Sobre

O DIVÓRCIO

Virgin Mary

Domênica dirigiu-se ao cartório, os advogados protocolaram o encontro para as 10 horas. Lá seriam firmados os termos do seu divórcio.

Na noite anterior ela se sentira tomada por uma melancolia incomum; mal bicara a sopa que havia preparado. As crianças, de início inquietas, calaram-se, estranhando o silêncio da mãe.

— Mãezinha, não quero mais a sopa, não — reagira Telzinho.

Domênica, cabisbaixa, a passear a colher por entre os fios de macarrão no prato, nada respondeu.

— Mamãe, vou brincar na casa de dona Gildinha — aproveitou Belinha.

Os dois filhos se entreolharam, nada entenderam e, sem perda de tempo, abandonaram o jantar.

Agora, a caminho do cartório, Domênica Melgaço segue cabisbaixa e lenta. Como a carregar nos ombros o peso do mundo.

— Bom dia, senhora Domênica — saúda o quitandeiro Alcides.

— Dia…

Na esquina seguinte, ao se aproximar do cartório, ela resolve interromper os passos e entrar na igreja. Ajoelha-se mais ao fundo, faz o nome do pai e tenta rezar o credo. A mente confusa não permite, a oração lhe escapa por entre o pensar confuso. Tenta de novo, em vão. Resolve elevar os olhos para a imagem da Virgem Maria, a lhe pedir proteção. Com pouco os olhos de Domênica se enchem de lágrimas, a brotarem de uma tristeza profunda.

Ao pressentir que alguém se sentava ao seu lado, numa vã tentativa de disfarce tenta esconder sua dor cobrindo a face com um véu rendado.

— Deixemos as coisas menores de lado. Deus há de nos ajudar. Olhai os lírios do campo…

— Ferreira?! Fe… — gritou Domênica e, em seguida, desmaiou.

&&&

— Eu sei que ele não vai me perdoar! Eu sei que ele não vai me…

— Senhora Domênica Melgaço, tenha calma. Tudo está bem, tudo bem. Foi apenas um leve passamento — consolou-a o padre Araquento.

Ela estava amparada por duas filhas de Maria, a lhe abanarem com espanto e curiosidade.

— Quer que uma das senhoras a acompanhe até a sua casa? — indagou o velho pároco.

Domênica se recompôs, agradeceu a todos e disse que seguiria sozinha. Saiu, não sem antes correr os olhos por toda a nave da igreja.

— A senhora veio com alguém?

— Sim… digo, não, não. Estou só.

Tomou novamente o rumo do cartório do Mundola. Passava do horário agendado.

Mal ela pôs os pés na calçada, outro tremor assomou-lhe à face lívida. “… faltou tudo a ti, senhora Dômenica Melgaço, menos amor.”

No interior do cartório se encontrava o tabelião, acompanhado pelos dois advogados. Seu Lourenço, que a representava, dirigiu-se à cliente:

— Estava preocupado com a demora, dona Domênica. Mas, sem problema, ainda aguardamos a outra parte.

Um carro de propaganda passou frente ao tabelionato, a espalhar uma canção pelas ruas de Licânia:

Os sonhos mais lindos sonhei

De quimeras mil um castelo ergui

E no teu olhar, tonto de emoção

Com sofreguidão mil venturas previ

Domênica sentiu uma onda de calor a invadir-lhe o corpo. De repente o tabelião Mundola se ergueu do birô, saudando:

— Senhor Ferreira das Mercês, seja bem-vindo! E veio acompanhado das crianças.

Quando Domênica se virou em direção à porta de entrada, sua vista escureceu…

— Minha senhora!

— Mamãe, ma…

E outro desmaio lhe ocorreu naquela manhã de abril. Enquanto Licânia via-se varrida por um estranho e inesperado redemoinho.

Os sonhos mais lindos sonhei

De quimeras mil um castelo ergui

E no teu olhar, tonto de emoção

Com sofreguidão mil venturas previ

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Escrito por Clauder Arcanjo

Comentários

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  1. Tão bom quanto ler esse peróla literária, é poder lê-la no meio do mar, no isolamento de uma pandemia ocorrido à brasileira. Faz nossa alma se reconectar com o Humano que existe em nós.

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