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Canção de viola nordestina

No dicionário, a palavra “Sertanejo” refere-se àquele ou àquela que vive no sertão; quem vive em cidades muito pequenas, aldeias, vilas ou regiões no interior, normalmente com hábitos muito simples: caipira. A música sertaneja, portanto, é um estilo que exalta os elementos do sertão, o modo de vida das pessoas caipiras, normalmente com melodias acompanhadas por uma viola caipira ou pelo violão. Dito isso, peço maxima venia para defender este estilo artístico que não se limita apenas ao interior do centro do país, mas também a nós, do Nordeste. Pelas definições, posso afirmar que Luiz Gonzaga é um autêntico cantor sertanejo, talvez o mais autêntico de todos, mas também os cantores de forró, de aboios e toadas e, obviamente, cantadores de viola também são sertanejos. Desde Elizeu Ventania, o repente introduziu outro gênero artístico-musical que todos chamam de “canção” e eu, na busca por caracterizar este estilo, chamo de “canção de viola nordestina.”

Sendo aqui muito bairrista, e para não confundir os mais exigentes, vou chamar este estilo que muito aprecio de canção sertanista, em alusão ao trabalho impecável do pesquisador Oswaldo Lamartine de Farias. Pois bem, a música sertanista do Nordeste resiste ao tempo e se moderniza. Se o cancioneiro virou cordel e depois virou repente, tudo isso deu qualidade e condições para o poeta Elizeu Ventania inaugurar esse gênero com a belíssima “Serenata na montanha” e tantas outras composições memoráveis. São inúmeros artistas que enchem nossos corações com músicas repletas de força e verdade. Cito alguns: Daudeth Bandeira, Sebastião Dias, Hernandes Pereira, Onildo Barbosa, Nonato Neto,  Nonato Costa (os Nonatos) e muitos outros, o que inclui o grande Zé Viola que, apesar de ser reconhecido como o maior intérprete de todos, é também compositor e, por ser casado com uma potiguar, tem um pé muito grande aqui na terrinha.

Falando dos locais, além de Elizeu, Sebastião da Silva, de Caicó, compôs esta canção que, para mim, é a mais bela, melódica e poética de todas. “Sem dormir” cumpre, a meu ver, o círculo perfeito sendo, possivelmente, a música romântica mais bonita que eu já ouvi e gosto de repetir. Porém, hoje, especificamente, quero concluir este texto fazendo referência a outro poeta dos mais completos repentistas e compositores de música sertaneja e sertanista deste país. Falo de Raulino Silva, nascido no Rio Grande do Norte, na cidade de Antônio Martins, no coração do alto oeste potiguar.

Nos últimos cinco anos, Raulino que já era muito respeitado como improvisador, evoluiu como compositor romântico e escreveu, gravou e divulgou verdadeiras pérolas. Existe uma diferença enorme – agora sendo ainda mais bairrista – da maioria das músicas sertanejas do Centro-Oeste, Sul e Sudeste da nossa canção sertanista. Nos preocupamos tanto com a melodia quanto com a poesia, por isso que as composições por aqui fecham de uma maneira ímpar. Para dar um exemplo, peço que pense numa música boa das outras parte do país e compare com o refrão dessa de Raulino, cujo título é “Não é amor”: “Porque amor/ Não é amor, porque você deseja/ Ou quando alguém quer/ Com essas bases uma relação/ De homem e mulher/ Pareceria dona e objeto escravo e senhor// Não é amor/ Esse desejo que lhe deixa crente/ Que é dona de mim/ Quem ama cuida/ Mais também liberta e se não for assim/ Pode ser qualquer outro sentimento/ Mais não é amor”.

Repare bem no cuidado do poeta em encaixar a lógica na narrativa, de construir o cenário e fechar as estrofes com palavras que assevera uma rima potente e uma mensagem segura e marcante. Na canção “A razão que se dane”, o autor desenha uma crônica bem elaborada e contundente de uma relação problemática, dessas meio tóxicas, mas que, por rotina, povoam a vivência de muitos por aí. Para isso, assim ele nos conta essa estória: Começo a falar feito um tonto/ Você perde a calma e pronto/ Objetos voam/ Há trocas de acusações/ Xingamentos, palavrões/ Pela casa ecoam/ Até que chegue nessa hora/ De um dizer, que vai embora/ E outro fica mal/ E na hora do tudo ou nada/ Uma vírgula é colocada/ No ponto Final”.

Nestes dois exemplos, Raulino caminha por letras mais românticas ao estilo próximo ao comercial, como fizeram os já citados Nonatos, estes que tiveram algumas de suas canções gravadas por grandes nomes do Sertanejo comercial, como César Menotti e Fabiano, Di Paullo e Paulino, Edy Britto e Samuel e até Gusttavo Lima – aliás, as músicas dos Nonatos estão nos repertórios daqueles que se propõem a colocar em seus shows um momento daquilo que chamamos de “modão”. Mas aí, com tudo isso, e ao contrário desse pequeno exemplo, talvez você não tenha ouvido falar de Raulino e, se ouviu, pode não ter se atentado a seu lado cantor/compositor. Mas não se sinta mal, o poeta não toca nas rádios como tocam esses outros, não porque não mereça, mas porque não deve ter recursos para pagar por isso.

A verdade é que se você escuta muito um estilo musical nas rádios e plataformas de streamings não vale a pena colocar a culpa no gênero, atacar a tradição de alguns grupos ou exigir paridade poética porque você não se identifica. Há lugar para todo mundo e cada um canta aquilo que lhe confere memória, sentimento e referência. Não é culpa do sertanejo romântico ou universitário estarem tomando espaços que podiam ser dos poetas, dos cantores de forró tradicional, do aboiador e outros artistas nordestinos. A culpa é da indústria cultural que compra e monopoliza os espaços. Faz isso com esse tipo de música porque tá dando certo, mas pode mudar o gosto por qualquer outro, basta que fature mais.

Agora, verdade seja dita, outro fator que não deixa você ouvir a nossa música é porque o diretor da rádio, o programador e o locutor não tocam; mas também porque, talvez, você não procure, não valorize e não se importe.

Imagem: Poeta, cantor e compositor Raulino Silva

Escrito por Paiva Rebouças

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