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  • O CARNAVAL DA MINHA DOR

    O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais – sejam dolorosos ou não – em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes…)

    Mas, voltemos à minha dor… toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?… Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome – Miriam – que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de… deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).

    O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser –pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo… depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas, para quê? Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas… tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música… “Um pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando…” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)

    Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs… Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços… E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim…”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) “O pierrô apaixonado chora pelo amor da colombina…” (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).

    Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então que, entre lágrimas e cerveja, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento… – aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha… “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão… O pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão…”

  • Como nossos pais, queremos vacinar nossos filhos

    Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, como cantaria Belchior. Principalmente no tocante à vacinação. Quem é da geração que hoje tem entre 45 e 55 anos cresceu sendo vacinada sistematicamente​, contra muitos tipos de doenças, que acabaram por ser erradicadas do Brasil com um sistema de vacinação eficiente.​​

    ​Para quem tem memória falha: Fomos vacinados contra Tuberculose (BCG​),​ Poliomielite ou Paralisia Infantil (VOP)​,​ Difteria, Tétano, Coqueluche​,​ Meningite​, ​Sarampo, Rubéola​ e Caxumba​ ​(Tríplice Viral – SRC)​,​ contra Hepatite B​ e contra​ Febre Amarela​. Isso tudo de zero a 5 anos. Fomos vacinados contra tudo isso e vacinamos nossos filhos e filhas.​

    Daí a ​vacinação infantil (de 5 a 11 anos) contra Covid ter apoio de 79% da população segundo ​Pesquisa Datafolha recente. A maioria da população sabe do benefício das vacinas e os mais velhos lembram das doenças e óbitos infantis gerados pela falta de vacinação.

    A campanha ​de vacinação infantil ​em São Paulo e Rio​ de Janeiro foi um sucesso e lá a imunização se encontra um estágio avançado. Nas demais capitais a situação tende a se repetir. ​

    ​Combater a vacinação infantil pode ter sido o maior tiro no pé do despresidente Bolsonaro e sua gangue de negacionistas anticiência. Para manter fidelizada a sua base que cada vez mais se parece com uma seita, Bolsonaro desprezou até a tradição brasileira de vacinar crianças e ainda insiste em fake news com base em narrativas alucinadas.

    A maioria dos pais, ainda que eleitores ou simpatizantes de Bolsonaro, querem os filhos vacinados. Sabem que a vacina contra Covid, embora criada e produzida em te,mpo recorde, é segura e segue todos os protocolos de segurança. Sempre vacinamos nossos filhos, por que não agora contra uma doença que já tirou a vida de 620 pessoas no país? Ainda mais para garantir segurança na volta às aulas presenciais.

    Como nossos pais, vamos vacinar nossos filhos. À revelia do desgoverno e do negacionismo.​

  • Então é Natal! O que você fez?

    Como cantaria (e canta a cada ano) e pergunta Simone, então é Natal, o que você fez? Sim, posso dizer o que eu fiz: Eu sobrevivi, Simone. A uma pandemia, a um desgoverno tão letal quanto o vírus. 

    Mas também fiz outras coisas além de sobreviver. Tive de reaprender a viver minha vida entre o ´novo normal` e as restrições, até que os números de casos e óbitos da Covid caíssem. Tive de me readaptar a novas formas de viver.

    Fiz mais coisas, Simone. Lancei um livro. Não plantei uma árvore, mais um ano sem fazê-lo. Quanto aos filhos, já crescidos e donos dos próprios narizes, fiz o de sempre: ouvi o que diziam, bati papo com eles, celebrei as conquistas, solidarizei-me com os medos deles.
    Também fiz coisas corriqueiras. Fiz tapioca. Na verdade, enfim achei o ponto certo dela. Fiz mudanças na casa e me livrei de coisas velhas, desapego que chama, não é?

    Fiz exames. Enfim. De sangue, de vista. O estigmatizado exame de próstata, medo maior e tolo dos homens brasileiros, mais afeitos à masculinidade frágil e tóxica do que à saúde. Por falar em saúde, a minha está ok, felizmente.

    Ah, fiz muito mais coisas, Simone. Apaixonei-me, desapaixonei, apaixonei-me de novo, que como versou Maiakovski, comigo a anatomia ficou louca, sou todo coração! Revi velhos amigos, desfiz supostas amizades que não me faziam ou cabiam bem. Reencontrei gente querida que há muito não via. Perdi pessoas queridas vítimas do Coronavírus e de um desgoverno assassino que atrasou a vacinação de propósito.

    Fiz listas e apontamentos dos filmes que assisti e livros que li, sempre menos do que gostaria e poderia, mas, enfim, vivemos dentro de nossas possibilidades, que o ócio além de criativo, como diria Domenico de Masi, é sagrado também.

    Enfim, Simone, fiz o que pude. Como todo mundo. Passada a régua, que venha 2022 e vamos ver o que pode mais ser feito, individual ou coletivamente.

  • Sobre os incansáveis ´fiscais de qualidade musical` da internet

    Polícias Militar ou Civil? Ibama? Idema? Receita Federal? Esqueça tudo isso. A instituição com maior rigor em fiscalizar no Brasil atualmente é formada pelos amantes da música de qualidade. Gosto não se discute. Para esse pessoal, se discute, sim. E de forma bem intensa, quase sempre nas redes sociais dos incautos que postam — na visão xiita deles — música de qualidade duvidosa ou ruim.

    Não que sejam más pessoas. Quase todas têm coração grande e são uns amores na vida real, eu mesmo sou amigo de várias delas. Enfim, são ´de boas`. Desde que não mexa com “qualidade musical”. Neste ponto o extremismo delas é bem grande: não se limitam a não ouvir o que não consideram ´boa música` e com frequência invadem as redes sociais alheias para dinamitar o ecletismo musical dos outros.

    Por diversas vezes postei textos com citações de letras de Anitta ou Pablo Vittar. Não demora 5 minutos e lá vem a patrulha: “Ah, Cefas, isso mão é música”. “Pelo amor de deus, como é que você pode citar este tipo de artista?”. E tem o pessoal comparativo: “Porque citar Anitta e Pablo Vittar se você tem Belchior, Vinicius, Chico, Caetano e Gil?”. Pois é, para eles só posso enfatizar um aspecto ou fazer um contraponto em um escrito meu se citar letristas consagrados na MPB. Talvez queiram que para falar de gênero e sexualidade nos anos 2020 eu pegue uma letra de Dolores Duran. Ou para citar a periferia de São Paulo eu use letras de Carlos Lyra. 

    Tem também os nostálgicos românticos. Experimente publicar uma banda de rock nova (o que faço com frequência por indicação dos meus filhos Pedro e Ananda): “Ah, mas não se compara às bandas da nossa época”. Leia-se ´nossa época` como a época que o autor da nostalgia era adolescente. “Naquela época as canções eram realmente boas”, desabafa, citando Queen, Yes, Legião Urbana, Titãs, Plebe Rude. Todas ótimas e amo cada uma das citadas. Mas o pessoal se esquece que além dessas também haviam centenas de outras bandas ´exóticas` como Gengis Khan, Doutor Silvana etc. Entre EUA e Inglaterra uma outra leva de bandas duvidosas de um hit apenas. Para os nostálgicos toda a música feita ´na nossa época` é do padrão de ´Bohemian Rhapsody`.

    Tem os gourmets de letras também. “Poxa, Cefas, as letras antigamente eram boas de verdade”. Mas a verdade é que muito fã de rock não tem a menor noção do que dizem muitas das letras cujas músicas eles amam. As letras de Axl Rose, do Guns N’ Roses, como “Sweet child O’ mine” e “Don´t cry” são padrão poeta de 14 anos rabiscando versos no recreio. Temos também o clássico ´Holiday` da banda Scorpions: “Deixe-me te levar para longe. Você adoraria tirar umas férias”. E só isso. A letra inteira gravita no cara chamando a moça para tomar sol em uma praia.

    Enfim, gosto musical não se discute. Contextos também não. O que pode ser discutido é essa nostalgia eterna de uma parcela das pessoas de uma música, uma época, um tempo, um mundo, que passaram. Que não existe mais, porém eles querem ´resgatar` através da música. Como cantou Lulu Santos (olha aí, letrista dos anos 80/90): ´Tudo passa, tudo sempre passará`.

  • De CPI da Covid: Gargalhadas e lágrimas

    Uma das manchetes da semana foi a declaração do senador Flávio Bolsonaro que o pai dele, o despresidente Jair Bolsonaro, daria uma gargalhada como reação ao relatório final da CPI da Covid. O documento atribui nove crimes ao presidente da República e também pede indiciamento dos três filhos parlamentares.

    “Olha, eu acho que ele receberia as acusações da seguinte forma, você conhece aquela gargalhada dele?”, perguntou, para em seguida imitar a característica gargalhada do “mito”.

    Gargalhar em cima do resultado de uma CPI evidentemente é coisa de um político tosco, despreparado. Mas, na verdade Bolsonaro gargalha em cima dos 602 mil mortos por Covid. Coisa de sociopata mesmo.

    Mas não surpreende nem a imitação de Flávio nem a anunciada gargalhada de Jair. O despresidente passou um ano e meio de pandemia debochando da doença, da vacina, das vítimas e as suas famílias.

    “Querem que eu faça o quê, não sou coveiro”, já disse. Já imitou uma pessoa sem ar em uma live bizarra. Trabalhou contra a vacinação. Mostrou uma caixa de cloroquina para uma ema.

    Bolsonaro gargalha da sor alheia há tempos. Na verdade, desde antes que a presidência caiu em seu colo. Já disse em entrevista que a “ditadura militar matou foi pouco, deveria ter matado uns 30 mil”. Sugeriu que FHC então presidente, deveria ser fuzilado. Disse então à colega deputada Maria do Rosário que não a estuprava porque ela não merecia.

    Jair além de sociopata é sádico. Tem prazer em ver a dor alheia. Nem mesmo os depoimentos na CPI dos parentes de pessoas que morreram por Covid amaciaram o coração miliciano do despresidente. 

    Sim, enquanto Jair e Flávio gargalham, Eduardo faz cosplay de sheik árabe em Dubai e Carluxo tuita suas maluquices, milhares de brasileiros e brasileiras ainda choram seus mortos e ainda veem com preocupação os números da doença, ainda preocupante, por mais que parte da população esteja vacinada.

    Parafraseando o verso de “Eclipse oculto”, de Caetano Veloso, que dá nome a este texto, “Este Governo não deu certo, gargalhadas e lágrimas”. Gargalhadas dos Bolsonaros, monstros sem empatia. Lágrimas de todos nós, que perdemos pessoas queridas para a Covid. Que a CPI ajude a mais para a frente colocar esses sociopatas na cadeia.

  • Vai pra Cuba ou Venezuela! Ou para a fila do osso!

    Causou impacto e indignação em muita gente, eu incluso, as imagens de
    dezenas de pessoas aglomeradas em um açougue em Cuiabá, Mato Grosso, na esperança de conseguir ossos de boi doados pelo estabelecimento.

    A cena doeu. Porque durante uma década e meia nos acostumamos ao fato que o Brasil havia saído do mapa da fome. A desigualdade, fruto de 500 anos de injustiças, ainda era grande, mas a fome extrema, o número de miseráveis havia sido minimizado em larga escala.

    Portanto, as fotos e vídeos das pessoas à espera de ossos com restos de carne nos colocou no nosso verdadeiro lugar neste momento histórico: A volta da fome. A retomada do fosso social. A reboque disso tudo, o desrespeito a indígenas, e minorias, desmatamento da Amazônia. Enfim, a política de terra arrasada sob o manto do Liberalismo. Um liberalismo chinfrim em um desgoverno totalitário e sedento por um golpe.

    Mas também me provocou indignação ver, paralelo a este horror, a retomada da narrativa de Cuba como lugar miserável e para onde se deve mandar esquerdistas – Vai para Cuba – para experimentarem a pobreza.

    Idem em relação com a Venezuela. Dia desses percebi um conhecido de redes sociais mandando amigos dele irem para a Venezuela, ver a miséria.

    Por que não mandar os esquerdistas que não compreendem as benesses deste desgoverno liberal para Cuiabá? Para esperarem por ossos de boi?

    Poderiam mandar os descontentes para os canteiros de Natal, onde famílias se aglomeram pedindo moedas para os motoristas de veículos que param nos semáforos.

    Ou mandar para São Paulo e Rio, onde centenas de pessoas moram nas ruas. As mesmas que morrem de fome e frio dependendo da falta de doações e da baixa da temperatura.

    Não precisamos ir para Cuba ou Venezuela. Miséria já temos aqui. E miséria é miséria em qualquer canto, como cantavam os Titãs.

  • As almas dos enforcados

    Nunca fui muito de religiosidades, nem das coisas do sagrado, sempre estive mais para o profano, e também nunca foi muito de ir à igreja.

    Mas, naquela tarde, enquanto eu comia um sanduíche ali perto da Praça da Liberdade, ouvi claramente uma voz me mandando ir até a igreja. Até olhei para os lados, imaginando que fosse alguma brincadeira, alguém falando perto de mim. Nada. Ouvi de forma bem clara: Manoel, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você! Desse jeito.

    Não consegui terminar de comer. Paguei e, com as mãos trêmulas, da calçada avistei a igreja. Nunca havia entrado nela, nunca fui religioso, como já disse, mas, sabia bem que era a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.

    Eu não queria ir. Até fiz menção de descer para pegar o metrô rumo a Jabaquara, onde teria de ir logo mais, porém, não tive forças para isso. Era como se eu temesse ouvir a voz novamente. Ainda que fosse minha imaginação, resolvi então entrar na igreja, que mal haveria nisso?

    Entrei na igreja com um sobressalto, admito. Aquela igreja era bem conhecida. Falavam que almas circulavam por ali. Naquela área enforcavam em praça pública, condenados pelos mais variados crimes e já haviam me relatado o conhecido caso foi o do cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, condenado injustamente e cuja corda da forca por três vezes se partiu, obrigando os soldados e matarem—no por pauladas. Sempre achei que aquela história era uma lenda, como tantas outras contadas em São Paulo.

    De qualquer maneira ajoelhei—me no genuflexório, a exemplo das pessoas próximas à espera que algo acontecesse. Vinte minutos depois, com os joelhos começando a doer e um incômodo sono chegando, sentei—me e decidi ir embora, quando assim ouvi a mesma voz:

    Manoel, nós precisamos de você!…

     — Quem é? – deixei escapar, em voz alta, assustando uma senhora que rezava quase ao meu lado.

    Não importa. Precisamos de sua ajuda.

    Corri dali. Na praça, peguei um táxi, desisti do encontro com Neuma em Jabaquara e fui para a Praça Dom José Gaspar, onde amigos meus em breve iniciariam uma roda de samba.

    De cara, vi o Ernesto, com quem há havia tocando em diversos grupos musicais pelos bairros da cidade.

     — O que houve, homem, que cara é essa? – perguntou, percebendo minha expressão.

    — Ernesto, amigo… Não sei. Estou ouvindo vozes.

    — Andou bebendo, Manoel?

    — Não, não… Devo estar enlouquecendo…

    — Deixe disso. Vou começar agora a puxar o choro, venha ouvir a gente e depois conversamos.

    Os músicos começaram a executar uma sequência de Pixinguinha, mas eu estava os nervos á flor da pele e não consegui me concentrar. Saí da praça e numa rua próxima parei em um bar. Pedi uma dose de conhaque. O calor da bebida começou a me acalmar quando, de repente, ouvi:

    Manoel, nós precisamos de você!…

    — Quem está falando?

    Somos, nós, Manoel.

    Nós, quem?

    Você sabe. Termine de beber, pague a conta e venha nos encontrar no Jardim Oriental.

    — São seis horas, já fechou.

    Para você estará aberto. Depressa.

    Nervoso, quase tremendo, fiz então o que me mandaram, bebi de um gole só o restante da bebida, paguei e peguei um táxi de volta para o bairro da Liberdade.

    Havia pouca gente na rua, eu não sabia porque. Algumas lojas já estavam fechando. Cheguei no Jardim Oriental sabendo que o fechamento dos portões era às 17h e que estando trancado eu não teria como entrar e então aquela alucinação acabaria. Em frente ao Jardim, coloquei a mão no portão.

    Estava aberto.

    Empurrei—o e entrei, tendo o cuidado de voltar a fechá—lo. Andei ao lado do lado, a lua me permitiu ver as carpas e o brilho das moedas jogadas. Não sabia o que fazer. Parei para olhar o céu nublado, até que ouvi:

    Manoel, agora continue andando.

    — Mas, não há nada mais lá para cima.

    Sim, há. Ande.

    Obedeci. Continuei caminhando, até chegar ao fim do jardim. Já me preparava para perguntar (a quem exatamente?) o que fazer e para onde andar quando, de repente, escorreguei e me senti caindo em um buraco. Uma escuridão se apossou de meus olhos e enquanto caía — como se nunca chegasse a um chão — ouvi uma voz: Bem vindo, Manoel…

    *

    O sujeito havia marcado comigo em uma lanchonete ali na praça. Disse que queria me contatar para uma apresentação. Viria a calhar, eu estava precisando de dinheiro e a fase estava difícil para músicos, principalmente de chorinho e samba.

    Sumiço estranho o do Manoel. Havia três dias. Talvez estivesse com uma mulher.  Manoel tinha fama de mulherengo, em toda apresentação ele arrumava um rabo de saia.

    Quando terminava de comer o sanduíche, ouvi de forma bem clara, uma voz me sussurrando: Ernesto, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você!

  • O beijo

    Ele sempre havia escondido a forte miopia. Desde criança, em Cafarnaum, depois na juventude em Emaús, conseguira disfarçar seu problema de visão. Mas, era-lhe sempre difícil diferenciar o que via com nitidez, costumava atrapalhar-se com dinheiro, as imagens e símbolos nas moedas lhe pareciam difusos. Nunca se acostumara com a visão turva, que lhe impedira de pegar em armas e virar soldado, com seus irmãos, seus primos. Após começar a seguir o mestre, pensou em pedir para que ele o curasse, mas, entre a timidez e uma estranha descrença, não o fez. Mesmo tendo visto tudo acontecer ali na frente dele, tão perto dos olhos para que não tivesse qualquer dúvida, qualquer desconfiança. Pensava nisso, quando, conforme o combinado com os sacerdotes aproximou-se do grupo discretamente, e, após uma fração de segundo de dúvidas, beijou na face com força e medo o homem marcado para morrer. Afastou-se, e então, apertando os olhos, para vencer a má visão, viu os guardas prenderem com violência a Pedro, o pescador.

    — Não é esse o Cristo, eu beijei o homem errado!, ainda gritou Judas (Por Deus, todos eles iguais, morenos, com os cabelos compridos e a barba…), mas era inútil. Jesus permanecia sentado na grama sem entender o que estava acontecendo. E os centuriões se afastando com Pedro. O que estava escrito acabara de se desfazer. A história do mundo havia mudado para sempre.

    Cefas Carvalho é jornalista

  • E o Oscar vai para a… Diversidade, enfim!

    Imagem: Riz Ahmed, em cena de “O som do silêncio: Inglês de origem árabe, é o primeiro muçulmano indicado ao Oscar de melhor ator

    Há tempos as premiações cinematográficas são cobradas para oferecerem um painel mais amplo e representativo do que vem sendo feito no cinema. Não que tenha de haver “cotas” para premiações, nada disso, mas é certo que os prêmios mostravam um perfil incomodamente conservador e não refletiam a qualidade da produção realizada por cineastas para além do perfil hollywoodiano do homem-branco.

    Claro que há uns poucos anos certo avanço se fazia ver, tendo sempre o Oscar como termômetro, já que o o maior prêmio da indústria. Há pouco “Doze anos de escravidão” e “Moonlight”, dirigido por Steve Mc Queen e Barry Jenkins, respectivamente, venceram como melhor filme, primeira vez que longas dirigido por negros venceram como melhor filme. Também há dez anos a primeira vitória uma uma mulher como Filme e Direção, com Katherine Bigelow com seu “Guerra ao terror”.

    Contudo, foi no ano passado com a histórica vitória de “Parasita” como melhor Filme, Direção e roteiro original que percebemos uma mudança real na percepção da indústria, afinal, foi a primeira vez que um filme não falado em lingua inglesa venceu esses prêmios. 

    Neste ano de 2021, celebrando os filmes produzidos em 2020, ou seja, ano de filmes mais baratos e criativos e de cinemas fechados, é que vimos lista de indicados e premiações com real diversidade. O filme mais aclamado do ano, “Nomadland”, vencedor do Festival de Veneza e do Globo de Ouro, é dirigido por uma mulher, Chloé Zhao, estadunidense de origem chinesa. Ela concorre ao Oscar com outra mulher, Emerald Fennell, diretora do ótimo “Bela vingança”. Pela primeira vez duas mulheres concorrem no prêmio de melhor Direção no mesmo ano. Na verdade em 95 anos de Oscar apenas cinco mulheres concorreram até este ano.

    E entre os três diretores homens, temos um dinamarquês (Thomas Vittenberg, do elogiado “Druk”) e um estaudidense de ascendência coreana, Lee Isaac Chong, do elogiado “Minari”. Homem estadunidense, geralmente o perfil dominante na categoria, só um, David Fincher, por “Mank”.

    Entre atrizes e atores também diversidade. Entre as cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz, duas negras: a diva Viola Davis (por “A voz suprema do blues) e “Andra Day” (Os Estados Unidos contra Billie Holiday”). E mais duas britânicas, Vanessa Kirby e Carey Mulligan, que dão shows de interpretação em “Pieces of a woman” e “Bela vingança”, respectivamente. 

    Na categoria de melhor ator, temos um negro (Chadwick Boseman, falecido ano passado, por “A voz suprema do blues” e favorito ao prêmio), um britânico de origem árabe (Riz Ahmed, por “O som do silêncio”, primeiro muçulmano a concorrer ao Oscar de ator), um sul-coreano (Steven Yeun, em “Minari” e dois ingleses, Anthony Hopkins e Gary Oldman. Pela primeira vez na história do Oscar, nenhum homem estadunidense branco entre os cinco indicados na categoria.

    Claro que conquistas sempre devem ser mantidas até que sejam normalizadas, e às vezes é cedo para comemorar, mas parece fato que ventos novos vem soprando não apenas na Acedemia de Artes de Ciências de Hollywood mas entre os jurados de prêmios internacionais. Lembremos que há dois anos, quando “Parasita” encantou e venceu Cannes, o brasileiro “Bacurau”, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles dividiu os outros prêmios principais com um filme senegalês dirigido por uma cineasta de 28 anos (“Atlantique”, de Mati Diop) e um drama francês sobre negros e muçulmanos periféricos “Les miserables”). Que assim continue.

    Cefas Carvalho é jornalista

  • Furar fila para tomar vacina pode, Arnaldo?

    Vimos, não com surpresa, mas, com estarrecimento e revolta as imagens (algumas publicadas pelos próprios) de pessoas que não estão no grupo prioritário mas que estavam lá lindas leves e soltas tomando a tão aguardada vacina que imuniza contra a Covid.

    Pessoas ´de bem` diga-se. Ou seja, aqueles cidadãos que assim se consideram, certamente tementes a Deus e que mantém um mal disfarçado senso de superioridade sobre os demais ´mortais`. Trocando em miúdos, gente que tem dinheiro e poder. E, que por isso, acha que pode e deve ser imunizado em lugar de outras pessoas que stão na frente da fila, como idosos e profissionais de Saúde da linha de frente.

    Seria a ironia das ironias se não fosse trágico e nojento mesmo, o fato de que quem está ´furando a fila` para tomar vacina sejam justamente pessoas que há pouco vociferavam contra a vacinação e contra o SUS, além de serem negacionistas da doença e, claro, ´contra a corrupção`. Em suma, a hipocrisia nossa de cada dia. E a aplicação prática do ´farinha pouca, o meu pirão primeiro`.

    De pessoas que, repito, certamente professam aquela doutrina de um certo nazareno que predica dar a vida pelo outro, amar ao próximo, enfim, tolices do gênero. Nada novo sob o sol.

    Tampouco é nova a prática brasileira da chamada ´Lei de Gerson`, aquele de `levar vantagem em tudo`. Por que o brasileiro médio ´cidadão de bem` que sonega impostos, que está em sinecuras, que faz ´gato` na rede elétrica não usaria de artifícios para se dar bem na hora da vacinação contra uma doença letal?

    A frase que dá título a este texto, ´Furar fila para tomar vacina pode, Arnaldo?` é uma evidente gozação com a frase de Galvão Bueno que virou jargão popular.

    Sabemos que não pode. Quem faz isso de certa forma sabe que não pode no sentido de permissão legal, mas, no íntimo, acha que pode porque eles, cidadãos de bem classe média-alta, brancos, héteros, cristão, podem tudo na verdade! Haverá punição para eles? Sabemos que não. A cultura não só do vale-tudo mas a do ´pode tudo` para uma casta, está arraigada, inclusive ou principalmente no Judiciário, que há muito se acha uma casta superior, como bem sabemos.

    Respondendo à própria pergunta que fiz: Poder não pode, Galvão, mas continuarão furando as filas da vacina. Sem medo e sem constrangimento. No fundo, gente poderosa no Brasil pode tudo, Arnaldo.