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Demônios no travesseiro

De onde vem a literatura? Opiniões e opiniões, algumas especialistas, outras de ouvir dizer. A literatura é um monte de coisa e não é nada. É contação de memórias ou fenômeno social advinda da comunicação humana que precisou construir cenários hipotéticos para fugir da realidade estática de catar e colher, de viver na submissão ou de morrer nas guerras e ataques de outros humanos também cheios de ilusões. O que é a boa literatura? Teremos inúmeras respostas a depender de quem fala: um crítico dirá de um jeito, um professor de literatura de outro, um leitor voraz, um escritor, cada um à sua maneira. Mas, o certo seria perguntar a cada um dos leitores. Aquele livro que uso como escora de algum objeto certamente está na cabeceira de alguém que encontrou ali algo semelhante à sua realidade.
A literatura sempre está em perigo, mas ela própria é o perigo em si e para os que a leem. Por isso, criticar a literatura é tão necessário e estudá-la tanto quanto, mas nada disso refletirá uma verdade, porque as verdades se constituem em cada um de nós, apesar de motivadas pelos grupos. E quando se trata de literatura, a questão pode ser colocada numa perspectiva da filosofia clássica que considera a natureza humana, ao contrário da moderna. Mas também é necessário levar para esse outro lado, tendo em vista o cuidado de não colocar rumo em todas as ideias publicadas para não se correr o risco de decidir o que é bom e o que é ruim como critério universal sólido. “Essa literatura presta, essa não presta – queima!”.

Com exceção dos excessos, a literatura é um campo aberto e florido onde todos podem passear, independente da opinião dos bastiões da verdade. Assim como muitos religiosos se sentem donos de Deus, muitos leitores/escritores/críticos se acham donos da verdade literária, do estilo perfeito, das leituras mais adequadas. Há muitas entrelinhas nas entrelinhas de Borges e é lá onde reside o autor originário de tanta beleza provocativa, só para citar o autor dos mais ávidos críticos de tudo. Cada um tem a biblioteca que lhe convém. Leontino usa a dele para formar leitores, Pedro Salgueiro para ajudar escritores. Eles não citam qualquer coisa, mas leem tudo para poder criticar se perguntados, senão, continuam lendo e deixando que cada um faça seu caminho.

Uma parte disso reside na crítica dos movimentos. Mossoró, como exemplo disso, tem muitos grupos literários, embora nem todos completamente. Academias de Letras, associações, sociedades e confrarias. É claro que nem tudo que eles produzem tem a qualidade que agrada a mim, mas duvido que cada um desses textos produzidos não encontre alguns leitores satisfeitos. E se não fossem essas manifestações o que seria dessa literatura local? Quem começa escrevendo frases perfeitas? Todos precisamos de um caminho para encontrar nosso lugar nesse mundo exigente. Alguns se isolam, outros precisam de incentivo, de pessoas para conversar e compartilhar. Cada um de nós é uma ilha e uma ponte, um dia e uma noite.

As teorias literárias são feitas de hipóteses e metodologias científicas que tanto podem ser testadas como refutadas. Toda literatura é feita de vida, de um entendimento interno ou de uma visão própria que revela claramente quem está escrevendo: se alguém com muito conhecimento de si ou do mundo ou uma pessoa carente de reproduzir ditos e sentimentos alheios. Quem escreve mostra sua intimidade. Quem tem seu próprio universo o faz refletir e ingressar em nós, quem não, repete aquilo que pensa saber e também nos revela sua limitação diante de sua própria existência. Assim a literatura se torna um demonstrativo do que é real e fatídico em cada uma das pessoas que a escreve.

Para saber o que é qualidade nesse meio é fácil, basta ler os clássicos, sejam antigos ou contemporâneos. Ninguém precisa se filiar aos que todos dizem gostar. Tem muita gente que fala de Dostoiévski por causa de Bakhtin, outros porque leram Crime e Castigo. Para muitos, como eu, Antônio Torres consegue dizer a vida como uma possibilidade universal, principalmente quando fala de sua intimidade rural. Cada um precisa encontrar seus autores, suas referências que podem estar em Tolstoi ou em Martha Medeiros, em Yu Hua ou Paulo Coelho. Contudo, cada um que se aventura na escrita literária deve buscar, por si só, seu caminho e não parar de escrever por uma crítica, ao contrário, pode crescer com ela enquanto escritor ou pessoa.

É a emancipação que ajuda o autor a explorar boas ideias e conduzir bons textos, mas a emancipação requer autorreflexão e criticidade. Um bom papo com amigos e uma cerveja gelada ajudam muito também.

José de Paiva Rebouças – cronista

Escrito por Paiva Rebouças

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