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Papangusando com o poeta Antônio Francisco

Nove horas da manhã, o sol já acompanhava nosso périplo pelas ruas de Mossoró, as réstias se contorciam empurradas pela brisa quente nas algarobas até se perderem no chão de paralelepípedos escuros. Nosso destino era o bairro Lagoa do Mato, torrão de esplendor poético, do saudoso Luiz Campos, e do talentoso Antônio Francisco Teixeira de Melo, ocupante da cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Patativa do Assaré, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC).

Naquele momento podíamos ver o desbancar dos 30 graus, o suor reluzir na testa. O interessante é que não era a mesma sensação que sentíamos no quintal do poeta.  Lá, parecia ainda cedo, clima agradável, onde os pés de seriguela e de azeitonas pretas vestiram durante a noite o chão com seus frutos. Para nós, uma linda visão, um cenário que pintava prosperidade, com tons fortes, de cheiro bom, de encher a boca d’água. Talvez não fosse o sentimento de quem estava naquele momento fazendo a limpeza, varrendo e recolhendo folhas e frutas murchas.

Ao fundo da área, um lago. Neste, apesar de Antônio dizer que tem peixe graúdo, não vimos sequer piaba. De cara, antes de Ana Cadengue captar as primeiras imagens, perguntei sobre a grande parada que a cultura sofreu com a pandemia. Principalmente a dos poetas. “Como você avalia este momento?

Parou no fim, né? Mas, pela primeira vez, eu vi a pessoa se preocupar, em Mossoró, com os artistas, aprovar projetos (o poeta se refere ao incentivo da Lei Aldir Blanc). Agora, eu acredito que pra gente foi muito ruim, porque a gente não vive só do cachê, a gente vive também do público, do povo. E logo eu que sou acostumado a viver viajando, tendo esse contato com o público. Ficou meio pesado. Mas eu tenho uma vantagem, a de gostar de ler, de escrever, e assistir a filmes. Então, estou escapando. Mas sou consciente. Sou igual ao rio quando encontro obstáculos, eu “arrodeio”, reflete.

Antônio Francisco sempre foi bastante requisitado para se apresentar em shows, seminários, feiras de livros, e até participamos de muitos eventos que contaram com sua presença. Pelo menos antes da pandemia era difícil encontrá-lo em casa. Como agora, ao entrar na sala que estava com a porta sem “passar” a chave; vestimenta simples, sem a famosa bermuda jeans, a sandália e o bornal de couro. Desnudo, diriam, pois é traje típico de sua simplicidade. Entretanto, a emoção no que conta continua a mesma, talvez até mais aguçada. Seus olhos marejam ao responder sobre o que lhe faz mais falta nesta quarentena. “De gente. De abraçar, conversar, contar piada… de risos, do brilho dos olhos das pessoas. É diferente você estar em contato com as pessoas, né? Uma live é bom de se fazer — às vezes a pessoa até ganha pra fazer isso —, mas é muito diferente”.

Antônio Francisco tem 71 anos de idade e tomou gosto pela poesia somente depois dos 40. O autor de “A casa onde a fome mora” diz que se divertiu fazendo “experimentos” durante a pandemia e riu ao dizer que o bom disso tudo é ser o seu primeiro leitor. “Escrevi umas trovas, gostei dos versos. E por mais que eu quisesse escrever sobre outra coisa, tudo o que eu fiz era relacionado à pandemia. No fim, escrevi muito pouco. Mas, gostei do que fiz”.

“Isso só passa quando acabar o ser humano na terra; o vírus é nós!” — Diz cético, sobre o possível retorno ao nosso “verdadeiro” normal. E que seus parceiros de poesia já vivem em uma pandemia há muito tempo, que corrói e mata, tamanha as dificuldades que passam.

Antônio Francisco quer lançar um livro de trovas após a quarentena.

“Eu nunca escrevi trovas, e durante a quarentena eu achei o rumo. Tenho um verso que diz:

Minha casa era pequena,
alegre, mas ficou chata
depois dessa pandemia
só Nira, eu e a gata.

Era eu, Nira e a gata
mas ontem a gata morreu
a casa ficou mais chata
agora só Nira e eu.

Tem outro que digo assim:

A pandemia deixou
um mundo de pé descalço,
mas em troca ela acabou
com muitos abraços falsos,
ontem eu vi pela janela
uma cadela o capítulo

Deus tirando a máscara dela
para ela brincar no lixo
o mundo que a gente mora
nunca fora governado
se fosse estaria agora
todo mundo mascarado…

(É por aí)…

Fale uma de esperança!

Todas a(as) poesias que faço têm esperança no meio:

Ontem eu fui dormir pensando
quando este vírus passar
será que o homem aprendeu
ou se vai continuar
guiando bala perdida,
fabricando ‘plasticida’,
jogando lixo do mar?

Quebrando os espelhos d’água,
tingindo o céu de fumaça
se afastando de Deus,
plantando óleo na praça
pra colher mais fome e guerra
deixando a vida na Terra
sem cor, sem pão e sem graça

Ou se ele pressentiu
que a terra estremeceu
e aprendeu com o vírus,
que o mundo não é seu
que ele viu com certeza
a dor da mãe natureza
no grito que a terra deu.

E pensando eu mergulhei
num sono longo e profundo
sonhei que eu transformava
num caldeirão largo e fundo
um pouco de gratidão,
uma bola de sabão
pra lavar as mãos do Mundo.

Depois fazia uma máscara
do pano da igualdade
cobria o rosto do mundo
com as mãos da caridade
pra não entrar o cinismo,
do vírus do egoísmo
na alma da humanidade.

Eu vi os olhos do mundo
por trás da máscara brilhando
eu corri para lhe abraçar
e quando eu ia abraçando
Nira, minha mulher,
bateu na corda da rede dizendo
acorda que a caixa está sangrando.

Fechei a caixa e voltei,
peguei minha caneta
desenhei uma máscara,
guardei numa gaveta
pra quando o vírus passar,
eu tirar e colocar
no rosto do meu planeta.

A emoção do poeta está às escâncaras. O medo também. “Poesia é sensibilidade. Eu quase não ligo mais a televisão por medo. Porque você vê países organizados como Suécia, Suíça, Inglaterra, França, todos fechando as portas, se dobrando ao peso do vírus, quanto dirá nós, um país ainda agrícola, estamos lutando ainda para fazer alguma coisa. Acho que o homem se comporta melhor se tiver sensibilidade. E como eu disse no poema, “o mundo não é seu”.

O poeta vagueia. “Enquanto não aprendermos a conviver com a Terra”…

O novo vírus deixou
O Mundo inteiro virado
cheio de canhões de guerra
feito de óleo forjado
mas para este vírus forte
o mundo está desarmado.

É tanto que começou
pelas grandes capitais
Milão, Pequim e Paris,
Nova York e outras mais
mostrando para que ele veio
e do que ele é capaz.

Matou um montão de gente
só num final de semana
fechou igreja, escola
com uma fúria tirana
matando gente e zombando
da Inteligência humana.

Mas vamos frear o vírus
não com bala de canhão
mas com pequenas medidas
mas de grande precisão
lavar as mãos bem lavadas
com água limpa e sabão.

Evitar sair de casa
mesmo para padaria
pegar o pincel da arte
pincelar seu dia a dia
e reler aquele livro
de contos que você lia.

Deixar de lado o abraço
E o aperto de mão
é ruim, mas é preciso
dessa estranha comunhão
ficar distante dos olhos
e perto do coração.

Quando o vírus passar
e que Ratto gritar: “passou!”
vamos plantar esperança
no rastro que ele deixou
para o amor germinar
e Deus do céu se orgulhar
do homem que ele criou.

Para finalizar, o poeta Antônio falou da alegria de seu projeto ser contemplado pela Lei Aldir Blanc. “Eu não acreditava que alguém se lembrasse dos artistas e que isso saísse tão ligeiro. Porque o que tinha de poetas precisando desse apoio… Pelo menos pelo lado do cordel. Fomos contemplados e faremos um filme. Será bem interessante. Aliás, vamos fazer muita coisa além de gastar o dinheiro — finalizou aos risos.

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