Sobre

O GRILO E EU

Cricricri, faz o grilo
quando quer, quando quer namorar
É por isso que eu queria ser um grilo
e cantando te acordar

Trecho da música “Grilo Seresteiro” de autoria de Estanislau Silva, Arlindo Júnior e Roberto Roberti. Esses três sujeitos deviam estar pra lá de “lombrados” quando tiveram a brilhante ideia de homenagear com uma música, um bicho chato que só a “mulesta”. E em 1958 essa piada de mau gosto foi gravada por ninguém mais, ninguém menos do que Nelson Gonçalves, o Rei do Rádio. É mole!? Quem “diabos” em seu juízo perfeito, gostaria de ser acordado(a) ou perturbado(a) pelo cantar intermitente de um grilo? Eu que o diga.

Essa é uma história pré-pandêmica e de antemão deixo claro que foi legítima defesa: era eu ou o grilo.

Um belo dia, aliás, uma bela noite dei por conta de um grilo no meu quarto. A partir daquele fatídico momento, o inseto de nome científico grylloidea, da ordem dos ortópteros, não me deixou mais dormir nem às custas de Rivotril. Nem eu, nem Maria, minha esposa. A partir da origem do cricrilar percebemos que o danado estava escondido por detrás do guarda-roupa. Não queríamos apelar para o veneno, porque Maria Beatriz, minha neta e bebê mais lindo do mundo, gostava muito de brincar no nosso quarto e empestá-lo com o mau cheiro de inseticida não seria recomendável. E também não seria politicamente correto envenenar um pobre inseto indefeso e inofensivo. Ou não.

Toda noite era um suplício. Ficávamos lá, eu e Maria, na maior tensão e expectativa esperando o grilo começar a “grilar”. Pontualmente, às 21 hs, 37 min, 43 seg, começava a serenata. Deitado na rede, eu dava uma batidinha com o pé no guarda roupa e ele parava. Dez segundos depois, recomeçava a cantoria. Era como dar um cutucada numa pessoa que tá roncando ao seu lado: ela vira de lado, para de roncar e daí a pouco começa de novo.

Então, muito bem intencionado, comecei a pesquisar na internet como desalojar um grilo sem ser necessário apelar para medidas extremas. Encontrei uma receita assim: pegue uma vasilha ou pote pequeno, preencha até a metade com mel de engenho (melaço), complete com água e deixe em um lugar próximo ao esconderijo do grilo. A explicação: o grilo é atraído pelo cheiro do melaço, mergulha no recipiente e não consegue mais sair. Daí, você pode devolvê-lo à natureza. De preferência a uns dez quilômetros de distância de sua residência. Fiz desse jeito. Em cada uma das laterais do guarda-roupa coloquei um pote com a mistura. Surpresa! Não aconteceu nada. O grilo continuou na sua entoca, belo e cantante. Virei motivo de chacota lá em casa por causa do fiasco dessa melosa e mal sucedida experiência.

Quatro dias depois da armadilha que não funcionou, perdi a paciência. Comprei um veneno fraquinho, desses de spray à base de camomila, eucalipto, hortelã, sei lá mais o que, quase um desodorante Rexona Antibacterial Protection Men Aerosol. Proibi a entrada de Maria Beatriz no quarto por um dia e dei umas “sprayadas” por trás do guarda roupa até quase esvaziar o recipiente. Minutos depois, o coitadinho (aí deu pena) do grilo saiu se arrastando por debaixo do guarda roupa. Não sobreviveu. Peço desculpas aos defensores da natureza, mas não tive alternativa.

E acabei esquecendo de tirar os potes de mel de perto do guarda-roupa.

Final de semana, Maria foi dar uma varrida no quarto e de repente, a tragédia: mete a vassoura em um dos potes e o mel se espalha pelo aposento. Por mais que tentasse, ela não conseguiu deixar o quarto livre do cheiro e do “melecado” do mel.
Aí vieram as formigas. Mas aí já é outra história.

*Marc Túlio Cícero — jornalista

Escrito por Marco Túlio

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