Sobre

Será?

A tela em branco me chateia e quase me hipnotiza do tanto que olho ao tentar achar palavras. Logo eu, que não paro a matraca, me pergunto meio cínica, mas também sem humor. Tédio? Cansaço? Ansiedade? Depressão? Cabeça a mil? As dúvidas se sucedem numa velocidade ímpar. “Administre sua crise!”, diz a voz de um antigo colega de sala da UnB daquele 1987. O conselho dado rispidamente magoou a princípio, mas me acompanha desde então. “Administre sua crise”, repito como um mantra, respiro fundo e acendo um incenso.

A lembrança de Brasília traz uma enxurrada de memórias. Colegas, amigos e momentos que volta e meia sentam ao meu lado, trocam segredos ou bebem um vinho em silêncio. Sei lá, mil coisas. Era isso que dizia uma faixa de um protesto feito por nós estudantes de comunicação em frente ao Palácio do Planalto que tinha o presidente Sarney como ocupante. Saudades do Sarney, quem diria. E também do Itamar, do Fernando, do Luiz…

Saudades da esperança, da juventude nas ruas, lutando pela democracia, por eleições diretas, por educação e saúde públicas e de qualidade. Gente como a gente que não desistia do sonho e ia à luta pelo que era melhor para todos. Fossem direitos trabalhistas, fosse acesso universal à saúde ou aulas noturnas nas universidades, permitindo que pobre também pudesse estudar e ter seu canudo.

Cheguei a Brasília no dia em que a UnB entrou em greve, num fevereiro há 34 anos. Caloura e sem conhecidos, logo me engajei numa edição do jornal laboratório cobrindo o movimento grevista. Minha primeira matéria assinada e a oportunidade maravilhosa de conhecer gente da melhor qualidade que me acompanha até hoje mesmo à distância. Ah, ter 18 anos em Brasília… As melhores farras, noitadas, descobertas, pequenas viagens, livros, cinema, festas, amores, comidas, música, barzinhos, lutas. Quanta saudade de uma juventude linda, saudável, curiosa e solidária.

Naquela cidade dita sem esquinas, tantos encontros. Brasileiros de todos os recantos. Estrangeiros que aqui chegavam para contar aquele momento ou recomeçar a vida num país que construía sua Constituição cidadã e se desenhava como Nação para o mundo. “Que país é esse?”, bradávamos sem medo dos generais de dez estrelas, sem medo de ser ou fazer. Agora, de novo sujeira pra todo lado, me pergunto se nada vai acontecer, se nos perderemos entre monstros de nossa própria criação ou se ainda vamos conseguir vencer?

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