Por causa do feriadão da semana passada, as notícias foram comentadas até quarta-feira. Mas eis que, a partir daí, começou um turbilhão de informações de deixar qualquer colunista tonto.
Senão vejamos:
– Os “farialimers” em ação outra vez
CDBs irreais e carteiras de crédito falsas: o que está por trás da liquidação do Banco Master.
A decisão do Banco Central de liquidar o banco e a prisão de Daniel Vorcaro, dono da instituição, representam o capítulo final de uma novela financeira que já estava com os dias contados. O Master operava no limite — alto custo de captação, investimentos arriscados e juros acima da curva. O colapso, portanto, não foi surpresa para ninguém… exceto para quem ainda acreditava em milagre de mercado ou em presente de Papai Noel.
– Na falta do que fazer
Oposição ataca governo Lula após incêndio na COP30: “Vergonha mundial!”
Mas, sanado o problema, o evento seguiu normalmente, com pouquíssimos atrasos. Foi encerrado no domingo (23) com metas de 122 países definidas, nova sede oficializada, ganhos relevantes para a arquitetura climática global e um salto no número de NDCs — aquelas Contribuições Nacionalmente Determinadas, do Acordo de Paris.
– Chora, “Little” Banana!
Trump vira a página e escanteia Bolsonaro ao cortar tarifas; negociação segue.
Como dizia minha Vó Cora: “morreu Maria Preá”. Depois explico o que significa.
– Jair Bolsonaro é preso preventivamente a pedido da PF em Brasília
Pois bem. Aí chega o sábado (22).
O sujeito está lá, deitado na rede, num soninho reparador, curtindo uma mini ressaca de umas cervejas inocentes na véspera, quando exatamente às 6h30 da “madrugada” o genro berra no seu ouvido:
— Acorda, Túlio! Bolsonaro foi preso!
“Assim não pode, assim não dá”, como diria FHC.
O resto do dia foi acompanhar notícias e se preparar para o churrasco da tarde.
E assim chegamos à semana que, na prática, começou no domingo (23).
PORQUE HOJE É SEXTA-FEIRA
1 – A tornozeleira falante e o curso técnico de madrugada
Estava tudo tranquilo na preventiva até que o “Capiroto das Profundas” resolveu protagonizar o primeiro faça-você-mesmo jurídico-eletrônico da história recente.
Segundo ele, bateu uma “certa paranoia” — nada grave, só uma “estrambólica” interação entre Pregabalina e Sertralina — e o sono “picado” levou o “despinguelado” das ideias, munido de um ferro de solda, a tentar abrir a tornozeleira, porque ele tem curso pra isso, talkei? Quem nunca, né?
Entre uma alucinação e outra, achando que o equipamento tinha uma escuta embutida (provavelmente CIA, KGB ou — pior — a Receita Federal), decidiu investigar o mistério ali mesmo, na calada da noite, sem que filha, irmão ou assessor percebessem.
Ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém acordou.
Depois, “caindo na razão”, avisou os agentes. Mas não antes de registrar que não lembra de surtos assim antes — o que, convenhamos, não tranquiliza ninguém. Como diria o filósofo Zeca Catimbó, lá de Mossoró: “Não é nada, não é nada, não é nada mesmo”.
2 – Goodbye, Mr. Reggae
E a semana começa com outra segunda-feira insistindo em nos derrubar mais um pouco. Desta vez, com a partida de Jimmy Cliff, o homem que fez do reggae não apenas um ritmo, mas uma verdadeira “bússola emocional” – como ele costumava defini-lo. Vai-se o mestre de Many Rivers to Cross (Muitos Rios Para Cruzar), mas fica o desafio: atravessar os nossos próprios rios — alguns bem mais poluídos que os dele — sem perder o balanço.
Cliff deixou o mundo, mas deixou junto a trilha perfeita para quando a gente quiser fingir que está tudo bem enquanto o país pega fogo: colocar o fone, aumentar o volume e acreditar, por três minutos e meio, que a vida ainda pode ter a cadência de um reggae.
3 – Mais um episódio de “Fuga das Galinhas”
Desculpa aí, gente! “Foi sem querer querendo.”
O bolsonarismo segue firme em seu infinito festival de bizarrices e desculpas criativas — sempre misturando novela mexicana – ou italiana – com pastelão. Mais uma para a série: “Vocês ainda não viram nada.”
Ramagem liga para “se desculpar” por não ter avisado da fuga para os EUA, diz o líder do PL.
— Ele me ligou para pedir desculpas e pediu que eu pedisse desculpas à bancada — contou Sóstenes. — Respondi que não havia do que se desculpar, porque ele estava “lutando pela própria vida”.
Só no PL um deputado pede desculpas aos colegas… por fugir com medo da prisão.
A saída do país ocorreu logo depois do agravamento de sua situação jurídica. Segundo Ancelmo Gois (O Globo), Ramagem foi diagnosticado, em setembro, com “ansiedade generalizada” — o que, convenhamos, parece o CID (Classificação Internacional de Doenças) oficial do bolsonarismo sempre que chega uma intimação, um mandado, uma tornozeleira ou qualquer coisa que comece com STF e termine com cumpra-se.
O atestado — da mesma linhagem daqueles de “Zambeletta, La Pistolera”, descartados pela Justiça italiana — foi emitido dois dias antes de o Supremo anunciar sua condenação a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe. Serviu, portanto, como senha para o tradicional rito bolsonariano: bateu ansiedade, bateu bye bye, so long, very well.
Só que não.
O ministro Alexandre de Moraes determinou a perda do mandato de Ramagem e, em breve, ele será um ex-deputado em fuga.
4 – “Que belo e estranho dia de se ter alegria”
Esse é o título do segundo CD da minha querida Roberta Sá, que define perfeitamente o sentimento que tomou conta de todos nós amantes da democracia e da liberdade, no último dia 25.
E fugindo um pouco da cronologia habitual da coluna, encerro com a prisão do “Capiroto das Profundas”, porque às 14h30 dessa terça-feira histórica fomos brindados com a bela notícia de que a “preventiva” havia virado “definitiva”.
O “check-in” definitivo na PF
E não é que o tour do ex-presidente pela Superintendência da PF ganhou upgrade? Pois é: Alexandre de Moraes, nosso gerente-geral da paciência institucional, finalmente apertou o botão do “encerrar processo”, depois de concluir que os recursos apresentados pela defesa do condenado não passavam de protelações inúteis.
Com isso, o STF decretou o cumprimento imediato da pena. Nada de home office golpista, nada de tornozeleira à prova de ferro de solda: é PF mesmo, com direito a repetir o endereço na ficha cadastral.
O “Capiroto”, que já estava lá desde sábado em prisão preventiva, agora faz o tão esperado check-in definitivo — aquele tipo de reserva que não tem “cancelamento grátis”. E junto dele, um combo de aliados, incluindo generais que, pelo visto, confundiram quartel com sala de planejamento de reality show.
Pérolas do pós-prisão
• Carlos Bolsonaro, o filho 02, foi visitar o pai vestindo uma camiseta com publicidade da “Michelangelo’s Pizzeria”. Será que recebeu alguma coisa por isso? Duvido nada. Mas deu para perceber que ele é a cara da Tartaruga Ninja da camiseta.
• Jair Renan, o 04, saiu da visita preocupado com o estado de ânimo do pai. Disse que tentou alegrá-lo falando de assuntos mais leves, tipo futebol, e deixou revistas de caça-palavras para ele se distrair. Fiquei encafifado: será que completar caça-palavras conta como leitura de livros para redução de pena?
• E o generalíssimo Augusto Heleno foi premiado pelo emotivo PGR Paulo Gonet com a “prisão domiciliar humanitária”, baseada em laudos que indicam Alzheimer desde 2018. Encafifei outra vez: quer dizer que entre 2019 e 2023 o Brasil conviveu com um ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República) portador de Demência de Alzheimer?
_______________________________________________________________________
Então é isso, gente. Inteira ou incompleta, a semana sempre chega na sexta-feira.
E se a história do Brasil insiste em repetir episódios vergonhosos, que ao menos possamos celebrar quando os enredos começam — enfim — a fazer justiça e nos fazer sorrir. “Nós vamos sorrir! Sorriam!”.
E que cada sexta-feira nos encontre um pouco mais lúcidos, um pouco mais leves e muito menos tolerantes com quem acha que golpe é brincadeira.
“Estou indo embora, agora…”, como diria o sofrente Pablo. E finalmente:
BOLSONARO NA CADEIA!
