Se existe memória olfativa, existe também saudade olfativa.
A minha memória é impregnada de saudades olfativas. E nesses tempos melancólicos, de pandemia, medo e isolamento, elas se tornam ainda mais indeléveis.
Saudade de pessoas, as tenho. Meu primo, minha prima, alguns tios e tias, amigos. Pessoas queridas que agora são apenas boas lembranças. Sinto saudade dos meus amigos de infância, tão difíceis de reencontrar.
Sinto saudades de localidades, lugares. De Martins onde passei parte de minha infância e adolescência e da casa, quase sítio, na esquina próxima à igreja. Saudade do CLEM – Centro Lítero Esportivo de Martins o clube social da cidade e do “Mengão” ou Bar do Dimas, onde costumava jogar sinuca – as vezes apostando – com pessoas bem mais velhas do que eu, para desespero de minha mãe Maria do Socorro.
Saudade, mas muita saudade mesmo, da cidade onde nasci, Mossoró e das várias casas em que morei, cada uma com suas peculiaridades e insalubridades, mas que eram sempre o meu lar aconchegante. Onde eu queria sempre estar.
No entanto, essas saudades parecem retratos antigos arquivados em um disco rígido na minha memória e que vez por outra o acesso.
A saudade que realmente me faz viajar no tempo e me despertar uma sensação de presença física inexplicável é a saudade olfativa. Sinto saudade de cheiros. Do cheiro da minha mãe e o seu sabonete “Alma de Flores” que até hoje uso. Do cheiro do meu pai em seu barbear matinal. Do cheiro das goiabas e mangas do pomar da nossa casa em Martins e que nunca encontrei igual em todos esses anos de vida. Sinto saudade do cheiro da sopa que minha irmã Miriam fazia no tempo em que morei em sua casa e que sempre que a visito (nem tantas vezes quanto gostaria, principalmente agora) percebo permanecer exatamente o mesmo. Sinto saudade do cheiro do maxixe ao leite de minha mãe que até hoje tento reproduzir sem sucesso.
Sinto muita saudade do cheiro do prato feito que Tio Antonio e Tia Vilani serviam no restaurante/lanchonete que mantinham no Mercado Central de Mossoró. Aquela montanha de comida cheirosa e gostosa que eu tinha que comer até “raspar o prato” sob pena de levar uma bronca maior do que a quantidade de comida que me era servida.
Aliás, cheiro de comida é um cheiro bastante presente em minhas saudades cheirosas. Sinto saudade até do cheiro do milho verde (assado ou cozido) que eu comia quando tinha uns 10 anos, que não tem a nada a ver ou sentir, com essas espigas embandejadas e sem sabor vendidas em supermercado.
E tenho muita, mas muita saudade mesmo, do cheiro de bebê dos meus três “bebezões” Isadora, Túlio Filho e Débora e é por isso que mesmo com eles já adultos, passados dos 27, não abro mão de sapecar-lhes uns “chêros” quando nos encontramos. Saudade do cheiro e dos “chêros” do meu neto Otávio que completou 10 meses esses dias, e que veio passar Natal e réveillon aqui em casa para a minha imensa e indescritível alegria. Saudade do cheiro e dos “chêros” de minha neta Beatriz de 9 anos, que faz a eternidade de três dias que não vejo.
E até hoje, eu e Masé, minha esposa, procuramos – e nunca encontramos -, os perfumes que usávamos quando começamos a namorar, alguns séculos atrás: Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano. No entanto, esses cheiros continuam presentes em nossas vidas até hoje. Se alguém encontrar por aí, Água de Bosco, Quotidiene e Tabaco de Bozzano, favor entrar em contato.
“Chêro procês”!