Sobre

As almas dos enforcados

Man praying on his knees in a christian church with candles cartoon vector illustration

Nunca fui muito de religiosidades, nem das coisas do sagrado, sempre estive mais para o profano, e também nunca foi muito de ir à igreja.

Mas, naquela tarde, enquanto eu comia um sanduíche ali perto da Praça da Liberdade, ouvi claramente uma voz me mandando ir até a igreja. Até olhei para os lados, imaginando que fosse alguma brincadeira, alguém falando perto de mim. Nada. Ouvi de forma bem clara: Manoel, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você! Desse jeito.

Não consegui terminar de comer. Paguei e, com as mãos trêmulas, da calçada avistei a igreja. Nunca havia entrado nela, nunca fui religioso, como já disse, mas, sabia bem que era a Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados.

Eu não queria ir. Até fiz menção de descer para pegar o metrô rumo a Jabaquara, onde teria de ir logo mais, porém, não tive forças para isso. Era como se eu temesse ouvir a voz novamente. Ainda que fosse minha imaginação, resolvi então entrar na igreja, que mal haveria nisso?

Entrei na igreja com um sobressalto, admito. Aquela igreja era bem conhecida. Falavam que almas circulavam por ali. Naquela área enforcavam em praça pública, condenados pelos mais variados crimes e já haviam me relatado o conhecido caso foi o do cabo Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, condenado injustamente e cuja corda da forca por três vezes se partiu, obrigando os soldados e matarem—no por pauladas. Sempre achei que aquela história era uma lenda, como tantas outras contadas em São Paulo.

De qualquer maneira ajoelhei—me no genuflexório, a exemplo das pessoas próximas à espera que algo acontecesse. Vinte minutos depois, com os joelhos começando a doer e um incômodo sono chegando, sentei—me e decidi ir embora, quando assim ouvi a mesma voz:

Manoel, nós precisamos de você!…

 — Quem é? – deixei escapar, em voz alta, assustando uma senhora que rezava quase ao meu lado.

Não importa. Precisamos de sua ajuda.

Corri dali. Na praça, peguei um táxi, desisti do encontro com Neuma em Jabaquara e fui para a Praça Dom José Gaspar, onde amigos meus em breve iniciariam uma roda de samba.

De cara, vi o Ernesto, com quem há havia tocando em diversos grupos musicais pelos bairros da cidade.

 — O que houve, homem, que cara é essa? – perguntou, percebendo minha expressão.

— Ernesto, amigo… Não sei. Estou ouvindo vozes.

— Andou bebendo, Manoel?

— Não, não… Devo estar enlouquecendo…

— Deixe disso. Vou começar agora a puxar o choro, venha ouvir a gente e depois conversamos.

Os músicos começaram a executar uma sequência de Pixinguinha, mas eu estava os nervos á flor da pele e não consegui me concentrar. Saí da praça e numa rua próxima parei em um bar. Pedi uma dose de conhaque. O calor da bebida começou a me acalmar quando, de repente, ouvi:

Manoel, nós precisamos de você!…

— Quem está falando?

Somos, nós, Manoel.

Nós, quem?

Você sabe. Termine de beber, pague a conta e venha nos encontrar no Jardim Oriental.

— São seis horas, já fechou.

Para você estará aberto. Depressa.

Nervoso, quase tremendo, fiz então o que me mandaram, bebi de um gole só o restante da bebida, paguei e peguei um táxi de volta para o bairro da Liberdade.

Havia pouca gente na rua, eu não sabia porque. Algumas lojas já estavam fechando. Cheguei no Jardim Oriental sabendo que o fechamento dos portões era às 17h e que estando trancado eu não teria como entrar e então aquela alucinação acabaria. Em frente ao Jardim, coloquei a mão no portão.

Estava aberto.

Empurrei—o e entrei, tendo o cuidado de voltar a fechá—lo. Andei ao lado do lado, a lua me permitiu ver as carpas e o brilho das moedas jogadas. Não sabia o que fazer. Parei para olhar o céu nublado, até que ouvi:

Manoel, agora continue andando.

— Mas, não há nada mais lá para cima.

Sim, há. Ande.

Obedeci. Continuei caminhando, até chegar ao fim do jardim. Já me preparava para perguntar (a quem exatamente?) o que fazer e para onde andar quando, de repente, escorreguei e me senti caindo em um buraco. Uma escuridão se apossou de meus olhos e enquanto caía — como se nunca chegasse a um chão — ouvi uma voz: Bem vindo, Manoel…

*

O sujeito havia marcado comigo em uma lanchonete ali na praça. Disse que queria me contatar para uma apresentação. Viria a calhar, eu estava precisando de dinheiro e a fase estava difícil para músicos, principalmente de chorinho e samba.

Sumiço estranho o do Manoel. Havia três dias. Talvez estivesse com uma mulher.  Manoel tinha fama de mulherengo, em toda apresentação ele arrumava um rabo de saia.

Quando terminava de comer o sanduíche, ouvi de forma bem clara, uma voz me sussurrando: Ernesto, vá até a igreja ali em frente e espere que eu fale com você!

Escrito por Cefas Carvalho

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