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Bem-vindo ao Mundo

Enquanto o suor desce pela costeleta, Alcides Oliveira abre a porta de vidro e entra na Barbearia Sinatra. Sua vista ainda escura busca desesperadamente em sua volta por um bebedouro. Já é quase uma da tarde, o calor está infernal. Enquanto seu olhar se adapta ao ambiente, ele passa rapidamente a língua entre os lábios ressecados, sente a boca seca, seu olhar é de súplica:

— Alguém poderia me conseguir um copo d’água? E, por obséquio, daria para ligar o ar-condicionado? — suspira forte e pensa que “não há água no mundo que mate minha sede hoje”.

A pessoa ao seu lado estica um dedo em direção a um interruptor, gesticulando e apontando para o aparelho para dizer que já estava ligado.

— Sente-se! O que vai ser hoje? Pergunta-lhe seu Geraldo, o barbeiro, bastante conhecido na Praça dos Táxis, no Centro de Mossoró. Um senhor de estatura baixa, bigodinho fino, cabelo bem ajustado para trás, escondendo a calvície no topo da cabeça, deixando-lhe inclusive algumas décadas mais jovem.

— Vamos fazer o cabelo e barba. Essa quentura não deixa a gente ‘cultivar’ um visual diferente — diz Alcides.

— Mmmmm… Quer fazer cabelo, barba e bigode, como “o pobrezinho” fez em Mossoró, né? — pergunta com ar de deboche seu Geraldo, a quem Alcides confia seus fios encaracolados desde a meninice, quando seu pai, ex-secretário do gabinete do prefeito, o trazia para cortar o cabelo. Naquela época, lembra Alcides, o corte era motivo de chacota no colégio, pelo estilo militar, quase feito com uma cuia.

— É. Quem poderia esperar, né, seu Geraldo?

— Quem disse que meninos não conseguem ser bons gestores? Você vai ver! —afirma Geraldo.

— Eu não disse nada. O Sr. é que está supondo. Ele pode, sim, se sobressair.

— Por que você acha que o povo votou em Allyson?

— Acho que havia um desejo de mudança. O salto alto rosalbista também ajudou, né, seu Geraldo?

—Rip! Rip! Rip! Rip! — o barulho da tesoura só emudece quando o barbeiro a gira fazendo ir da nuca à testa de Alcides com destreza, e na briga entre o pente e o objeto cortante, ele golpeia:

— Não tem quem queira mais a antiga política aqui, não, meu filho!”.

— Em nível nacional, seu Geraldo, essa nova política não tem se mostrado tão nova assim!

— É, pode ser. Mas aqui, para dar férias aos Rosados, faríamos qualquer coisa.

— Acho que foi muito esse sentimento mesmo, em 2020. O senhor está correto.  Mas, convenhamos, isso não deu na eleição que antecedeu Rosalba.

— Você não acha que agora Mossoró tem jeito?

— Como disse lá no começo, acho que é o que todos aguardam, uma administração eficiente, sem firulas. Se fizesse o feijão com arroz já estaria de bom tamanho. Não pode é meter os pés pelas mãos, como foi o caso de Silveirinha.

— Deixe de coisa, só em Rosalba ter sido derrotada já é uma vitória muito grande para todos. E, claro, agora posso dizer que “eu adoro Mossoró!” — todos na barbearia gargalham com seu Geraldo em zombaria ao famoso bordão da ex-prefeita.

Alcides pega o copo d’água — bem cheio — que lhe trouxeram, chegando a derramar na capa que o protegia dos pelos, e bebe bem devagar enquanto conversa. ”Acho que esse é o sentimento geral. Agora, vai depender do que o garoto realizar.

— O Sr. não acha?

Navalha entre os dedos. Olhar perdido no giro das hélices de um pequeno ventilador em sua bancada, Geraldo consegue retorquir seu próprio sentimento:

— É. Não tenho muita certeza sobre isso. Até porque não se sabe de nada construído até agora pelo menino, a não ser sua chegada meteórica ao mundo dos adultos.

Escrito por Túlio Ratto

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