Dom Gilberto Benício abre a geladeira, busca água para ajudar a tirar o gosto amargo da boca de quem não conseguiu pregar os olhos durante a noite. Um copo com leite já o satisfaz. Puxa uma cadeira e posiciona ao lado de uma prateleira e de uma grande peça de vidro, que separa sua sala da cozinha, deixando-o com a vista dos fundos da casa paroquial. A água da chuva embaça a grande parede de vidro. Além da tormenta que castiga a capital, a madrugada foi de completa insônia. A enxaqueca faz o bispo cambalear. A imagem do corpo esguio refletido no vidro espelhado não deixa transparecer seus quase setenta anos de idade.
Retira um pequeno rádio de pilhas portátil de uma gaveta. O chiado ao ligar remete-lhe ao passado, gosta de lembrar que o radinho, bem antigo, foi um presente do Papa João Paulo, de quando esteve no Vaticano, na década de 1980. O bispo Gilberto era conhecido à época como o “Padre Pop do Rádio”, em Barrinha, pequena cidade próxima da capital, e comandou a paróquia de Nossa Senhora dos Impossíveis. Sempre se comunicou muito bem com os fiéis, e sabia, como dizem hoje nas redes sociais, viralizar um assunto, fazer a cabeça do seu rebanho. O sermão dominical lhe alçara a porta-voz dos necessitados, com proporções além fronteiras, o que rendeu sucesso na Rádio Difusora. Tanto que o Papa, sabendo da façanha, aproveitou a visita e o presenteou com um cobiçado aparelho de rádio.
Enquanto ouve as notícias, destrava o celular para checar novas mensagens. Talvez, o motivo principal da sua falta de sono e dor de cabeça. Afinal, não tem sido fácil enfrentar tantos problemas nos últimos dias, com tantas mensagens recebidas, até de ameaças. Uma tragédia sem precedentes cerca a igreja local.
— Nada. Demônio! — esbraveja.
Entretanto, ouve o apresentador do programa matinal relatar sobre algumas ocorrências policiais da noite anterior. Fica nervoso ao ouvir os nomes dos envolvidos no noticiário. Não é novidade que uma onda de violência se abateu sobre a capital do estado, e a igreja é neste momento o epicentro de atentados e execuções. O bispo, pálido, beija o crucifixo ao ouvir sobre a invasão à casa do padre Almir e da perseguição ao seu amigo Jessé, estando ambos desaparecidos.
— Senhor, ajuda-nos em momento tão delicado — suplica o bispo.
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A água é turva, agonizante, desesperadora. Por um momento não sabe o que está se passando. Se vive, ou se aquilo é a morte. Permanece por saber lá quanto tempo nessa dúvida, mas a vontade de sair é maior. Tenta se soltar, andar, subir.
— É um sonho?
— Não. Não é um sonho. Você cavou isso pra você. Ou melhor, se atolou em desgraça — brada uma voz em seu devaneio.
— Eu precisava fazer justiça.
— Só se faz justiça quando se é justo. “Muitas são as aflições do justo,
mas o Senhor o livra de todas”.
— Não venha me falar sobre ser justo depois do que fizeram comigo. Quem você acha que é, para saber o tamanho da minha dor?
— Apenas quero que você olhe ao seu redor e entenda que “o que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra”.
Jessé sentiu um frio enorme, como nunca havia sentido. Tentou abrir os olhos, em vão. Não conseguia ver o que se passava ao redor. Foi quando sentiu um braço agarrando-o, arrastando seu corpo entre galhos e a lama.
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Batista de Sousa olha em volta para se certificar de que não haja nada de estranho no Beco das Firulas, pequena área de pescadores, já no limite entre a capital e a praia da Cordinha. “Sei lá se isso seria uma tocaia de algum inimigo para me pegar!?”, pensa. Mesmo desconfiado, anda sorrateiro pelos cantos escuros. Para entre escombros de um barraco destruído pela maré. Puxa um cigarro do bolso esquerdo de sua camisa enquanto busca o isqueiro na calça. Agora está completamente exposto.
— Pode falar. Desenrola. Eu sei que você está aí atrás! — diz em voz alta. Já que vira há pouco um vulto se esgueirar até chegar a um poste. Fala pelo canto da boca, traga o cigarro de filtro mordiscado enquanto mira na sombra quase escondida.
— Não quero que me veja. Nem quero ver a sua cara. Não precisamos disso. Vamos manter essa negociação assim. Note que tem uma maleta aí próximo ao muro por onde você chegou. As instruções estão dentro. O que eu quero está bem escrito e explicado. E nunca mais nos veremos. Ok? — finaliza a pessoa sem hesitar, deixando Batista e as instruções na escuridão.
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— Calma, padre. Está tudo na paz do Senhor. Mas desliga a porra desse rádio e largue a droga do celular agora mesmo!
Dom Benício empalidece ao ouvir a voz que vem sorrateiramente entre a estante e o local onde se encontra.