Criar filhos é um exercício de incerteza. Não importa quantos livros de psicologia, quantos artigos sobre parentalidade positiva, quantas palestras sobre inteligência emocional se assista. No fim das contas, a única certeza que se tem é que, qualquer que seja a abordagem escolhida, em algum momento parecerá errada. Se cobramos muito, somos opressores. Se cobramos pouco, somos negligentes. Se elogiamos demais, criamos indivíduos que não sabem lidar com frustrações. Se não elogiamos o suficiente, somos responsáveis pela baixa autoestima que os levará a anos de terapia.
Há um ditado que diz que a melhor maneira de criar filhos é não ter filhos. Porque, sem filhos, a teoria funciona perfeitamente. Quem não tem filhos sabe exatamente como educá-los. Mas os filhos chegam, crescem e desenvolvem uma personalidade que não foi exatamente a que imaginamos. Vem a adolescência e, com ela, uma certeza: falhamos em algum ponto. Só não sabemos exatamente onde.
A relação entre pais e filhos é um jogo de equilíbrios instáveis. Queremos que estudem, mas sem pressão excessiva. Que sejam responsáveis, mas sem se tornarem workaholics. Que aproveitem a juventude, mas sem exageros. Queremos que saibam o valor do dinheiro, mas sem que fiquem obcecados por ele. Que sejam independentes, mas que não nos esqueçam. O problema é que tudo isso é impossível.
No fundo, o que queremos é protegê-los. Preparamos seus cafés da manhã, damos carona quando poderiam pegar ônibus, fingimos não perceber que, às vezes, mentem para nós. Mas, acima de tudo, passamos boa parte da vida tentando transmitir nossas experiências. Experiências essas que são prontamente descartadas porque “o mundo mudou” e “não funciona mais assim”.
Filhos não acreditam que os pais já tiveram dúvidas, inseguranças, medos. E pais não acreditam que os filhos tenham certezas. Mas há um ponto em que todos se encontram: a incapacidade de dizer exatamente o que sentem. Filhos demonstram amor de um jeito torto, com pedidos de dinheiro, favores, roupas esquecidas para lavar e perguntas sobre como se faz arroz. Pais demonstram amor com broncas, insistências, lembretes, conselhos que não foram pedidos e, claro, um “leva um casaco”.
A grande questão que atormenta qualquer pai ou mãe, em silêncio, é: quando formos velhos, quem cuidará de nós? Quem dirá para colocarmos um casaco? Quem nos perguntará se almoçamos? Filhos de hoje cresceram ouvindo que precisam cuidar da própria felicidade. Mas a felicidade deles inclui os pais? Essa é uma pergunta que só o tempo responderá.
E o tempo, como sabemos, passa depressa. Num sábado qualquer, sua filha faz 18 anos. A mais velha, 24 em setembro. Ontem estavam aprendendo a andar de bicicleta, hoje já sabem tudo sobre o mundo. Exceto, talvez, sobre o fato de que, um dia, terão filhos e descobrirão que ninguém sabe exatamente como se cria um filho.
Mas, até lá, pais continuarão amando, filhos continuarão questionando e todos seguirão tentando expressar sentimentos de um jeito desajeitado, como sempre foi e sempre será.