Últimas histórias

  • Vai pra Cuba ou Venezuela! Ou para a fila do osso!

    Causou impacto e indignação em muita gente, eu incluso, as imagens de
    dezenas de pessoas aglomeradas em um açougue em Cuiabá, Mato Grosso, na esperança de conseguir ossos de boi doados pelo estabelecimento.

    A cena doeu. Porque durante uma década e meia nos acostumamos ao fato que o Brasil havia saído do mapa da fome. A desigualdade, fruto de 500 anos de injustiças, ainda era grande, mas a fome extrema, o número de miseráveis havia sido minimizado em larga escala.

    Portanto, as fotos e vídeos das pessoas à espera de ossos com restos de carne nos colocou no nosso verdadeiro lugar neste momento histórico: A volta da fome. A retomada do fosso social. A reboque disso tudo, o desrespeito a indígenas, e minorias, desmatamento da Amazônia. Enfim, a política de terra arrasada sob o manto do Liberalismo. Um liberalismo chinfrim em um desgoverno totalitário e sedento por um golpe.

    Mas também me provocou indignação ver, paralelo a este horror, a retomada da narrativa de Cuba como lugar miserável e para onde se deve mandar esquerdistas – Vai para Cuba – para experimentarem a pobreza.

    Idem em relação com a Venezuela. Dia desses percebi um conhecido de redes sociais mandando amigos dele irem para a Venezuela, ver a miséria.

    Por que não mandar os esquerdistas que não compreendem as benesses deste desgoverno liberal para Cuiabá? Para esperarem por ossos de boi?

    Poderiam mandar os descontentes para os canteiros de Natal, onde famílias se aglomeram pedindo moedas para os motoristas de veículos que param nos semáforos.

    Ou mandar para São Paulo e Rio, onde centenas de pessoas moram nas ruas. As mesmas que morrem de fome e frio dependendo da falta de doações e da baixa da temperatura.

    Não precisamos ir para Cuba ou Venezuela. Miséria já temos aqui. E miséria é miséria em qualquer canto, como cantavam os Titãs.

  • As almas dos enforcados

    Nunca fui muito de religiosidades, nem das coisas do sagrado, sempre estive mais para o profano, e também nunca foi muito de ir à igreja.

    Mas, naquela tarde, enquanto eu comia um sanduíche ali perto da Praça da Liberdade, ouvi claramente uma voz me mandando ir até a igreja. Até olhei para os lados, imaginando que fosse alguma brincadeira, alguém falando perto de mim. Nada. Ouvi de forma bem clara: Manoel, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você! Desse jeito.

    Não consegui terminar de comer. Paguei e, com as mãos trêmulas, da calçada avistei a igreja. Nunca havia entrado nela, nunca fui religioso, como já disse, mas, sabia bem que era a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.

    Eu não queria ir. Até fiz menção de descer para pegar o metrô rumo a Jabaquara, onde teria de ir logo mais, porém, não tive forças para isso. Era como se eu temesse ouvir a voz novamente. Ainda que fosse minha imaginação, resolvi então entrar na igreja, que mal haveria nisso?

    Entrei na igreja com um sobressalto, admito. Aquela igreja era bem conhecida. Falavam que almas circulavam por ali. Naquela área enforcavam em praça pública, condenados pelos mais variados crimes e já haviam me relatado o conhecido caso foi o do cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, condenado injustamente e cuja corda da forca por três vezes se partiu, obrigando os soldados e matarem—no por pauladas. Sempre achei que aquela história era uma lenda, como tantas outras contadas em São Paulo.

    De qualquer maneira ajoelhei—me no genuflexório, a exemplo das pessoas próximas à espera que algo acontecesse. Vinte minutos depois, com os joelhos começando a doer e um incômodo sono chegando, sentei—me e decidi ir embora, quando assim ouvi a mesma voz:

    Manoel, nós precisamos de você!…

     — Quem é? – deixei escapar, em voz alta, assustando uma senhora que rezava quase ao meu lado.

    Não importa. Precisamos de sua ajuda.

    Corri dali. Na praça, peguei um táxi, desisti do encontro com Neuma em Jabaquara e fui para a Praça Dom José Gaspar, onde amigos meus em breve iniciariam uma roda de samba.

    De cara, vi o Ernesto, com quem há havia tocando em diversos grupos musicais pelos bairros da cidade.

     — O que houve, homem, que cara é essa? – perguntou, percebendo minha expressão.

    — Ernesto, amigo… Não sei. Estou ouvindo vozes.

    — Andou bebendo, Manoel?

    — Não, não… Devo estar enlouquecendo…

    — Deixe disso. Vou começar agora a puxar o choro, venha ouvir a gente e depois conversamos.

    Os músicos começaram a executar uma sequência de Pixinguinha, mas eu estava os nervos á flor da pele e não consegui me concentrar. Saí da praça e numa rua próxima parei em um bar. Pedi uma dose de conhaque. O calor da bebida começou a me acalmar quando, de repente, ouvi:

    Manoel, nós precisamos de você!…

    — Quem está falando?

    Somos, nós, Manoel.

    Nós, quem?

    Você sabe. Termine de beber, pague a conta e venha nos encontrar no Jardim Oriental.

    — São seis horas, já fechou.

    Para você estará aberto. Depressa.

    Nervoso, quase tremendo, fiz então o que me mandaram, bebi de um gole só o restante da bebida, paguei e peguei um táxi de volta para o bairro da Liberdade.

    Havia pouca gente na rua, eu não sabia porque. Algumas lojas já estavam fechando. Cheguei no Jardim Oriental sabendo que o fechamento dos portões era às 17h e que estando trancado eu não teria como entrar e então aquela alucinação acabaria. Em frente ao Jardim, coloquei a mão no portão.

    Estava aberto.

    Empurrei—o e entrei, tendo o cuidado de voltar a fechá—lo. Andei ao lado do lado, a lua me permitiu ver as carpas e o brilho das moedas jogadas. Não sabia o que fazer. Parei para olhar o céu nublado, até que ouvi:

    Manoel, agora continue andando.

    — Mas, não há nada mais lá para cima.

    Sim, há. Ande.

    Obedeci. Continuei caminhando, até chegar ao fim do jardim. Já me preparava para perguntar (a quem exatamente?) o que fazer e para onde andar quando, de repente, escorreguei e me senti caindo em um buraco. Uma escuridão se apossou de meus olhos e enquanto caía — como se nunca chegasse a um chão — ouvi uma voz: Bem vindo, Manoel…

    *

    O sujeito havia marcado comigo em uma lanchonete ali na praça. Disse que queria me contatar para uma apresentação. Viria a calhar, eu estava precisando de dinheiro e a fase estava difícil para músicos, principalmente de chorinho e samba.

    Sumiço estranho o do Manoel. Havia três dias. Talvez estivesse com uma mulher.  Manoel tinha fama de mulherengo, em toda apresentação ele arrumava um rabo de saia.

    Quando terminava de comer o sanduíche, ouvi de forma bem clara, uma voz me sussurrando: Ernesto, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você!

  • O beijo

    Ele sempre havia escondido a forte miopia. Desde criança, em Cafarnaum, depois na juventude em Emaús, conseguira disfarçar seu problema de visão. Mas, era-lhe sempre difícil diferenciar o que via com nitidez, costumava atrapalhar-se com dinheiro, as imagens e símbolos nas moedas lhe pareciam difusos. Nunca se acostumara com a visão turva, que lhe impedira de pegar em armas e virar soldado, com seus irmãos, seus primos. Após começar a seguir o mestre, pensou em pedir para que ele o curasse, mas, entre a timidez e uma estranha descrença, não o fez. Mesmo tendo visto tudo acontecer ali na frente dele, tão perto dos olhos para que não tivesse qualquer dúvida, qualquer desconfiança. Pensava nisso, quando, conforme o combinado com os sacerdotes aproximou-se do grupo discretamente, e, após uma fração de segundo de dúvidas, beijou na face com força e medo o homem marcado para morrer. Afastou-se, e então, apertando os olhos, para vencer a má visão, viu os guardas prenderem com violência a Pedro, o pescador.

    — Não é esse o Cristo, eu beijei o homem errado!, ainda gritou Judas (Por Deus, todos eles iguais, morenos, com os cabelos compridos e a barba…), mas era inútil. Jesus permanecia sentado na grama sem entender o que estava acontecendo. E os centuriões se afastando com Pedro. O que estava escrito acabara de se desfazer. A história do mundo havia mudado para sempre.

    Cefas Carvalho é jornalista

  • E o Oscar vai para a… Diversidade, enfim!

    Imagem: Riz Ahmed, em cena de “O som do silêncio: Inglês de origem árabe, é o primeiro muçulmano indicado ao Oscar de melhor ator

    Há tempos as premiações cinematográficas são cobradas para oferecerem um painel mais amplo e representativo do que vem sendo feito no cinema. Não que tenha de haver “cotas” para premiações, nada disso, mas é certo que os prêmios mostravam um perfil incomodamente conservador e não refletiam a qualidade da produção realizada por cineastas para além do perfil hollywoodiano do homem-branco.

    Claro que há uns poucos anos certo avanço se fazia ver, tendo sempre o Oscar como termômetro, já que o o maior prêmio da indústria. Há pouco “Doze anos de escravidão” e “Moonlight”, dirigido por Steve Mc Queen e Barry Jenkins, respectivamente, venceram como melhor filme, primeira vez que longas dirigido por negros venceram como melhor filme. Também há dez anos a primeira vitória uma uma mulher como Filme e Direção, com Katherine Bigelow com seu “Guerra ao terror”.

    Contudo, foi no ano passado com a histórica vitória de “Parasita” como melhor Filme, Direção e roteiro original que percebemos uma mudança real na percepção da indústria, afinal, foi a primeira vez que um filme não falado em lingua inglesa venceu esses prêmios. 

    Neste ano de 2021, celebrando os filmes produzidos em 2020, ou seja, ano de filmes mais baratos e criativos e de cinemas fechados, é que vimos lista de indicados e premiações com real diversidade. O filme mais aclamado do ano, “Nomadland”, vencedor do Festival de Veneza e do Globo de Ouro, é dirigido por uma mulher, Chloé Zhao, estadunidense de origem chinesa. Ela concorre ao Oscar com outra mulher, Emerald Fennell, diretora do ótimo “Bela vingança”. Pela primeira vez duas mulheres concorrem no prêmio de melhor Direção no mesmo ano. Na verdade em 95 anos de Oscar apenas cinco mulheres concorreram até este ano.

    E entre os três diretores homens, temos um dinamarquês (Thomas Vittenberg, do elogiado “Druk”) e um estaudidense de ascendência coreana, Lee Isaac Chong, do elogiado “Minari”. Homem estadunidense, geralmente o perfil dominante na categoria, só um, David Fincher, por “Mank”.

    Entre atrizes e atores também diversidade. Entre as cinco indicadas ao Oscar de melhor atriz, duas negras: a diva Viola Davis (por “A voz suprema do blues) e “Andra Day” (Os Estados Unidos contra Billie Holiday”). E mais duas britânicas, Vanessa Kirby e Carey Mulligan, que dão shows de interpretação em “Pieces of a woman” e “Bela vingança”, respectivamente. 

    Na categoria de melhor ator, temos um negro (Chadwick Boseman, falecido ano passado, por “A voz suprema do blues” e favorito ao prêmio), um britânico de origem árabe (Riz Ahmed, por “O som do silêncio”, primeiro muçulmano a concorrer ao Oscar de ator), um sul-coreano (Steven Yeun, em “Minari” e dois ingleses, Anthony Hopkins e Gary Oldman. Pela primeira vez na história do Oscar, nenhum homem estadunidense branco entre os cinco indicados na categoria.

    Claro que conquistas sempre devem ser mantidas até que sejam normalizadas, e às vezes é cedo para comemorar, mas parece fato que ventos novos vem soprando não apenas na Acedemia de Artes de Ciências de Hollywood mas entre os jurados de prêmios internacionais. Lembremos que há dois anos, quando “Parasita” encantou e venceu Cannes, o brasileiro “Bacurau”, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles dividiu os outros prêmios principais com um filme senegalês dirigido por uma cineasta de 28 anos (“Atlantique”, de Mati Diop) e um drama francês sobre negros e muçulmanos periféricos “Les miserables”). Que assim continue.

    Cefas Carvalho é jornalista

  • Furar fila para tomar vacina pode, Arnaldo?

    Vimos, não com surpresa, mas, com estarrecimento e revolta as imagens (algumas publicadas pelos próprios) de pessoas que não estão no grupo prioritário mas que estavam lá lindas leves e soltas tomando a tão aguardada vacina que imuniza contra a Covid.

    Pessoas ´de bem` diga-se. Ou seja, aqueles cidadãos que assim se consideram, certamente tementes a Deus e que mantém um mal disfarçado senso de superioridade sobre os demais ´mortais`. Trocando em miúdos, gente que tem dinheiro e poder. E, que por isso, acha que pode e deve ser imunizado em lugar de outras pessoas que stão na frente da fila, como idosos e profissionais de Saúde da linha de frente.

    Seria a ironia das ironias se não fosse trágico e nojento mesmo, o fato de que quem está ´furando a fila` para tomar vacina sejam justamente pessoas que há pouco vociferavam contra a vacinação e contra o SUS, além de serem negacionistas da doença e, claro, ´contra a corrupção`. Em suma, a hipocrisia nossa de cada dia. E a aplicação prática do ´farinha pouca, o meu pirão primeiro`.

    De pessoas que, repito, certamente professam aquela doutrina de um certo nazareno que predica dar a vida pelo outro, amar ao próximo, enfim, tolices do gênero. Nada novo sob o sol.

    Tampouco é nova a prática brasileira da chamada ´Lei de Gerson`, aquele de `levar vantagem em tudo`. Por que o brasileiro médio ´cidadão de bem` que sonega impostos, que está em sinecuras, que faz ´gato` na rede elétrica não usaria de artifícios para se dar bem na hora da vacinação contra uma doença letal?

    A frase que dá título a este texto, ´Furar fila para tomar vacina pode, Arnaldo?` é uma evidente gozação com a frase de Galvão Bueno que virou jargão popular.

    Sabemos que não pode. Quem faz isso de certa forma sabe que não pode no sentido de permissão legal, mas, no íntimo, acha que pode porque eles, cidadãos de bem classe média-alta, brancos, héteros, cristão, podem tudo na verdade! Haverá punição para eles? Sabemos que não. A cultura não só do vale-tudo mas a do ´pode tudo` para uma casta, está arraigada, inclusive ou principalmente no Judiciário, que há muito se acha uma casta superior, como bem sabemos.

    Respondendo à própria pergunta que fiz: Poder não pode, Galvão, mas continuarão furando as filas da vacina. Sem medo e sem constrangimento. No fundo, gente poderosa no Brasil pode tudo, Arnaldo.

  • A Voz Suprema do Blues: Filme debate racismo com brilho de Viola e Chadwick

    Sim, é o já famoso filme póstumo de Chadwick Boseman (o astro de ´Pantera Negra`, infelizmente falecido há poucos meses de câncer) e vamos voltar a este tema específico. Mas, o filme tem história e trunfos poderosos. Dirigido por George C. Wolfe, desconhecido no cinema mas premiado no teatro, é baseado na premiada peça de August Wilson, encenada em 1984.

    A origem cênica do filme não deixa dúvidas, o longa inteiro parece teatro filmado. Mas, nem por isso monótono ou estático. O filme tem bela fotografia, edição bem interessante, aproveitando os tons pasteis da Chicago dos anos 20, quando somos apresentados a um dia de ensaio e gravação de Ma Rainey (vivida de maneira visceral por Viola Davis) e sua banda de blues, com todos os conflitos gerados por mágoas, lembranças de racismo e violência, religião, mesquinharias e grandezas de cada um dos músicos da banda. O roteiro é contundente e questiona não apenas o racismo, mas a percepção que negros tem de si mesmos e estas partes são bem poderosas.

    Como sempre Viola enche a tela de talento e carisma. Mas quem rouba o filme é Chadwick, em seu derradeiro papel, que está surpreendente e brilhante como Levee, jovem e ambicioso trompetista que tem as melhores e mais impactantes falas do filme. Tudo indica que vencerá Oscar de ator coadjuvante postumamente, como aconteceu já uma década com Heath Ledger como o Cotinga do “Batman, o cavaleiro das trevas”. Se isso acontecer, justiça completa. Mas o filme vale pelo conjunto da obra, elenco, texto, ambientação, fotografia. Veja e reveja sem moderação.

  • Apontamentos sobre ´Emicida: AmarElo – É tudo para ontem’

    Enfim assisti o elogiado documentário “Emicida – AmarElo – É tudo pra ontem”, idealizado e narrado pelo próprio artista e dirigido por Fred Ouro Preto. Superou em muito minhas expectativas. Bem mais que um registro de um show específico – Emicida no Teatro Municipal de São Paulo – e da gravação do CD novo do rapper, o doc é principalmente um apanhado didático, dinâmico e criativo de toda a música negra brasileira, do samba marginalizado de Donga nos anos 1920 até chegar ao Rap e hip hop dos anos 90/2000, gênero que Emicida abraçou e expandiu.

    O documentário aborda a questão da música negra brasileira fazendo um link direto com os movimentos organizados, dando destaque aos intelectuais negros. Um aspecto que me agradou muito é a abordagem de Emicida de que a luta antirracista não pode se limitar ao confronto, mas à ocupação de espaços, como é bastante registrado no histórico show no Teatro Municipal e na inclusão e prioridade de negros na plateia, muitos – como enfocado – que jamais haviam entrado naquele lugar. Socar racistas é bom, necessário e prazeroso, mas, o urgente é justamente a ocupação dos espaços físicos e simbólicos.

    A narrativa do doc, repleto de animações bem sacadas e misturando com harmonia gravações de estúdio, o show no teatro, depoimentos e a história da música inserida na luta negra, não deixa o ritmo cair em 1h20 de duração que passam voando. Mais que recomendado, necessário em tempos de obscurantismo.

    Porque “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje”.

  • De volta com a Papangu velha de guerra

    Então é isso. A Papangu voltou! Projeto dos mais ousados, a Papangu enquanto revista impressa em uma época que o terreno na Internet ´ainda era só mato`, como se diz, marcou época, tanto para leitores como quem a produzia e seus colaboradores. E é uma alegria poder dizer que eu estava neste segundo time. Foram pelo menos três anos, entre 2005 e 2007 escrevendo mensalmente para a revista, artigos, crônicas bem-humoradas, reflexões sócio-políticas, o que me viesse à cabeça, enfim.

    Na verdade as memórias daquele período papangunista remetem a uma fase feliz tanto pessoal quando coletiva. O Brasil vivia crescimento econômico e social, um espírito de euforia pairava no ar. Eu, particularmente, lançava livros e me envolvi em projetos de Cordel para crianças, entre outros. As memórias da Papangu e dos bons momentos caminham lado a lado nas estradas da minha mente. 

    E havia também os papangunistas, na verdade uma espécie de família de desenho animado. Os intrépidos Túlio Ratto e Ana Cadengue com o ´Papangumóvel` de saudosa lembrança, que parecia saído da animação Corrida Maluca… Havia também os papangunistas, Damião Nobre, Marcos Ferreira, Alex Gurgel, o saudoso Leonardo Sodré, que nos deixou precocemente. Enfim, uma familia por afinidade formada pelos gostos em comum e pelo amor à revista impressa.

    E é necessário dizer que a Papangu marcou época e era o terror da classe política. Ser caricaturado/a na capa pelo el terrible Ratto poderia ser uma benção ou uma maldição. Havia os que se sentiam lisonjeados. Os que se sentiam mortalmente ofendidos e queriam levar a coisa para o terrono judicial. Mas, era para ser assim. Charges e jornalismo foram feitos para incomodar, não para agradar os poderosos de plantão. E a papangu cumpriu seu destino: Com humor e convite à reflexão, incomodou muita gente.

    Tanta nostalgia para celebrar o presente. Que é a volta da revista e seu bravo time de colaboradores no campo virtual, esfera inevitável que vem substituindo a celulose e que enfim, foi formada como a Papangu velha de guerra.

    Estamos. portanto, aqui de volta. Contem comigo, comandante Ratto e Ana Cadengue. Longa vida à revista — agora virtual — que tanto fez e tanto fará pela comunicação, arte e humor no Rio Grande do Norte. Evoé.