Sobre

Menino Passarinho

Chico não perdia a mania de provocar e fazer traquinagens. Impressionante como uma pessoa tão sensível e quista por todos nós se deixava inundar por pensamentos autoritários e inapropriados, quando ele mesmo nem de longe era ou se comportava assim. Não perdia a chance de chamar para o confronto e irritar os mais fracos ou forçar os que lhe conheciam a caminhar pela brincadeira e o deixa-disso.

Um sujeito atravessado por um passado duro, vítima da imprudência da juventude, tornou-se um homem de fé, apaixonado e saudosista. Mas o destino lhe foi cruel e cobrou uma conta da maneira mais perversa levando drasticamente a quem ele mais amava. Estava nítida em sua peregrinação pelos arrependimentos do malfeito e ele os materializou em um livro extraordinário cujo título não podia ser mais adequado: Perdão.

Quando o conheci, ele já era um idoso, desses inconvenientes que dizem ter chegado à idade da razão. Então, dizia o que lhe vinha à cabeça e, por conta disso, nos tornamos bons amigos. Além disso, era um cronista extraordinário com amigos valiosíssimos que o ajudaram a erguer-se e manter-se no meio literário com sua fina elegância do século passado.

Passei a chamá-lo de “Menino Passarinho”, exatamente porque via, por trás de tanta dor e teimosia, a fragilidade de um adolescente escondido na carcaça de um velho provocador. Seus olhos entregavam essa leveza de menino bom que precisou criar couraça para enfrentar os demônios que lhe rodearam a vida toda.

Francisco Rodrigues da Costa, seu Chico, Chico de Neco Carteiro. Filho de Areia Branca, escritor dos melhores, contador de histórias e estórias, amigo de Clauder Arcanjo e David Leite – seus anjos da guarda. Meu amigo Menino Passarinho que, por esses dias, disse adeus para nunca mais. Foi-se no tempo do universo, após ter deixado uma longa e turbulenta história, digna da literatura.

Em tempos difíceis, vamos lembrar dele como esse sujeito inconsistente e provocativo porque esse tipo de coisa não deve ser esquecido, mas nem isso ou outra coisa será suficiente para tirar de nós, de nossas memórias e corações, a grandiosidade daquele que chamei – em tom provocativo para ele e seus editores – de “o maior escritor da Sarau das Letras”. Piada de “tio”, já que era um homem alto e corpanzudo. Ele ria e usava isso para arengar com David Leite, porque Chico era assim, um traquina Menino Passarinho.

Escrito por Paiva Rebouças

Laço Vermelho da Marina

Não entrega de diploma