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TREINADORES BRASILEIROS NA EUROPA: FALTA DE OPORTUNIDADES OU PREGUIÇA?

Nos últimos anos, o futebol brasileiro vem sofrendo uma verdadeira invasão de treinadores estrangeiros. Alguns chegaram e marcaram época: Jorge Jesus no Flamengo, Arthur Jorge no Botafogo e Abel Ferreira – com vários títulos e um contrato “quase” vitalício – no Palmeiras. Outros passaram sem deixar saudades. Que o diga a torcida do Vasco, que, na estreia de Álvaro Pacheco, o Boina, em 2 de junho de 2024, viu seu time levar um “sapeca” de 6 a 1 do maior rival, o Flamengo. Duas derrotas e um empate depois dessa tragédia, o português foi demitido. No entanto, essa demissão, corriqueira no futebol brasileiro, não altera em nada o atual cenário de invasão estrangeira. Dos vinte clubes da Série A do Brasileirão deste ano, cinco serão treinados por portugueses e quatro por argentinos. Por enquanto. O Brasileirão/25 só começa no final de março.

E por que será que os treinadores brasileiros não chegam nem a ser cogitados para assumir o comando de grandes clubes no exterior, particularmente na Europa? A resposta pode ser mais simples do que parece: falta de preparo e, em muitos casos, de iniciativa. Mas podem chamar de preguiça.

Muitos alegam que não recebem oportunidades, mas ignoram um fator fundamental: para atuar no exterior, é necessário obter a licença da FIFA, um requisito que grande parte deles simplesmente não cumpre. No entanto, a maior barreira nem é essa, e sim a falta de domínio de idiomas.

É praxe entre os treinadores em atividade nas principais ligas europeias falar mais de um idioma, além do pátrio, é claro. Alguns exemplos:

ֲJosé Mourinho, português, 62 anos, treinador do Fenerbahçe/Turquia: inglês, espanhol, italiano, francês e catalão;

Pep Guardiola, espanhol, 54 anos, treinador do Manchester City/Inglaterra: alemão, inglês, catalão, francês, italiano e português;

Carlo Ancelotti, italiano, 65 anos, treinador do Real Madrid/Espanha: inglês, espanhol, francês e alemão;

Mikel Arteta, espanhol, 42 anos, treinador do Arsenal/Inglaterra: basco, inglês, francês, catalão, português e italiano;

Diego Simeone, argentino, 54 anos, treinador do Atlético de Madrid/Espanha: italiano, inglês e português.

Enquanto isso, poucos treinadores brasileiros falam inglês, espanhol ou qualquer outro idioma relevante no futebol internacional. Embora o uso de intérpretes seja comum, a tradução nem sempre transmite com exatidão as instruções e a filosofia do treinador, prejudicando a relação com o elenco e a aplicação das estratégias em campo. As chances de um convite de trabalho e de sucesso, portanto, são mínimas. E, cientes dessa realidade, eles preferem ficar por aqui mesmo. Acomodados, ultrapassados, despreparados, pulando de um clube para o outro, vivendo de rescisões de contrato milionárias e… reclamando.

E mais: apoiados por alguns jornalistas esportivos tão obsoletos quanto, ficam vagando de uma mesa redonda para outra nos programas esportivos, tentando diminuir a competência dos estrangeiros que chegam ao Brasil e dão um banho de profissionalismo, com estudo, cursos e aprendizado contínuo.

E é sempre o mesmo discurso: “O Brasil foi pentacampeão mundial com treinadores brasileiros”, “O treinador brasileiro é tão bom quanto os estrangeiros”, “Os dirigentes do nosso futebol não têm paciência com os treinadores brasileiros”… O mais puro “suco” de atraso e incompetência.

Eis que, na contramão dessa tendência de acomodação e preguiça entre os nossos técnicos – especialmente os da “velha guarda” –, surgiu Filipe Luís, de 39 anos e fluente em espanhol, inglês e alemão, resultado de mais de quinze anos atuando no futebol europeu. O atual treinador do Flamengo, com apenas seis meses no comando de uma equipe profissional, já é a melhor surpresa entre os treinadores brasileiros da nova geração. E surpreende não só por seus conhecimentos táticos, desempenho e resultados conquistados, mas também por sua inteligência e cultura. O jovem técnico tem potencial para chegar à Seleção Brasileira e, quem sabe, consolidar uma carreira internacional.

A exemplo de Filipe Luís, vários jogadores brasileiros com carreira internacional duradoura falam mais de um idioma e tentam se adaptar à cultura e aprender o idioma do país onde estão jogando.

Um desses ex-jogadores que começa a despontar nesse mercado tão restrito e competitivo é Thiago Motta, de 42 anos. Após 25 anos atuando no futebol internacional, ao encerrar a carreira de jogador, iniciou a de treinador na Itália. Passou pelo Genoa (2019), Spezia (2021), Bologna (2023) e, desde junho de 2024, é o técnico da poderosa Juventus de Turim. Thiago Motta fala italiano, espanhol, francês e inglês. Quem sabe não está surgindo uma nova geração de treinadores brasileiros “padrão internacional”?

A grande verdade é que o desempenho da “selecinha” da CBF – que só pode ser treinada por brasileiros – nas últimas cinco Copas foi pífio. Desde o penta em 2002, sob o comando de Felipão, a melhor participação brasileira em uma Copa do Mundo foi a 4ª colocação no Brasil-2014, também com Felipão. Isso, depois de uma vexatória e inesquecível “peia” de 7 a 1 nas semifinais contra a Alemanha e outra não menos constrangedora derrota de 3 a 0 para a Holanda na disputa do terceiro lugar.

E quem eram os “geniais” treinadores brasileiros nas outras edições?

2006 (Alemanha) – Parreira (está com 81 anos e aposentado): Eliminado nas quartas pela França (5º lugar);

2010 (África do Sul) – Dunga (está com 61 anos, e era tão ruim que desistiu da carreira): Eliminado nas quartas pela Holanda (6º lugar);

2018 (Rússia) – Tite (está com 63 anos, desempregado e sonhando com a Europa): Eliminado nas quartas pela Bélgica (6º lugar) e 2022 (Catar): Eliminado nas quartas pela Croácia (7º lugar).

E por falar em Tite, apesar dos fiascos nas duas últimas Copas do Mundo, ele já deixou claro que quer comandar um clube no Velho Continente. O problema é: será que alguém quer o Tite? O pleonástico e metafórico treinador chegou ao Flamengo em outubro de 2023 e foi demitido em setembro de 2024, sem deixar saudades. Desde então, já rejeitou propostas do Cruzeiro, Vasco, Grêmio, Botafogo, Potiguar e Baraúnas. Tudo em nome do seu inabalável “Sonho Europeu”.

Detalhe: logo após a decepção na Copa de 2022 e de olho numa carreira internacional, Tite resolveu estudar inglês, “com aulas específicas para o vocabulário futebolístico” (“diabéisso”?). Espero que ele já tenha aprendido o significado e a pronúncia de algumas dessas palavras e expressões, para quem sabe pleitear o cargo em algum clube da Quinta Divisão inglesa: Referee, Box, Header, Championship, Forward, Kick, Defender, Center forward or striker, Midfielder, Defensive midfielder, Winger, Right back and left back, Coach or manager, Opposing team, Away team, Foul, Touchline, Equalizer, Match, Away game, Yellow card, Red card… e vamos ficando por aqui.

E para finalizar, não custa lembrar as pitorescas “aventuras” europeias de dois tradicionais treinadores tupiniquins:

Felipão: De Portugal ao Chelsea

Após uma boa passagem pela Seleção de Portugal entre 2003 e 2008 – chegou a uma final de Eurocopa (2004) e a uma semifinal de Copa do Mundo (2006) –, Felipão resolveu encarar a Premier League e, em junho de 2008, desembarcou em Londres para treinar o Chelsea. Durou pouco mais de seis meses no comando dos Blues e foi demitido em fevereiro de 2009, após uma sequência de resultados ruins e relatos de que alguns jogadores “não entendiam suas ideias” e teria sido vítima de “trairagem” de Anelka e Drogba. Se tivesse tentado a sorte na Espanha, talvez Felipão tivesse melhor sorte, já que consegue se comunicar em espanhol. Hoje, com 76 anos, ele está sem clube.

Luxemburgo e o Real Madrid Galáctico

Em janeiro de 2005, Vanderlei Luxemburgo surpreendeu o mundo ao ser contratado pelo Real Madrid. Apesar de alguns resultados expressivos – como um 4 a 2 em cima do Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, Eto’o, Xavi e Iniesta –, não conquistou nenhum título e não caiu nas graças dos “galácticos” Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Beckham, Figo e companhia. Em 2019, Roberto Carlos afirmou em uma entrevista que o brasileiro começou a perder o grupo quando proibiu o vinho e a cerveja nas refeições durante as concentrações, o que já era tradição entre os jogadores do Real.

Em 4 de dezembro de 2005, Luxemburgo foi demitido e alega que a demissão ocorreu porque teve um “arranca-rabo” com Florentino Perez, presidente do Real, ao substituir Ronaldo em uma partida pela Champions League. Mais um injustiçado! De sua passagem pela Europa, sobrou a tentativa de se comunicar com a imprensa espanhola por meio de um “portunhol” pra lá de fajuto. Luxemburgo está com 72 anos, e seu último trabalho foi no Corinthians, entre maio e setembro de 2023.

Escrito por Marco Túlio

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