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Carol Melo, Caramelo 

Eu que não sou afeito ao inatismo, mas tenho de concordar que algumas pessoas desenvolvem certas habilidades de maneira tão própria que parece mesmo ter nascido com um dom. Mas, para não confirmar minha contradição, apelo ao neurobiólogo chileno Humberto Maturana para defender que alcançar excelência tem a ver com amor, não esse amor romântico, mas aquele que motiva os indivíduos a se movimentarem no mundo promovendo fenômenos de beleza, de arte e transformação. Caroline Melo é um exemplo disso, a menina fenômeno da música popular brasileira de Mossoró para o Nordeste.

A conheci menina, estagiária do Jornal de Fato, quando ela ainda fazia faculdade. Danada, como dizemos por aqui, o que quer dizer aguerrida e dona de uma personalidade muito específica. Olhar forte, questionadora e decidida. “Do nada” começou a mostrar que cantava e, não sei em que momento, foi inundada pelo espírito artístico. De olhos fechados, se permitiu acreditar em seu sonho, mas sonho é só mais uma palavra romântica, porque só ele não basta, e é nítido o poder que essa menina tem construído em torno de si.

Obviamente, a carreira artística é uma dureza que pode maltratar, mas enquanto é possível se divertir, nada vira barreira. Longe de mim discursar certezas, mas me permito a hipótese de que Caroline Melo ainda está brincando de ser estrela e é por isso que nada a impede de crescer. E cresce como quem não se importa com o que falam, sem tropeçar nos astros, sem mudar a criança que a torna destaque na multidão de outros artistas que também lutam pelos holofotes. Da menina que conheci há muitos anos, só a confiança e a gentileza permanecem, de resto é tudo mais.

É que quando Carol disse que queria cantar, ela cantou e não parou mais. E foi bacana acompanhar sua progressão vocal, a mudança em sua consistência muscular e seu amadurecimento enquanto profissional da música, que lhe confere segurança no comando do palco. Foi isso que a permitiu se destacar nas janelas, mas também a conquistar espaços próprios nos barzinhos e pequenos eventos. Ano passado, mais uma chave virou e ela foi uma das atrações no palco principal do Mossoró Cidade Junina, aplaudida por milhares de apaixonados pela boa música tradicional nordestina.

Na última semana, pude ver Caroline abrir o show da lenda Flávio José e presenciar esse crescimento de que falei até aqui. Sem esforço ou exagero, sem personagem, caras ou bocas, ela cantou como quem sabe exatamente o que faz. Na medida. Por um momento, me confundi e não sabia se ela servia à plateia com seu trabalho ou se a plateia servia a ela com tanta entrega e participação. Uma simbiose de muito equilíbrio e beleza, acontecendo de maneira orgânica e verdadeira em uma dessas noites boas com sabor de chocolate e recheio de caramelo.

JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS
Jornalista – DRT/RN 01948
@paiva_reboucas

Escrito por Paiva Rebouças

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