Sobre

A LEITURA DO MUNDO

O menino nunca se livrou daquela sensação de que não sabia das coisas. Fazia tudo como mandavam ou pediam. Acertava no ponto, sabia o que fazia, mas não tinha certeza. Tudo parecia mecanicamente engendrado, mas o menino sentia-se distante da engrenagem, uma peça à parte, um fio solto no meio do emaranhado do mundo.

A ausência de conhecimento é uma prisão, mas o conhecimento sem liberdade é tal qual. O menino pensava sobre isso, mas não tinha certeza. Ele chegou a perguntar a alguém alguma coisa sobre, mas a explicação era tão complexa que o confundiu ainda mais. Isso era terrível, porque se o pedissem para fazer uma coisa ele fazia, mas quando ouvia sobre aquela mesma coisa se sentia incapaz diante dela. Uma lâmina escura na memória, a sensação de frio e de silêncio. O medo de errar.

Um dia, lendo alguns dos muitos livros que gostava de ter, encontrou uma frase diferente e elucidativa: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Ele sabia o que aquilo queria dizer, mas, ainda assim, foi ao dicionário para saber todas as possibilidades do verbo “preceder”. Era esse medo das engrenagens que o levava a essa angústia cortante de não entender o óbvio que parecia tão complexo nos discursos alheios.

Mas agora tudo parecia mais claro. Se a leitura do mundo precedia a leitura da palavra, ele entendia o mundo da maneira certa e, talvez, os outros nem tanto. Se fosse dessa forma, ele, quando menino, aprendera a ler no tempo certo, porque já conversava com as cantofas e distinguia uma aroeira de uma jurema e uma jurema de uma umburana; um bem-te-vi de um anu; a qualidade dos terrenos, o vento da chuva, os animais nos currais…

Era estranho imaginar que as palavras, muitas vezes, desconstruíam isso com violência. Desdizia o que ele aprendera, embora mantivesse o mesmo tom. Era arrogante a palavra, não a que estava posta e acoplada às imagens, as leves e estáticas, mas aquela proferida, arbitrária: “isso é um Pseudocaule, não uma fruta”. Mas era uma fruta, um caju, amarelo, vermelho, doce e travoso. Uma delícia de infância.

Tudo agora fazia sentido, estava claro e ele sorria. Voltava a olhar o mundo pelo olho e pela memória e então achava que não precisava mais se submeter ao discurso, embora precisasse ouvi-lo e, lentamente, como a calma que nunca havia recebido do mundo, entregar ao outro a mesma liberdade contida naquela frase doce, embora forte o suficiente para quebrar correntes.

Escrito por Paiva Rebouças

GIRÃO

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