Sobre

PEPITA

Sabemos pouco a respeito dela. Quase nada, aliás. Com a jovem mãe e dois irmãos também pequeninos e subnutridos, rondava a casa de Natália e imediações em busca de comida. Natália Maia (minha adorável noiva) apiedou-se da situação vulnerável daquela família. Passou a oferecer-lhes algum alimento de vez em quando, contudo a frequência do auxílio tornou-se diária.

Há cerca de um mês, infelizmente, Pepita ficou órfã. Sim, Pepita; é como a chamamos, pela inquietude, preciosidade e comportamento arredio nas primeiras tentativas de nossa aproximação e zelo. Algo de todo compreensível posto que se achava à presença de completos estranhos. Até agora nenhum pai lhe veio reivindicar a paternidade, de modo que ela e os três irmãos se viam absolutamente sozinhos neste mundo hostil, vivendo na rua, sem um teto, sem amparo, a depender da caridade e misericórdia de terceiros. Não bastasse, os irmãos sumiram; anoiteceram e não amanheceram, como se diz. Natália, que tem o instinto materno à flor da pele, logo ficou de coração angustiado, e assim se manifestou perante o drama:

— Não podemos deixá-la na rua.

— Está pensando em adotá-la?

— É justamente o que vou fazer.

— Ok. Você tem o meu apoio.

Desconhecemos a causa mortis da genitora. Por volta do meio-dia, quando foi à calçada procurar a família para oferecer-lhe comida, Natália deparou-se com a mãe de Pepita estendida à sombra de uma árvore, os filhos à sua volta, no canteiro da Rua Francisco Heronildes da Silva, no Aeroporto I.

Portanto, como eu já disse, os irmãos desapareceram. Isso foi a gota d’água para que nos decidíssemos pela adoção, algo que formalizamos de imediato recolhendo-a da rua e com o cumprimento de algumas providências de ordem material inadiáveis. De início, claro, tivemos certa dificuldade em fazê-la confiar em nós, não obstante todos os mimos e paparicos que lhe dispensamos. Assim, com muita paciência e carinho, vejo que ela nos retribui todo esse afeto ao seu tempo e à sua maneira. Não temos pressa. O relógio corre a nosso favor. Natália se desdobra como pode para que não lhe falte nada. Pepita nos cativou em definitivo.

Hoje, de forma impensável, ela se tornou o xodó da casa, uma ternurinha comum a todos nós: a mim, a Natália; à dona Francisca, minha sogra; a Vanda, minha cunhada preferida; a Jorge, esposo de Vanda; e a Joserlan, filho adolescente do casal Vanda e Jorge. Comigo ela se mostra mais à vontade, pois a cubro de cafunés, mil e um afagos, sobretudo à noite, quando Natália e eu vamos para a calçada com cadeiras e tomo Pepita em meu colo por longos minutos.

Além de comida apropriada, Natália comprou-lhe alguns brinquedinhos, com os quais Pepita costuma se divertir. Dona Francisca, de boa vontade, preparou uma caminha especialmente para ela. Ao longo destes quase trinta dias em que vive entre nós, ganhou algumas boas gramas de peso, está mais grácil e formosa e seus lindos olhos azuis se mostram mais belos e vívidos.

Ignoramos, entre outras coisas, a real condição de saúde de Pepita. Estimamos, no entanto, que seja saudável, apesar da vida pregressa rifada na rua, exposta a toda sorte de perigos, fome e desamparo. Vez por outra, a julgar por seu olhar distante, ela nos parece um tanto tristonha, decerto com saudades da mãe recentemente morta e dos irmãos desaparecidos. Em breve daremos início aos seus exames laboratoriais, a fim de detectarmos quaisquer patologias.

Afora os olhos azuis e o porte longilíneo, ela possui a maior parte do pelo na cor café com leite, um marrom clarinho. A cauda, as partes superiores das patas, as orelhas, o focinho e o centro do rosto são negros. Após uma busca na internet, informei-me de que, com a chegada da idade adulta, as regiões mais claras da pelagem tendem a mudar para um marrom azulado ou um castanho-escuro, sem desvirtuamento da raça. Segundo um amigo veterinário — e isto é inequívoco —, Pepita é uma gatinha siamesa com cerca de três a quatro meses de nascida.

Por justiça, careço dizer que Natália tomou para si todas as tarefas em relação a Pepita: alimentação, higiene, recreio. Além dos referidos brinquedos, adquiriu uma caixa com areia especial para as evacuações da pequena felina. Também supervisiona as investidas (por enquanto inglórias) da bisonha predadora contra desavisados passarinhos e lagartixas. Outro dia, ao ouvir um barulho estranho na garagem, Natália foi averiguar e flagrou Pepita ainda com a boca cheia de penas, os olhos arregalados. Felizmente o pássaro atacado conseguira escapar.

Faço as vezes de porta-voz da família e digo que a presença de Pepita em nossas vidas representa uma bênção imprevista, um bem-estar e benquerença recíprocos. Em especial para mim e Natália, e um tantinho mais para mim, cujo coração está redescobrindo esta outra forma de amar.

Entristece-me tanto quanto revolta saber que a esta hora há por aí indivíduos desalmados, seres perversos, que se ocupam em atacar gatos e cães abandonados, indefesos, submetendo-os a sofrimentos absurdos, cruéis. Isto pelo mórbido prazer de fazer o mal. Não duvido de que tenha sido este o triste fim da mãe de Pepita, cujas características do sinistro apontam para envenenamento. Torço que esses algozes sejam minoria em relação àqueles que se emprenham em fazer o bem a essas criaturinhas em situação de rua. Recordo Luiz Gonzaga, que, em uma de suas mais célebres canções, já dizia que o jumento é bom e o homem é mau.

Certos animais possuem caráter e sentimentos muito mais nobres do que certas pessoas. Então acho injusto para com os seres ditos irracionais, por exemplo, quando vejo alguém xingar seu semelhante de cachorro ou cadela. Trata-se de uma referência pejorativa contra aqueles e um elogio involuntário a estes. Salvo exceções, o bicho-homem não enxerga o próprio rabo.

Marcos Ferreira escritormarcosferreira@gmail.com

Escrito por Marcos Ferreira

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