo.

    — Nossa. Peço-lhe mil perdões por envolvê-la em tamanha confusão. Agradeço o que fez por mim. E posso ressarcir o prejuízo que causei. E que problemão, hein?! Meu Deus!

    — Não precisa se desculpar. Isso é o de menos. Depois vemos isso. Problema mesmo é o que você vai enfrentar quando sair daqui, pois sua esposa e a polícia estão te esperando na portaria.

  • Bons costumes

    O táxi para. Coincidência, é Leopoldo — vibra Honório.

    Cidade pequena tem disso, você acena para um táxi e tem boas chances de um amigo ser o motorista.

    — E aí, Leopoldo. Ia até passar na sua casa à noite e fazer o convite. Hoje é sábado e, como sempre, dia de ir ao cinema. Bora?

    — Homem, ando muito desinteressado. Tenho trabalhado bastante, agora que faço “corridas” também para os municípios vizinhos durante a semana. Aos sábados dou um giro pela cidade. Melhorar a renda. Não está fácil. Desses sorte, pois essa é minha última viagem. Confesso que ultimamente sequer consigo assistir televisão. Nem “O homem de seis milhões de dólares”. E olhe que sou fã número um dessa série.

    — Entendo. Eu gosto de ver tv enquanto o sono não vem. Passo o dia em sala de aula e me “desligar” leva muito tempo. Não me julgue, mas não perco por nada a novela Pecado Capital, na Globo.

    — (risos) Não gosto. Nunca gostei. E não vou te julgar por isso, Honório.

    — Homem, é uma história interessante. Um dilema da bexiga taboca daquele motorista de táxi depois que os assaltantes do banco fugiram e deixaram aquela mala cheia de dinheiro roubado no carro dele. E aí, se acontecesse aquilo no seu táxi, você devolvia a grana roubada à polícia? Porque eu ficava. Foda-se o plano frustrado.

    — Eu devolvia! — Honório é enfático.

    — Devolvia nada. Tá falando e é da boca pra fora.

    — Sério. Devolvia. E por uma razão muito simples: fazer o errado. E deve ser uma vergonha do tamanho do mundo ser pego. Nesse caso aí, o cara é bandido também. E não tinha mentira que me livrasse de uma pisa grande.

    — Você ainda é desse tempo, homem?

    — Sou, sim. Acho até que isso é por causa do meu tio Zé Durval. Lembra dele? Devo agradecer a ele por isso. Você conhece a peça desde que éramos crianças. Reclama de tudo que acontece em volta. Sempre aporrinhou a vida do meu pai, dos meus tios e esposas, além dos meus primos e primas, mas não sabe que eu sei da vida pornográfica que ele leva. E ainda quer pagar de homem direito? Puritano de meia-tigela.

    — O Zé? Poxa! Não sabia. Mas eu sempre o achei um nojento. Desculpe a pergunta, ele anda em “brega” também?

    — Em cabaré eu nunca vi. Só ouço falar. O que eu sei é que minha irmã Gracinha passou por maus bocados quando ele a encontrou na praça da Matriz com Joca de Neuzinho. Ora, eles já namoram há tempos e o imbecil achou que podia dar sermão porque eles estavam no escurinho, naquela parte por trás da igreja. E o cúmulo: intimidou Joca ao sacar uma peixeira de doze polegadas. No final do quiproquó, saiu regozijando-se de ser um homem de família e defensor dos bons costumes. Gracinha, coitada, chegou chorando em casa.

    — Mas que coisa?! E Gracinha e Joca vão se casar, né? Não mereciam isso. Mas voltando ao assunto: você não pegaria no dinheiro do assalto da novela por esse motivo?

    — Não. É que o falso moralismo me incomoda. Ver alguém enganar outrem me deixa triste. A mentira não me faz bem. Sei lá, e tenho achado tudo tão sem sentido ultimamente. Acho que é a velhice batendo à minha porta.

    — Ia perguntar onde entra a vida pornográfica do seu tio nessa história. Mas, vamos mudar a prosa então, o seu desânimo contagia e eu estou animado. Aliás, bem que você poderia se animar mais tarde no Cine Orion. Vai passar uma tal de Emmanuelle”, que dizem ser estrelada por uma tal Sylvia Kristel, deusa na arte do enxerimento.

    — Deusa, é? (risos). Não dá. Também não quero dar as caras com meu tio Zé, aquele fuleiro.

    — E ele frequenta o cinema em dias de filmes eróticos? Dona Julieta deixa? — a pergunta segue de risos, mas é interrompida pelo balbucio quase inaudível de Leopoldo “para infelicidade de dona Julieta. Sempre agradando aquele crápula”, que complementa:   

    — Era isso que eu ia te falar. O cara quer ser tão direito e fica passeando pela praça — azar das minhas primas que estiverem com seus namorados —, matando o tempo enquanto a luz do Cine Orion apaga. Quando fica escuro, pode ir lá que você o encontra na última fileira de poltronas. E isso acontece sempre. Em filmes de sexo explícito também.

    &&&

    O breu é cortado pela luz de um isqueiro deixando exposto o rosto daquele senhor de idade, acomodado em uma poltrona na primeira fila. O chapéu de couro escorrega levemente para o lado deixando à mostra barba e bigode muito bem aparados, e uma cara de sem-vergonha assustado.

    — Agora o senhor não lembra que é de família. Que puritanismo de merda esse, hein, seu Zé Durval?! — grita Honório, tomando as dores do amigo.

    E começou a confusão.

  • Aperto

    Os olhares se cruzaram na chegada ao ateliê, quando muitos ainda trabalhavam. Já era noite, Arthur veio orçar um painel para promover o próximo desfile de Januário. O costureiro, natural de Santa Cruz, pequena cidade do sertão nordestino, fez fama em Nova Iorque. Dizem até que ele nasceu com aquilo virado para a Lua, pois bastou dois anos para despontar na gringa como um dos mais promissores costureiros da atualidade.

    — É trabalho, Arthur. Nada mais — dizia ao mostrar os planos para sua ação de marketing ao publicitário.

    Januário guardava consigo a mágoa de não ter o reconhecimento dos conterrâneos. Mas era algo a ser trabalhado, dizia Célia, sua irmã, e fiel escudeira. Aliás, foi ela quem conseguiu, a duras penas, a reconciliação entre seu irmão e o genitor, um sertanejo que via a profissão de Arthur como algo desabonador. Ele, Jales, fazia jus à fama da brutalidade que o acompanhava desde a mocidade, tendo “nas costas” várias mortes atribuídas a ele.

    — Foi ela que me convenceu a trazer o ateliê para a casa do velho — esclareceu ao ser perguntado o porquê de não estar na capital.

    Entre a discussão sobre o planejamento da ação publicitária, amenidades, algumas taças de vinho. Planos, tática, vida pessoal, assuntos diversos que vararam a madrugada.

    Tudo acertado. Despediram-se. Januário se recolheu. Célia acompanhou Artur até a porta.

    — Não vá embora. Entra naquela sala e me espera. Eu voltarei! — cochichou.

     &&&

    Arthur riu intimamente. Fazia tempo que não sentia esse fogo, essa “maluquice” de adolescente. Olhava para a porta incessante torcendo que ela se abrisse.

    “Mas que demora? Nenhuma mensagem!”. Ocorreu-lhe que o pai morava ali também e que poderia tornar a situação embaraçosa caso ele fosse descoberto. Afinal, mesmo com o consentimento de Célia, tratava-se de um estranho. “E ainda por cima escondido”, gelou.

    A preocupação aumentava, a tensão era insustentável, pior com a necessidade de usar o banheiro.

    —Meu Deus, o que vou fazer? O jeito é improvisar —desesperou-se.

    Angustiado, desapontado, esvaziou um saco de linha grande para a realização do “serviço”. Basta jogar fora sem que ninguém veja.

    — Ela não virá. ‘Demônia’! — vaticinou.

    Nisso a porta vai se abrindo…

    Seria ela?

    &&&

    Só restou, daquele encontro de negócios, a vergonha e um saco cheio de urina deixado para trás. Até hoje Arthur não retorna as ligações do costureiro. Muito menos as de Célia.

  • Amor, meu grande amor

    — Tudo pronto? Quer ir agora?

    — Calma. Nem saí do banho!

    — Mas você sabe que já estamos atrasados, né?

    — Já disse que não saí do banho. Que encheção de saco, gente! Você não pode esperar minha saída?

    — Custa dar uma resposta simples? Educação mandou lembrança.  Grosseria em pessoa!

    — Já sabia que eu era assim. Por que quis se enrolar comigo? Enganado é que não foi!

    —Será mesmo que é preciso uma discussão sem pé nem cabeça por causa de uma pergunta? Não poderia dizer simplesmente a que horas iremos à bendita igreja? Carece dar patadas?

    —Blá-blá-blá… Cheio de não me toques.  Eu não disse nada demais. Apenas quero um pouco mais de tempo. Ora, que merda! E não me venha com nhenhenhém, pois você conheceu a mim e minha família muito bem antes de pegar a besta aqui!

    — Que idiota que eu sou, meu Deus!

    — Eu que o diga! Mas não foi por falta de aviso de minha mãe. Ela me alertou que você não prestava. Então, meu filho, permanece a máxima de o pau que nasce torto morre torto. Não seria diferente, né?

    Depois de meia hora de um bate-boca interminável, ela está pronta e continua a soltar impropérios no percurso até o carro. Ele, sentado —ajusta o banco, clica no chaveiro que liga o veículo —, permanece mudo, circunspecto, e apenas a encara com ar de repulsa quando ouve o barulho forte da porta do veículo ao fechar. “Com certeza quer minha atenção”, pensou. Não expressou reação alguma. Logo ele que não deixa algo semelhante barato.

    — Não estava apressado? Então vamos! Vamos logo antes que eu me arrependa.

    — É esse o pagamento por tratá-la bem há dezoito anos, de quem só tenta agradar, ter respeito e ser carinhoso. Pelo menos eu tento, falta-lhe reconhecer algo tão simples. Quantas e quantas vezes sou tratado feito um animal? Não mereço. E não sei onde eu estava com a cabeça quando tive essa ideia de casamento em igreja a essa altura do campeonato. Já éramos casados no papel passado mesmo?! Para o seu governo, quem está arrependido sou eu, senhora!

    — Como é? Então quer dizer que o senhor se arrependeu? Do casamento no religioso ou do tempo em que vivemos juntos? Dê meia-volta nessa droga de carro, quero voltar para minha casa, e vamos cancelar essa porcaria de igreja e o escambau. Não quero continuar como um estrupício. Aliás, o estrupício é você, que sabe escolher muito bem as ocasiões para ser desprezível. Nossos filhos terão uma boa explicação sobre isso tudo pela boca do belo pai que eles têm. Ah, se vão! Só sabe conversar lorota, porra!

    — Não. Não voltaremos. Vamos direto a um cartório acabar com essa farsa, essa perda de tempo sem fim.

    —Ah, é?! Não significo mais nada, seu filho da puta!

    A riqueza do vocabulário dela de desqualificação é imensa e dura até chegarem ao Cartório da 5ª Avenida. Mas, infelizmente, ela terá de continuar a ladainha, pois, ao que parece, logo hoje todos os casais resolveram se separar.

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