Últimas histórias

  • TIO COLORAU, O EUTRAPÉLICO

    Era início dos anos 2000 quando o conheci, e até hoje privo da amizade de Tio Colarau, ortômio – nome verdadeiro – Erasmo Carlos Firmino. Além do texto leve e irreverente que encanta seus leitores(as), Colorau “guarda” um segredo que só quem o conhece pessoalmente pode verificar, o mesmo é portador de uma virtude – confesso que só recentemente conheci a palavra que a define, mas lembrei-me logo do Tio – a eutrapelia – ato ou modo de gracejar sem ofender.

    Inclusive, eu não sabia, a eutrapelia é: “Uma virtude comentada por grandes filósofos gregos, como Aristóteles, e que mais tarde tornou-se uma virtude cristã, querida por São Tomás de Aquino, São Filipe Neri, São Francisco de Sales, São João Bosco… “A décima [virtude] – escreve [Dante] Alighieri – chama-se Eutrapelia, que nos modera nas diversões e nos faz usá-la corretamente”. [ ]

    Por causa da pandemia não temos nos encontrado, Tio sabe que só volto aos encontros etílicos depois de vacinado contra a Covid – 19. Confesso que estou com saudades das brincadeiras de Colorau no Barraco de Betinho (in memoriam) do Frango e em Carlos Bar – berço do Copão, grupo que se reunia às sextas-feiras para jogar conversa fora, rir às gargalhadas e, claro, sorver muitas síceras (cervejas), quem me conhece sabe que também gosto muito de brincar e sempre que nos encontramos é a mesma alegria, muitas brincadeiras e muitas risadas.

    É incrível, quando me encontra o homem não para de brincar, mas nestes vinte anos de brincadeiras jamais me senti ofendido, o que me leva – às vezes – a pensar que, quando encontra-me, o álacre (muito alegre) Erasmo coloca em prática sua maestria – a eutrapelia.

    Faço votos que a pandemia, que já ceifou tantas vidas, e o momento político que vivemos não sejam obstáculo para o exercício diário da décima virtude – tão querida pelos santos acima – por Tio Colorau, o Eutrapélico!

    Referência: https://padrepauloricardo.org/blog/eutrapelia-a-virtude-do-bom-humor

  • 3×4: Kelly Lira

    Dificilmente encontraremos um fã das músicas dos barzinhos nas noites mossoroenses que não tenha curtido uma MPB na voz da talentosa Kelly Lira. Natural de Pau dos Ferros, Kelly bateu um papo conosco, na semana passada, na pousada Beijo Mar, em Tibau, onde realizava um trabalho em outra área em que se descobriu recentemente: a pintura. Nossa artista-cantora-pintora fala sobre os desafios que enfrentou durante a pandemia e dos projetos que estão no forno para esta temporada 2021.

    Kelly Lira, conte-nos um pouco sobre suas origens…

    Sou pau-ferrense de nascimento. Meus pais, duas pessoas simples, humildes, sertanejas, e família grande. Cresci em um universo religioso, meus pais evangélicos. Nossa família, na verdade, sempre se interessou por essa coisa da pintura, artesanato, música. Desde cedo que a música me acompanha. Comecei cantando na igreja, desde muito pequena, cantando nos corais da igreja, mas nunca imaginei isso profissionalmente, trabalhar com isso de verdade.

    Quando foi sua primeira vez cantando profissionalmente?

    Fui morar em Mossoró no ano de 2006 para cursar História, na Uern. Nida Lira, minha irmã, já estava lá, cantando na noite. Daí surgiu minha oportunidade para cantar na noite também. A primeira vez que fui convidada para fazer um trabalho, assim de música, profissionalmente, foi por intermédio de Paulo Neto, que à época era casado com ela e trabalhava com Thábata Mendes. Ele perguntou se eu queria fazer backing vocal — aqueles vocais de apoio ao cantor principal. Topei, mas não sabia de nada. Ele tinha um estúdio e a gente chegou a fazer algumas gravações bem caseiras. Então já me conhecia cantando. Essa foi a primeira vez. Em seguida eu fiquei dois anos nessa banda fazendo vocal e depois disso aí eu conheci o pessoal de Mossoró, os cantores, artistas, quando decidi começar a fazer um trabalho na noite também cantando MPB, em barzinhos. Montei um repertório e comecei a cantar na noite, em meados de 2008, 2009.

    Qual a grande dificuldade do músico em Mossoró?

    Não só em Mossoró, mas a dificuldade é geral. O artista local, do artista independente, a falta de valorização, de incentivo público e privado também.  Não temos muitos projetos que nos deem suporte para desenvolver o nosso trabalho, progredir, fazer um trabalho autoral. Shows que nos façam crescer como artista, a gente não tem um festival de música em Mossoró. Quando o artista começa na música em Mossoró, assim como nos outros lugares, de fazer esse caminho do barzinho, que é muito bom, mas às vezes é um ciclo que não evolui, não passa disso, fica em um oito. A gente fica na mesma realidade, na mesma cadeia, assim de desvalorização, seguindo nesse caminho, que até desestimula. E isso é muito triste.

    Na pandemia, a sua área foi uma das mais afetadas, com bares fechados, shows e eventos proibidos… Conte-nos como tem sido para você.

    Foi desesperador. Logo que surgiu o lockdown, e tudo fechou, os bares fecharam, acabou o show, eu fiquei desesperada. Eu me perguntava: “E  agora, como é que vai ser, já que está tudo parado?…” Ficava ainda naquela ilusão: “Será que isso vai durar três meses?” E já estamos há um ano, hein? Uma coisa que deu alívio foi a questão de eu estar junto com o Marcelo, meu marido (Marcelo Amarelo é um escultor famoso, com vários trabalhos em exposição pelo estado), que acabei auxiliando no trabalho dele, assim como ele dá força no que eu faço. Ele foi convidado pela prefeitura da minha cidade natal para fazer um trabalho. De lá fomos para Martins, onde ficamos mais de um mês. Fiquei muito sufocada com essa instabilidade do trabalho, de não saber quando as coisas voltariam ao normal. Ao mesmo tempo, esse lance de Marcelo nos ajudou a não ficar em casa parados, tendo como trabalhar de alguma forma.

    Então a pintura surgiu com força na quarentena?

    Foi, sim. Eu achei que durante esse tempo eu poderia desenvolver melhor essa outra questão das artes plásticas, porque eu sempre me interessei por essa área, e estando com o Marcelo, que é artista há muito tempo, e sempre conversamos sobre a arte urbana e artes visuais. Enfim, eu sempre gostei dos assuntos que tratavam a arte, tenho irmãos artistas plásticos também, que moram em São Paulo. Até fiz alguns trabalhos aleatórios, como desenhos, pinturas, mas não entendia que eu poderia ser artista plástico, eu não me compreendia.


    O pescador solitário — Acrílica s/ Canvas

    E você vai expor esse trabalho feito na quarentena?

    No momento eu não tenho um acervo grande para uma exposição, mas vou ter que produzir, até porque farei uma pela Lei Aldir Blanc, que se chama Cenas Brasileiras, que retrata imagens do cotidiano, algo de que gosto muito, das pessoas, da vida, do Sertão, do Nordeste, nada segmentado, é livre.

    Você já desenhava pessoas?

    Sempre gostei de desenhar. Só que ainda é uma relação na qual estou me descobrindo. Na verdade, é porque eu gosto de retratar, eu gosto de arte figurativa, mas ao mesmo tempo fico impaciente, quero ver como eu vou encaixar melhor. Diferente da música, de todo o processo. A pintura ainda me causa muito estresse. Há momentos em que tudo vai fluindo muito bem, mas tem horas que me dá um estresse, que dá até vontade de acabar com tudo que eu fiz.

    Você teve também um projeto musical aprovado pela Lei Aldir Blanc?

    Sim. O nome do CD é “Porta-retratos”, com músicas autorais. Deveríamos fazer tudo neste primeiro semestre. Mas o cronograma foi modificado com a prorrogação nos prazos de execução. Então faremos com mais calma. Já na lei estadual conseguimos aprovar um vídeoclip. Uma dessas músicas do CD será o vídeoclip.

    A música pode ajudá-la na hora do estresse da pintura, né?

    (Risos) Eu gosto muito de música, para tudo que a gente faz, eu gosto muito de estar sempre ouvindo música para fazer as coisas.

    Estudo – Pescadores
    Acrílica sobre tela
    1,50 x 0,55

    Quando você pinta, você faz música?

    Não viajei nesse processo ainda. Mas acho que tudo é um exercício [Risadas]. Minha mente pode até viajar, mas não consigo desconcentrar do que estou fazendo.

    O que você acha da Lei Aldir Blanc? Dá para o artista tomar fôlego?

    A Lei em si é maravilhosa, muito importante para o setor cultural. A crítica que faço é quanto à política de editais. Foi a primeira vez que participei de um edital, e que bom que deu certo. Mas não é fácil, não é todo mundo que tem esse know-how, de ler e conseguir destrinchar, saber o que está pedindo. Por mais simples que seja, há questões que você fica tipo: “Como assim, gente? Como é que responde isso?” A gente se sente meio que ridículos até. Muitos artistas do interior ficaram de fora exatamente por isso. Infelizmente, essa política cultural ainda não consegue chegar até eles.

    E o que mais podemos esperar de você este ano?

    Olha, não quero abandonar a música. Mas as dificuldades estão cada vez mais latentes. O fazer música em Mossoró, até para você ficar no barzinho, que é um ciclo cansativo e desgastante, desvalorizado, até isso está acabando. Os bares que tocam repertório de MPB em Mossoró são poucos, posso contar nos dedos de uma mão. Nada contra pagode ou sertanejo, porque sei que é um mercado. Mas, para o nosso repertório, a nossa proposta, está difícil mesmo.

  • Sirigaita

    Poesia: Sávio Tavares
    Arte e animação: Túlio Ratto

  • Bem-vindo ao Mundo

    Enquanto o suor desce pela costeleta, Alcides Oliveira abre a porta de vidro e entra na Barbearia Sinatra. Sua vista ainda escura busca desesperadamente em sua volta por um bebedouro. Já é quase uma da tarde, o calor está infernal. Enquanto seu olhar se adapta ao ambiente, ele passa rapidamente a língua entre os lábios ressecados, sente a boca seca, seu olhar é de súplica:

    — Alguém poderia me conseguir um copo d’água? E, por obséquio, daria para ligar o ar-condicionado? — suspira forte e pensa que “não há água no mundo que mate minha sede hoje”.

    A pessoa ao seu lado estica um dedo em direção a um interruptor, gesticulando e apontando para o aparelho para dizer que já estava ligado.

    — Sente-se! O que vai ser hoje? Pergunta-lhe seu Geraldo, o barbeiro, bastante conhecido na Praça dos Táxis, no Centro de Mossoró. Um senhor de estatura baixa, bigodinho fino, cabelo bem ajustado para trás, escondendo a calvície no topo da cabeça, deixando-lhe inclusive algumas décadas mais jovem.

    — Vamos fazer o cabelo e barba. Essa quentura não deixa a gente ‘cultivar’ um visual diferente — diz Alcides.

    — Mmmmm… Quer fazer cabelo, barba e bigode, como “o pobrezinho” fez em Mossoró, né? — pergunta com ar de deboche seu Geraldo, a quem Alcides confia seus fios encaracolados desde a meninice, quando seu pai, ex-secretário do gabinete do prefeito, o trazia para cortar o cabelo. Naquela época, lembra Alcides, o corte era motivo de chacota no colégio, pelo estilo militar, quase feito com uma cuia.

    — É. Quem poderia esperar, né, seu Geraldo?

    — Quem disse que meninos não conseguem ser bons gestores? Você vai ver! —afirma Geraldo.

    — Eu não disse nada. O Sr. é que está supondo. Ele pode, sim, se sobressair.

    — Por que você acha que o povo votou em Allyson?

    — Acho que havia um desejo de mudança. O salto alto rosalbista também ajudou, né, seu Geraldo?

    —Rip! Rip! Rip! Rip! — o barulho da tesoura só emudece quando o barbeiro a gira fazendo ir da nuca à testa de Alcides com destreza, e na briga entre o pente e o objeto cortante, ele golpeia:

    — Não tem quem queira mais a antiga política aqui, não, meu filho!”.

    — Em nível nacional, seu Geraldo, essa nova política não tem se mostrado tão nova assim!

    — É, pode ser. Mas aqui, para dar férias aos Rosados, faríamos qualquer coisa.

    — Acho que foi muito esse sentimento mesmo, em 2020. O senhor está correto.  Mas, convenhamos, isso não deu na eleição que antecedeu Rosalba.

    — Você não acha que agora Mossoró tem jeito?

    — Como disse lá no começo, acho que é o que todos aguardam, uma administração eficiente, sem firulas. Se fizesse o feijão com arroz já estaria de bom tamanho. Não pode é meter os pés pelas mãos, como foi o caso de Silveirinha.

    — Deixe de coisa, só em Rosalba ter sido derrotada já é uma vitória muito grande para todos. E, claro, agora posso dizer que “eu adoro Mossoró!” — todos na barbearia gargalham com seu Geraldo em zombaria ao famoso bordão da ex-prefeita.

    Alcides pega o copo d’água — bem cheio — que lhe trouxeram, chegando a derramar na capa que o protegia dos pelos, e bebe bem devagar enquanto conversa. ”Acho que esse é o sentimento geral. Agora, vai depender do que o garoto realizar.

    — O Sr. não acha?

    Navalha entre os dedos. Olhar perdido no giro das hélices de um pequeno ventilador em sua bancada, Geraldo consegue retorquir seu próprio sentimento:

    — É. Não tenho muita certeza sobre isso. Até porque não se sabe de nada construído até agora pelo menino, a não ser sua chegada meteórica ao mundo dos adultos.

  • O cume

    Poesia: Sávio Tavares

    Arte e animação: Túlio Ratto

  • Declare seu amor por Mossoró

    Antônio Carlos da Silva Brito foi o grande vencedor do concurso “Declare seu amor por Mossoró” com a canção “Amor por Mossoró” e foi premiado com R$ 3 mil (além da gravação da música em Studio e a produção de um vídeo clipe).  A final do evento aconteceu no último dia 11 na Praça Cícero Dias, em frente ao Teatro Municipal Dix-huit Rosado.

    Gisele Ferreira de Lima, autora da canção Laço de Amor, ficou em 3º lugar e recebeu o prêmio de R$ 1 mil; Saudades de Mossoró, do compositor Renato Borges de Souza, ficou na 2ª colocação, com o prêmio de R$ 2 mil.

    O concurso “Declare seu amor por Mossoró” foi uma realização da Prefeitura, através da Secretaria Municipal da Cultura, em parceria com a Status Eventos e Produções. O projeto foi contemplado pela Lei Aldir Blanc com o objetivo de promover músicas autorais sobre o município.

    Os Papangus estiveram lá e aproveitaram para gravar as apresentações. Veja abaixo.

    1º Lugar

    2º Lugar

    3º Lugar

  • De volta com a Papangu velha de guerra

    Então é isso. A Papangu voltou! Projeto dos mais ousados, a Papangu enquanto revista impressa em uma época que o terreno na Internet ´ainda era só mato`, como se diz, marcou época, tanto para leitores como quem a produzia e seus colaboradores. E é uma alegria poder dizer que eu estava neste segundo time. Foram pelo menos três anos, entre 2005 e 2007 escrevendo mensalmente para a revista, artigos, crônicas bem-humoradas, reflexões sócio-políticas, o que me viesse à cabeça, enfim.

    Na verdade as memórias daquele período papangunista remetem a uma fase feliz tanto pessoal quando coletiva. O Brasil vivia crescimento econômico e social, um espírito de euforia pairava no ar. Eu, particularmente, lançava livros e me envolvi em projetos de Cordel para crianças, entre outros. As memórias da Papangu e dos bons momentos caminham lado a lado nas estradas da minha mente. 

    E havia também os papangunistas, na verdade uma espécie de família de desenho animado. Os intrépidos Túlio Ratto e Ana Cadengue com o ´Papangumóvel` de saudosa lembrança, que parecia saído da animação Corrida Maluca… Havia também os papangunistas, Damião Nobre, Marcos Ferreira, Alex Gurgel, o saudoso Leonardo Sodré, que nos deixou precocemente. Enfim, uma familia por afinidade formada pelos gostos em comum e pelo amor à revista impressa.

    E é necessário dizer que a Papangu marcou época e era o terror da classe política. Ser caricaturado/a na capa pelo el terrible Ratto poderia ser uma benção ou uma maldição. Havia os que se sentiam lisonjeados. Os que se sentiam mortalmente ofendidos e queriam levar a coisa para o terrono judicial. Mas, era para ser assim. Charges e jornalismo foram feitos para incomodar, não para agradar os poderosos de plantão. E a papangu cumpriu seu destino: Com humor e convite à reflexão, incomodou muita gente.

    Tanta nostalgia para celebrar o presente. Que é a volta da revista e seu bravo time de colaboradores no campo virtual, esfera inevitável que vem substituindo a celulose e que enfim, foi formada como a Papangu velha de guerra.

    Estamos. portanto, aqui de volta. Contem comigo, comandante Ratto e Ana Cadengue. Longa vida à revista — agora virtual — que tanto fez e tanto fará pela comunicação, arte e humor no Rio Grande do Norte. Evoé.  

  • Papangusando com o poeta Antônio Francisco

    Nove horas da manhã, o sol já acompanhava nosso périplo pelas ruas de Mossoró, as réstias se contorciam empurradas pela brisa quente nas algarobas até se perderem no chão de paralelepípedos escuros. Nosso destino era o bairro Lagoa do Mato, torrão de esplendor poético, do saudoso Luiz Campos, e do talentoso Antônio Francisco Teixeira de Melo, ocupante da cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Patativa do Assaré, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).

    Naquele momento podíamos ver o desbancar dos 30 graus, o suor reluzir na testa. O interessante é que não era a mesma sensação que sentíamos no quintal do poeta.  Lá, parecia ainda cedo, clima agradável, onde os pés de seriguela e de azeitonas pretas vestiram durante a noite o chão com seus frutos. Para nós, uma linda visão, um cenário que pintava prosperidade, com tons fortes, de cheiro bom, de encher a boca d’água. Talvez não fosse o sentimento de quem estava naquele momento fazendo a limpeza, varrendo e recolhendo folhas e frutas murchas.

    Ao fundo da área, um lago. Neste, apesar de Antônio dizer que tem peixe graúdo, não vimos sequer piaba. De cara, antes de Ana Cadengue captar as primeiras imagens, perguntei sobre a grande parada que a cultura sofreu com a pandemia. Principalmente a dos poetas. “Como você avalia este momento?

    Parou no fim, né? Mas, pela primeira vez, eu vi a pessoa se preocupar, em Mossoró, com os artistas, aprovar projetos (o poeta se refere ao incentivo da Lei Aldir Blanc). Agora, eu acredito que pra gente foi muito ruim, porque a gente não vive só do cachê, a gente vive também do público, do povo. E logo eu que sou acostumado a viver viajando, tendo esse contato com o público. Ficou meio pesado. Mas eu tenho uma vantagem, a de gostar de ler, de escrever, e assistir a filmes. Então, estou escapando. Mas sou consciente. Sou igual ao rio quando encontro obstáculos, eu “arrodeio”, reflete.

    Antônio Francisco sempre foi bastante requisitado para se apresentar em shows, seminários, feiras de livros, e até participamos de muitos eventos que contaram com sua presença. Pelo menos antes da pandemia era difícil encontrá-lo em casa. Como agora, ao entrar na sala que estava com a porta sem “passar” a chave; vestimenta simples, sem a famosa bermuda jeans, a sandália e o bornal de couro. Desnudo, diriam, pois é traje típico de sua simplicidade. Entretanto, a emoção no que conta continua a mesma, talvez até mais aguçada. Seus olhos marejam ao responder sobre o que lhe faz mais falta nesta quarentena. “De gente. De abraçar, conversar, contar piada… de risos, do brilho dos olhos das pessoas. É diferente você estar em contato com as pessoas, né? Uma live é bom de se fazer — às vezes a pessoa até ganha pra fazer isso —, mas é muito diferente”.

    Antônio Francisco tem 71 anos de idade e tomou gosto pela poesia somente depois dos 40. O autor de “A casa onde a fome mora” diz que se divertiu fazendo “experimentos” durante a pandemia e riu ao dizer que o bom disso tudo é ser o seu primeiro leitor. “Escrevi umas trovas, gostei dos versos. E por mais que eu quisesse escrever sobre outra coisa, tudo o que eu fiz era relacionado à pandemia. No fim, escrevi muito pouco. Mas, gostei do que fiz”.

    “Isso só passa quando acabar o ser humano na terra; o vírus é nós!” — Diz cético, sobre o possível retorno ao nosso “verdadeiro” normal. E que seus parceiros de poesia já vivem em uma pandemia há muito tempo, que corrói e mata, tamanha as dificuldades que passam.

    Antônio Francisco quer lançar um livro de trovas após a quarentena.

    “Eu nunca escrevi trovas, e durante a quarentena eu achei o rumo. Tenho um verso que diz:

    Minha casa era pequena,
    alegre, mas ficou chata
    depois dessa pandemia
    só Nira, eu e a gata.

    Era eu, Nira e a gata
    mas ontem a gata morreu
    a casa ficou mais chata
    agora só Nira e eu.

    Tem outro que digo assim:

    A pandemia deixou
    um mundo de pé descalço,
    mas em troca ela acabou
    com muitos abraços falsos,
    ontem eu vi pela janela
    uma cadela o capítulo

    Deus tirando a máscara dela
    para ela brincar no lixo
    o mundo que a gente mora
    nunca fora governado
    se fosse estaria agora
    todo mundo mascarado…

    (É por aí)…

    Fale uma de esperança!

    Todas a(as) poesias que faço têm esperança no meio:

    Ontem eu fui dormir pensando
    quando este vírus passar
    será que o homem aprendeu
    ou se vai continuar
    guiando bala perdida,
    fabricando ‘plasticida’,
    jogando lixo do mar?

    Quebrando os espelhos d’água,
    tingindo o céu de fumaça
    se afastando de Deus,
    plantando óleo na praça
    pra colher mais fome e guerra
    deixando a vida na Terra
    sem cor, sem pão e sem graça

    Ou se ele pressentiu
    que a terra estremeceu
    e aprendeu com o vírus,
    que o mundo não é seu
    que ele viu com certeza
    a dor da mãe natureza
    no grito que a terra deu.

    E pensando eu mergulhei
    num sono longo e profundo
    sonhei que eu transformava
    num caldeirão largo e fundo
    um pouco de gratidão,
    uma bola de sabão
    pra lavar as mãos do Mundo.

    Depois fazia uma máscara
    do pano da igualdade
    cobria o rosto do mundo
    com as mãos da caridade
    pra não entrar o cinismo,
    do vírus do egoísmo
    na alma da humanidade.

    Eu vi os olhos do mundo
    por trás da máscara brilhando
    eu corri para lhe abraçar
    e quando eu ia abraçando
    Nira, minha mulher,
    bateu na corda da rede dizendo
    acorda que a caixa está sangrando.

    Fechei a caixa e voltei,
    peguei minha caneta
    desenhei uma máscara,
    guardei numa gaveta
    pra quando o vírus passar,
    eu tirar e colocar
    no rosto do meu planeta.

    A emoção do poeta está às escâncaras. O medo também. “Poesia é sensibilidade. Eu quase não ligo mais a televisão por medo. Porque você vê países organizados como Suécia, Suíça, Inglaterra, França, todos fechando as portas, se dobrando ao peso do vírus, quanto dirá nós, um país ainda agrícola, estamos lutando ainda para fazer alguma coisa. Acho que o homem se comporta melhor se tiver sensibilidade. E como eu disse no poema, “o mundo não é seu”.

    O poeta vagueia. “Enquanto não aprendermos a conviver com a Terra”…

    O novo vírus deixou
    O Mundo inteiro virado
    cheio de canhões de guerra
    feito de óleo forjado
    mas para este vírus forte
    o mundo está desarmado.

    É tanto que começou
    pelas grandes capitais
    Milão, Pequim e Paris,
    Nova York e outras mais
    mostrando para que ele veio
    e do que ele é capaz.

    Matou um montão de gente
    só num final de semana
    fechou igreja, escola
    com uma fúria tirana
    matando gente e zombando
    da Inteligência humana.

    Mas vamos frear o vírus
    não com bala de canhão
    mas com pequenas medidas
    mas de grande precisão
    lavar as mãos bem lavadas
    com água limpa e sabão.

    Evitar sair de casa
    mesmo para padaria
    pegar o pincel da arte
    pincelar seu dia a dia
    e reler aquele livro
    de contos que você lia.

    Deixar de lado o abraço
    E o aperto de mão
    é ruim, mas é preciso
    dessa estranha comunhão
    ficar distante dos olhos
    e perto do coração.

    Quando o vírus passar
    e que Ratto gritar: “passou!”
    vamos plantar esperança
    no rastro que ele deixou
    para o amor germinar
    e Deus do céu se orgulhar
    do homem que ele criou.

    Para finalizar, o poeta Antônio falou da alegria de seu projeto ser contemplado pela Lei Aldir Blanc. “Eu não acreditava que alguém se lembrasse dos artistas e que isso saísse tão ligeiro. Porque o que tinha de poetas precisando desse apoio… Pelo menos pelo lado do cordel. Fomos contemplados e faremos um filme. Será bem interessante. Aliás, vamos fazer muita coisa além de gastar o dinheiro — finalizou aos risos.

    BÔNUS

  • BOCA DE CENA

    A brincadeira dos Papangus no Carnaval Pernambucano, tem seu dia maior durante o reinado de Momo no domingo, a tradicional manifestação presente em praticamente todos os estados do Nordeste e, que traz em comum as fantasias que escondem integralmente a identidade do folião ou foliã, visto que até o gênero dos brincantes se torna uma incógnita, é destaque no Agreste Pernambucano mais especificamente na Cidade de Bezerros, o termo Papangu tem, segundo estudiosos do assunto, sua origem num tradicional prato da culinária regional o Angu, feito à base do milho, leite de coco e outros ingredientes, seria quase uma variação (melhorada) da polenta e, além de ser saboroso garante energia suficiente aos brincantes para enfrentar a maratona Momesca, assim os Papa Angu ganharam seu apelido e lugar nas festividades carnavalescas, privados da fala, pois que as vozes poderiam identificar a pessoa por trás da fantasia, nem por isso falta a comunicação proposta em forma de jogos de sedução e ritmos, sarcasmos e ironias, verdades e mentiras, um caleidoscópio de emoções ritmadas pelos frevos e marchinhas que se harmonizam em toda sua diversidade, em sua humanidade.

    Mas Papangu aqui no nosso Rio Grande, tomou um novo formato um formato literário, uma revista e, diga-se de passagem, uma excelente revista, um sarapatel de temas abordados com irreverência, humor e provocações ao debate político, social, artístico e cultural, e agora justo num domingo, como se fora a apoteose dos grupos carnavalescos do agreste Pernambucano A PAPANGU ressurge numa versão digital, que provavelmente ampliará o seu alcance, claro que sem perder sua essência comunicativa, suas características que seduzem e repelem, agradam e desagradam, colorem e “monocromizam”, mas com certeza polemizam e alimentam o bom embate das distintas opiniões.

    Eu Beto Vieira, Ator, diretor, palhaço, arte educador e contador de histórias estou muito feliz pelo convite a fazer parte da equipe de brincantes escrevinhadores, um Papangu a mais e, na BOCA DE CENA trarei histórias e causos referentes ao Teatro, Cultura Tradicional Popular e Artes em geral, sem viés acadêmico e sem amarras predeterminadas, sem imposições, mas, com cheirinho de um bom café coado deliciosamente acompanhado de um bolo de macaxeira ou uma saborosa ginga com tapioca e, nesse caso já se pode até trocar o café por uma boa cerveja gelada, cenografia perfeita para um despretensioso e agradável bate papo.