— O Inferno não me quis! — eu esbravejava, enquanto tentavam me conter.
O pescoço dolorido, a cabeça perdida num tumulto de lembranças, a língua grossa, os olhos num espanto só.
— Aquiete-se, homem de Deus. Tenha calma! — pedia-me uma velha senhora ao meu lado. Com ela, o terço de grandes contas pendurado no pescoço engelhado, as mãos enrugadas sobre o meu peito inquieto.
Quando fiz menção de me levantar, ouvi a ordem de Lourenço de Maria:
— Você não vai a canto nenhum! Ora, ora! Escapou por pouco da morte. Se eu não tivesse voltado para apanhar a chibanca, você agora estaria pendur…
Calou-se, como se com vergonha de falar da morte naquele lugar em que ela estivera tão perto de mim.
— Humm… — grunhi, fechando os olhos. Não saberia dizer se envergonhado de não ter conseguido o desfecho pretendido, ou se sem argumento diante daquele que, pelo visto, eu tanto decepcionara.
— Deus é grande e enorme a Sua misericórdia. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Amém! — pronunciou a senhora.
Serviu-me água num copo de ágata; aquilo me desceu em engulhos. Tossi forte, engasgado.
— Calma, meu filho! Repouse, re-pou-se… A voz mansa, o tom carinhoso e suave, e os olhos me pesaram.
Caí num sonho estranho. Entrava num espaço apertado e dava de frente com os dois homens que eu carregava como pecado de morte: pai e filho. O primeiro me sorriu com os dentes escuros e grandes, a boca ensanguentada, os olhos crispados em mim. O filho, ao lado do pai, quase na sombra paterna, a esperar o momento certo de me atacar. De repente alguém anunciou: “Matou pai e filho!”. E outro a responder: “Devia ter vindo para junto deles, no reino dos mortos. Mas intercederam por ele, sem merecer…”
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— … intercederam por ele, sem merecer… sem merecer! — gritei.
A noite chegava, trazendo com ela uma quietude que me incomodava. Antes que eu tentasse me pôr de pé, não sabia quanto tempo estivera deitado, uma voz de mulher ao canto:
— Você dormiu um bom tempo, senhor. Apesar de agitado.
Na leve escuridão, consegui divisar um rosto feminino sob a luz de uma lamparina sobre o fogão a lenha.
Levantou-se e retornou com uma tigela de sopa quente.
— Sente-se — ordenou-me. — Precisa se alimentar — emendou.
Serviu-me o ensopado em colheradas espaçadas, numa paciência que me tornava sem jeito de desobedecê-la.
Ao final ela me ofertou um copo d’água; e, de leve, tocou-me na altura do queixo.
— Essas marcas logo sumirão.
Ao se aproximar, divisei seus olhos claros, sua face de uma beleza diferente, mistura de raças daquele sertão.
— Quem é você? — perguntei.
Ela, de início, sorriu-me; e, a seguir, respondeu-me, num tom de faceirice e troça:
— Sua protetora. Pelo menos nesta noite.
Antes que conseguisse indagar-lhe algo mais, ela continuou:
— E exijo que não converse mais nada, nem sonhe nenhuma besteira, por hoje. Preciso descansar um pouco também.
Com receio de ficar sozinho, interroguei-lhe:
— A senhora vai dormir aqui?!
— Senhora?! Nem sou assim tão velha!
Ela sacudiu a rede armada ao meu lado, deitou-se e, antes de meter-se por debaixo do lençol, advertiu-me:
— Durma.
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Caí num sono profundo. Sonhei, mas sem me ver em pesadelo. Aquela bela senhorita ao meu lado fazia-me deixar um espaço escuro e apertado, mantendo-me à distância dos dois homens que me cercavam. Sempre a me defender:
— Deixem ele. Não queiram fazer da vida deste homem um inferno aqui na Terra.
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Madrugada alta, notei aquela mão fina sobre a minha testa. Era ela a se certificar de que eu dormia sem febre?
Tudo me trouxe uma paz que há tempo não sentia. Lembrei-me dos meus anos de menino, sob os cuidados de minha mãe.
*Escritor e editor, autor dos livros O Fantasma de Licânia, Mulheres Fantásticas, entre outros.
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