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COZINHA SEM FRESCURA – Uma revolucionária concepção gastronômica

Vector illustration of a smiling young man with a beard standing in the kitchen cutting vegetables, looking at the camera. Concept for cooking, preparing food, healthy eating, healthy lifestyles and vegetarian food.

Entre os meus inúmeros e inconclusos projetos literários consta um livro de receitas. Cozinha sem Frescura aborda um novo conceito gastronômico baseado em uma cozinha… sem frescura. Sem frescura na hora de fazer, sem frescura na hora de escolher os ingredientes e principalmente sem frescura na hora de escrever a receita, que deve vir sempre acompanhada de uma boa história. Sem frescura, nesse caso e de acordo com o “mossoroês” clássico, significa sem chiqueza, sem sofisticação, sem refinamento, enfim, sem “riquifife”. Então vamos a história e a receita.

Picado de Carne Arretado

Picado de carne é um prato um pouco desdenhado quando se trata de tira-gosto ou até mesmo refeição. O sujeito come vaca atolada (costela com macaxeira), mão de vaca, guisado de carneiro, rabada, numa boa. Porém, quando lhe oferecem um picado de carne de terceira – que por sinal nem existe mais, já que qualquer carne hoje em dia é de primeira – faz cara feia. Pois bem. Vamos acabar com esse preconceito.

Nas minhas peregrinações por botecos com meu amigo Toinho de Sônia, quando ainda morava em Mossoró lá pelos idos dos 90, certa vez nos deparamos com um bem simplesinho lá pelas entranhas do Abolição IV e resolvemos encarar. “Se a cerveja estiver bem geladinha, a gente pede um tira-gosto, se não a gente paga e vai embora”. Essa era a regra.

Quando chegamos fomos atendidos por uma senhora não muito simpática, que devia fazer de tudo por lá. Dona, cozinheira, garçonete, faxineira, caixa. A cerveja (Brahma ou Antarctica, e só. Bons tempos…), estava tipo véu de noiva. Pedimos Antarctica, é lógico. Até hoje sou “antartiqueiro”. Qualquer dia conto a história da rixa entre os revendedores da Antarctica e da Brahma, que perdurou em Mossoró até uma engolir a outra e a outra engolir a uma, com o surgimento da Ambev. Teve até revólver no meio.

Perguntamos o que tinha de tira-gosto. A “simpática” senhora, respondeu: “Carne”. De besta, eu ainda insisti: “E como é essa carne? ”. Ela impaciente: “Ora, como é?! Carne é carne”. Aí Toinho, já meio invocado, disparou seu vozeirão: “Pois traga logo essa carne e vamos ver no que vai dar!”. Em menos de 10 minutos chegou um prato com um picado suculento, cheio de legumes, uma farofinha do lado, rodelas de tomate e cebola e batata doce. Sensacional! Vou nem falar do preço! Ficamos por lá a tarde toda, comendo, bebendo, conversando miolo de pote e ouvindo uns bregas dos bons. Acabamos presenteados com um sorriso da proprietária e viramos fregueses.

Então, em homenagem a meu amigo Toinho de Sônia, que não vejo há vários anos e àquela gentil senhora, vai minha receita de “Picado Arretado” para o deleite dos meus milhões de esfomeados leitores. Simples assim:

Pegue uma peça de um quilo e pouco de posta gorda, ou acém, ou músculo. Tem umas que já vem sem osso. Corte em cubos como se fosse fazer espetinho. Não precisa tirar o excesso de gordura e as pelancas. Vai tudo. Tempere com sal, alho amassado, cebola picada, um pouco de manteiga do sertão, 2 colheres de sopa de extrato de tomate e 1 tablete de caldo de carne. Misture tudo com as mãos e reserve.

Prepare os legumes: 1 cenoura média cortada em rodelas, 1 batata inglesa em cubos, 1 chuchu em cubos, as partes mais espessas do repolho, uns 8 pedaços de jerimum caboclo com casca (só raspada).

Espalhe rodelas de cebola branca e roxa, de tomate e tiras de pimentão no fundo de uma panela de pressão, com 2 colheres de margarina. Leve ao fogo. Quando a margarina derreter completamente, coloque a carne, deixe dar uma refogada até começar a criar um “graxinha”, acrescente umas 2 colheres de molho ou extrato de tomate e mexa bem sempre raspando o fundo da panela. Acrescente os legumes, água até cobrir tudo, mais uma boa mexida e feche na pressão.

Quinze a vinte minutos após começar a chiar, desligue. Abra a panela, espere o cozido parar de borbulhar, acrescente duas colheres de sopa de maionese e mexa pra misturar tudo. Ligue novamente o fogo (panela sem pressão, só tampada) e deixe ferver mais um pouco. Verifique o sal, o ponto de cozimento dos legumes e não pode ficar com muito caldo. Se isso acontecer, escorra o excesso. Se quiser, guarde esse caldo pra fazer a sopa da janta. Depois dou a receita.

Na hora de servir, jogue por cima cebolinha e coentro picados. Os acompanhamentos, os mesmos do picado do boteco: farofa, tomate e cebola em rodelas e batata doce. Se faltar alguns dos ingredientes ou não gostar de outros, não tem problema. Vá fazendo com o que tiver e gostar. No final dá tudo certo. Afinal, isso aqui é “Cozinha sem Frescura”, oxente!

E haja cerveja boa – já testei e não funciona com cerveja ruim – estupidamente gelada e na radiola todo o repertório do gênio Elino Julião.

Escrito por Marco Túlio

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