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QUESTÃO DE SEGURANÇA

Por Sávio Tavares — poeta e escritor

Aconteceu com ele como um dia acontece com todo mundo; comprou um par de sapatos, que na loja lhe pareceram ótimos, e, quando chegou em casa, abominou o calçado, que além de feio, desconfortável, ainda foi responsável por formidável calo em poucas horas de uso. Largou o infeliz pisante, mas não conseguia esquecê-lo, pois sua esposa o guardou em um armário, em posição que era sempre a primeira coisa a ser vista, quando da abertura das portas, ou, se oculto, o desgraçado do sapato achava de cair justamente sobre o calo por ele fornecido.

Tendo esgotado o estoque de paciência com o danado, chamou a esposa, Senhora Dona Deusa, e determinou o exílio permanente do sapato! Ou você some com esta m* ou sumo eu de casa! Ela chegou a pensar seriamente na possibilidade de conservar o sapato, quando considerou que lhe sobraria mais espaço na cama, uma casa inteira só para si, menos metano para respirar nos dias de feijoada, como seria bom não mais lavar aquelas famigeradas cuecas com freada de bicicleta, e outros mimos que recebia do cônjuge; além de não ter tido nada a ver com a aquisição do trambolho, não sendo a seu ver, responsável pelo destino do mesmo, e, quando estava quase decidida, lembrou do genro, e, como toda boa sogra, não perdeu a oportunidade de fazer-lhe uma ursada!

Aproveitando que a filha, de nome Camélia, estava de passagem por sua casa, mandou o pisante com a recomendação de entregar-lo ao genro com suas saudações.
A Camélia, por sua vez, ao chegar em sua casa em vizinha cidade, desconsiderou as recomendações maternas, e, simplesmente arremessou o presente sob a cama, com o cuidado que lhe é peculiar, em relação a arrumação/decoração de sua casa, e de pronto pôs o assunto na gaveta do esquecimento, sem comunicar absolutamente nada ao agraciado.

Bela manhã, estando sozinho em casa, o feliz consorte da mulher/flor heroína da nossa história, resolve procurar o que não perdeu embaixo do leito conjugal, e encontra o famigerado borzeguim! De imediato lhe assaltou incômoda dor no frontispício, o que o levou a tomar algumas providencias imediatas — parar de comer camarão e carne de porco, por exemplo, para evitar infecções em algum incipiente sistema radicular —, enquanto encontrava meio de abordar o assunto com a companheira, que sabia ele, apesar do nome, nunca foi flor de se cheirar. Decidiu-se pelo tratamento de choque. No dia seguinte, ao conduzi-la ao trabalho, parou em bucólica praça, e, gentilmente a sacudindo-a pelos pavilhões auriculares, ou orelhas, conforme o gosto do freguês, sutilmente indagou — Quem foi o fdp do Ricardo que esteve lá em casa, e além de filar minha bóia, deixou os sapatos, como prova do crime?

Sendo a Camélia uma moça de brio, não se abalou, narrou o fato passado, o esquecimento de executar a entrega formal do presente, e, após telefonema para a amada sogrinha, o caso foi esclarecido, sem maiores danos e sem necessidade de descorna.

Interessante é que o presenteado desenvolveu um hábito de certa forma saudável: Sempre que retorna ao lar após ausência mesmo de curta duração, promove uma devassa atrás das portas, sob camas, dentro de armários, sem nunca dizer o que procura. Supõe-se que se não for em busca de novo presente, seja uma medida de prevenção contra larápios, pois como se sabe a segurança publica tá deixando a desejar!

A Casatória c’a Defunta

DANIEL, O Idiota!1