Últimas histórias

  • Bem-vindo ao Mundo

    Enquanto o suor desce pela costeleta, Alcides Oliveira abre a porta de vidro e entra na Barbearia Sinatra. Sua vista ainda escura busca desesperadamente em sua volta por um bebedouro. Já é quase uma da tarde, o calor está infernal. Enquanto seu olhar se adapta ao ambiente, ele passa rapidamente a língua entre os lábios ressecados, sente a boca seca, seu olhar é de súplica:

    — Alguém poderia me conseguir um copo d’água? E, por obséquio, daria para ligar o ar-condicionado? — suspira forte e pensa que “não há água no mundo que mate minha sede hoje”.

    A pessoa ao seu lado estica um dedo em direção a um interruptor, gesticulando e apontando para o aparelho para dizer que já estava ligado.

    — Sente-se! O que vai ser hoje? Pergunta-lhe seu Geraldo, o barbeiro, bastante conhecido na Praça dos Táxis, no Centro de Mossoró. Um senhor de estatura baixa, bigodinho fino, cabelo bem ajustado para trás, escondendo a calvície no topo da cabeça, deixando-lhe inclusive algumas décadas mais jovem.

    — Vamos fazer o cabelo e barba. Essa quentura não deixa a gente ‘cultivar’ um visual diferente — diz Alcides.

    — Mmmmm… Quer fazer cabelo, barba e bigode, como “o pobrezinho” fez em Mossoró, né? — pergunta com ar de deboche seu Geraldo, a quem Alcides confia seus fios encaracolados desde a meninice, quando seu pai, ex-secretário do gabinete do prefeito, o trazia para cortar o cabelo. Naquela época, lembra Alcides, o corte era motivo de chacota no colégio, pelo estilo militar, quase feito com uma cuia.

    — É. Quem poderia esperar, né, seu Geraldo?

    — Quem disse que meninos não conseguem ser bons gestores? Você vai ver! —afirma Geraldo.

    — Eu não disse nada. O Sr. é que está supondo. Ele pode, sim, se sobressair.

    — Por que você acha que o povo votou em Allyson?

    — Acho que havia um desejo de mudança. O salto alto rosalbista também ajudou, né, seu Geraldo?

    —Rip! Rip! Rip! Rip! — o barulho da tesoura só emudece quando o barbeiro a gira fazendo ir da nuca à testa de Alcides com destreza, e na briga entre o pente e o objeto cortante, ele golpeia:

    — Não tem quem queira mais a antiga política aqui, não, meu filho!”.

    — Em nível nacional, seu Geraldo, essa nova política não tem se mostrado tão nova assim!

    — É, pode ser. Mas aqui, para dar férias aos Rosados, faríamos qualquer coisa.

    — Acho que foi muito esse sentimento mesmo, em 2020. O senhor está correto.  Mas, convenhamos, isso não deu na eleição que antecedeu Rosalba.

    — Você não acha que agora Mossoró tem jeito?

    — Como disse lá no começo, acho que é o que todos aguardam, uma administração eficiente, sem firulas. Se fizesse o feijão com arroz já estaria de bom tamanho. Não pode é meter os pés pelas mãos, como foi o caso de Silveirinha.

    — Deixe de coisa, só em Rosalba ter sido derrotada já é uma vitória muito grande para todos. E, claro, agora posso dizer que “eu adoro Mossoró!” — todos na barbearia gargalham com seu Geraldo em zombaria ao famoso bordão da ex-prefeita.

    Alcides pega o copo d’água — bem cheio — que lhe trouxeram, chegando a derramar na capa que o protegia dos pelos, e bebe bem devagar enquanto conversa. ”Acho que esse é o sentimento geral. Agora, vai depender do que o garoto realizar.

    — O Sr. não acha?

    Navalha entre os dedos. Olhar perdido no giro das hélices de um pequeno ventilador em sua bancada, Geraldo consegue retorquir seu próprio sentimento:

    — É. Não tenho muita certeza sobre isso. Até porque não se sabe de nada construído até agora pelo menino, a não ser sua chegada meteórica ao mundo dos adultos.

  • O cume

    Poesia: Sávio Tavares

    Arte e animação: Túlio Ratto

  • Declare seu amor por Mossoró

    Antônio Carlos da Silva Brito foi o grande vencedor do concurso “Declare seu amor por Mossoró” com a canção “Amor por Mossoró” e foi premiado com R$ 3 mil (além da gravação da música em Studio e a produção de um vídeo clipe).  A final do evento aconteceu no último dia 11 na Praça Cícero Dias, em frente ao Teatro Municipal Dix-huit Rosado.

    Gisele Ferreira de Lima, autora da canção Laço de Amor, ficou em 3º lugar e recebeu o prêmio de R$ 1 mil; Saudades de Mossoró, do compositor Renato Borges de Souza, ficou na 2ª colocação, com o prêmio de R$ 2 mil.

    O concurso “Declare seu amor por Mossoró” foi uma realização da Prefeitura, através da Secretaria Municipal da Cultura, em parceria com a Status Eventos e Produções. O projeto foi contemplado pela Lei Aldir Blanc com o objetivo de promover músicas autorais sobre o município.

    Os Papangus estiveram lá e aproveitaram para gravar as apresentações. Veja abaixo.

    1º Lugar

    2º Lugar

    3º Lugar

  • De volta com a Papangu velha de guerra

    Então é isso. A Papangu voltou! Projeto dos mais ousados, a Papangu enquanto revista impressa em uma época que o terreno na Internet ´ainda era só mato`, como se diz, marcou época, tanto para leitores como quem a produzia e seus colaboradores. E é uma alegria poder dizer que eu estava neste segundo time. Foram pelo menos três anos, entre 2005 e 2007 escrevendo mensalmente para a revista, artigos, crônicas bem-humoradas, reflexões sócio-políticas, o que me viesse à cabeça, enfim.

    Na verdade as memórias daquele período papangunista remetem a uma fase feliz tanto pessoal quando coletiva. O Brasil vivia crescimento econômico e social, um espírito de euforia pairava no ar. Eu, particularmente, lançava livros e me envolvi em projetos de Cordel para crianças, entre outros. As memórias da Papangu e dos bons momentos caminham lado a lado nas estradas da minha mente. 

    E havia também os papangunistas, na verdade uma espécie de família de desenho animado. Os intrépidos Túlio Ratto e Ana Cadengue com o ´Papangumóvel` de saudosa lembrança, que parecia saído da animação Corrida Maluca… Havia também os papangunistas, Damião Nobre, Marcos Ferreira, Alex Gurgel, o saudoso Leonardo Sodré, que nos deixou precocemente. Enfim, uma familia por afinidade formada pelos gostos em comum e pelo amor à revista impressa.

    E é necessário dizer que a Papangu marcou época e era o terror da classe política. Ser caricaturado/a na capa pelo el terrible Ratto poderia ser uma benção ou uma maldição. Havia os que se sentiam lisonjeados. Os que se sentiam mortalmente ofendidos e queriam levar a coisa para o terrono judicial. Mas, era para ser assim. Charges e jornalismo foram feitos para incomodar, não para agradar os poderosos de plantão. E a papangu cumpriu seu destino: Com humor e convite à reflexão, incomodou muita gente.

    Tanta nostalgia para celebrar o presente. Que é a volta da revista e seu bravo time de colaboradores no campo virtual, esfera inevitável que vem substituindo a celulose e que enfim, foi formada como a Papangu velha de guerra.

    Estamos. portanto, aqui de volta. Contem comigo, comandante Ratto e Ana Cadengue. Longa vida à revista — agora virtual — que tanto fez e tanto fará pela comunicação, arte e humor no Rio Grande do Norte. Evoé.  

  • Papangusando com o poeta Antônio Francisco

    Nove horas da manhã, o sol já acompanhava nosso périplo pelas ruas de Mossoró, as réstias se contorciam empurradas pela brisa quente nas algarobas até se perderem no chão de paralelepípedos escuros. Nosso destino era o bairro Lagoa do Mato, torrão de esplendor poético, do saudoso Luiz Campos, e do talentoso Antônio Francisco Teixeira de Melo, ocupante da cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Patativa do Assaré, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).

    Naquele momento podíamos ver o desbancar dos 30 graus, o suor reluzir na testa. O interessante é que não era a mesma sensação que sentíamos no quintal do poeta.  Lá, parecia ainda cedo, clima agradável, onde os pés de seriguela e de azeitonas pretas vestiram durante a noite o chão com seus frutos. Para nós, uma linda visão, um cenário que pintava prosperidade, com tons fortes, de cheiro bom, de encher a boca d’água. Talvez não fosse o sentimento de quem estava naquele momento fazendo a limpeza, varrendo e recolhendo folhas e frutas murchas.

    Ao fundo da área, um lago. Neste, apesar de Antônio dizer que tem peixe graúdo, não vimos sequer piaba. De cara, antes de Ana Cadengue captar as primeiras imagens, perguntei sobre a grande parada que a cultura sofreu com a pandemia. Principalmente a dos poetas. “Como você avalia este momento?

    Parou no fim, né? Mas, pela primeira vez, eu vi a pessoa se preocupar, em Mossoró, com os artistas, aprovar projetos (o poeta se refere ao incentivo da Lei Aldir Blanc). Agora, eu acredito que pra gente foi muito ruim, porque a gente não vive só do cachê, a gente vive também do público, do povo. E logo eu que sou acostumado a viver viajando, tendo esse contato com o público. Ficou meio pesado. Mas eu tenho uma vantagem, a de gostar de ler, de escrever, e assistir a filmes. Então, estou escapando. Mas sou consciente. Sou igual ao rio quando encontro obstáculos, eu “arrodeio”, reflete.

    Antônio Francisco sempre foi bastante requisitado para se apresentar em shows, seminários, feiras de livros, e até participamos de muitos eventos que contaram com sua presença. Pelo menos antes da pandemia era difícil encontrá-lo em casa. Como agora, ao entrar na sala que estava com a porta sem “passar” a chave; vestimenta simples, sem a famosa bermuda jeans, a sandália e o bornal de couro. Desnudo, diriam, pois é traje típico de sua simplicidade. Entretanto, a emoção no que conta continua a mesma, talvez até mais aguçada. Seus olhos marejam ao responder sobre o que lhe faz mais falta nesta quarentena. “De gente. De abraçar, conversar, contar piada… de risos, do brilho dos olhos das pessoas. É diferente você estar em contato com as pessoas, né? Uma live é bom de se fazer — às vezes a pessoa até ganha pra fazer isso —, mas é muito diferente”.

    Antônio Francisco tem 71 anos de idade e tomou gosto pela poesia somente depois dos 40. O autor de “A casa onde a fome mora” diz que se divertiu fazendo “experimentos” durante a pandemia e riu ao dizer que o bom disso tudo é ser o seu primeiro leitor. “Escrevi umas trovas, gostei dos versos. E por mais que eu quisesse escrever sobre outra coisa, tudo o que eu fiz era relacionado à pandemia. No fim, escrevi muito pouco. Mas, gostei do que fiz”.

    “Isso só passa quando acabar o ser humano na terra; o vírus é nós!” — Diz cético, sobre o possível retorno ao nosso “verdadeiro” normal. E que seus parceiros de poesia já vivem em uma pandemia há muito tempo, que corrói e mata, tamanha as dificuldades que passam.

    Antônio Francisco quer lançar um livro de trovas após a quarentena.

    “Eu nunca escrevi trovas, e durante a quarentena eu achei o rumo. Tenho um verso que diz:

    Minha casa era pequena,
    alegre, mas ficou chata
    depois dessa pandemia
    só Nira, eu e a gata.

    Era eu, Nira e a gata
    mas ontem a gata morreu
    a casa ficou mais chata
    agora só Nira e eu.

    Tem outro que digo assim:

    A pandemia deixou
    um mundo de pé descalço,
    mas em troca ela acabou
    com muitos abraços falsos,
    ontem eu vi pela janela
    uma cadela o capítulo

    Deus tirando a máscara dela
    para ela brincar no lixo
    o mundo que a gente mora
    nunca fora governado
    se fosse estaria agora
    todo mundo mascarado…

    (É por aí)…

    Fale uma de esperança!

    Todas a(as) poesias que faço têm esperança no meio:

    Ontem eu fui dormir pensando
    quando este vírus passar
    será que o homem aprendeu
    ou se vai continuar
    guiando bala perdida,
    fabricando ‘plasticida’,
    jogando lixo do mar?

    Quebrando os espelhos d’água,
    tingindo o céu de fumaça
    se afastando de Deus,
    plantando óleo na praça
    pra colher mais fome e guerra
    deixando a vida na Terra
    sem cor, sem pão e sem graça

    Ou se ele pressentiu
    que a terra estremeceu
    e aprendeu com o vírus,
    que o mundo não é seu
    que ele viu com certeza
    a dor da mãe natureza
    no grito que a terra deu.

    E pensando eu mergulhei
    num sono longo e profundo
    sonhei que eu transformava
    num caldeirão largo e fundo
    um pouco de gratidão,
    uma bola de sabão
    pra lavar as mãos do Mundo.

    Depois fazia uma máscara
    do pano da igualdade
    cobria o rosto do mundo
    com as mãos da caridade
    pra não entrar o cinismo,
    do vírus do egoísmo
    na alma da humanidade.

    Eu vi os olhos do mundo
    por trás da máscara brilhando
    eu corri para lhe abraçar
    e quando eu ia abraçando
    Nira, minha mulher,
    bateu na corda da rede dizendo
    acorda que a caixa está sangrando.

    Fechei a caixa e voltei,
    peguei minha caneta
    desenhei uma máscara,
    guardei numa gaveta
    pra quando o vírus passar,
    eu tirar e colocar
    no rosto do meu planeta.

    A emoção do poeta está às escâncaras. O medo também. “Poesia é sensibilidade. Eu quase não ligo mais a televisão por medo. Porque você vê países organizados como Suécia, Suíça, Inglaterra, França, todos fechando as portas, se dobrando ao peso do vírus, quanto dirá nós, um país ainda agrícola, estamos lutando ainda para fazer alguma coisa. Acho que o homem se comporta melhor se tiver sensibilidade. E como eu disse no poema, “o mundo não é seu”.

    O poeta vagueia. “Enquanto não aprendermos a conviver com a Terra”…

    O novo vírus deixou
    O Mundo inteiro virado
    cheio de canhões de guerra
    feito de óleo forjado
    mas para este vírus forte
    o mundo está desarmado.

    É tanto que começou
    pelas grandes capitais
    Milão, Pequim e Paris,
    Nova York e outras mais
    mostrando para que ele veio
    e do que ele é capaz.

    Matou um montão de gente
    só num final de semana
    fechou igreja, escola
    com uma fúria tirana
    matando gente e zombando
    da Inteligência humana.

    Mas vamos frear o vírus
    não com bala de canhão
    mas com pequenas medidas
    mas de grande precisão
    lavar as mãos bem lavadas
    com água limpa e sabão.

    Evitar sair de casa
    mesmo para padaria
    pegar o pincel da arte
    pincelar seu dia a dia
    e reler aquele livro
    de contos que você lia.

    Deixar de lado o abraço
    E o aperto de mão
    é ruim, mas é preciso
    dessa estranha comunhão
    ficar distante dos olhos
    e perto do coração.

    Quando o vírus passar
    e que Ratto gritar: “passou!”
    vamos plantar esperança
    no rastro que ele deixou
    para o amor germinar
    e Deus do céu se orgulhar
    do homem que ele criou.

    Para finalizar, o poeta Antônio falou da alegria de seu projeto ser contemplado pela Lei Aldir Blanc. “Eu não acreditava que alguém se lembrasse dos artistas e que isso saísse tão ligeiro. Porque o que tinha de poetas precisando desse apoio… Pelo menos pelo lado do cordel. Fomos contemplados e faremos um filme. Será bem interessante. Aliás, vamos fazer muita coisa além de gastar o dinheiro — finalizou aos risos.

    BÔNUS

  • BOCA DE CENA

    A brincadeira dos Papangus no Carnaval Pernambucano, tem seu dia maior durante o reinado de Momo no domingo, a tradicional manifestação presente em praticamente todos os estados do Nordeste e, que traz em comum as fantasias que escondem integralmente a identidade do folião ou foliã, visto que até o gênero dos brincantes se torna uma incógnita, é destaque no Agreste Pernambucano mais especificamente na Cidade de Bezerros, o termo Papangu tem, segundo estudiosos do assunto, sua origem num tradicional prato da culinária regional o Angu, feito à base do milho, leite de coco e outros ingredientes, seria quase uma variação (melhorada) da polenta e, além de ser saboroso garante energia suficiente aos brincantes para enfrentar a maratona Momesca, assim os Papa Angu ganharam seu apelido e lugar nas festividades carnavalescas, privados da fala, pois que as vozes poderiam identificar a pessoa por trás da fantasia, nem por isso falta a comunicação proposta em forma de jogos de sedução e ritmos, sarcasmos e ironias, verdades e mentiras, um caleidoscópio de emoções ritmadas pelos frevos e marchinhas que se harmonizam em toda sua diversidade, em sua humanidade.

    Mas Papangu aqui no nosso Rio Grande, tomou um novo formato um formato literário, uma revista e, diga-se de passagem, uma excelente revista, um sarapatel de temas abordados com irreverência, humor e provocações ao debate político, social, artístico e cultural, e agora justo num domingo, como se fora a apoteose dos grupos carnavalescos do agreste Pernambucano A PAPANGU ressurge numa versão digital, que provavelmente ampliará o seu alcance, claro que sem perder sua essência comunicativa, suas características que seduzem e repelem, agradam e desagradam, colorem e “monocromizam”, mas com certeza polemizam e alimentam o bom embate das distintas opiniões.

    Eu Beto Vieira, Ator, diretor, palhaço, arte educador e contador de histórias estou muito feliz pelo convite a fazer parte da equipe de brincantes escrevinhadores, um Papangu a mais e, na BOCA DE CENA trarei histórias e causos referentes ao Teatro, Cultura Tradicional Popular e Artes em geral, sem viés acadêmico e sem amarras predeterminadas, sem imposições, mas, com cheirinho de um bom café coado deliciosamente acompanhado de um bolo de macaxeira ou uma saborosa ginga com tapioca e, nesse caso já se pode até trocar o café por uma boa cerveja gelada, cenografia perfeita para um despretensioso e agradável bate papo.

  • MOSSORÓ, ENFIM LIVRE

    Após 70 anos, a família Rosado deixará de administrar Mossoró, em respeito à vontade de 65.297 eleitores, 47,52% dos votos válidos. Na campanha, muitos rosalbistas arrotavam arrogância. Diziam que era impossível que Allyson Bezerra (SD) vencesse Rosalba Ciarlini (PP). Estufavam o peito ao falar. Esnobavam o principal candidato oposicionista até mesmo pela sua origem humilde. Tiveram que engolir a arrogância a seco. Que sirva de lição.

    EXPECTATIVA
    Após a expurgação de Rosalba Ciarlini do Palácio da Resistência, a esperança é que o próximo prefeito, Allyson Bezerra (SD), atenda aos anseios de quem acreditou nele, confiando-lhe a administração da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, com 300 mil habitantes.

    Os nomes que ele escolheu para compor a equipe de transição, bem como os secretários anunciados até agora, são sinais de que a administração será técnica. Parece bem intencionado o “menininho” do sítio Chafariz.

    PRESIDÊNCIA DA CÂMARA
    Tudo indica que o próximo presidente da Câmara Municipal de Mossoró será Lawrence Amorim (SD), o 12º mais votado no dia 15 de novembro. Lawrence, que tem trânsito livre em todas as rodas, já foi prefeito de Almino Afonso (RN) por dois mandatos. Tem experiência na arte de negociar no mundo político.
    Todos os vereadores eleitos entrevistados até agora, quando perguntados sobre o assunto, ressaltam que Lawrence é um ótimo nome. Só uma manobra de bastidores muito bem feita tirará a presidência dele.

    ENTREVISTAS
    Tenho acompanhado com atenção as entrevistas concedidas pelos vereadores eleitos. No geral, são pessoas despreparadas para o cargo, mas que, curiosamente, reconhecem suas limitações, dizendo que contratarão assessorias para ajudá-los na missão de representar o povo mossoroense. A maioria foi eleita em retribuição ao assistencialismo que realizam em suas comunidades. Tirando um ou outro, parecem bem intencionados.

    NOVOS IMORTAIS
    Se arreglan para la feria / Como Maria Bonita y Lampião / Llevando sandalias de cuero / Para la sagrada fiesta de San Juan. Esses versos estão no livro Semiosis. São de autoria de Welma Menezes, que na última terça-feira (15) foi eleita para ocupar a cadeira 15 da Academia Mossoroense de Letras (AMOL), em candidatura única. No mesmo dia, Misherlany Gomes foi eleito para a cadeira 16, vencendo por 14 x 11 a disputa com Eriberto Monteiro.

    RUY FAUSTO
    Apenas nesta semana soube do falecimento de Ruy Fausto, um dos maiores pensadores brasileiros de todos os tempos. Ele morreu no último dia 01º de maio, aos 85 anos. Sofreu um infarto enquanto tocava piano na sua casa em Paris, na França.
    Fausto é autor de vários livros, entre eles Caminhos da Esquerda: Elementos para uma Reconstrução (2017), onde traz os três maiores erros da esquerda latina, na sua ótica, bem como as bases para uma reconstrução, como informa o nome da obra.
    O livro desagradou ao núcleo mais duro do esquerdismo, até porque Ruy Fausto é um dos poucos esquerdistas a defender uma autocrítica do PT. Os argumentos que ele utiliza são até interessantes, mas não cabe discuti-los aqui.

    O OMBUDSMAN MISTERIOSO
    Desde meados de maio circulam nos intramuros do Itamaraty crônicas sobre o cotidiano do Ministério das Relações Exteriores. Os textos são sarcásticos, críticos, contundentes e até debochados. Eles são assinados por um tal de Ereto da Brocha. A suspeita é que seja um diplomata aposentado e bastante culto, pois os textos trazem muitos fatos antigos e muita menção à literatura, música etc. São crônicas saborosas, recheadas de um sarcasmo muito inteligente.

    Elas são enviadas semanalmente para grupos de WhatsApp de pessoas ligadas ao ministério em questão. O servidor Paulo Roberto de Almeida resolveu reunir todas as crônicas, em torno de 30, num arquivo PDF, e publicar no blog Diplomatizzando. As crônicas são pequenas. Dá para ler tudo em pouco tempo. Vale muito à pena.

    BASTIDORES CONTRA O NOBEL DA PAZ
    Num dos artigos do incógnito cronista, ele relembra o empenho dos militares, durante a ditadura, para impedir que o arcebispo de Recife e Olinda, D. Hélder Câmara, fosse agraciado com o Prêmio Nobel da Paz.

    O religioso foi indicado ao prêmio quatro vezes, garantindo assim a posição de brasileiro mais indicado a qualquer Nobel. Nas quatro oportunidades, os militares brasileiros agiram para impedir a premiação, vez que o julgavam comunista, apesar de ele ter apoiado o golpe em 1964.

    Algumas dessas ações são relatadas na crônica, bem como no Livro de Jô, Vol. II, a autobiografia de Jô Soares, entre tantas outras obras.

    QUIPROQUÓ NO SERIDÓ
    Continua gerando polêmica o programa Pró-Sertão, onde facções têxteis atendem a grandes grupos industriais, entre eles o Grupo Guararapes. O cerne da discórdia está na existência ou não de vínculo trabalhista entre os empregados dessas facções e os grupos industriais, ou seja, as indústrias podem ser acionadas judicialmente caso as facções têxteis não cumpram as obrigações laborais?

    No último dia 10 de dezembro, o site oficial do Tribunal Regional do Trabalho do RN (21ª região) publicou uma matéria sobre o assunto, dizendo que, por maioria de votos, os desembargadores haviam decidido pela inexistência de vínculo.

    Dois dias após, o site oficial do Ministério Público do Trabalho do RN publicou Nota de Esclarecimento desmentindo a matéria do site oficial do TRT21, dizendo que não houve julgamento da questão em si, mas de um processo de Uniformização de Jurisprudência, que o mérito ainda não foi analisado.

    É a primeira vez que vejo “briga” entre sites oficiais do Judiciário e do Ministério Público.

  • Mulan: Lealdade, coragem e verdade na atualidade

    Nos últimos meses, em função da pandemia, com a mudança da rotina em casa, passei a assistir mais filmes infantis com meus dois filhos menores. Impressionante como a leitura atual que faço de muitos desenhos animados ou filmes (curtas e longas metragens) que havia assistido em minha infância é muito diferente. Os olhos são outros.

    Recentemente assisti a um filme da Disney com título de Mulan. Esse longa metragem é baseado na lenda chinesa de Hua Mulan que conta a história de uma jovem que para não deixar seu pai ir a guerra, já que ele era uma pessoa debilitada, alistou-se como homem no exército Chinês e lutou por uma década defendendo o imperador. A lenda diz que ela chegou a ser promovida a general.

    O que me trouxe de reflexão esse longa e o poema (lenda), que por curiosidade resolvi conhecer melhor, foram os ensinamentos que são passados e que se alicerçam na lealdade, coragem e verdade, bem como, na quebra de paradigma ao colocar uma mulher jovem numa posição que a sociedade da época (século 4 d.C) jamais aceitaria, principalmente, os regimentos militares.

    Assistindo ao filme fui fazendo algumas conexões com os tempos que vivemos hoje, ou seja, pensar no mundo de agora a partir de valores como lealdade, coragem e verdade passou a ser um grande desafio. Basta vermos que o mundo vive um grande retrocesso civilizacional, onde virtudes como as citadas viram senso comum em meio a tanta desonestidade, mentira e falta de coragem de muitos para enfrentar tudo isso que nos cerca e nos oprime.

    A ascensão no mundo do conservadorismo cria um ambiente extremamente nocivo que vai contagiando grandes massas como se elas estivessem vivendo um transe coletivo e muito dos princípios que um dia muitos foram instigados a acreditar desaparecem como num passe de mágica. A globalização nesse contexto tem uma força arretada.

    É importante frisar que a figura da mulher está na centralidade da história e a grande conquista foi exatamente romper com os dogmas da época e se apresentar à frente de seu tempo, postando as virtudes elencadas de forma firme e, sobretudo, tendo a coragem de se mostrar como mulher e enfrentar os homens e a guerra sem se esconder atrás de uma imagem masculina. Isso tem uma simbologia muito forte e se conecta com feminismo da atualidade.

    Para mim Mulan, talvez não seja um dos melhores filmes da Disney, mas nos apresenta uma releitura da lenda de Hua Mulan que nos faz refletir sobre a sociedade a qual estamos construindo. Tenho a certeza de que é imprescindível fazermos uma crítica e agirmos contra esse modelo de sociedade deformada, onde os valores éticos não passam de letras mortas e que a opressão sobre os excluídos e as mulheres é pano de fundo para retóricas de certas almas sebosas.

    Eu quero e vou continuar acreditando que ainda somos seres pensantes.

    *Gutemberg Dias — professor e empresário

  • REMINISCÊNCIAS SOBRE UMA GUERRA MITOLÓGICA

    POR SÀVIO TAVARES

    Pensando sobre a mitológica guerra troiana, cuja narrativa atravessou mais gerações e gerou mais mitos que quaisquer outras de meu conhecimento, que, diga-se de passagem, não é algo de impressionar ninguém, na breve história da humanidade, me veio a ideia de lançar mais uma pitada de tempero nessa panelada, afinal, se “quem conta um conto aumenta um ponto”, quem conta uma guerra, pode perfeitamente acrescentar ou suprimir alguns parágrafos, e se parte dessa guerra é reconhecidamente um mito, uma mentirinha a mais ou a menos não deve fazer-lhe mossa!

    Conta-se que quando os pimpolhos de Príamo, rei de Tróia, Heitor e Páris, foram em visita ao rei Menelau, da indomável Esparta; já eram ambos famosos entre os gregos, Heitor por suas façanhas guerreiras, e notáveis qualidades morais, enquanto que seu mano, Páris, era ainda mais conhecido; entre os intelectuais, por seu nível de inteligência rasa; e entre a soldadesca e as meninas de vida fácil, – Aliás, eu discordo totalmente desse conceito, apesar de nunca ter exercido o metiê, não acredito que viver da mais antiga profissão do mundo seja para fracas ou pouco dedicadas! – Fazia jus à mesma alcunha, que sem combinação prévia, ambas as classes o agraciaram: “Centauro”, ser mitológico parte homem parte cavalo, mesmo que por motivos divergentes, a intelectualidade e a plebe ignara compartilhava certa convergência de fins: Os sábios achavam que o mesmo tinha um certo (ou absoluto) atavismo intelectual, como se provou com o rapto da mulher alheia; enquanto que para a soldadesca e as incautas, que naqueles tempos já abundavam – e como davam! – ele teria além das ideias de jerico, parte da anatomia, que remetia ao mesmo animal.

    Pois muito bem, durante a visita principesca, estando a linda Helena desfilando as doiradas melenas pelo palácio espartano, ao passar por determinado setor, que dava vistas para a área de banhos masculinos, viu, por entre pilares, o jovem mancebo, Páris, a lavar a chamada “ferramenta de manufaturar gente”, e, contrariando a premissa do colorido capilar, efetuou mentalmente uma aritmética simples; “no mínimo 30 menos no máximo oito, igual a um prazeroso ganho de vinte e dois centímetros, fácil, fácil”; além de que, o candidato a chifrudo, em eleição de voto único, Menelau, que passaria vergonha em sauna de japonês, como todo bom rei espartano, passava muito mais tempo trocando sopapos e se agarrando, à guisa de treinamento, com seus soldados que nas chamadas guerras de alcova, com sua adorável Helena.

    Como sempre acontece quando a mulher deseja algo, a rainha espartana não teve dificuldades em comprovar em “test drive”, o acerto de sua matemática, deduziu também, que seria uma troca bastante favorável para o seu amado rei Menelau, o seu(dela, é claro), talento amoroso sub utilizado, por uma vistosa peruca de touro, que o maridão poderia ostentar com garbo e distinção, durante as batalhas que ele tanto amava, esquecendo um simples detalhe: Essa moda de ir à luta com a cabeça ornada de chifres, só entraria em vigor séculos depois, com os vikings, e, como o amante recém conquistado, o seu cônjuge não poderia nunca ser considerado um homem com ideias à frente de seu tempo, menos ainda em termos de adereços de alta costura.

    Voltando Menelau de sua faina diária frente às tropas, não encontrou a amada esposa, e sim um bilhete, avisando de sua (dela), ida à manicure, e, como a demora estava passando dos limites, o Menê, (apelido carinhoso, dado por Helena), resolveu interrogar algumas criadas, para tomar pé da situação; foi nesse momento que tomou conhecimento que, a conselho de Fabíola, uma amiga de longa data, Helena teria ido a um determinado salão, e que a mesma teria partido com tal destino, a bordo da famosa biga “Saveiro Preta”, de propriedade e conduzida por seu amigo e hospede de honra, Páris. Devidamente informado do inocente paradeiro da amada, Menelau volta ao quartel, para continuar o pagode junto com a soldadesca, e adentrando de forma sorrateira, pensando em fazer um susto a alguém, acabou ele mesmo sendo assustado, ao ouvir os comentários da rapaziada. Dizia um deles: Rapaz, a Fabíola tem um segredo infalível pra manter as unhas perfeitas; eu a vi repassando a uma amiga, dizia ela : Pinto todo dia! Como o soberano não era tonto nem nada, aplicou ele também os conhecimentos da arte Euclidiana, só que ao invés de subtrair, somou dois mais dois, e o resultado não lhe agradou! Feitas algumas investigações preliminares, deduziu que se não cuidasse na vida, de sua Helena não veria mais nem o rastro, então convocou suas tropas, e, como bem se sabe, homem é tudo igual em qualquer tempo, sendo para ver um corno revoltado, principalmente um rei, choveu voluntário pra acompanhar o cornudo – digo – soberano na viajem de resgate da rameira – falo – rainha, entre eles até mesmo o herói Aquiles, que diziam ser filho de um rei, também dotado de luzidio par de guampas, essas de divina origem, pois sua fiel esposa teria andado brincando de “camisola arribada” com deus, desses de somenos, que teria tomado para si o cargo de padrinho do guri. Claro que as más línguas sempre tinham uma versão turbinada da estória, mas, deixemos para outra ocasião.

    Ocorre que, quando do nascimento do indigitado Aquiles, a mãe foi instruída pelo deus pai, mais ou menos poderoso , para lambuzar o rebento com ambrosia e em seguida mergulha-lo no rio Estige, simpatia essa que o tornaria invulnerável, em todas as partes mergulhadas na tal tisana. A mãe do pimpolho, Tétis, fez o que lhe foi ordenado, segurando o filhote pelos mocotós, posição essa que teve como consequência deixar o moleque fraco dos calcanhares, o que veremos futuramente, teve consequências funestas. Tal ponto fraco talvez, pudesse ser evitado, se a diligente genitora tivesse pensado melhor; poderia ter aumentado o nível de invulnerabilidade do guri, segurando-o com o indicador em gancho, acoplado a determinado orifício, para muitos um órgão multiuso, estrategicamente localizado, e durante quase todo o tempo fora das vistas de possíveis inimigos, e até de amigos, se na época já fosse disseminado o uso de cuecas, podendo talvez deixar a guarda aberta(ops!), apenas se o mesmo resolvesse aderir ao uso versátil de tal apetrecho, podendo deixa-lo vulnerável a uma ou outra investida, quase sempre verbal, de um Malafaia ou Bolsonaro da vida, mas, nesses casos, poderia contar com as defesas Jeanwillicas erguidas, de modo que descontada alguma ardência, seria indubitavelmente vantajosa, a forma alternativa de sustentação.

    Mas, voltemos ao tema, e vamos botar essa estória pra andar, – A peleja durou por dez anos, com todos os deuses do panteão metendo a colher nesse sangangu, e convenhamos, depois de dez anos de fuque-fuque, a bela Helena já deveria estar meio estragada da lagarta, e com certeza não valia mais tanto rapapé, mas, gosto é gosto! Para abreviar o relato, Menelau e sua trupe resolveram fazer de conta que iam embora, deixando um cavalo de madeira à guisa de presente para os troianos, devidamente recheado de soldados, que, tendo sido levados para dentro da cidade, após as comemorações, aproveitaram a premissa que se “Culo bebitis nec proprietis”, traduzindo – cu de bêbado não tem dono, fizeram pequena extrapolação para “portão de cidade de bêbado, igualmente, pode ser aberto por qualquer um”, e abriram os tais portões para a carnificina, tendo nessa ocasião o famoso Aquiles, recebido uma flechada, disparada segundo consta nos autos, pelo Centauro/Páris, pelo que já vimos, não perdeu com o tempo a mania de cutucar o que não lhe pertence, justo no bendito calcanhar, fato que levou o Aquiles a um óbito de lascar, enquanto que os troianos foram passados a fio de espada.

    Não sei para vocês, mas, para mim a coisa poderia ser contada de maneira muito mais lacônica, já que falamos de gregos – Um cara com um pau de cavalo, provocou uma guerra, que terminou com um cavalo de pau!